Liberdade Cívil ubuntu

Publicado em 18 de dezembro de 2013 | por Steven Horwitz

NÃO me deixe em paz

Um sentimento normalmente expresso pelos libertários é o desejo de ser deixado “em paz”.  Isso é comumente usado no sentido político: “se as pessoas somente nos deixassem em paz, o mundo seria um lugar muito melhor”, ou “eu só quero que me deixem em paz para fazer o que quiser”. E, em um país com quase USD 4 trilhões em gastos federais, agentes da TSA que se sentem livres para molestarem crianças de 6 anos de idade nos aeroportos, e intrometidos que podem vir atrás das minhasBuffalo Wings, é difícil não simpatizar com isso em algum nível. Afinal, sou conhecido por pendurar uma Gadsen Flag no meu escritório em protesto contra um estado a cada dia mais invasivo.

Ainda assim, quando nosso caso pela liberdade parece transformar-se em um caso de ser “deixado em paz” de um modo geral, eu acho que os libertários estão cometendo tanto um erro substancial (real) como retórico do qual podemos nos arrepender. Isso é parte de um problema maior que James Peron chamou de “Meu Libertarianismo” em um magnífico artigo no seu blog: o libertarianismo pode facilmente se tornar introspectivo, um caso de liberdade para mim, livre de qualquer sinal de preocupação com relação à liberdade das pessoas que não são como eu. Peron argumenta de forma contundente que o libertarianismo deveria estar muito mais preocupado com a liberdade de povos historicamente oprimidos, enquanto diminuindo a ênfase na liberdade relacionada a nossas próprias preferências.

Eu acho que ele está certo e, além disso, quero oferecer um argumento complementar contra a retórica do “me deixe em paz”. Colocando de forma simples, eu não quero ser deixado em paz, nem penso que o mundo libertário atual é um no qual todos nós somos “deixados em paz”. Eu preferiria viver em um mundo onde minha família, amigos, e comunidade não me deixassem em paz em tempos de necessidade, mas, em vez disso, sentir algum tipo de ligação (comprometimento) em me ajudar. Por outro lado, eu espero que eles não queiram ser deixados em paz, mas sim que alegremente aceitem minha assistência se estiverem passando por dificuldades. Um mundo no qual todos são deixados em paz parece mais distópico do que utópico, mesmo se é um mundo no qual todos nós somos livres na forma que os libertários desejam.

Objetivos bons, meios ruins

Para mim, um dos argumentos atraentes para a liberdade é que nos permite descobrir formas novas, criativas e mais eficientes de cuidar uns dos outros. O problema com os programas assistencialistas governamentais não é que a intenção presumida de ajudar as pessoas em necessidade seja algo ruim; é que os meios são inapropriados para tal fim. Tais programas são inerentemente impessoais e burocráticos, e inevitavelmente acabam ajudando aqueles que gerenciam e trabalham para eles, em vez dos que genuinamente precisam de ajuda.

O desejo de ser deixado em paz das burocracias é compreensível, mas a razão não é que tentar ajudar os outros é errado ou que o mundo no qual todos fossem deixados em paz é certo. A razão é que somente indivíduos livres e responsáveis podem efetivamente ajudar aqueles que realmente necessitam. Como tantos outros aspectos de uma sociedade livre, os melhores resultados emergem quando as pessoas com conhecimento local e incentivos mais fortes para o sucesso assumem a responsabilidade. Em vez das burocracias isoladas do Estado, são as Igreja, grupos familiares ou éticos, festas de comunidade e círculos de amigos que estão em uma posição melhor para perceber quando alguém está em dificuldades e saber como melhor ajudar.

Ajuda Mútua

Antes do programa assistencialista governamental, assim é precisamente como a maioria dos americanos obtinha ajuda em tempos de necessidade, como o historiador David Beito documenta no seu magnífico livro Da ajuda mútua para o Estado de Bem Estar. Esses sistemas decentralizados e, com frequência, discretos, funcionavam muito bem, e também ofereciam uma forma para a era Jim Crow de afro-americanos desenvolver suas próprias redes de assistência fora das estruturas racistas dominantes. A liberdade relativa daquela era com respeito à ajuda mútua levou a exatamente os tipos de soluções criativamente efetivas que alguém esperaria do processo social de descoberta.

Quando os libertários adotam a retórica do “nos deixe em paz”, eles reforçam o estereótipo negativo de uma pessoa egoísta, despreocupada com os desamparados. Essa não é uma forma de trazer pessoas para a filosofia libertária. Os libertários que querem ser deixados em paz logo se encontrarão muito isolados da selvageria intelectual e política, tendo deixado para trás uma oportunidade de ser visto ao lado dos preocupados com os outros seres humanos.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo original


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



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