Economia O mistério do cotidiano

Publicado em 3 de julho de 2014 | por Peter Boettke

O mistério do cotidiano

O mundo é repleto de maravilhas, do FaceTime até as viagens aéreas. Mas a ação real está no mundano – aquelas coisas cotidianas que tomamos por certo. A economia, e a forma econômica de pensar são indispensáveis para aprendermos como ver o mistério do cotidiano. E quando conseguimos, é inspirador.

Esse é um dos principais insights do livro The Economic Way of Thinking de Paul Heyne, no qual tenho confiado por mais de 25 anos (e do qual, junto a David Prychitko, tenho sido coautor por mais de uma década). Juntamente com outra regra – não ensine demais os princípios – já que podemos mostrar a outrem como a economia faz parte do dia a dia, e não somente da sala de aula.

Não ensine demais os princípios

A primeira regra de Heyne era essa: “Ensine os princípios da economia aos seus alunos como se fosse a última vez que eles fossem cursar economia, e será a primeira de muitas”. Em outras palavras, não há nenhuma razão em ensinar economia básica com ênfase nas ferramentas de raciocínio econômico, tais como fórmulas matemáticas, gráficos e relações estatísticas. Em vez disso, você quer despertar a curiosidade do seu público através dos insights que um indivíduo pode adquirir através da aplicação consistente e persistente a forma econômica de pensar aos enigmas e problemas que confrontam no seu dia a dia.

Devemos mostrar aos nossos alunos – ou com quem falarmos sobre economia – como os princípios da economia fazem sentido no meio da confusão generalizada que constitui a economia moderna. E devemos mostrar como entender e corrigir as afirmações diárias que leem nos jornais e ouvem das figuras políticas, formadores de opinião e intelectuais que comentam assuntos econômicos. Nosso trabalho como mestre é ajudar os estudantes a filtrar as bobagens ditas e começar a entender o mundo ao seu redor. Portanto, temos que equipá-los com as lentes corretas.

O mistério do cotidiano

A segunda regra de Paul, “permita a você e seus alunos serem surpreendidos pelo mistério do cotidiano”.

Como dizemos na página 1: “Quando consideramos algo como dado há muito tempo, é difícil até perceber com o que nos acostumamos. É por isso que raramente notamos a existência da ordem na sociedade e não podemos identificar os processos de coordenação social dos quais dependemos todos os dias”.  Não foque exclusivamente no milagre das coisas exóticas ou peculiares, por exemplo, como podemos utilizar o FaceTime com nossa família estando do outro lado do mundo, o que permite que um avião voe, ou porque Miley Cyrus fez aquilo. Em vez disso, reconheça e se surpreenda pelas façanhas da cooperação social da qual você participa e se beneficia diariamente. Pense no como, o que, porque dos sapatos nos seus pés, o boné na sua cabeça, o carro que você dirige, o smartphone com o qual você pode estar lendo essas palavras.

Adam Smith, na tentativa de persuadir seus leitores a apreciar o mistério do cotidiano, aprofundou as diversas especializações na produção, as relações de troca que devem ser estabelecidas, e os ajustes mútuos que devem ser feitos de forma contínua para oferecer o casaco de lã ao cidadão comum.

Recentemente, o fundador da FEE, Leonardo Read, usou o exemplo do lápis Nº2 para transmitir a mesma ideia que foi exposta por Adam Smith e a produção do casaco de lã. Milton Friedman usou o lápis Nº2 do exemplo de Read para explicar o poder do mercado na coordenação dos assuntos econômicos, em contraste à tirania dos controles governamentais que fracassaram em produzir tal ordem.

F.A. Hayek usou o exemplo da orientação do mercado no que se refere ao uso do estanho na produção e no consumo. Hayek queria mostrar a habilidade do sistema de preços oferecer a informação e os incentivos para os agentes econômicos que devem ajustar seu comportamento entre si até que os ganhos mútuos do comércio tenham se tornado realidade.

Adam Smith destacou no livro A Riqueza das Nações que todo homem vive pela troca. A coordenação exitosa da atividade econômica na sociedade, onde todos vivem através da especialização e da troca, é um fenômeno extraordinariamente complexo. A metáfora da “mão invisível” para a economia de mercado – com sua propriedade privada, preços relativos, a recompensa do lucro (sem mencionar a penalização do prejuízo) – é proposta com o objetivo de capturar a maravilha dessa coordenação complexa. A cooperação social ocorre por meio de um ajuste mútuo constante. Uma vez que apreciamos esse fato, é fácil para nós perdermos a nossa reverência por esse milagre. Hayek referiu-se às “maravilhas do mercado” para tentar despertar os seus leitores de sua complacência intelectual.

Economia “fora da janela”

Então, enquanto estiveres estudando economia esse ano como professor, estudante ou leitor casual, deixe de lado os livros e anotações e olhe para fora da janela. Dirija por aí. Escolha qualquer bem ou serviço e detalhe todas as relações de troca que devem ter sido formadas de forma a permitir que um bem ou serviço estivesse disponível para você. De cortar grama até fazer milk-shakes, as maravilhas do mercado são visíveis a todos. Se você se permitir, enquanto estuda a economia, abrir-se ao mistério do cotidiano, então os ensinamentos da economia serão mais facilmente absorvidos e apreciados.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Peter Boettke

Peter Boettke é um economista americano da Escola Austríaca de Economia. Foi professor universitário em Oakland University, Manhattan College e New York University. Autor das obras "The Political Economy of Soviet Socialism", "Why Perestroika Failed", "Calculation and Coordination" e "The Economic Way of Thinking".



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