Politica Externa águia eua neocons

Publicado em 11 de abril de 2014 | por Ron Paul

A verdade sobre o neoconservadorismo

[Artigo publicado em 10 de Julho, 2003. Alguns dados e fatos citados por Ron Paul podem estar desatualizados. Algumas previsões são a prova que Ron Paul veio do futuro.]

O movimento que defende um governo limitado tem sido cooptado. Os conservadores falharam em seus esforços para diminuir o tamanho do estado. Não houve, nem haverá em breve, uma revolução conservadora em Washington. O partido político no controle do governo federal mudou, mas o crescimento em tamanho e escopo do governo continuou implacável. O argumento progressista pela diminuição governamental em assuntos pessoais e das aventuras militares no exterior nunca foi seriamente considerado como parte dessa revolução.

Dado que a mudança do partido político no comando não fez diferença, quem realmente está no comando? Se um determinado partido no poder faz pouca diferença, que política é essa que permite a expansão de programas do governo, o aumento de despesas, déficits enormes, políticas nacionalistas e desenvolvimentistas[1] e a invasão generalizada de nossa privacidade, com menos proteção da Quarta Emenda[2] do que nunca?

Alguém é responsável, e é importante que aqueles de nós que amam a liberdade e se ressentem de um governo que age parecido com o Grande Irmão [3] identifiquem os apoiadores filosóficos que tem maior relação com a direção que nosso país está tomando. Se eles estiverem errados – e acredito que estejam – precisamos mostrar, alertar o povo americano e oferecer uma abordagem mais positiva ao governo. Contudo, isso depende se o povo americano deseja viver em uma sociedade livre e rejeita a noção perigosa de que precisamos de um governo central forte para cuidar de nós do berço ao túmulo. O povo americano realmente acredita que o governo tem a responsabilidade de nos fazer moralmente melhores e economicamente iguais? Temos a responsabilidade de policiar o mundo, enquanto impomos a nossa visão de bom governo em todo o resto do mundo em um tipo de desenvolvimentismo nacionalista utópico? Supondo que não e com os inimigos da liberdade expostos e rejeitados, então nos cabe apresentar uma filosofia alternativa que seja superior moralmente, economicamente sólida e que forneça um guia a respeito de questões internacionais para aumentar a paz e o comércio.

Uma coisa é certa: os conservadores que trabalharam e votaram por menos governo nos tempos de Reagan e saudaram a tomada do congresso americano e da presidência nas décadas de 90 e início de 2000 foram enganados. Em breve eles perceberão que o objetivo de termos um estado mínimo foi esquecido e que suas ideias já não importam mais.

A então chamada revolução conservadora de duas décadas passadas nos deu um enorme aumento no tamanho do governo, em gastos e regulamentações. Os déficits estão explodindo e a dívida nacional está aumentando em mais de meio trilhão de dólares por ano. Os impostos não caem – mesmo que votemos para diminuí-los. Eles simplesmente não podem diminuí-los enquanto as despesas estiverem aumentando, já que todos os gastos devem ser pagos de um jeito ou de outro. Tanto os presidentes Reagan [4][5] e George Bush “pai” aumentaram impostos diretamente. Na administração atual, até agora, impostos diretos tem sido reduzidos – e eles certamente deveriam estar reduzindo – mas significa pouco se os gastos aumentam e os déficits sobem.

Quando impostos não são aumentados para acomodar gastos maiores, as contas devem ser pagas por empréstimo ou pela “impressão” de moeda [6]. Esta é uma das razões de termos um presidente do Banco Central generoso que está disposto a satisfazer o Congresso. Por meio de empréstimos e inflação, o “imposto” é adiado e distribuído de forma a dificultar a identificação da manobra para aqueles que pagam impostos. Por exemplo, gerações futuras, ou aqueles com rendimentos fixos que sofrem com os aumentos de preços, e aqueles que perdem empregos – eles certamente sentem as consequências dos deslocamentos econômicos que este processo causa. Gasto governamental é sempre um fardo carregado pelo povo americano e nunca é distribuído igualmente ou de modo justo. Os trabalhadores pobres e de renda média-baixa sempre sofrem mais com os impostos enganosos gerados pela inflação e pelo endividamento do governo.

Muitos conservadores atuais, que geralmente argumentam por menos governo e que apoiaram a tomada do governo federal por Reagan/Gingrich/Bush, estão agora – e com razão – desiludidos. Embora não sendo um grupo monolítico, eles quiseram diminuir o tamanho do governo.

No início de nossa história, os que advogavam um governo limitado e constitucional reconheceram dois princípios importantes: que o estado de direito era crucial e que um governo constitucional deve derivar “poderes apenas do consentimento dos governados”. Foi entendido que uma transferência explícita de poder ao governo somente poderia ocorrer com o poder corretamente e naturalmente dotado por cada indivíduo como um direito dado por Deus. Portanto, os poderes que poderiam ser transferidos seriam limitados ao propósito de proteger a liberdade.

Infelizmente, nos últimos 100 anos, a defesa da liberdade foi fragmentada e partilhada por vários grupos, com alguns protegendo as liberdades civis, outros as liberdades econômicas e um pequeno grupo diverso argumentando por uma política externa não-intervencionista.

A filosofia da liberdade tem tido um difícil caminho, e esperou-se que o interesse renovado por um governo limitado de duas décadas atrás iria reviver o interesse em reconstituir a filosofia da liberdade em algo mais consistente. Aqueles que trabalharam por um governo limitado acreditaram na retórica de políticos que prometeram um governo menor. Muitas vezes foi apenas um raciocínio simplório malfeito da parte deles, mas em outras vezes, eles foram vítimas de uma distorção deliberada de uma filosofia concisa de governo limitado por políticos que induziram muitos a crerem que nós veríamos um recuo na intromissão do governo.

Sim, sempre houve uma pequena parcela que ansiava por um governo verdadeiramente limitado e manteve a crença no Império da Lei, combinada com uma profunda convicção de que as pessoas livres e um governo sujeito à Constituição era a forma mais vantajosa de governo. Eles reconheceram isso como a única forma prática para a prosperidade ser espalhada para o número máximo de pessoas enquanto promovendo paz e segurança.

Essa pequena parcela – imperfeita como possa ter sido – foi ouvida nas eleições de 1980 à 1994 e então alcançou grandes vitórias em 2000 e 2002 quando defensores declaradamente professos do estado limitado assumiram o governo, o Senado e a Casa Branca. No entanto, os apoiadores do estado limitado agora estão sendo evitados e sendo motivo de risos. No mínimo, são ignorados – exceto quando são usados por novos líderes da direita política, os novos conservadores que agora estão no comando do governo dos EUA.

Os instintos dessa pequena parcela estavam certos, e os políticos os aquietaram com o papo de  livre mercado, governo limitado e um modesto nacionalismo-desenvolvimentismo em política externa. Contudo, pouca preocupação pelas liberdades civis foi expressa nesta  busca recente por menos governo. No entanto, por uma vitória final para alcançar a liberdade, isto deve mudar. O interesse na privacidade e nas escolhas pessoais tem geralmente ficado fora da preocupação de muitos conservadores – especialmente o grande dano causado por apoiarem a guerra às drogas. Mesmo que algumas confusões emergiram sobre a nossa política externa desde o colapso do Império Soviético, foi um benefício real ter alguns conservadores retomando o caminho de uma política externa menos militarista e intervencionista. Infelizmente, depois do 11 de Setembro, a causa da liberdade sofreu um revés. Como resultado, milhões de americanos votaram pela “revolução conservadora do menos pior” porque acreditaram nas promessas dos políticos.

Agora há crescentes evidências para indicar exatamente o que aconteceu com a revolução. O governo está maior do que nunca, e os futuros compromissos do governo são esmagadores. Em breve, milhões ficarão desencantados com o novo status quo que foi entregue ao povo americano pelos defensores do estado limitado e vão achar que ele é nada mais do que o velho status quo. As vitórias pelo governo limitado têm se tornado, de fato, vazias.

Já que a dívida nacional está aumentando mais de meio trilhão por ano, o teto da dívida foi recentemente aumentado para um espantoso valor de 984 bilhões de dólares. As obrigações totais do governo dos EUA são de 43 trilhões, enquanto o patrimônio líquido total das famílias americanas é de apenas 40 trilhões. O país está quebrado, mas ninguém em Washington parece notar ou se importar. O compromisso filosófico e político por canhões e manteigas[7] – e principalmente pela expansão do império americano – deve ser desafiada. Isso é crucial para a nossa sobrevivência.

Apesar da economia em dificuldades, o Congresso e o governo continuam assumindo novos compromissos em ajuda externa, educação, agricultura, medicina, esforços múltiplos por um estado nacionalista-desenvolvimentista e guerras preventivas ao redor do mundo. Nós já estamos entrincheirados no Iraque e Afeganistão, com planos para aumentar em breve novos troféus para nossas conquistas. Conversas sobre guerras são abundantes sobre quando Síria, Irã, e Coreia do Norte serão atacadas.

Como tudo isso aconteceu? Por que o governo faz isso? Por que o povo não se opôs? Por quanto tempo isso vai continuar antes que algo seja feito? Alguém se importa?

Será que a euforia das grandes vitórias militares – contra não-inimigos – jamais irá amadurecer? Em algum dia, nós, como um corpo legislativo, devemos encarar a realidade da situação calamitosa em que nos permitimos estar enredados. Esperemos que seja em breve!

Chegamos até aqui porque ideias têm consequências. Ideias ruins têm consequências ruins e até mesmo a melhor das intenções tem consequências não-intencionais. Precisamos saber exatamente quais eram as ideias filosóficas que nos levaram a este ponto; e, então, esperançosamente, rejeitá-las e escolher outro conjunto de parâmetros intelectuais.

Há evidência abundante expondo aqueles que dirigem nossa política externa justificando guerra preventiva. Aqueles que planejam estão orgulhosos das realizações em usurpar o controle sobre a política externa. Estes são os neoconservadores que vem surgindo recentemente. Admitidos, eles são talentosos e obtiveram uma vitória política que todos os formuladores de política devem admirar. Mas pode a liberdade e a república sobreviver a esta tomada? Esta pergunta deve nos preocupar.

Os neoconservadores estão, obviamente, em posições de influência e estão bem alocados em nosso governo e na mídia. Um congresso apático exerceu pouca resistência e abdicou suas responsabilidades sobre relações exteriores. O eleitorado foi facilmente influenciado a se juntar no fervor patriótico apoiando o aventureirismo militar defendido pelos neoconservadores.

O número daqueles que ainda tem esperança por um governo verdadeiramente limitado diminuiu e eles tiveram suas preocupações ignoradas nestes últimos 22 meses, durante as consequências do 11 de Setembro. Os membros do congresso foram facilmente influenciados a apoiar publicamente qualquer política doméstica ou aventura militar estrangeira que, supostamente, ajudaria a reduzir a ameaça de um ataque terrorista. Defensores do governo limitado eram mais difíceis de encontrar. Dinheiro político, como de costume, desempenhou um papel em pressionar o congresso em apoiar praticamente qualquer proposta sugerida pelos neocons. Este processo – onde dólares de campanha e esforços de lobistas afetam a política – não é exclusividade de apenas um partido, infelizmente, é o estilo de vida em Washington.

Há muitas razões do porquê o governo continua a crescer. Seria ingenuidade para alguém esperar o contrário. Desde o 11 de Setembro, a proteção da privacidade, seja médica, pessoal ou financeira, desapareceu. A liberdade de expressão e a Quarta Emenda tem estado sob ataque constante. Despesas assistencialistas elevadas são endossadas por líderes de ambos os partidos. Policiar o mundo e questões nacionalistas-desenvolvimentistas são alvos populares de críticas de campanha, e ainda assim são  procedimentos operacionais padrões no governo. Não há sinal de que estes programas serão diminuídos ou revertidos, até que sejamos parados pela forças externas (o que não irá demorar muito) ou quando quebrarmos e não podermos mais dispor desses planos grandiosos de formar um império mundial (o que, provavelmente, acontecerá cedo ou tarde).

Nada disso aconteceu por acaso ou por coincidência. Ideias filosóficas precisas induziram certos indivíduos a ganhar influência para implementar estes planos. Os neoconservadores – o nome que eles se deram – diligentemente trabalharam em seus caminhos para posições de poder e influência. Eles documentaram suas metas, estratégias e justificativas morais para tudo que esperavam realizar. Acima de tudo, eles não eram e não são conservadores dedicados ao governo limitado e constitucional.

O neoconservadorismo tem estado em voga por décadas e, estranhamente, possui conexões com gerações passadas já em Maquiavel. O neoconservadorismo de hoje foi introduzido nos EUA na década de 1960. Ele implica tanto em uma estratégia detalhada quanto uma filosofia de governo. As ideias de Teddy Roosevelt [8] e, com certeza, Woodrow Wilson [9] foram muito semelhantes às ideias dos neocons modernos. O porta-voz neocon Max Boot se gaba do que ele defende ser um “Wilsonianismo forte” [10]. Em muitos aspectos, não há nada “neo” em seus pontos de vista e, com certeza, nada conservador. No entanto, eles têm sido capazes de cooptar o movimento conservador por propagandear a eles mesmos como uma nova ou moderna forma de conservadorismo.

Mais recentemente, os neocons modernos têm vindo da extrema-esquerda, um grupo historicamente identificado como ex-trotskystas. O progressista Christopher Hitchins [11] recentemente se juntou oficialmente aos neocons, e noticiou-se que ele já foi à Casa Branca como um consultor ad hoc. Muitos neocons que estão agora em posição de influência em Washington podem traçar seus status até o professor Leo Strauss, da Universidade de Chicago. Um dos livros de Strauss foi Thoughts on Machiavelli (Reflexões sobre Maquiavel, tradução livre). Este livro não foi uma condenação da filosofia de Maquiavel. Paul Wolfowitz (N.R.: Arquiteto da política externa do governo Bush), na verdade, obteve seu doutorado sob a orientação de Strauss. Outros intimamente associados com estes pontos de vista são Richard Perle, Eliot Abrams, Robert Kagan e William Kristol. Todos são peças-chave em elaborar nossa nova estratégia de guerras preventivas. Outros incluem: Michael Ledeen, do American Enterprise Institute; James Woolsy, ex-diretor da CIA; Bill Bennet do famoso livro Book of Virtues (Livro de virtudes, tradução livre), Frank Gaffney, Dick Cheney e Donald Rumsfeld. Há vários nomes para se mencionar que estão filosófica ou politicamente conectados com a política neocon em algum grau.

Considera-se Irving Kristol o padrinho do neoconservadorismo moderno, pai de William Kristol, que preparou o terreno em 1983 com sua publicação Reflections of a Neoconservative (Reflexões de um Neoconservador, tradução livre). Neste livro, Kristol também defende a tradicional posição progressista do assistencialismo.

Mais importante do que os nomes das pessoas afiliadas com o neoconservadorismo, são os pontos de vista dos quais eles concordam. Aqui está um breve resumo do entendimento geral do que os neocons acreditam:

  1. Concordam com Trotsky em uma revolução permanente, violenta, bem como intelectual.
  2. Eles estão redesenhando o mapa do Oriente Médio e estão dispostos a usar da força para fazê-lo.
  3. Acreditam em guerras preventivas para alcançar os fins desejados.
  4. Aceitam a noção de que os fins justificam os meios – que seus métodos políticos em usar modos desumanos, cruéis e agressivos é uma necessidade moral.
  5. Não expressam oposição ao estado assistencialista.
  6. Não estão envergonhados sobre o império americano; pelo contrário, o aprovam.
  7. Acreditam na mentira como necessário para o estado sobreviver.
  8. Acreditam que um poderoso governo em âmbito federal seja benéfico.
  9. Acreditam que fatos pertinentes sobre como a sociedade deve ser dirigida devem ser mantidos pela elite e omitidos daqueles que não tem coragem para lidar com isso.
  10. Acreditam que a neutralidade nas relações exteriores é desaconselhável.
  11. Possuem alta estima por Leo Strauss.
  12. Acreditam que o imperialismo, se de natureza progressiva, é apropriado.
  13. Usar o poderio americano para forçar ideais nos outros é aceitável. Esse uso da força não deveria ser limitada à defesa de nosso país.
  14. O 11 de Setembro foi resultado da falta de envolvimentos estrangeiros, e não do excesso.
  15. Não gostam e menosprezam libertários (portanto, o mesmo se aplica a todos os ferrenhos constitucionalistas)
  16. Defendem ataques contra as liberdades civis, como aqueles encontrados no Patriot Act, como sendo necessários.
  17. Incondicionalmente apoiam Israel e tem uma aliança próxima com o Partido Likud.

Várias organizações e publicações nos últimos 30 anos desempenharam um papel significante na ascensão do poder dos neoconservadores. Foi necessário muito dinheiro e compromisso para produzir argumentos intelectuais necessários para convencer muitos participantes do movimento de sua própria respeitabilidade.

Não é segredo – especialmente depois da obstinada pesquisa e dos artigos escritos sobre neocons desde a invasão americana no Iraque – como eles ganharam influência e quais organizações foram usadas para promover suas causas. Embora por décadas eles agitarem suas crenças através de publicações como o National ReviewThe Weekly StandardThe Public InterestThe Wall Street JournalCommentary New York Post, suas opiniões somente ganharam força nos anos 90, após a primeira Guerra do Golfo Pérsico (N.R.: A Guerra do Iraque é chamada de Segunda Guerra do Golfo) – que ainda não terminou, mesmo com a remoção de Saddam Hussein. Eles tornaram-se convencidos de que uma abordagem muito mais combativa para resolver todos os conflitos no Oriente Médio era uma necessidade absoluta, e estavam determinados a implementar tal política.

Além das publicações, múltiplos institutos e projetos foram criados para promover sua agenda. A Bradley Foundation e a American Enterprise Institute (AEI) lideraram o ataque neocon, mas o verdadeiro impulso pela guerra veio do Project for a New American Century (PNAC), outra organização ajudada pela Bradley Foundation. Isto ocorreu em 1998 e foi presidido pelo editor da Weekly Standard, Bill Kristol. Logo no início, eles insistiram numa guerra ao Iraque, mas ficaram desapontados com a administração de Clinton, que nunca foi além de bombardeios periódicos. Obviamente, esses ataques foram motivados mais pelos problemas pessoais e políticos de Clinton do que pela crença na agenda neocon.

A eleição de 2000 mudou tudo isso. O Conselho de Política de Defesa, presidido por Richard Perle, desempenhou um papel importante na coordenação de vários projetos e institutos, todos determinados a nos levar a uma guerra contra o Iraque. Não levou muito tempo para que o sonho do império fosse trazido mais próximo da realidade com a eleição de 2000 com Paul Wolfwitz, Richard Cheney e Donald Rumsfeld desempenhando papéis importantes neste feito. O plano para promover uma “grandeza americana” através de uma política externa imperialista era agora uma possibilidade real. O Iraque ofereceu uma ótima oportunidade para provar suas teorias de longa data. Esta oportunidade foi uma consequência do desastre do 11 de Setembro.

O dinheiro e os pontos de vista de Rupert Murdoch desempenharam um papel importante em promover as visões neocons, como também em angariar apoio da população em geral, através do seu News Corporation, o qual pertencem a Fox News Network, o New York Post e a Weekly Standard. Este poderoso e influente império da mídia fez mais para estimular o apoio público à invasão iraquiana do que se poderia imaginar. Isso facilitou a política de Rumsfeld/Cheney à medida que seus planos de atacar o Iraque tornaram-se realidade. Teria sido difícil para os neocons usurparem a política externa das restrições do Departamento de Estado de Colin Powell sem a bem-sucedida movimentação do império de Rupert Murdoch. Max Boot estava satisfeito, como ele mesmo explicou: “Os neoconservadores acreditam em usar o poderio americano para promover ideais americanos no exterior”. Esta atitude está muito longe do conselho dos Pais Fundadores americanos, que defendiam não entrar em alianças obscuras e a neutralidade como objetivos corretos para a política externa americana.

Que não haja dúvida, aqueles que se consideram neocons estiveram ansiosos para ir a uma guerra contra o Iraque por uma década. Eles justificavam o uso da força para realizar seus objetivos, mesmo que fosse necessário uma guerra preventiva. Se alguém duvida dessa informação, basta ler suas estratégias em “A Clean Break: a New Strategy for Securing the Realm[12]. Embora eles se sentissem moralmente justificados em mudar o governo do Iraque, eles sabiam que o apoio público era importante e que tinham que dar justificativas para a guerra. Claro, tinha que existir uma ameaça para nós antes que o povo e o Congresso apoiassem a guerra.

A maioria dos americanos se convenceu desta ameaça, que, na realidade, realmente nunca existiu. Agora nós temos um debate em andamento sobre a localização das armas de destruição em massa. Onde estava o perigo? Toda a matança e os gastos foram necessários? Por quanto tempo esse nacionalismo/desenvolvimentismo e essa matança irão durar? Quando nos tornaremos mais interessados nas necessidades de nossos cidadãos do que nos problemas que buscamos no Iraque e Afeganistão? Quem sabe onde iremos em seguida – Síria, Irã ou Coreia do Norte?

No fim da Guerra Fria, os neoconservadores perceberam que estava ocorrendo um rearranjo do mundo e que nosso poder econômico e militar superior ofereceu-lhes uma perfeita oportunidade para controlar o processo de refazer o Oriente Médio.

Reconheceu-se que uma nova era estava diante de nós, e os neocons acolheram a declaração de “fim da história” de Frances Fukuyama [13]. Para eles o debate acabou. O Ocidente venceu; os soviéticos perderam. O comunismo antiquado estava morto. Vida longa à nova era do neoconservadorismo. A luta pode não estar acabada, mas o Ocidente venceu a luta intelectual, eles argumentaram. O único problema é que os neocons decidiram definir a filosofia dos vitoriosos. Eles têm sido espantosamente bem sucedidos em seus esforços para controlar o debate sobre quais são os valores ocidentais e por quais métodos eles serão espalhados pelo mundo.

O comunismo seguramente perdeu muito com a quebra do Império Soviético, mas isto dificilmente pode ser declarado como uma vitória para a liberdade americana, como os Pais Fundadores a entendiam. O neoconservadorismo não é uma filosofia de livre mercado e de uma sábia política externa. Pelo contrário, representa um governo assistencialista inchado interno e um programa de uso do nosso poderio militar para espalhar suas versões de valores americanos pelo mundo. Uma vez que os neoconservadores dominaram o jeito de fazer política no governo americano que agora está em andamento, nos convém entender suas crenças e metas. O rompimento do sistema soviético pode bem ter sido um evento épico, mas dizer que os pontos de vista dos neocons são os vencedores incontestáveis e que tudo que precisamos fazer é esperar pelas suas implementações é uma rendição para controlar as forças da história que muitos americanos ainda não estão prontos para admitir. Certamente não há necessidade de fazê-lo.

Existe uma conexão filosófica reconhecida entre os neoconservadores modernos e Irving Kristol, Leo Strauss e Maquiavel. Isto é importante para entender que as políticas atuais e os problemas subsequentes estarão conosco pelos próximos anos se essas políticas não forem revertidas.

Não apenas Leo Strauss escreveu de modo favorável a Maquiavel, Michael Ledeen, um atual líder do movimento dos neoconservadores, fez o mesmo. Em 1999, Ledeen intitulou seu livro Machiavelli on Modern Leadership (Maquiavel sobre a liderança moderna, tradução livre) e deu o subtítulo: “Por que as regras de ferro de Maquiavel são tão convenientes e importantes hoje como há cinco séculos”. De fato, Ledeen é um teórico neocon influente cujos pontos de vista obtém muita atenção em Washington. Seu livro sobre Maquiavel, curiosamente, foi passado para os membros do congresso presentes em uma reunião de estratégia política logo após sua publicação e justamente na época que A Clean Break foi lançado.

Na mais recente publicação de Ledeen, The War Against the Terror Masters (A Guerra contra os Mestres do Terror, tradução livre), ele reitera suas crenças delineadas neste livro sobre Maquiavel de 1999. Ele especificamente elogia: “Destruição criativa […] tanto dentro de nossa sociedade quanto fora […] (os estrangeiros) ao ver o Estados Unidos desfazerem sociedades tradicionais podem nos temer, visto que eles não desejam ser dizimados”. Surpreendentemente, Ledeen conclui: “Eles devem nos atacar para sobreviver, assim como devemos destruí-los para avançar em nossa missão histórica”.

Se essas palavras não te assustam, nada te assustará. Se elas não são uma clara advertência, eu não sei o que poderia ser. Parece que ambos os lados em divergência no mundo estarão seguindo o princípio da guerra preventiva. O mundo certamente é um lugar menos seguro por isso.

Em Machiavelli on Modern Leadership, Ledeen elogia um líder dos negócios por entender corretamente Maquiavel:

Não há soluções absolutas. Tudo depende. O que é certo e o que é errado depende do que precisa ser feito e como.

Isso é uma clara aprovação da ética situacional e não está vindo da esquerda tradicional. Isso me lembra da frase: “Depende qual é a definição da palavra ‘está” [14].

Ledeen cita Maquiavel, aprovando sobre o que faz um grande líder. “Um príncipe não deve ter outro objetivo nem outro pensamento, nem ter qualquer outra coisa como prática a não ser a guerra”. Para Ledeen isso significa: “[...] as virtudes do guerreiro são aquelas de grandes líderes de qualquer organização de sucesso”. No entanto, é óbvio que a guerra não é uma coincidência na filosofia neocon, mas uma parte integral. Os intelectuais a justificam, e os políticos a realizam. Há um motivo específico para argumentar por guerra contra a paz de acordo com Ledeen, pois “[…] a paz aumenta o nosso risco por fazer a disciplina menos urgente, encorajando alguns de nossos piores instintos, privando-nos de nossos melhores líderes”. A paz, ele alega, é apenas um sonho e nem mesmo um agradável, pois causaria indolência e iria minar o poder do estado. Embora eu reconheça que a história do mundo é uma história de guerras frequentes, render-se e até mesmo desistir de lutar pela paz – acreditando que a paz não é um benefício para a humanidade – é um pensamento assustador que condena o mundo à uma guerra perpétua e o justifica como um benefício e uma necessidade. Essas são ideias perigosas, de onde nada de bom pode vir.

O conflito de eras tem sido entre o estado e o indivíduo: poder central versus liberdade. Quanto mais restringido o estado e maior a ênfase na liberdade individual, maior tem sido o avanço da civilização e a prosperidade geral. Assim como a condição do homem não foi paralisada pelos tempos e guerras do passado e melhorou com liberdade e livre mercado, não há razão para crer que um novo estágio para o homem não possa ser alcançado acreditando e trabalhando por condições de paz. A inevitabilidade e a chamada necessidade por guerra preventiva nunca deveria ser justificada intelectualmente como sendo um benefício. Tal atitude garante o retrocesso da civilização. Os neocons, infelizmente, alegam que a guerra está na natureza do homem e que nós não podemos fazer muita coisa sobre isso, então vamos usá-la em nosso proveito para promover nossa bondade ao redor do mundo através da força das armas. Esta visão é anátema à causa da liberdade e à preservação da Constituição americana. Se não for refutada em voz alta, nosso futuro será, de fato, terrível.

Ledeen acredita que o homem é basicamente mal e não pode ser deixado aos seus próprios desejos. Portanto, ele deve ter uma liderança adequada e forte, assim como Maquiavel argumentou. Somente assim o homem pode alcançar o bom, como explica Ledeen: “A fim de alcançar as mais notáveis realizações, o líder pode ter que ‘inserir-se no mal’. Essa é a visão arrepiante que fez Maquiavel ser tão temido, admirado e desafiador… nós estamos podres”, argumenta Ledeen. “É verdade que podemos alcançar a grandeza se, e somente se, formos adequadamente conduzidos”. Em outras palavras, o homem é tão depravado que indivíduos são incapazes de grandeza moral, ética e espiritual, e somente podem atingir a excelência e a virtude através de um poderoso líder autoritário. Que ideias depravadas são essas que atualmente estão influenciando nossos líderes em Washington? A questão não respondida de Ledeen é: “Por que os líderes políticos não sofrem das mesmas deficiências e de onde eles obtém seus monopólios sobre a sabedoria?

Uma vez que esta confiança esteja colocada nas mãos de um líder poderoso, esse neocon argumenta que é permissível o uso de certas ferramentas. Por exemplo, “a mentira é fundamental para a sobrevivência das nações e para o sucesso dos grandes empreendimentos, porque se nossos inimigos têm confiança em tudo que você disser, sua vulnerabilidade é enormemente aumentada”. E sobre os efeitos de mentir para seu próprio povo? Quem se importa se um líder pode enganar o inimigo? Ao chamá-la de “estratégia de decepção”, isso torna a mentira moralmente justificável? Ledeen e Maquiavel argumentam que sim, desde que a sobrevivência do estado esteja em jogo. Preservar o estado é seu objetivo, ainda que a liberdade pessoal de todos os indivíduos tenha que ser suspensa ou cancelada.

Ledeen deixa claro que a guerra é necessária para estabelecer fronteiras nacionais – porque é assim que sempre foi feito. Quem precisa de progresso da raça humana! Ele explica: “Olhe para o mapa do mundo: as fronteiras nacionais não foram desenhadas por homens pacíficos conduzindo vidas de contemplação espiritual. Fronteiras nacionais foram estabelecidas por guerras, e o caráter nacional foi moldado por lutas, geralmente por lutas sangrentas”.

Sim, mas quem deve liderar o comando e decidir por quais fronteiras iremos lutar? Que tal fronteiras à 6.000 milhas de distância sem relação com nossas próprias fronteiras contíguas e a nossa própria segurança nacional? Afirmar um relativo truísmo em relação a frequência de guerra ao longo da história dificilmente deveria ser justificação moral para  expandir o conceito de guerra para resolver disputas humanas. Como alguém pode chamar isso de progresso?

Maquiavel, Ledeen e os neocons reconheceram a necessidade de gerar um zelo religioso para promover o estado. Isso, afirma ele, é especialmente necessário quando a força é usada para promover uma agenda. Foi verdade ao longo da história e continua verdade até hoje, cada lado de grandes conflitos invoca a aprovação de Deus. Nosso lado se refere a uma “cruzada”, o deles a um “Jihad sagrado”. Muitas vezes as guerras se resumem a seu deus contra o nosso Deus. Parece que esse princípio é mais um esforço cínico para ganhar a aprovação das massas, especialmente daqueles mais prováveis de serem mortos pela causa dos promotores de guerra de ambos os lados que possuem poder, prestígio e riqueza em jogo.

Ledeen explica por que Deus deve sempre estar do lado dos defensores da guerra: “Sem temor a Deus, nenhum estado pode durar muito tempo, visto que o pavor do pecado eterno mantém os homens na linha, os faz honrarem suas promessas e inspira-os a arriscar suas vidas para o bem comum”. Parece que morrer pelo bem comum ganhou um status moral mais elevado do que a salvação eterna da alma. Ledeen continua: “Sem o medo da punição, os homens não obedecerão as leis que os forçam a agir ao contrário de suas paixões. Sem o temor das armas, o estado não pode aplicar as leis… para este fim, Maquiavel quer líderes para tornar o estado espetacular”.

É interessante notar que algumas grandes denominações cristãs uniram-se aos neoconservadores na promoção da guerra preventiva, ignorando completamente a doutrina cristã da Guerra Justa. Os neocons solicitaram e receberam abertamente seu apoio.

Eu gostaria que alguém procurasse qualquer coisa que os Pais Fundadores disseram ou colocaram na Constituição que concorde com a doutrina agora professada de um estado “espetacular”, promovido por aqueles que possuem atualmente bastante influência em nossas políticas no país e no exterior. Ledeen argumenta que este elemento religioso, este temor de Deus, é necessário para aqueles que podem estar hesitantes em sacrificar suas vidas pelo bem do “estado espetacular”.

Ele explica em termos estranhos: “A morte pelo país não vem naturalmente. Exércitos modernos, oriundos da população, devem ser inspirados, motivados e doutrinados. A religião é a base do empreendimento militar, pois os homens estão mais propensos a arriscar suas vidas se acreditarem que serão recompensados para sempre depois de terem servido seu país”. Essa é uma advertência que poderia muito bem ter sido dada por Osama Bin Laden, ao reunir suas tropas para sacrificar suas vidas matando invasores infiéis, como também por nossos intelectuais no AEI, que influencia grandemente nossa política externa.

Os neocons – ansiosos para o EUA usar a força para realinhar fronteiras e mudar regimes no Oriente Médio – claramente entendem o benefício da excitação e comoção emocional para reunir pessoas para a sua causa. Sem um evento especial, eles perceberam a dificuldade em vender sua política de guerra preventiva onde nosso próprio pessoal militar seria morto. Não importa qual o incidente, se foi o Lusitânia, Pearl Harbor, o Golfo de Tonkin ou o USS Maine, todos serviram seus propósitos em promover uma guerra que fora solicitada por nossos líderes.

Ledeen escreve de um evento fortuito (1999):

[…] claro, sempre podemos ter sorte. Eventos colossais de fora podem providencialmente despertar a iniciativa por seu entorpecimento crescente, e demonstrar a necessidade de reversão [da política externa], como o devastador ataque japonês a Pearl Harbor em 1941, que de modo tão efetivo despertou os EUA de seus sonhos tranquilizantes de neutralidade permanente.

Surpreendentemente, Ledeen chama Pearl Harbor de um evento “de sorte”. O Project for a New American Century, como recentemente em Setembro de 2000, previu igualmente a necessidade por “um evento como Pearl Harbor” que levaria o povo americano a apoiar seus planos ambiciosos que garantiriam dominação política e econômica do mundo, ao mesmo tempo, estrangulando qualquer “rival” em potencial.

Reconhecer uma “necessidade” por um evento como Pearl Harbor, e referenciar-se ao ataque japonês como sendo “sorte”, não é idêntico ao apoio e conhecimento de um evento como esse, mas que essa simpatia por um evento excitante, como o 11 de Setembro se tornou, foi usada para promover uma agenda que constitucionalistas ferrenhos e devotos dos Pais Fundadores desta nação acham terrível, é de fato perturbador. Depois do 11 de Setembro, Rumsfeld e outros argumentaram por um ataque imediato no Iraque, mesmo que este não estivesse ligado aos ataques.

O fato de que os neoconservadores ridicularizam aqueles que firmemente acreditam que o interesse dos EUA e da paz mundial seria melhor servido por uma política de neutralidade e que evitasse envolvimentos estrangeiros não deve ser ignorado. Não o fazer é tolerar seus planos grandiosos por uma hegemonia mundial americana.

A atenção atual dada aos neocons normalmente vem no contexto de política externa. Mas há mais do que está acontecendo hoje em dia do que apenas a influência tremenda que os neocons têm em nossa nova política de guerra preventiva com o objetivo de formar um império. Nosso governo atual está sendo movido por uma série de ideias que caminham juntas no que chamo de “neoconismo”. A política externa está sendo debatida abertamente, mesmo se suas implicações não são totalmente compreendidas por muitos que as apoiam. Washington atualmente está sendo dirigida por antigos pontos de vista reunidos sob um novo pacote.

Nós sabemos que aqueles que nos governam – tanto no governo e no congresso – não demonstrar nenhum interesse em desafiar os sistemas fiscais ou monetários que causam tantos danos a nossa economia. A Receita Federal e o Banco Central estão fora do alcance das críticas e reformas. Não há resistência aos gastos, tanto no campo doméstico quanto no exterior. A dívida não é vista como problema. Economistas da corrente “pelo lado da oferta” venceram esta questão e agora muitos conservadores defendem prontamente gastos deficitários.

Não há uma oposição séria ao estado assistencialista em expansão, com rápido crescimento da burocracia na educação, agricultura e assistência médica. O apoio a sindicatos trabalhistas e ao protecionismo não são incomuns. As liberdades civis são facilmente sacrificadas na atmosfera predominante pós-11 de Setembro em Washington. Questões de privacidade são de pouco interesse, exceto por poucos membros do congresso. A ajuda internacional e o internacionalismo – apesar de algumas críticas saudáveis da ONU e da nossa crescente preocupação por nossa soberania nacional – são defendidas por ambos os lados do espectro político. Uma aprovação ‘falsa’ é dada ao livre mercado e à liberdade de tratados de comércio, contudo toda a economia é regida por legislações de que favorecem grandes corporações, grandes sindicatos e, especialmente, por grandes gastos do governo para modelar o mercado.

Em vez do “fim da história”, nós agora estamos experimentando o fim de um movimento por um governo limitado na capital de nossa nação. Enquanto muitos conservadores já não defendem orçamentos equilibrados e redução de gastos, muitos progressistas têm reduzido a defesa pelas liberdade civis e agora estão aprovando as guerras que iniciamos. A denominada “terceira via” chegou e, infelizmente, tomou o pior do que os conservadores e progressistas têm a oferecer. As pessoas estão bem piores por isso, enquanto a liberdade definha como resultado.

Os neocons entusiasticamente abraçaram o Ministério da Educação e o exame nacional [15]. Ambos os partidos apoiam de forma esmagadora o enorme compromisso por um novo programa de prescrição de medicamentos. Sua devoção por uma nova abordagem chamada “conservadorismo compassivo” atraiu muitos conservadores no apoio a programas para a expansão do papel do governo federal no assistencialismo e nas caridades promovida por instituições religiosas. A iniciativa baseada na fé [16] é um projeto neocon, ainda que apenas reformula e expande a noção progressista de assistencialismo. Os intelectuais que promoveram essas iniciativas eram neocons, porém não há nada de conservador em promover a expansão do papel do governo federal sobre o assistencialismo.

Políticas econômicas baseadas na escola “pelo lado da oferta” de baixos impostos marginais têm sido incorporadas ao “neoconismo”, assim como seu apoio ao crédito e à inflação monetária abundante. Neoconservadores não têm interesse no padrão-ouro e até mesmo ignoram o argumento por um falso padrão-ouro dos economistas da vertente “pelo lado da oferta”.

Há alguma surpresa de que os gastos do governo federal estão crescendo, em um ritmo mais rápido do que em qualquer época dos últimos 35 anos?

O poder, a política e o privilégio prevalecem sobre o Império da Lei, a liberdade, a justiça e a paz. Mas não precisa ser assim. O neoconismo reuniu muitas ideias antigas sobre como o governo deveria governar o povo. Pode ter modernizado seus atrativos e sua embalagem, porém governança autoritária é governança autoritária, independente das conotações humanitárias. Uma solução só pode vir após a ideologia atual que dirige nossas políticas de governo ser substituída por algo mais positivo. Em um contexto histórico, a liberdade é uma ideia moderna e deve, mais uma vez, recuperar o padrão de moral elevada para a civilização avançar. Reafirmar as antigas justificações para a guerra, o controle de pessoas e o estado benevolente não será suficiente. Não se pode eliminar as deficiências que sempre ocorrem quando o estado assume autoridade sobre os outros e quando a vontade de uma nação é forçada em uma outra – seja feita com boas intenções ou não.

Nem todos os conservadores  são neoconservadores e todos os neocons necessariamente não concordam em todos os pontos – o que significa que, apesar sua tremenda influência, a maioria dos membros do congresso e do governo, necessariamente não tomam suas ordens diretamente do American Enterprise Institute ou de Richard Perle. Mas usar isso como razão para ignorar o que os líderes neoconservadores acreditam, escrevem e discutem – com sucesso espetacular, devo salientar – seria por nosso próprio risco. Este país ainda permite a livre circulação de ideias – embora isso tenha diminuído ultimamente – e nós que não concordamos deveríamos forçar a discussão e expor aqueles que dirigem as nossas políticas. Está ficando mais difícil conseguir uma discussão honesta e equilibrada nesses pontos, porque tornou-se rotina para as hegemonias rotular aqueles que contestam a guerra preventiva e a vigilância doméstica como traidores, antipatriotas e antiamericanos. A uniformidade de apoio por nossa atual política externa pelos maiores intelectuais e redes de noticiários de TV a cabo deveria preocupar todo americano. Todos nós deveríamos ser gratos pelo C-SPAN [17] e a internet.

Michael Ledeen e outros neoconservadores já estão fazendo lobby para a guerra contra o Irã. Ledeen é um pouco antipático com aqueles que apóiam uma abordagem calma e razoável, chamando aqueles que não estão prontos para a guerra de “covardes e conciliadores de tiranos”. Porque alguns incitam uma abordagem menos militarista para lidar com o Irã, ele alega que eles estão traindo as melhores “tradições” dos Estados Unidos. Eu me pergunto onde ele aprendeu história americana! É óbvio que Ledeen não considera os Pais Fundadores e a Constituição parte de nossas melhores tradições. Em nenhum momento fomos encorajados pelos revolucionários americanos a buscar um império americano. Entretanto, fomos instigados em manter a república que eles projetaram tão meticulosamente.

Se os neoconservadores reterem o controle do movimento conservador e por um governo limitado em Washington, as ideias, uma vez defendidas por conservadores, de limitar o tamanho e o escopo da vontade do governo serão um sonho distante.

Os que acreditam na liberdade não devem enganar a si mesmos. Quem deve estar contente? Certamente não os conservadores, pois não existe movimento conservador à esquerda. Como os progressistas poderiam estar contentes? Eles se agradaram com a centralização de programas de educação e saúde em Washington e apoiam muitas propostas do governo. Mas nenhum deve estar contente com o ataque constante às liberdade civis de todos os cidadãos americanos e o consenso atualmente aceito de que  guerras preventivas – por qualquer razão – sejam uma política aceitável para lidar com os conflitos e os problemas do mundo.

Apesar da deterioração das condições em Washington – com perda de liberdade pessoal, uma economia fraca, déficits explodindo, e guerra perpétua, seguido de nacionalismo/ desenvolvimentismo – há ainda um número considerável de nós que apreciaria a oportunidade de melhorar as coisas, de um modo ou de outro. Certamente um crescente número de americanos frustrados, tanto de direita quanto de esquerda, estão ficando ansiosos para ver o congresso fazer um trabalho melhor. Mas, primeiro, o congresso deve parar de fazer um mau trabalho.

Nós chegamos num ponto em que precisamos pegar em armas, tanto aqui, em Washington, quanto em todo o país. Não estou falando sobre armas de fogo. Aqueles entre nós que se importam precisam levantar os braços e começar a acenar e gritar: Parem! Já chega! E deveria incluir progressistas, conservadores e independentes. Nós todos estamos ganhando falsas acusações vindos de políticos que são pressionados por pesquisas e controlados por interesses especiais do capital financeiro.

Uma coisa é certa, não importa o quão moralmente justificável os programas e as políticas pareçam, a capacidade para financiar todos os “canhões e manteigasprometidos é limitada, e tais limites estão se tornando aparentes a cada dia que passa.

Gastos, empréstimos e impressão de dinheiro não podem ser o caminho para a prosperidade. Não funcionou no Japão, e também não está funcionando aqui. Na realidade, nunca funcionou em nenhum momento ao longo da história. Um ponto é sempre alcançado onde o planejamento governamental, os gastos e a inflação perdem a força. Ao invés destas ferramentas antigas reviverem a economia, como elas fazem nos primeiros estágios do intervencionismo econômico, eventualmente elas se tornam o problema. Ambos os lados do espectro político devem, um dia, compreender que a intrusão governamental sem limites na economia, em nossas vidas pessoais e nos assuntos de outras nações não podem servir os melhores interesses dos Estados Unidos. Esse não é um problema conservador, nem é um problema progressista – é um problema de intrusão governamental que vem de ambos os grupos, embora por diferentes razões. Os problemas emanam de ambos os lados que defendem diferentes programas por diferentes razões. A solução virá quando ambos os grupos perceberem que não é um mero problema de um único partido, ou somente um problema progressista ou conservador.

Assim que um número suficiente de pessoas decidir que já tivemos o bastante dessas chamadas boas coisas que o governo está sempre prometendo – ou, mais provavelmente, quando o país estiver quebrado e o governo for incapaz de cumprir suas promessas ao povo – nós poderemos iniciar uma discussão séria sobre o papel apropriado do governo em uma sociedade livre. Infelizmente, será um tempo depois do congresso receber a mensagem de que as pessoas estão exigindo uma verdadeira reforma. Isso exige que aqueles responsáveis pelos problemas de hoje sejam expostos e suas filosofias de intrusão governamental penetrante sejam rejeitadas.

Que não seja dito que ninguém se importou, que ninguém se opôs, uma vez que se perceba que nossas liberdades e prosperidade estão em perigo. Alguns têm, outros continuarão a fazer, mas muitos – tanto dentro como fora do governo – fecham seus olhos para questões de liberdade pessoal e ignoram o fato de que empréstimos infinitos para financiar demandas infinitas não podem ser sustentados. A verdadeira prosperidade apenas pode vir através de uma economia saudável e dinheiro lastreado, que somente pode ser alcançado em uma sociedade livre.

Notas do tradutor/revisor:

[1] O termo original é Nation Building, porém foi adotado o termo “nacionalismo- desenvolvimentismo” por estar razoavelmente mais próximo do significado original.

[2] Quarta Emenda constitucional americana – Wikipedia.

[3] Referente ao romance 1984 de George Orwell.

[4] The Reagan Fraud – And After, por Jeff Riggenbach – Mises Institute.

[5] The Myths of Reaganomics, por Murray Rothbard – Mises Institute.

[6] O Básico sobre a Inflação, por Henry Hazlitt – Instituto Mises.

[7] Canhões e manteiga é uma expressão econômica onde os gastos governamentais priorizam a questão da defesa (armas/militarismo) e produção de bens (consumo para a população). Seria o equivalente americano do “pão e circo” brasileiro.

[8] Teddy Roosevelt foi presidente dos EUA no período entre 1901 à 1909. Seu governo foi bem caracterizado por um intervencionismo externo.

[9] Woodrow Wilson foi presidente dos EUA no período entre 1913 à 1921. Seu governo exerceu um forte intervencionismo/imperialismo externo para a finalização da 1a Guerra Mundial. Tais ações política foram descrita através do seu “Quatorze Pontos”.

[10] Relativo às políticas intervencionistas do governo de Woodrow Wilson. Tem como metas “espalhar” democracia e capitalismo à força, contrário às políticas isolacionistas e não-intervencionistas e a favor de um imperialismo para a garantia do interesse da nação.

[11] Christopher Hitchins é um escritor e jornalista britânico. Foi tachado de neoconservador por apoiar as políticas intervencionistas no Iraque.

[12] Clean Break é um documento político que foi preparado por um grupo liderado por Richard Perle e, na época, o primeiro ministro israelita Benjamin Netanyahu. É um relatório sobre como resolver a questão da segurança de Israel no Oriente Médio com uma ênfase nos “valores ocidentais”. Tem sido criticado por conter a defesa de uma política agressiva, como também na remoção de Saddam Hussein do poder no Iraque.

[13] Francis Fukuyama ficou famoso em 1988 por causa da publicação de seu livro O Fim da História. A tese que ele defendia era tola e simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros.  Isso se comprovou uma óbvia inverdade [[14] Frase folclórica dita pelo ex-presidente Bill Clinton quando questionado sobre seu envolvimento com Monica Lewinsky. A declaração pode ser vista aqui.

[15] Exame estudantil semelhante ao Enem.

[16] O conceito de iniciativa baseada pela fé (faith-based initiative) foi uma ideia política colocada em prática por George W. Bush, onde o governo federal daria dinheiro a organizações religiosas, para que elas fizessem o trabalho do governo em ajudar os pobres e em necessidade.

[17] Rede televisiva de caráter governamental, semelhante ao nosso TV Senado ou TV Câmara.

// Tradução de Rodrigo Viana e Robson Silva. Revisão de Robson Silva e Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Ron Paul

Ron Paul é um médico e político libertário americano, ex-membro da Câmara dos Representantes do Congresso dos Estados Unidos da América. Ron Paul foi candidato à presidência dos Estados Unidos em 1988, 2008 e 2012.



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