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Publicado em 21 de junho de 2012 | por Ludwig von Mises

Nacionalismo, Socialismo e Revolução Violenta

A doutrina marxista não nega a possibilidade da verdade absoluta, mas sustenta que a verdade absoluta só pode ser atingida numa sociedade sem classes. Ou numa sociedade de classe proletária.

A principal obra (1) de Lênin, ou pelo menos seu livro mais volumoso (agora disponível nas Obras Reunidas de Lênin [Collected Works of Lenin]), induziu algumas pessoas a chamá-lo de filósofo. A maioria das críticas de Lênin sobre as idéias dos seus adversários consiste em chamar-lhes de “burguês”. A filosofia de Lênin é somente uma reafirmação das idéias filosóficas de Marx; até certa medida não chega nem mesmo ao nível de outros escritores marxistas russos.

A teoria ou filosofia marxista não tiveram nenhum desenvolvimento em países onde existiam partidos comunistas. As pessoas a quem nós chamamos de marxistas consideram-se apenas intérpretes de Marx; eles nunca tentaram mudar qualquer coisa em Marx. No entanto, existem contradições em Marx. Portanto, é possível citar passagens de seus escritos a partir de todos os pontos de vista. A influência de Marx sobre todos os autores e escritores que viveram desde sua morte foi considerável, embora não seja normalmente admitido que estes autores foram influenciados por Marx.

Embora os marxistas se considerem os intérpretes exclusivos de Marx, um marxista, um escritor, acrescentou algo e teve uma forte influência, não só no pequeno grupo de seus seguidores, mas também em outros autores. Georges Sorel [1847-1922] — não deve ser confundido com Albert Sorel [1842-1906] — um importante historiador, desenvolveu uma filosofia diferente em muitos aspectos da filosofia marxiana. E influenciou a ação política e o pensamento filosófico. Sorel foi um tímido intelectual burguês, um engenheiro. Ele se aposentou para discutir estas coisas com seus amigos numa livraria cujo dono era Charles Péguy [1873-1914], um socialista revolucionário. No decurso dos anos, Péguy mudou suas opiniões e no final de sua vida ele foi um autor católico muito fervoroso. Péguy tinha sérios conflitos com sua família. Ele foi notável por sua interação com Sorel. Péguy era um homem de ação; ele morreu em 1914 entre as primeiras semanas da I Guerra Mundial.

Sorel pertenceu psicologicamente ao grupo de pessoas que sonham com ação, mas nunca agem; ele não lutou. Como escritor, entretanto, Sorel era muito agressivo. Ele elogiou a crueldade e lamentou o fato dela estar desaparecendo cada vez mais de nossa vida. Em um de seus livros, Reflexões sobre a Violência (Reflections on Violence), ele considerou ser uma manifestação de decadência o fato de os partidos marxistas, autoproclamados revolucionários, terem se degenerado em partidos parlamentares. Onde está a revolução se você está no Parlamento? Ele também não gostava dos sindicatos. Ele achava que os sindicatos deveriam abandonar a busca desesperada de taxas salariais mais elevadas e deveriam adotar, em vez deste padrão conservador, o processo revolucionário.

Sorel viu claramente a contradição no sistema de Marx que falou da revolução, por um lado, e, depois, disse: “A vinda de socialismo é inevitável, e você não pode acelerar sua vinda, porque o socialismo não pode vir antes das forças produtivas materiais alcançarem tudo o que é possível dentro do quadro da velha sociedade”. Sorel viu que esta idéia da inevitabilidade era contraditória com a idéia de revolução. É sobre esta contradição que todos os socialistas se questionaram — Kautsky, por exemplo. Sorel adotou completamente a ideia de revolução.

Sorel pediu dos sindicatos uma nova tática de ação direta – ataque, destruição, sabotagem. Ele considerou estas políticas agressivas como preliminares para o grande dia quando os sindicatos declarariam uma “greve geral”. Esse será o dia em que os sindicatos vão declarar “Agora não trabalharemos mais. Nós queremos destruir a vida da nação completamente”. Greve geral é só um sinônimo para a revolução viva. A ideia de ação direta é chamada “sindicalismo”.

Sindicalismo pode significar o controle da indústria pelos trabalhadores. Socialistas querem dizer por este termo o controle pelo estado e operação por conta das pessoas. Sorel pretendia atingir isto com a revolução. Ele não questionou a ideia que história conduz ao socialismo. Há um tipo de instinto que empurra os homens para socialismo, mas Sorel aceitou isto como superstição, um desejo interno que não pode ser analisado. Por esta razão sua filosofia tem sido comparada com a de Henri Bergson élan vital (mitos, contos de fadas, fábulas, lendas). Porém, na doutrina de Sorel, “mito” significa algo – uma declaração que não pode ser criticada através da razão.

1. O socialismo é um fim.
2. A greve geral é o grande meio.

A maioria dos escritos de Sorel datam de 1890 a 1910. Eles tiveram uma enorme influência no mundo, não apenas sobre os revolucionários socialistas, mas também nos monarquistas, partidários da restauração da House of Orange, a “Action française“, e em outros países a “Action nationale“. Mas todas estes partidos se tornaram gradualmente um pouco mais “civilizados” do que Sorel pensou que eles deveriam ser.

Foi a ideia do sindicalismo francês que influenciou o movimento mais importante do século XX. Lênin, Mussolini e Hitler foram todos influenciados por Sorel, pela ideia de ação, pela ideia de não falar, mas matar. A influência de Sorel sobre Mussolini e Lênin nunca foi questionada. Em relação a sua influência sobre o nazismo, veja o livro de Alfred Rosenberg (2) intitulado The Myth of the 20th Century [O Mito do Século XX]. A ideia fundamental do racismo foi emprestada dos franceses. O único homem que realmente contribuiu algo para as idéias marxistas foi Sorel, junto com um grupo de sindicalistas — um grupo comparativamente pequeno composto exclusivamente de intelectuais e até mesmo de ricos ociosos, como os ”penthouse Bolshevists” de Nova Iorque [Bolcheviques que se reuniam em apartamentos de luxo]. Eles repetiram mais uma vez que só os trabalhadores possuem bastante garra e suficiente consciência de classe, a fim de analisar e destruir o sistema burguês.

O centro da atividade marxiana deslocou da Alemanha para a França. A maior parte das obras marxistas está em francês. O trabalho de Sorel foi feito na França. Fora da Rússia, há mais marxistas na França que em qualquer outro país [N. do T. : Mises nunca esteve no Brasil]; porém, há mais discussão sobre comunismo na França do que na Rússia. A École Normale Supérieure em Paris foi um importante centro de ensinamentos marxistas. Lucien Herr [1864-1926], o bibliotecário, teve muita influência. Ele foi o pai de marxismo francês. Como os ex-alunos da École Normale Supérieure se tornaram mais e mais importantes, a escola espalhou o marxismo por toda a França.

De um modo geral, a mesma condição prevaleceu na maioria dos países europeus. Quando as universidades pareciam lentas para aceitar marxismo, escolas especiais eram encarregadas de educar as novas gerações na ortodoxia socialista. Este foi o objetivo da London School of Economics, uma instituição [socialista] Fabiana fundada por Sidney James Webbs. Mas não pode evitar a “invasão” por pessoas com outras idéias. Por exemplo, [Friedrich A.] Hayek [1899-1992] ensinou durante alguns anos na London School of Economics. Esta era a situação de todos os países; países europeus tinham universidades estatais. As pessoas geralmente ignoram o fato de que marxistas, não professores pró-mercado, foram designados pelo Czar nas universidades imperiais na Rússia. Estes professores foram chamados marxistas legais, ou melhor marxistas “leais”. Quando os bolcheviques chegaram ao poder na Rússia, não foi necessário demitir os professores.

Marx não viu nenhuma diferença entre as várias partes do mundo. Uma das suas doutrinas era que o capitalismo é uma fase no desenvolvimento do socialismo. A este respeito, existem algumas nações que estão mais atrasadas do que outras. Mas o capitalismo estava destruindo as barreiras comerciais e de migração que uma vez impediram a unificação do mundo. Por conseguinte, as diferenças na evolução dos diferentes países no que diz respeito à sua maturidade em direção ao socialismo irá desaparecer.

No Manifesto Comunista em 1848, Marx declarou que o capitalismo estava destruindo todas as peculiaridades nacionais e estava unificando em um sistema econômico todos os países do mundo. O baixo preço dos produtos foi o meio utilizado pelo capitalismo para destruir o nacionalismo. Mas em 1848, as pessoas comuns não sabiam nada da Ásia ou África. Marx estava menos informado do que os empresários ingleses que sabiam alguma coisa sobre as relações comerciais com a China e a Índia. A única atenção que Marx deu para este problema foi a sua nota, mais tarde publicado por Vera Zasulich, no sentido de que pode ser possível para um país pular a etapa capitalista e avançar diretamente ao socialismo. Marx não via nenhuma distinção entre as várias nações. O Capitalismo, o feudalismo, provocam o progressivo empobrecimento em todos lugares. Em todos lugares haverá economias maduras. E, quando a idade madura do capitalismo vier, o mundo todo alcançará o socialismo.

Marx não tinha a habilidade de aprender pela observação de acontecimentos políticos e da literatura política publicada em torno dele. Para ele praticamente nada mais existiu exceto os livros dos economistas clássicos, que ele encontrou na biblioteca do Museu Britânico, e as audições das Comissões Parlamentares Britânicas. Ele nem sequer viu o que estava acontecendo no seu próprio bairro. Ele não percebeu que muitas pessoas estavam lutando, não pelos interesses do proletariado, mas pelos princípios da nacionalidade.

Marx ignorou completamente o princípio da nacionalidade. O princípio da nacionalidade dizia que cada grupo lingüístico forma um estado independente e que todos os membros de um grupo dessa natureza devem ser reconhecidos e unificados. Este foi o princípio que provocou os conflitos europeus, conduzindo à destruição completa do sistema europeu e criou o caos atual na Europa. O princípio da nacionalidade não leva em conta que existem grandes territórios em que populações lingüísticas estão misturadas. Conseqüentemente, ocorreram lutas entre os diferentes grupos lingüísticos que finalmente levou à situação que temos hoje na Europa. Eu menciono isto porque este é um princípio de governo que era desconhecido até agora.

De acordo com este princípio não existe nenhuma nação tal como a Índia. É possível que este princípio da nacionalidade divida a Índia em muitos estados independentes que lutam um contra o outro. O Parlamento Indiano usa o idioma inglês. Os membros dos vários estados não podem se comunicar em outra língua, exceto na língua oficial do governo, um idioma que eles praticamente expeliram do país. Mas essa situação não irá durar eternamente.

Em 1848, quando os eslavos da Europa se encontraram para um Congresso Pan-eslavista em Moscou eles tiveram que falar entre si em Alemão. Mas isto não impediu uma evolução posterior de uma forma diferente.

Karl Marx e Engels não gostavam do movimento nacionalista e nunca tomaram conhecimento dele. Ele não se encaixava em seus planos ou programas. Se, por causa das observações hostis que Marx e Engels fizeram a vários grupos lingüísticos da Áustria-Hungria e dos Bálcãs, alguns autores, especialmente autores franceses, pensam que Marx foi o precursor do nacional-socialismo – nazismo – eles estão errados. Marx disse que ele desejava criar um governo mundial. Esta também era a idéia de Lênin.

Em 1848 Marx assumiu que o socialismo estava próximo. Levando em conta essa teoria, não havia qualquer razão para a constituição de um estado separado lingüisticamente. Um estado desse tipo só poderia ser temporário. Marx simplesmente presumiu que a era das nacionalidades havia chegado ao fim, e que nós estávamos na véspera de uma era em que não existiriam mais diferenças entre os vários tipos, classes, nações, grupos linguísticos, etc. Marx negou absolutamente qualquer diferença entre os homens. Os homens serão todos do mesmo tipo. Nunca houve qualquer resposta, em Marx, sobre o idioma que as pessoas no seu estado mundial usariam, ou de que nacionalidade o ditador seria.

Marx ficou furioso quando alguém disse que havia diferenças entre homens na mesma nação, na mesma cidade, na mesma filial de negócio, da mesma maneira todos os marxistas ficaram furiosos quando alguém lhes falou que havia diferenças entre os ingleses e os esquimós. De acordo com Marx, a única diferença era devido à instrução. Se um idiota e Dante recebessem a mesma educação, não haveria nenhuma diferença entre eles. Esta ideia influenciou os seguidores de Marx, e ainda é um dos princípios de base da instrução americana. Por que todo o mundo não é igualmente inteligente? Muitos marxistas assumem que na futura comunidade socialista as pessoas comuns serão iguais, em talentos, dons, inteligência, realizações artísticas, aos maiores homens do passado, como Trotsky, Aristóteles, Marx, e Goethe, apesar de ainda existirem pessoas mais talentosas.

Nunca ocorreu a Marx que, na melhor das hipóteses, à educação só pode transferir para o aluno o que o professor já sabe. No caso de Marx, não teria sido bastante para ele ter sido educado em uma escola por perfeitos professores Hegelianos porque tudo o que ele teria produzido teria sido novamente apenas Hegelianismo. Ao educar as pessoas no conhecimento da geração anterior aos automóveis, não teria sido possível produzir automóveis. Educação nunca pode provocar progresso como tal. O fato de que algumas pessoas, graças às suas posições, herança, à educação, e assim por diante, tem o dom de ir um passo mais longe do que gerações anteriores, não pode ser explicado simplesmente pela educação.

Da mesma forma, é impossível explicar as grandes coisas e os grandes atos de alguns homens simplesmente fazendo referência à sua filiação nacional. O problema é, por que estas pessoas eram diferentes de seus irmãos e irmãs? Marx simplesmente assumiu, sem qualquer razão, que agora estamos vivendo na era da globalização e que todos os traços nacionais irão desaparecer. Da mesma forma que ele assumiu que a especialização iria desaparecer, pois máquinas podem ser operadas por trabalhadores não qualificados, ele assumiu que não mais existiriam quaisquer diferenças entre as diversas partes do mundo e entre as várias nações. Todo tipo de conflito entre as nações foi interpretado como conseqüência das maquinações da burguesia. Por que os Franceses e os Alemães lutam? Por que eles lutaram em 1870? Porque as classes governantes da Prússia e as classes governantes de França quiseram lutar. Mas isto nada tinha a ver com os interesses das nações.

No que diz respeito à sua atitude para com a guerra, Marx foi, naturalmente, influenciado pela ideia dos liberais laissez-faire de Manchester. Ao utilizar o termo “liberalismo de Manchester” sempre como um insulto, temos a tendência a esquecer o essencial da famosa declaração do Congresso de Manchester onde o termo foi originado. Foi dito que no mundo do livre comércio já não haverá qualquer razão para as nações lutarem entre si. Se existe liberdade de comércio e cada nação pode desfrutar dos produtos de todas as outras nações, a mais importante causa da guerra desaparece. Os príncipes estão interessados em aumentar o tamanho territorial de suas províncias para adquirir maior renda e poder, mas as nações, como tais, não estão interessadas, porque não faz qualquer diferença em condições de livre comércio. E, na ausência de barreiras de imigração não importa para o cidadão se o seu país é grande ou pequeno. Por isso, de acordo com os liberais de Manchester, a guerra vai desaparecer sob o regime democrático popular. O povo não vai, então, ser a favor da guerra porque eles não têm nada a ganhar — eles apenas têm de pagar e morrer na guerra.

Foi esta ideia que estava na mente do Presidente [Woodrow] Wilson [1856-1924] quando ele foi para a guerra contra a Alemanha. O que Presidente Wilson não viu era que tudo isso sobre a inutilidade da guerra só é verdade apenas num mundo onde há livre comércio entre as nações. Isso não é verdade num mundo intervencionista.

O Sr. Norman Angel [1872-1967] ainda argumenta neste mesmo sentido. O que os Alemães ganharam em 1870? Isto era quase verdade naquela época, porque relativamente havia livre comércio. Mas hoje a situação é diferente. As próprias políticas da Itália tornaram isto impossível para os italianos, no mundo do intervencionismo, obter as matérias-primas que necessitavam. Não é verdade no mundo intervencionista de hoje que o indivíduo não ganha qualquer coisa da guerra.

A Liga das Nações é um dos grandes fracassos na história mundial, e houve muitas falhas na história do mundo. Durante os 20 anos da Liga os obstáculos comerciais foram cada vez mais intensificados. As tarifas se tornaram irrelevantes como barreiras comerciais porque embargos foram estabelecidos.

Os liberais afirmaram que a guerra já não era mais vantajosa economicamente porque as pessoas não iriam ganhar nada com ela, portanto, uma nação democrática não será mais ansiosa por guerras. Marx assumiu que isto era verdade mesmo no mundo intervencionista que estava se desenvolvendo diante de seus próprios olhos. Este foi um dos erros fundamentais do marxismo. Marx não era um pacifista. Ele não disse guerra era má. Ele somente disse — porque assim o disseram os liberais — que a guerra entre as nações não tinha importância ou significado algum.

Ele disse que a guerra – i.e., revolução, pela qual ele quis dizer guerra civil – era necessária. Friedrich Engels também não foi um pacifista; ele estudava ciência militar todos os dias, a fim de preparar-se para a posição que ele próprio tinha se atribuído, como comandante-em-chefe de todas as nações, como comandante-em-chefe dos proletários de todos os países unidos. Lembre-se que ele participou da caça à raposa num casaco vermelho, que era, disse ele a Marx, o melhor exercício para um futuro general.

Devido a esta ideia de revolução – a guerra civil, não guerra internacional – a Internacional Marxista começou a discutir a paz. Em 1864 Marx fundou a Primeira Internacional em Londres. Um grupo de pessoas que pouco tinha a ver com o povo e as massas se reuniram. Havia um secretário para cada país. O secretário para a Itália foi Friedrich Engels e muitos outros países foram representados por pessoas que apenas conheciam os países que estavam representando como turistas. Disputas entre os membros desorganizaram toda a Internacional. Finalmente ela foi transferida para os Estados Unidos e, em seguida, fechou em 1876.

A Segunda Internacional foi criada em Paris em 1869. Mas esta Segunda Internacional não sabia com o que lidar. Os sindicatos tinham surgido e se opuseram ao livre comércio e à livre migração. Sob essas condições, como você pode encontrar assuntos a serem discutidos em um congresso internacional? Então eles decidiram discutir a paz e a guerra, mas apenas a nível nacional. Eles disseram que eram todos proletários e acordaram que nunca iriam lutar as guerras da burguesia. Entre os alemães estavam Engels e Karl Kautsky. Alguns “maus” franceses no grupo perguntaram, “O que você quer dizer quando afirma que não podemos defender o nosso próprio país? Nós não gostamos do Hohenzollerns”. Os franceses naquela época fizeram um acordo com os russos e os alemães não gostaram disso. Ao passar dos anos ocorreram alguns desses congressos internacionais e cada vez os jornais afirmavam que o congresso havia anunciado o fim da guerra. Mas estes “bons companheiros” não discutiam as verdadeiras causas de atrito, a barreiras contra a migração, etc. A eclosão da Primeira Guerra Mundial rompeu o Congresso Internacional.

O que Marx planejou foi uma revolução. Mas o que realmente aconteceu foi que ele criou uma organização burocrática nos países europeus que eram, em geral, inocentes, porque não tinham poder para executar suas teorias. Então lá no Leste se desenvolveu uma organização comunista que infelizmente tem o poder para executar as pessoas e ameaçar o mundo inteiro. E tudo isto começou na sala de leitura do Museu Britânico de Londres por um homem, que não foi a este respeito um homem de ação, mas que tinha a capacidade de provocar ações violentas. Foram tímidos personagens burgueses, Karl Marx e Georges Sorel, que criaram todo essa destruição. A maior parte das idéias violentas dos nossos tempos têm vindo de homens que não teriam sido capazes de resistir a qualquer agressão.

Wilson aceitou a doutrina dos Liberais de Manchester, a saber que, considerando-se a importância da guerra, democracias não gostam de lutar guerras; Mas Wilson não viu que isso era verdade apenas num mundo de livre comércio. Ele não viu que isto já era bastante diferente na época em que ele vivia, que foi uma era de intervencionismo. Ele não percebeu que uma enorme mudança nas políticas econômicas tinha privado esta teoria dos Liberais de Manchester de sua praticabilidade. Barreiras comerciais eram comparativamente inofensivas em 1914. Mas elas pioraram muito durante os anos da Liga de Nações. Enquanto os comerciantes estavam se reunindo com a Liga em Genebra e falando sobre a redução das barreiras comerciais, as pessoas nos seus países estavam tratando de aumentá-las. Em 1933, houve uma reunião em Londres para levar a cooperação entre as nações. E precisamente neste momento o país mais rico, os Estados Unidos, anulou a coisa inteira com regulamentos monetários e financeiros. Depois disto o aparato inteiro era absolutamente inútil.

A teoria da vantagem comparativa de Ricardo afirma que é vantajoso para uma nação ter o comércio livre mesmo se todas as nações restantes se agarrem a suas barreiras comerciais. Se os Estados Unidos adotasse hoje sozinho o comércio livre, haveria algumas mudanças. Mas se todos os outros países se agarrarem ao protecionismo com barreiras de importação, não seria possível para os Estados Unidos comprar mercadorias provenientes de outros países.

Não há isolacionismos somente neste país; há também isolacionismos em outros países.

As importações devem ser pagas por exportações e as exportações não possuem nenhum outro propósito que pagar por importações.

Assim, o estabelecimento do livre comércio pela mais rica e poderosa nação não iria alterar a situação para os italianos, por exemplo, se fossem mantidas suas barreiras comerciais. Não faria qualquer diferença para os outros países também. O livre comércio é vantajoso para qualquer país, mesmo se todos os outros países não fazem, mas o problema é remover as barreiras dos outros países.

O termo “socialismo”, quando ele era novo na segunda parte dos anos 1830, significava exatamente a mesma coisa que “comunismo” – ou seja, a nacionalização dos meios de produção. “Comunismo” era no princípio o termo mais popular. Lentamente o termo “comunismo” caiu no esquecimento e o termo “socialismo” entrou em uso quase que exclusivamente.

Partidos socialistas e partidos social-democratas foram formados e o dogma fundamental deles era o Manifesto Comunista. Em 1918, Lênin precisava de um novo termo para distinguir o seu grupo de socialistas daqueles grupos que qualificou de “traidores sociais”. Então, ele deu ao termo “comunismo” um novo significado; ele o usou para referir, não a meta final de socialismo e do comunismo, mas apenas os meios táticos para os atingir. Até Stálin, comunista significava simplesmente um método melhor – o método revolucionário – contra o pacífico, socialista, contra o método dos “socialistas traidores”. No final da década de 1920, sem grande sucesso, Stálin, na Terceira Internacional, tentou dar um significado diferente ao termo “comunismo”. Contudo, a Rússia continua a ser denominada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em uma carta, Karl Marx distinguiu entre duas fases do socialismo – a mais baixa fase preliminar e a fase mais elevada. Mas Marx não dava nomes diferentes para estas duas etapas. Na fase mais elevada, disse ele, haverá uma tal abundância de tudo que será possível estabelecer o princípio “para cada um, de acordo com suas necessidades”. Stálin fez uma distinção porque os críticos estrangeiros notaram diferenças nos padrões de vida de vários membros dos Sovietes Russos. No final da década de 1920 ele declarou que o estágio mais baixo era o “socialismo” e a fase mais avançada era o “comunismo”. A diferença era que no estágio socialista haveria desigualdade nas rações dos vários membros dos sovietes russos; a igualdade será atingida apenas mais tarde, no estágio comunista.

Notas

[1] [V.I. Lenin, Materialism and Empirio-criticism: Critical Comments on a Reactionary Philosophy(Moscow: Zveno Publishers, 1909). Ed.]

[2] [Rosenberg [1893-1946] foi um ideólogo nazista condenado a morte por crimes de Guerra em Nuremberg em 1 de Outubro de 1946. Ele foi executado em 16 de Outubro de 1946. Ed.]


Sobre o autor

Ludwig von Mises

Mises é talvez o maior filósofo da Economia de todos os tempos. Um dos luminares do moderno Libertarianismo, e precursor da Escola Austríaca de Economia, a história deste autor é uma constante fonte de inspiração para os liberais do mundo.



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