Cultura & Humor mundos virtuais economia real

Publicado em 24 de junho de 2014 | por Matthew McCaffrey

Mundos virtuais, economia real

Videogames estão a cada dia mais assumindo um papel importante na cultura popular. Se você joga ou acredita que é uma arte, os jogos, sem dúvida, continuarão a ser um componente fundamental da indústria de entretenimento. Mais importante, as ideias libertárias parecem estar aparecendo com força no mundo dos jogos. Estão crescendo, por exemplo, as críticas aos governos e existe uma nova ênfase na relevância da liberdade de expressão e ação.

Para citar dois exemplos, Bioshock Infinite critica o militarismo e o nacionalismo agressivo, enquanto que Assassin’s Creed 4: Black Flag é, em grande parte, uma celebração à anarquia dos piratas. Jogadores mais astutos podem até notar que um animador do jogo Gears of War 3 coloca o lema de Mises, Tu ne cede malis (“Não ceda o mal, mas o combata de forma mais corajosa”) nos créditos do jogo.

São boas notícias não somente para as ideias libertarias em geral, mas também para a educação econômica. A cultura dos jogos é uma nova e vibrante arena onde as boas ideias econômicas têm uma chance real de se firmarem. Já existe debate sobre como as “economias internas” dos jogos emergem e evoluem – particularmente, como lidam com a moeda e a inflação. No entanto, os jogos incorporam a economia em níveis ainda mais básicos. Realmente, os jogadores já estão ajudando a forma econômica de pensar sem mesmo se darem conta. Os jogos são compostos de diversos conceitos econômicos básicos: escassez, escolha, trade-offs, custo de oportunidade, comércio e empreendedorismo. Se pensarmos nos jogos por essa perspectiva, vemos como suas realidades virtuais imitam decisões econômicas do mundo real.

Por exemplo, essencialmente todos os recursos no mundo dos jogos são escassos – daí o grande desafio. Se os recursos ou pontos de experiência fossem ilimitados, não haveria muitas razões para jogar. Mas como os jogadores rotineiramente encaram esses tipos de escassez, eles já estão familiarizados com as limitações que elas impõem e tomaram os primeiros passos em direção ao conhecimento econômico. Escassez significa fazer escolhas e, nesse sentido, os jogos estão inovando muito. Sem dúvida, o aumento do valor agregado dos produtos na indústria de jogos aumentou a qualidade imersiva da jogabilidade. Contudo, são as simulações econômicas que tornam a experiência tão real. Considere jogos como The Walking Dead, o que leva a escassez ao extremo utilizando o apocalipse zumbi como pano de fundo. Em vez do combate, o jogo The Walking Dead se foca em decisões econômicas difíceis: como racionar víveres entre os sobreviventes. Os jogadores ficam emocionalmente envolvidos na história, confrontando a escassez e as escolhas difíceis que têm de ser feitas no decorrer do caminho. As decisões dos jogadores, por sua vez, implicam em trade-offs e custos de oportunidade. Qualquer pessoa que já jogou um RPG conhece bem essa questão; a escolha de alocar dinheiro ou experiência a uma determinada habilidade significa renegar outras. E é um passo até perceber que o verdadeiro custo das habilidades não são os recursos que você gasta para obtê-los, mas as habilidades alternativas que você poderia ter adquirido.

Como cada jogador possui custos de oportunidade diferentes, não são todos igualmente adequados para as mesmas tarefas: entra a importância da especialização e da cooperação social. A cooperação em grande escala está presente de forma massiva em diversos RPG online multiplayer como World of Warcraft e EVE Online, onde as missões mais importantes podem somente ser completadas se um grande número de tipos de personagens diferentes trabalharem juntos. Cada membro do time se especializa em aumentar as forças ou compensar as fraquezas dos outros, produzindo redes complexas de interdependência.

O comércio é outra forma vital de cooperação social, e por meio das interações de centena de milhares (se não milhões) de jogadores, os MMORPGs rapidamente desenvolvem sistemas complexos de escambo e trocas monetárias. O momento de aprendizado acontece quando os jogadores experimentam os benefícios da divisão do trabalho; até melhor, os benefícios da especialização e do comércio são mais óbvios do que em trocas normais de mercado, onde a lógica econômica pode parecer muito abstrata.

Por fim, a arte de jogo mostra o melhor do espírito empresarial. Ser um jogador engloba a construção e o controle de mundos virtuais, concomitantemente ao aprendizado sobre como pensar de forma criativa e superar obstáculos. Os empreendedores fazem o mesmo quando controlam recursos produtivos na busca constante de satisfação dos consumidores. Não é de se admirar que a indústria de jogos esteja crescendo e inovando de formas similares ao Vale do Silício e outros pontos focais de energia empresarial; os dois andam de mãos dadas.

A ideia de que as convenções da indústria de jogos são um reflexo dos princípios econômicos é somente um exemplo das muitas oportunidades para o ensino econômico apresentado pelo apelo dos jogos às massas. Vamos ver muito mais com o crescimento da indústria, então temos que estar prontos para mostrar aos jogadores que a experiência do jogo não gera somente diversão, mas também conhecimento econômico.

// Tradução Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Sobre o autor

Matthew McCaffrey

Matthew McCaffrey ensina economia como associado pós-doutor no Departamento de Liberal Studies na University of Illinois em Springfield, e também é editor do Libertarian Papers



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