Ciência Política 07_bp007

Publicado em 29 de maio de 2014 | por Daron Acemoglu and James Robinson

Por que as Nações fracassam: Teorias erradas

Nota: Esse texto corresponde ao capítulo 2 da obra “Por Que as Nações Fracassam”, de autoria do economista Daron Acemoglu e do cientista político James Robinson. Você pode realizar o download do epub desse livro aqui.

AS CIRCUNSTÂNCIAS ATUAIS

Nosso livro se concentra na explicação, não só das desigualdades mundiais, mas também de alguns dos padrões gerais mais prontamente visíveis que nela encontram morada. O primeiro país a experimentar crescimento econômico sustentado foi a Inglaterra – ou Grã Bretanha, como é conhecida a união de Inglaterra, País de Gales e Escócia desde 1707. O crescimento despontou gradualmente na segunda metade do século XVIII, à medida que a Revolução Industrial, baseada em grandes inovações tecnológicas e sua aplicação na indústria, ia se estabelecendo. À industrialização da Inglaterra logo se seguiria a da maior parte da Europa Ocidental e Estados Unidos. A prosperidade inglesa não tardou a espalhar-se também pelas “colônias de povoamento” britânicas – Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Uma lista dos 30 países mais ricos hoje inclui estes que citamos mais Japão, Cingapura e Coreia do Sul. A prosperidade dos três últimos é, por sua vez, parte de um padrão mais amplo conforme o qual diversas nações do Leste Asiático, inclusive Taiwan e, posteriormente, a China, experimentaram acelerado crescimento em tempos recentes.

O segmento inferior da distribuição da renda mundial apresenta um quadro tão agudo e peculiar quanto o superior. Se, ao contrário, fizermos uma lista dos 30 países mais pobres do mundo atual, constataremos que quase todos se encontram na África subsaariana. A estes se juntam países como Afeganistão, Haiti e Nepal, que, mesmo não se situando na África, têm um elemento crítico em comum com as nações africanas, como vamos explicar. Se voltássemos 50 anos no tempo, os 30 países mais ricos e mais pobres não seriam muito diferentes. Cingapura e Coreia do Sul não figurariam entre os mais ricos e haveria vários outros entre os 30 mais pobres, mas a situação geral que se apresentaria seria notavelmente consistente com o que vemos nos dias atuais. Voltando 100 anos, ou 150, encontraríamos praticamente os mesmos países, nos mesmos grupos.

O Mapa 3 mostra a situação em 2008. Os países em cor mais escura são os mais pobres do mundo, aqueles cuja renda per capita (chamada, pelos economistas, de PIB, Produto Interno Bruto) é inferior a US$2 mil anuais. A maioria da África aparece dessa cor, assim como Afeganistão, Haiti e partes do Sudeste Asiático (como Camboja e Laos). A Coreia do Norte também se encontra nesse grupo de países. Aqueles em branco são os mais ricos – com renda per capita anual de US$20 mil ou mais. Aqui, encontramos os suspeitos de sempre: América do Norte, Europa Ocidental, Australásia e Japão.

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Mapa 3: Prosperidade no mundo em 2008

Outro padrão interessante pode ser detectado nas Américas. Se arrolarmos os países americanos em ordem decrescente de riqueza, dos mais prósperos para os mais pobres, veremos que no topo estão Estados Unidos e Canadá, seguidos do Chile, Argentina, Brasil, México e Uruguai (e talvez também a Venezuela, dependendo do preço do petróleo); em seguida, temos Colômbia, República Dominicana, Equador e Peru. No final, há outro grupo separado, bem mais pobre, composto por Bolívia, Guatemala e Paraguai. Se recuarmos 50 anos no tempo, encontraremos a mesma classificação. Cem anos: a mesma coisa. E novamente se voltarmos 150 anos. Portanto, não são só Estados Unidos e Canadá que são mais ricos que a América Latina; há também uma separação definida e persistente entre países ricos e pobres dentre os latino-americanos.

Um último padrão interessante pode ser encontrado no Oriente Médio, onde encontramos nações ricas em petróleo, como Arábia Saudita e Kuwait, cujos níveis de renda são próximos àqueles dos 30 mais ricos. Caso o preço do petróleo caia, porém, eles despencarão para o estrato inferior. Países do Oriente Médio com pouco ou nenhum petróleo, como Egito, Jordânia e Síria, aglomeram-se em torno de um nível de renda próximo ao da Guatemala ou Peru. Sem suas reservas petrolíferas, as nações do Oriente Médio são tão pobres quanto as da América Central e dos Andes, ainda que não tanto quanto as da África subsaariana.

Apesar da grande persistência dos padrões de prosperidade que observamos hoje ao nosso redor, contudo, eles não são cristalizados nem imutáveis. Em primeiro lugar, como já enfatizamos, grande parte da atual desigualdade mundial remonta ao final do século XVIII, tendo nascido no rastro da Revolução Industrial. As lacunas entre os diferentes níveis de riqueza não só eram menores até meados do século XVIII, mas a ordenação que desde então tem se mostrado tão estável não se manterá caso recuemos mais longe no tempo. Nas Américas, por exemplo, a classificação que se manteve nos últimos 150 anos era completamente outra 500 anos atrás. Em segundo lugar, diversas nações experimentaram décadas seguidas de crescimento acelerado, como boa parte do Leste Asiático da Segunda Guerra Mundial para cá e, mais recentemente, a China. E não poucas delas viram posteriormente tal tendência se inverter. A Argentina, por exemplo, cresceu rapidamente por cinco décadas até 1920, chegando a se tornar um dos países mais ricos do mundo, mas desde então iniciou um longo declínio. A União Soviética constitui um exemplo ainda mais notável, tendo apresentado crescimento acentuado entre 1930 e 1970, mas experimentando depois um súbito colapso.

O que explica essas diferenças significativas de grau de pobreza e prosperidade e entre padrões de crescimento? Por que os países da Europa Ocidental e seus rebentos coloniais, povoados com colonos europeus, começaram a crescer no século XIX sem olhar para trás? O que explica a persistência do ranking da desigualdade nas Américas? O que impede a África subsaariana e o Oriente Médio de apresentarem o mesmo crescimento econômico ocorrido na Europa Ocidental, enquanto tão grande parte do Leste Asiático vem ostentando níveis de crescimento estratosféricos?

Pode-se pensar que o fato de a desigualdade mundial ser tão acentuada, com consequências tão graves e padrões tão nítidos e evidentes, implique que haja para ela alguma explicação que goze de ampla aceitação. Não é o caso. A maioria das hipóteses propostas pelos cientistas sociais para as origens da pobreza e da prosperidade não funciona e revela-se incapaz de explicar, de maneira convincente, as atuais circunstâncias.

A HIPÓTESE GEOGRÁFICA

Uma teoria muito aceita sobre as causas da desigualdade mundial é a hipótese geográfica, segundo a qual o abismo que separa países ricos e pobres é gerado por diferenças geográficas. Muitos países pobres, como os da África, da América Central e do Sul da Ásia, localizam-se entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio. As nações ricas, em contrapartida, tendem a situar-se nas latitudes temperadas. Essa concentração geográfica da pobreza e da riqueza confere um apelo superficial à hipótese geográfica, ponto de partida das teorias e opiniões de não poucos cientistas sociais e sumidades em geral – o que não a torna menos equivocada.

Já no final do século XVIII, o grande filósofo político francês Montesquieu assinalava a concentração geográfica da prosperidade e da pobreza e propunha-se a explicá-la. A seu ver, os habitantes dos climas tropicais tendiam a ser preguiçosos e pouco inquisitivos. Por conseguinte, não trabalhavam com empenho suficiente nem eram inovadores, motivos pelos quais eram pobres. Montesquieu especulava também que as pessoas preguiçosas tendiam a ser governadas por déspotas, sugerindo que a localização nos trópicos justificaria não só a pobreza mas também parte dos fenômenos políticos associados ao fracasso econômico, como regimes ditatoriais.

A teoria de que os países quentes são intrinsecamente pobres, embora recentemente desmentida pelo acelerado avanço econômico de países como Cingapura, Malásia e Botsuana, ainda é objeto de ardorosa defesa por parte de alguns, como o economista Jeffrey Sachs. A moderna versão dessa tese salienta não os efeitos diretos do clima sobre a dedicação ao trabalho ou os processos mentais, mas dois outros argumentos: primeiro, o de que as doenças tropicais, sobretudo a malária, têm consequências muito adversas para a saúde e, por conseguinte, para a produtividade; e, segundo, o de que os solos tropicais não permitem uma agricultura produtiva. A conclusão, entretanto, é a mesma: os climas temperados possuem uma vantagem relativa sobre as regiões tropicais e subtropicais.

As desigualdades mundiais, todavia, não podem ser explicadas pelo clima ou doenças, nem qualquer outra versão da hipótese geográfica. Basta lembrarmos de Nogales. O que separa as duas metades da cidade não são as condições de clima, geografia nem de saúde, mas a fronteira México-Estados Unidos.

Se a hipótese geográfica não dá conta de explicar as diferenças entre o Norte e o Sul de Nogales, ou as Coreias do Norte e do Sul, ou entre as Alemanhas Ocidental e Oriental antes da queda do Muro de Berlim, poderia ter ainda alguma utilidade para explicar as diferenças entre as Américas do Norte e do Sul? Entre Europa e África? Não.

A história demonstra a inexistência de ligações simples ou duradouras entre clima ou geografia e êxito econômico. Por exemplo, não é verdade que os trópicos tenham sido sempre mais pobres que as latitudes temperadas. Como vimos no capítulo anterior, na época da conquista das Américas por Colombo a faixa ao sul do Trópico de Câncer e ao norte do de Capricórnio, que hoje compreendem México, América Central, Peru e Bolívia, continha as grandes civilizações asteca e inca – impérios politicamente centralizados e complexos, que construíram estradas e prestavam auxílio contra a fome. Os astecas dispunham tanto de moeda quanto de escrita, e os incas, embora lhes faltassem essas duas tecnologias fundamentais, registravam vasta quantidade de informação em cordões cheios de nós, chamados quipos. Em agudo contraste, nessa mesma época, as áreas ao norte e ao sul daquela habitada por esses dois povos – onde hoje se encontram Estados Unidos, Canadá, Argentina e Chile – eram habitadas basicamente por civilizações na Idade da Pedra, desprovidas de tais tecnologias. Os trópicos nas Américas eram, portanto, muito mais ricos que as zonas temperadas, o que indica que o “fato óbvio” da pobreza tropical não é nem óbvio e muito menos um fato. Pelo contrário, a maior riqueza dos Estados Unidos e Canadá, hoje, representa uma acentuada inversão da fortuna em relação ao cenário vigente por ocasião da chegada dos europeus.

Tal inversão claramente nada teve a ver com a geografia, mas, como já vimos, com o modo como se deu a colonização dessas áreas – um processo que não se restringiu às Américas. Os povos do Sul da Ásia, sobretudo no subcontinente indiano e na China, eram mais prósperos do que os de muitas outras partes da Ásia – e certamente mais que as populações da Austrália e Nova Zelândia. Também esse quadro se inverteu à medida que Coreia do Sul, Cingapura e Japão despontaram como nações mais ricas da Ásia, e Austrália e Nova Zelândia ultrapassaram quase todo o continente asiático em termos de prosperidade. Mesmo no âmbito da África subsaariana verificou-se uma inversão similar. Em tempos mais recentes, antes de começar o intenso contato europeu com os africanos, o sul da África era a área de menor densidade populacional e a que estava mais longe de apresentar Estados estruturados que exercessem algum tipo de controle sobre seus territórios. Não obstante, a África do Sul é hoje uma das mais prósperas nações da África subsaariana. Voltando atrás na história, novamente vemos muita prosperidade nos trópicos; algumas das grandes civilizações pré-modernas, como Angkor, no moderno Camboja, Vijayanagara, no sul da Índia, e Aksum, na Etiópia, floresceram nos trópicos, do mesmo modo como as civilizações do Vale do Indo, de Mohenjo Daro e Harapa, no atual Paquistão. Diante das evidências históricas, portanto, restam-nos poucas dúvidas de que não existe correlação simples entre localização tropical e sucesso econômico.

As doenças tropicais evidentemente são causa de profundo sofrimento e elevadas taxas de mortalidade infantil na África, mas não constituem a razão da pobreza africana. O adoecimento é, em grande parte, consequência da pobreza e da falta de capacidade ou vontade dos governos para tomar as medidas de saúde pública necessárias à sua erradicação. A Inglaterra no século XIX também era um lugar bastante insalubre, mas o governo efetuou investimentos graduais no abastecimento de água limpa, no devido tratamento de esgotos e efluentes, e, por fim, em serviços de saúde eficazes. A melhoria das condições de saúde e o aumento da expectativa de vida decerto não foram as causas do êxito econômico britânico, mas um dos frutos de suas transformações políticas e econômicas prévias. O mesmo vale para Nogales, Arizona.

A outra parte da hipótese geográfica diz que os trópicos devem sua pobreza à intrínseca improdutividade da agricultura tropical. Os solos tropicais são finos e incapazes de reter nutrientes, segundo esse argumento, que enfatiza a rapidez com que eles são erodidos pelas chuvas torrenciais. A ideia não deixa de ter seu mérito, sem dúvida, mas, como mostraremos, o principal determinante da baixíssima produtividade agrícola – expressa em produção agrícola por acre – em tantos países pobres, sobretudo na África subsaariana, pouco tem a ver com a qualidade do solo. Pelo contrário, é consequência da estrutura de propriedade da terra e dos incentivos criados para os fazendeiros pelos governos e instituições sob os quais vivem. Vamos demonstrar também que a desigualdade mundial não pode ser explicada por diferenças na produtividade agrícola. As profundas disparidades do mundo moderno nascidas no século XIX foram causadas pela disseminação desigual das tecnologias industriais e da produção manufatureira, não por diferenças no desempenho agrícola.

Outra versão influente da hipótese geográfica é defendida pelo ecologista e biólogo evolutivo Jared Diamond, para quem a origem das desigualdades intercontinentais nos primórdios da era moderna, há 500 anos, jazem na falta de uniformidade na distribuição histórica de espécies vegetais e animais, que posteriormente influenciaria a produtividade agrícola. Em alguns lugares, como o Crescente Fértil, no atual Oriente Médio, havia grande número de espécies passíveis de domesticação pelos seres humanos. Em outros, como as Américas, não. O grande número de espécies domesticáveis tornou interessante para as sociedades fazer a transição de um estilo de vida de caça e coleta para outro agrário. Por conseguinte, a agricultura desenvolveu-se antes no Crescente Fértil que nas Américas. A densidade demográfica aumentou, possibilitando a especialização da mão de obra, o comércio, a urbanização e o desenvolvimento político. Fundamentalmente, nos lugares em que a agricultura se tornou dominante as novações tecnológicas ocorreram com mais rapidez do que em outras partes do mundo. Assim, de acordo com Diamond, as discrepâncias na disponibilidade de espécies animais e vegetais acarretaram graus variados de exploração agrícola, o que, por sua vez, conduziu a caminhos distintos de transformação tecnológica e prosperidade em cada continente.

Embora a tese de Diamond constitua uma abordagem respeitável ao problema sobre o qual ele se debruça, não pode ser estendida à explicação da desigualdade no mundo moderno. Por exemplo, Diamond defende que os espanhóis conseguiram dominar as civilizações das Américas graças à maior antiguidade de sua tradição agrícola e consequente superioridade tecnológica. Agora, porém, precisamos explicar por que os mexicanos e peruanos que habitam as antigas terras dos astecas e incas são pobres. Por mais que o acesso a trigo, cevada e cavalos tornasse os espanhóis mais ricos que os incas, a disparidade de renda entre os dois povos não era tão significativa. A renda média de um espanhol correspondia, provavelmente, a menos que o dobro da de um cidadão do Império Inca. A tese de Diamond sugere que, uma vez que os incas viram-se expostos a todas as espécies e tecnologias delas resultantes que não haviam sido capazes de desenvolver por conta própria, deveriam ter atingido rapidamente o padrão de vida dos espanhóis. Todavia, não foi em absoluto o que aconteceu. Pelo contrário, nos séculos XIX e XX abriu-se uma lacuna muito maior entre as rendas de espanhóis e peruanos. Hoje, o espanhol médio é mais de seis vezes mais rico do que o peruano médio – um abismo intimamente relacionado à heterogeneidade na disseminação das modernas tecnologias industriais, mas que pouco tem a ver tanto com o potencial para a domesticação de plantas e animais quanto com as diferenças intrínsecas de produtividade agrícola entre os dois países.

Enquanto a Espanha, ainda que com atraso, adotou as tecnologias do motor a vapor, ferrovias, eletricidade, mecanização e produção manufatureira, o Peru não – ou, no máximo, o fez de modo muito lento e imperfeito. Tal lacuna tecnológica persiste ainda hoje e reproduz-se em maior escala à medida que as novas tecnologias, sobretudo aquelas relacionadas à tecnologia da informação, alimentam mais crescimento em muitas nações desenvolvidas e outras em acelerado desenvolvimento. A tese de Diamond não nos diz por que essas tecnologias cruciais não se difundem e uniformizam a renda ao redor do mundo, como tampouco explica por que a metade norte de Nogales é tão mais rica que sua gêmea ao sul da cerca, muito embora ambas fizessem parte da mesma civilização, 500 anos atrás.

A história de Nogales põe em evidência outro grave problema da adaptação da teoria de Diamond: como já vimos, fossem quais fossem os pontos fracos dos impérios inca e asteca em 1532, Peru e México eram sem dúvida mais prósperos do que aquelas regiões das Américas que viriam a ser os Estados Unidos e o Canadá. A América do Norte tornou-se mais rica justamente por haver adotado com entusiasmo as tecnologias e avanços da Revolução Industrial. O nível educacional da população aumentou e as ferrovias se espalharam pelas grandes pradarias, em agudo contraste com o que transcorreu na América do Sul. Isso não pode ser justificado apontando-se as distintas características geográficas das Américas do Norte e do Sul – as quais, diga-se de passagem, concederiam vantagem à América do Sul.

As desigualdades no mundo moderno são em grande parte fruto da falta de homogeneidade na disseminação e adoção de tecnologias, e a tese de Diamond de fato inclui dois argumentos importantes a esse respeito. Por exemplo: ele defende, seguindo o historiador William McNeill, que a orientação leste-oeste da Eurásia possibilitou que produtos agrícolas, animais e inovações se difundissem do Crescente Fértil para a Europa Ocidental, ao passo que a orientação norte-sul das Américas justifica que os sistemas de escrita criados no México não se disseminassem pelos Andes ou pela América do Norte. Não obstante, a orientação dos continentes não constitui explicação para as desigualdades mundiais existentes hoje. Consideremos a África. Embora o Deserto do Saara constituísse de fato uma barreira significativa à penetração de bens e ideias do norte na África subsaariana, não chegava a ser um obstáculo intransponível. Os portugueses, seguidos de outros europeus, circum-navegaram a costa e eliminaram as diferenças de conhecimento num período em que as diferenças de renda eram ínfimas, comparadas à situação atual. De lá para cá, a África não só não alcançou a Europa como, pelo contrário, a lacuna entre a renda da maioria dos países africanos e a dos europeus apenas se aprofundou.

Deve estar claro também que a argumentação de Diamond, centrada na desigualdade intercontinental, não é bem equipada para explicar as variações dentro dos continentes – um aspecto essencial da moderna desigualdade mundial. Por exemplo, por mais que a orientação da massa de terra eurasiática possa explicar como a Inglaterra logrou beneficiar-se das inovações do Oriente Médio sem precisar reinventá-las, não explica por que a Revolução Industrial se deu na Inglaterra em vez de, digamos, na Moldávia. Ademais, como o próprio Diamond destaca, China e Índia tiraram imenso proveito tanto da rica diversidade da fauna e da flora quanto da orientação da Eurásia. Ainda assim, a maior parte da população pobre do mundo, hoje, encontra-se nesses dois países.

De fato, a melhor maneira de entender o escopo da tese de Diamond é em termos de suas próprias variáveis. O Mapa 4 apresenta dados sobre a distribuição de javalis (Sus scrofa), ancestrais do porco moderno, e de auroques, antecessores dos bois atuais. Ambos tinham ampla distribuição por toda a Eurásia e mesmo o Norte da África. O Mapa 5 mostra a distribuição de alguns dos ancestrais selvagens dos produtos agrícolas domesticados de hoje, como o Oryza sativa, antecessor do arroz cultivado asiático, e os ancestrais do trigo e cevada modernos. A ilustração demonstra que o ancestral selvagem do arroz estava amplamente distribuído por todo o sul e sudeste da Ásia, ao passo que os antecessores do trigo e da cevada distribuíam-se ao longo de um comprido arco que ia do Levante e passava pelo Irã e Afeganistão até os “istões” (Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão). Essas espécies ancestrais encontram-se presentes em grande parte da Eurásia, mas sua ampla distribuição sugere que não há como justificar as desigualdades nesse continente com uma teoria baseada na incidência das espécies.

A hipótese geográfica não só é inútil na explicação das origens da prosperidade no decorrer da história, além de basicamente incorreta em sua ênfase, mas também incapaz de justificar as circunstâncias com que começamos este capítulo. Seria possível argumentar que qualquer padrão persistente, como a hierarquia de rendas nas Américas ou as acentuadas e duradouras diferenças entre Europa e Oriente Médio, podem ser explicadas pela inalterabilidade da geografia. Todavia, não é esse o caso. Já vimos que é altamente improvável que os padrões no contexto das Américas tenham sido causados por fatores geográficos. Antes de 1492, eram as civilizações no vale central do México, América Central e Andes que dispunham de tecnologia e padrões de vida superiores aos da América do Norte ou lugares como Argentina e Chile. E, embora a geografia tenha permanecido a mesma, as instituições impostas pelos colonos europeus provocaram uma “inversão da fortuna”. Dificilmente a geografia também explicaria a pobreza do Oriente Médio por motivos similares. Afinal, o Oriente Médio liderou o mundo na revolução neolítica, e as primeiras cidades desenvolveram-se onde atualmente fica o Iraque. O ferro foi fundido pela primeira vez na Turquia e, até a Idade Média, o Oriente Médio era dinâmico em termos tecnológicos. Não foi a geografia do Oriente Médio que levou a revolução neolítica a florescer naquela parte do mundo, como veremos no Capítulo 5, assim como tampouco foi a geografia que tornou o Oriente Médio pobre. Pelo contrário, a expansão e a consolidação do Império Otomano − o legado institucional desse império − é que mantêm a região imersa em pobreza ainda hoje.

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Mapa 4: Distribuição histórica de suínos e bovinos selvagens

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Mapa 5: Distribuição histórica de arroz, trigo e cevada selvagens

Por fim, os fatores geográficos são inúteis para explicar não só as diferenças que vemos entre as diversas partes do mundo hoje, mas também por que muitas nações, como Japão ou China, atravessam longos períodos de estagnação para depois encetar um processo de crescimento acelerado. Precisamos de outra teoria melhor.

A HIPÓTESE CULTURAL

A segunda teoria que goza de ampla aceitação, a hipótese cultural, correlaciona prosperidade e cultura. A hipótese cultural, do mesmo modo que a geográfica, é de linhagem distinta, remontando no mínimo ao grande sociólogo alemão Max Weber, que defendia que a Reforma Protestante e a ética protestante dela decorrente desempenharam papel central na facilitação da ascensão da moderna sociedade industrial na Europa Ocidental. A hipótese cultural já não se baseia exclusivamente na religião, mas enfatiza igualmente outros tipos de crenças, valores e éticas.

Por mais que não seja politicamente correto dizê-lo em público, ainda há quem mantenha, e não são poucos, que os africanos são pobres por serem desprovidos de uma boa ética de trabalho, insistindo em acreditar em feitiçaria e magia ou resistindo às novas tecnologias ocidentais. Muitos acreditam também que a América Latina jamais enriquecerá devido ao caráter intrinsecamente libertino e carente de seu povo, que além disso sofre do mal da cultura “ibérica”, a tendência a deixar tudo para mañana (amanhã). Evidentemente, muitos já acreditaram que a cultura chinesa e o confucionismo fossem incompatíveis com o crescimento econômico, muito embora a importância da ética de trabalho chinesa como motor do crescimento na China, Hong Kong e Cingapura seja agora alardeada.

Será que a hipótese cultural é útil para compreender a desigualdade mundial? Sim e não. Sim, no sentido de que as normas sociais, que são relacionadas à cultura, exercem profunda influência e podem ser difíceis de mudar – além de, por vezes, darem sustentação às diferenças institucionais que, segundo este livro, são o que explica as desigualdades mundiais. Em sua maior parte, porém, não, à medida que os aspectos culturais que se costuma enfatizar – religião, ética nacional, valores africanos ou latinos – não têm importância para entendermos como chegamos até aqui e por que as desigualdades do mundo persistem. Outros aspectos, como até que ponto as pessoas confiam umas nas outras ou são capazes de colaborar, são importantes, mas constituem basicamente um resultado das instituições, não causas independentes.

Voltemos a Nogales. Como já observamos, diversos aspectos culturais são idênticos, de um lado e de outro da cerca. Não obstante, detectam-se certas diferenças marcantes de práticas, normas e valores, ainda que elas sejam não causas, mas consequências da divergência entre os rumos do desenvolvimento dos dois lugares. Por exemplo, nas pesquisas, os mexicanos normalmente dizem confiar em outras pessoas menos do que os cidadãos dos Estados Unidos declaram confiar nos outros. Contudo, a falta de confiança dos mexicanos não surpreende, tendo-se em vista que seu governo mostra-se incapaz de eliminar os cartéis de drogas ou assegurar um sistema jurídico imparcial. O mesmo vale para as Coreias do Norte e do Sul, como discutiremos no próximo capítulo. O Sul é um dos países mais ricos do mundo, ao passo que o Norte enfrenta fomes periódicas e uma pobreza abjeta. Embora, hoje, a “cultura” dos dois países seja muito distinta, ela não fez a menor diferença nos destinos econômicos divergentes dessas duas meias-nações. A península coreana tem um longo período de história comum. Até a Guerra da Coreia e a divisão no paralelo 38, apresentava uma homogeneidade sem precedentes em termos de idioma, etnicidade e cultura. Como em Nogales, o importante é a fronteira. Ao norte fica um regime diferente, que impõe instituições singulares e cria outros incentivos. Eventuais divergências culturais encontradas nas terras ao sul e ao norte da fronteira que corta Nogales ou a Coreia em duas é, pois, consequência, e não causa das diferenças nos níveis de prosperidade.

E a África e a cultura africana? Historicamente, a África subsaariana sempre foi mais pobre do que a maior parte do resto do mundo e suas civilizações antigas chegaram a desenvolver a roda, a escrita (exceto por Etiópia e Somália) e o arado. Embora tais tecnologias não tivessem utilização mais ampla até o advento da colonização formal europeia, no final do século XIX e início do XX, as sociedades africanas tomaram conhecimento de sua existência muito antes. Os europeus começaram a circum-navegar sua costa ocidental no final do século XV, e embarcações asiáticas chegavam à África Oriental já muito antes disso.

Podemos compreender por que essas tecnologias não foram adotadas com base na história do Reino do Congo, na foz do Rio Congo, que deu seu nome à moderna República Democrática do Congo. O Mapa 6 mostra a localização do Congo em relação a outro importante Estado centro-africano, o Reino Bacaba, que discutiremos mais à frente neste livro.

O Congo entabulou intensas relações com os portugueses após ser visitado pela primeira vez pelo navegador Diogo Cão, em 1483. Na época, o Congo era um reino altamente centralizado pelos padrões africanos, cuja capital, Mbanza, contava com uma população de 60 mil habitantes, o que a tornava mais ou menos do mesmo tamanho da capital portuguesa, Lisboa, e maior do que Londres, com sua população de cerca de 50 mil habitantes em 1500. O rei do Congo, Nzinga a Nkuwu, converteu-se ao catolicismo e mudou de nome para João I. Mais tarde, o nome de Mbanza seria mudado para São Salvador. Graças aos portugueses, os congolenses aprenderam sobre a roda e o arado, cuja adoção foi mesmo incentivada por missões agrícolas lusitanas em 1491 e 1512. Contudo, todas essas iniciativas fracassaram. Não obstante, os congolenses estavam longe de ser avessos às modernas tecnologias em geral; foram muito rápidos, por exemplo, em adotar outra venerável inovação ocidental: a pólvora. Usaram essa nova e poderosa ferramenta para responder a incentivos de mercado: a captura e exportação de escravos. Não há nenhum indício de que a cultura ou os valores africanos de alguma maneira concorressem para impedir a adoção de novas tecnologias e práticas. À medida que se estreitavam seus laços com os europeus, os congolenses adotariam outras práticas ocidentais: a escrita, estilos de indumentária e arquitetura habitacional. No século XIX, não poucas sociedades africanas tiraram proveito também das crescentes oportunidades econômicas engendradas pela Revolução Industrial, mudando seus padrões de produção. Na África Ocidental, verificou-se rápido crescimento econômico com base na exportação de óleo de palma e amendoim; em todo o sul do continente, os africanos desenvolveram produtos a serem exportados para as áreas industriais e de mineração em acelerada expansão no Rand,j na África do Sul. Contudo, esses promissores experimentos econômicos foram obliterados, não pela cultura africana nem pela incapacidade dos africanos comuns de tomar iniciativas em prol de seus próprios interesses, mas pelo colonialismo europeu, em primeiro lugar, e mais tarde pelos governos africanos pós-independência.

A verdadeira razão por que os congolenses não adotaram uma tecnologia superior foi o simples fato de que lhes faltaram incentivos para tanto. Enfrentavam elevado risco de expropriação e tributação de sua produção pelo monarca todo-poderoso, houvesse ele se convertido ao catolicismo ou não. Com efeito, a insegurança imperava, não só no que dizia respeito à propriedade, mas a continuidade de sua própria existência encontrava-se sempre por um fio. Muitos eram capturados e vendidos como escravos – condições que dificilmente serviriam de estímulo para investimentos que aumentassem a produtividade em longo prazo. Tampouco o rei dispunha de incentivos para adotar o arado em larga escala ou para fazer do aumento da produtividade agrícola sua maior prioridade; a exportação de escravos era muito mais rentável.

Mapa 6: Reino do Congo, Reino Bacuba, Bushong e Lele

Talvez se possa afirmar que, hoje, os africanos confiam menos uns nos outros que outros povos, de outras partes do mundo – o que seria, contudo, fruto de uma longa história de instituições que solaparam os direitos humanos e de propriedade na África. A possibilidade de serem capturados e vendidos como escravos sem dúvida exerceu alguma influência sobre o grau de confiança dos africanos entre si ao longo do tempo.

E a ética protestante de Max Weber? Embora seja verdade que países predominantemente protestantes, como Holanda e Inglaterra, foram os primeiros grandes sucessos econômicos da Era Moderna, há pouca ligação entre religião e prosperidade econômica. A França, país predominantemente católico, rapidamente reproduziu o desempenho econômico dos holandeses e ingleses no século XIX, e a Itália é tão próspera quanto qualquer desses países hoje. Olhando mais para o Oriente, veremos que nenhum dos sucessos econômicos do Leste Asiático guarda qualquer relação com a religião cristã, de modo que tampouco aí a tese de uma conexão especial entre o protestantismo e o êxito econômico encontra grande respaldo.

Voltemo-nos para uma das regiões favoritas dos entusiastas da hipótese cultural: o Oriente Médio, onde os países são preponderantemente islâmicos, e os que não produzem petróleo são muito pobres, como já notamos. Os produtores de petróleo são mais ricos, mas esse golpe de sorte pouco contribuiu para a instalação de economias modernas e diversificadas na Arábia Saudita ou Kuwait. Esses fatos não constituem uma demonstração cabal da influência da religião? Por mais plausível que seja, esse argumento também não está correto. Sim, países como Síria e Egito são pobres e suas populações são basicamente muçulmanas. Contudo, apresentam outras peculiaridades bem mais significativas para efeitos de prosperidade. Em primeiro lugar, todos foram províncias do Império Otomano, o que afetou intensa e adversamente o modo como se desenvolveram. Após o colapso do domínio otomano, o Oriente Médio foi absorvido pelos impérios coloniais inglês e francês, que continuaram tolhendo suas possibilidades. Após a independência, a exemplo de boa parte do antigo mundo colonial, desenvolveram regimes políticos hierárquicos e autoritários, de que faziam parte poucas das instituições políticas e econômicas que, como mostraremos, são cruciais para a geração de prosperidade econômica. Essa trajetória de desenvolvimento foi moldada, em grande parte, pela história dos domínios otomano e europeu. A relação entre religião islâmica e pobreza, no Oriente Médio, é basicamente espúria.

O papel desses acontecimentos históricos, e não de fatores culturais, na conformação do percurso econômico da região pode ser constatado também no fato de que aquelas partes do Oriente Médio que escaparam temporariamente ao jugo do Império Otomano e das potências europeias (como o Egito, entre 1805 e 1848, sob Muhammad Ali) mostraram-se capazes de enveredar por um caminho de acelerado crescimento. Muhammad Ali usurpou o poder logo após a retirada das forças francesas que haviam ocupado o país sob o comando de Napoleão Bonaparte. Aproveitando-se da tibieza do controle exercido pelos otomanos sobre o território egípcio na época, logrou fundar sua própria dinastia, que, de uma forma ou de outra, governaria o país até a revolução encabeçada por Nasser, em 1952. As reformas de Muhammad Ali, embora tenham sido impostas por coerção, promoveram o crescimento do país à medida que a burocracia estatal, o Exército e o sistema de arrecadação fiscal foram modernizados, gerando crescimento na agricultura e na indústria. Não obstante, tal processo de modernização e crescimento chegou ao fim com a morte de Ali, quando o Egito voltou a cair sob influência europeia.

Todavia, essa talvez seja uma forma errada de considerar a presença da cultura na equação. Talvez os fatores culturais mais importantes não estejam ligados à religião, mas a “culturas nacionais” específicas. Quem sabe a influência da cultura inglesa não seja importante e explique a prosperidade de países como Estados Unidos, Canadá e Austrália? Por mais sedutora que essa ideia possa parecer à primeira vista, também não funciona. Sim, Canadá e Estados Unidos foram colônias britânicas, mas Serra Leoa e Nigéria, também. As variações de prosperidade entre as ex-colônias inglesas é tão grande quanto entre os demais países do mundo. O legado britânico não é a causa do enriquecimento da América do Norte.

Entretanto, há ainda outra versão da hipótese cultural: talvez a questão não seja ingleses versus não ingleses, mas europeus versus não europeus. Será que os europeus são de algum modo superiores em virtude de sua ética do trabalho, perspectiva de vida, valores judaico-cristãos ou legado romano? É verdade que a Europa Ocidental e a América do Norte, cuja população é primordialmente de ascendência europeia, são as regiões mais ricas do mundo. Talvez o legado europeu e sua superioridade cultural sejam as razões da prosperidade – e o derradeiro refúgio da hipótese cultural. Infelizmente, essa versão da hipótese oferece tão pouca capacidade de explicação quanto as demais. Argentina e Uruguai apresentam descendentes de europeus em proporções maiores de sua população total que o Canadá e os Estados Unidos, mas o desempenho econômico tanto de uma quanto do outro deixa muito a desejar. Japão e Cingapura nunca tiveram mais que uma gota de descendentes de europeus entre seus habitantes, mas são tão abastados quanto muitas áreas da Europa Ocidental.

A China, apesar de umas tantas imperfeições em seu sistema econômico e político, tem sido o país de crescimento mais rápido nas três ultimas décadas. Sua pobreza até a morte de Mao Tsé-Tung nada tinha a ver com a cultura chinesa, mas com o modo desastroso como Mao organizou a economia e conduziu a política. Na década de 1950, ele promoveu o Grande Salto Adiante, drástica política de industrialização que acarretou fome em massa. Nos anos 1960, propagou a Revolução Cultural, que levou à perseguição maciça de intelectuais e eruditos – qualquer um cuja fidelidade ao partido pudesse ser posta em dúvida –, o que mais uma vez provocou enorme desperdício dos talentos e recursos da sociedade. Da mesma forma, o atual crescimento chinês nada tem a ver com os valores ou mudanças na cultura local; é fruto de um processo de transformação econômica deflagrado pelas reformas implementadas por Deng Xiaoping e seus aliados – que, após a morte de Mao Tsé-Tung, foram pouco a pouco abandonando as instituições e políticas econômicas socialistas, primeiro na agricultura, depois na indústria.

Como no caso de sua correlata geográfica, a hipótese cultural tampouco tem serventia para explicar outros aspectos do atual estado de coisas. Há, evidentemente, diferentes crenças, valores e atitudes culturais entre Estados Unidos e América Latina; porém, assim como as que separam Nogales, Arizona, e Nogales, Sonora, ou as Coreias do Sul e do Norte, tais disparidades são consequências das diferentes instituições e histórias institucionais distintas dos dois lugares. Fatores culturais que enfatizem o modo como a cultura “hispânica” ou “latina” moldou o Império Espanhol não dão conta das divergências no seio da própria América Latina – por exemplo, por que Argentina e Chile são mais ricos que Peru e Bolívia. Outros tipos de argumentos culturais – por exemplo, os que salientam a cultura indígena contemporânea – saem-se igualmente mal. Argentina e Chile tinham população nativa relativamente pequena, se comparada ao Peru e Bolívia. Embora seja verdade, a cultura indígena como explicação também não funciona. Colômbia, Equador e Peru têm níveis de renda similares, mas a Colômbia hoje apresenta muito poucos indígenas, ao contrário do Equador e Peru. Por fim, as atitudes culturais, em geral de modificação tão lenta, dificilmente responderão por si pelos milagres do crescimento no Leste Asiático e China. Por mais persistentes que sejam as instituições, em determinadas circunstâncias podem transformar-se rapidamente, como veremos.

A HIPÓTESE DA IGNORÂNCIA

A última teoria popular para explicar por que certos países são pobres e outros ricos é a hipótese da ignorância, segundo a qual a desigualdade existe no mundo porque nós ou nossos governantes não sabemos o que fazer para tornar ricos os países pobres. É uma ideia defendida por não poucos economistas, inspirados pela célebre definição proposta pelo economista inglês Lionel Robbins, em 1935, segundo a qual a “economia é uma ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre os fins e meios escassos, que têm usos alternativos”.

Ficamos, assim, a um passo da conclusão de que a ciência econômica deveria enfocar o melhor uso de meios escassos para satisfazer os fins sociais. Com efeito, o mais famoso resultado teórico em economia, o chamado Primeiro Teorema do Bem-Estar Social, identifica as circunstâncias em que a alocação de recursos em uma “economia de mercado” torna-se, do ponto de vista econômico, desejável socialmente. A economia de mercado não passa de uma abstração para descrever aquela situação em que todos os indivíduos e empresas têm liberdade de produzir, comprar e vender os produtos ou serviços que bem entenderem. Se essas circunstâncias não estiverem presentes, diz-se que há “falha do mercado”. Tais falhas constituem a base de uma teoria da desigualdade no mundo, uma vez que, quanto mais elas seguirem sem solução, mais pobre o país provavelmente será. A hipótese da ignorância sustenta que os países pobres devem sua pobreza ao excesso de falhas de mercado e ao fato de que seus economistas e autoridades ignoram como livrar-se delas, tendo dado ouvidos aos conselhos errados no passado. Já os países ricos são ricos por terem concebido políticas melhores e conseguido eliminar tais falhas.

Seria a hipótese da ignorância capaz de explicar as desigualdades no mundo? Será possível que os países africanos são mais pobres do que o resto do planeta porque seus líderes tendem a partir das mesmas premissas equivocadas acerca do governo de seus países, levando ao quadro de pobreza, ao passo que os líderes da Europa Ocidental são mais bem informados ou orientados, o que explicaria seu relativo êxito? Embora haja alguns exemplos famosos de líderes que adotaram políticas desastrosas por terem se enganado a respeito de suas consequências, a ignorância pode, na melhor das hipóteses, explicar no máximo uma pequena parte das desigualdades mundiais.

Aparentemente, o declínio econômico contínuo que se instaurou em Gana após sua independência da Inglaterra foi causado por ignorância. O economista britânico Tony Killick, então atuando como consultor do governo de Kwame Nkrumah, registrou em detalhes uma série de dificuldades. As políticas de Nkrumah foram centradas no desenvolvimento da indústria estatal, o que se mostrou muito ineficiente. Killick recorda:

A fábrica de calçados [...] pelo transporte de couro teria ligado a fábrica de carne, no norte (através de uma distância de mais de 800 quilômetros), a um curtume no sul, atualmente abandonado; o couro seria então levado de volta para a fábrica de calçados em Kumasi, na área central do país, a cerca de 320 quilômetros do curtume. Uma vez que o principal mercado consumidor fica na região metropolitana de Acra, os sapatos teriam de voltar para o sul, sendo transportados por mais 320 quilômetros.

Killick, de certo modo, dá a entender que tal empreendimento “teve sua viabilidade solapada pela má localização de seus componentes”. A fábrica de calçados foi apenas um entre muitos projetos similares, entre eles a fábrica de manga enlatada, situada em uma região de Gana onde não havia plantações da fruta e cuja produção seria superior à demanda mundial do produto em sua totalidade. Essa interminável sucessão de empreitadas economicamente irracionais não pode ter sido causada por falta de informação ou ignorância de Nkrumah ou seus consultores com relação às políticas econômicas mais acertadas. Afinal, eles contavam com pessoas como Killick e até Sir Arthur Lewis, vencedor do Prêmio Nobel, que estavam mais que cientes de que tais opções não dariam bons resultados. Contudo, o que determinou o formato assumido pelas políticas econômicas do país foi a necessidade de Nkrumah de utilizá-las para obter apoio político e, assim, dar sustentação ao seu regime totalitário.

Nem o decepcionante desempenho de Gana após a independência nem os inumeráveis outros casos de aparente desvario econômico podem ser atribuídos à ignorância. Afinal, se fosse ela o problema, líderes bem-intencionados logo compreenderiam que alternativas seriam capazes de promover o aumento da renda e do bem-estar de seus cidadãos, e naturalmente as adotariam.

Consideremos as trajetórias divergentes de Estados Unidos e México. Responsabilizar a ignorância dos governantes dos dois países por tais disparidades é, para dizer o mínimo, altamente implausível. Não foram diferenças de conhecimento ou intenção entre John Smith e Cortés que causaram o afastamento entre os dois países ainda no período colonial, assim como não foram diferenças de conhecimento entre seus presidentes posteriores, como os americanos Teddy Roosevelt ou Woodrow Wilson e o mexicano Porfirio Díaz, que levaram o México a optar, entre o fim do século XIX e o começo do XX, por instituições econômicas que assegurariam o enriquecimento das elites em detrimento do resto da sociedade, enquanto Roosevelt e Wilson tomavam o caminho oposto. Pelo contrário, foram as distintas delimitações institucionais encontradas pelos presidentes e elites dos respectivos países. Analogamente, os governantes africanos que se deixaram debilitar, ao longo dos últimos 50 anos, pela fragilidade do direito à propriedade e das instituições econômicas, acarretando o empobrecimento da maior parte de seus povos, não permitiram que isso se desse por acreditarem que estavam fazendo boa economia, mas porque podiam fazê-lo impunemente e enriquecer à custa dos demais ou por acharem que seria uma boa política, que os manteria no poder mediante a compra do apoio de grupos ou elites cruciais.

A experiência do primeiro-ministro de Gana em 1971, Kofi Busia, ilustra o quanto a hipótese da ignorância pode ser ilusória. Busia enfrentava uma perigosa crise econômica. Tendo ascendido ao poder em 1969, como o seu antecessor Nkrumah, adotou políticas econômicas insustentáveis e impôs vários mecanismos de controle de preços, por meio de organizações comerciais e da sobrevalorização cambial. Embora Busia tivesse feito oposição a Nkrumah e conduzisse um regime democrático, deparou-se com muitas das mesmas restrições políticas. Como havia acontecido com Nkrumah, suas políticas econômicas foram adotadas não em virtude de sua “ignorância” e crença de que estava pondo em prática uma boa economia ou uma maneira ideal de promover o desenvolvimento de seu país. Tais opções foram feitas por serem boa política, que permitiria a Busia transferir recursos para grupos politicamente poderosos – nas áreas urbanas, por exemplo – que precisavam ser mantidos satisfeitos. Os controles de preços esmagaram a agricultura, proporcionando alimentos baratos para os grupos urbanos e gerando receita para financiar os gastos do governo. Todavia, esses controles eram insustentáveis. Gana logo sofreria de uma série de crises no balanço de pagamentos e escassez de moeda estrangeira. Diante de tamanhos dilemas, em 27 de dezembro de 1971, Busia assinou um acordo com o Fundo Monetário Internacional que incluía a desvalorização em massa da moeda do país.

O FMI, o Banco Mundial e toda a comunidade internacional pressionavam Busia para implementar as reformas previstas no acordo. Embora as instituições internacionais ignorassem alegremente o fato, Busia estava plenamente ciente das implicações daquela aposta política. A consequência imediata da desvalorização da moeda foi uma série de levantes e tumultos em Acra, capital de Gana, que sofreu escalada vertiginosa até Busia ser derrubado pelos militares, encabeçados pelo Tenente-Coronel Acheampong, que imediatamente tratou de reverter a desvalorização.

A hipótese da ignorância distingue-se das hipóteses geográfica e cultural à medida que implica uma pronta sugestão sobre como “solucionar” o problema da pobreza: se foi a ignorância que nos trouxe até aqui, basta contar com autoridades e governantes esclarecidos e bem informados para sair deste lugar e, assim, “implementar” a prosperidade em todo o mundo, mediante a divulgação das orientações corretas e o convencimento dos políticos acerca do que seria uma economia de qualidade. No entanto, a experiência de Busia sublinha o fato de que o principal obstáculo à adoção de políticas capazes de reduzir as falhas do mercado e estimular o crescimento econômico não é a ignorância das autoridades, mas os incentivos e restrições que lhes são impostos pelas instituições políticas e econômicas em suas sociedades.

Ainda que a hipótese da ignorância reine soberana entre a maior parte dos economistas e nos altos círculos do Ocidente – que, excluindo praticamente qualquer outra possibilidade, concentram-se na implementação mecânica da prosperidade –, é só mais uma hipótese que não dá certo. Não explica a origem da prosperidade no mundo nem as circunstâncias em que estamos imersos – por exemplo, por que determinados países, como México e Peru, mas não Estados Unidos ou Inglaterra, adotaram instituições e políticas que levariam ao empobrecimento da maioria dos seus cidadãos ou por que quase toda a África subsaariana e a maior parte da América Central são tão mais pobres do que a Europa Ocidental ou o Leste Asiático.

Quando os países rompem com os padrões institucionais que os mantinham condenados à pobreza e conseguem enveredar por um caminho de crescimento econômico, não é porque seus líderes ignorantes de repente se tornaram mais bem informados ou menos egocêntricos, ou porque passaram a ser orientados por economistas melhores. A China, por exemplo, é um dos países que substituíram as políticas econômicas conducentes à pobreza e à fome de milhões por outras de estímulo ao crescimento econômico. Entretanto, como discutiremos adiante em maior profundidade, isso não se deu porque o Partido Comunista chinês finalmente compreendeu que a propriedade coletiva das terras agrícolas e da indústria constituíam péssimos incentivos econômicos. Assim, Deng Xiaoping e seus aliados, que não eram menos egocêntricos que seus adversários, mas tinham outros interesses e objetivos políticos, derrotaram seus poderosos oponentes no Partido Comunista e planejaram uma espécie de revolução política mudando radicalmente a liderança e a direção do partido. Suas reformas econômicas, que criaram incentivos de mercado à agricultura, e posteriormente à indústria, foram consequências dessa transformação política. Foi a política que determinou a passagem do comunismo para os incentivos de mercado na China, não orientações melhores ou um melhor entendimento do funcionamento da economia.

Defendemos que, para compreender as desigualdades do mundo, é preciso entender por que algumas sociedades são organizadas de maneiras muito ineficazes e socialmente indesejáveis. Os países, às vezes, conseguem adotar instituições eficientes e alcançar a prosperidade – mas, infelizmente, são casos raros. A maioria dos economistas e autoridades concentra-se em “acertar”, quando o que é de fato necessário é uma explicação de onde os países pobres estão “errando”. E “erram”, basicamente, não por uma questão de ignorância ou cultura. Como pretendemos mostrar, os países pobres são pobres porque os detentores do poder fazem escolhas que geram pobreza. Erram, não por equívoco ou ignorância, mas de propósito. Para entender melhor, o leitor terá de ir além da economia e das orientações dos especialistas acerca do melhor a fazer e, em vez disso, estudar como as decisões são efetivamente tomadas, quem são seus autores e por que eles decidem fazer o que fazem. Estamos no campo da política e dos processos políticos. A economia tradicionalmente ignora a política, mas compreendê-la é crucial para explicar as desigualdades do mundo. Como observou o economista Abba Lerner, na década de 1970, “a economia conquistou o título de Rainha das Ciências Sociais ao escolher como domínio problemas políticos já resolvidos”.

Defendemos que a conquista da prosperidade depende da resolução de certos problemas políticos básicos. É exatamente por partir do pressuposto de que os problemas políticos já foram solucionados que a economia torna-se incapaz de apresentar uma explicação convincente das desigualdades mundiais. Para explicá-las, a economia ainda terá de compreender como os diferentes tipos de políticas e acordos sociais afetam os incentivos e comportamentos econômicos. Mas, para tanto, precisará também da política.


Sobre o autor

Daron Acemoglu

é um economista turco, professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Autor do livro "Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty"

James Robinson

James A. Robinson, economista e cientista político, é titular da cátedra David Florence de Governo na Universidade de Harvard. Especialista de renome mundial em América Latina e África, já trabalhou em Botsuana, Maurício, Serra Leoa e África do Sul.



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