Religião Anarquismo Cristão

Publicado em 16 de janeiro de 2015 | por Mark W. Hendrickson

Mises e a Bíblia

Uma das grandes conquistas intelectuais do economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973) foi o desenvolvimento de uma ciência compreensiva da ação humana, chamada “praxeologia”. Uma das principais conclusões retiradas da praxeologia é que o livre mercado resultará em maior prosperidade que uma economia planificada – uma posição que naturalmente torna a economia misesiana popular entre os conservadores. Ao mesmo tempo, um aspecto da praxeologia frequentemente se impõe como uma grande barreira aos conservadores de convicções religiosas profundas. Eles ficaram perplexos e deslocados pela insistência de Mises de que, na praxeologia, ele tinha desenvolvido uma ciência econômica livre de valores.

Praxeologia e a Bíblia

O argumento diz que o homem é um ser moral. Portanto, o comportamento econômico do homem – suas escolhas internas e consequentes ações externas – inevitavelmente envolvem a questão de certo e errado – isto é, valores morais e éticos. Por essa perspectiva, no mínimo, a praxeologia parece a esses indivíduos contraintuitiva ou irrealista, intrinsecamente falha se não totalmente falaciosa, e talvez até mesmo escandalosa. Existe somente um problema com essa linha de pensamento: é um erro baseado em um non sequitur. Mises pressupor a ciência econômica como livre de valores, não significa que ele acredita que o comportamento econômico do homem é destituído de conteúdo moral.  

O princípio básico da praxeologia é que os humanos fazem escolhas, e aquelas escolhas resultam do fato inevitável que os humanos escolhem o que valorizam mais em detrimento do que valorizam menos. É assim que os humanos agem, uma questão tão empírica quanto à circulação do sangue no corpo. A razão pela qual os humanos fazem as escolhas que fazem é uma questão separada. Por que a pessoa valoriza o que valoriza, e se suas escolhas são moralmente boas ou más – essas são questões extremamente importantes, mas são a base da religião, psicologia, e talvez mesmo da biologia, não da economia.

A escola clássica do pensamento econômico – os economistas de livre mercado cujos modelos teóricos dominaram o mundo anglófono da publicação de A Riqueza das Nações de Adam Smith em 1776 até a revolução neoclássica da década de 1870 – foi acusada de tentar separar o comportamento econômico da moral.

Esse erro foi consagrado na reificação do homo economics. “Homem econômico” foi um artifício ou conceito teórico pelo qual os economistas clássicos procuraram separar o comportamento econômico do homem do resto do seu ser – frequentemente, com resultados ridículos, como você pode imaginar. A praxeologia misesiana, em vez de perpetuar o erro, corrigiu-o. Mises abandonou os esforços convolutos de simular, pelo bem da análise econômica, que os humanos eram seres frios, calculistas, desalmados e maximizadores de lucro. Em vez disso, ele prontamente admitiu que os humanos são seres complexos cujo comportamento econômico é composto e influenciado para combinação única e mutável de diversas motivações religiosas, psicológicas e biológicas (seus valores, objetivos, percepções, desejos e assim por diante) competindo pela supremacia dentro do indivíduo enquanto ele é confrontado por um conjunto particular de circunstâncias em certo momento do tempo. Mises enfaticamente considerou como fútil e impossível qualquer tentativa de separar a ação econômica da totalidade do indivíduo.

Na consciência humana individual, os valores econômicos e os valores éticos coexistem e frequentemente interagem uns com os outros. A praxeologia reconhece tal realidade, assim como a Bíblia. Tanto Mises como a Bíblia têm muito a dizer sobre a ação humana, mas a economia misesiana foca nos aspectos descritivos da ação humana, enquanto a orientação da Bíblia é mais prescritiva. Isso não quer dizer, todavia, que Mises ignora o impacto dos valores éticos no comportamento humano, nem que a Bíblia se omite nos aspectos descritivos (isentos de valor) da ação humana. Na verdade, a Bíblia concede um respaldo considerável à praxeologia misesiana.

O descritivo e o prescritivo

Na Bíblia, assim como na vida, o descritivo e o prescritivo estão presentes. Naturalmente, o prescritivo tende a ser mais explícito (acima de tudo, o propósito da Palavra de Deus é oferecer orientação sobre como viver uma vida boa nesse mundo, e como alcançar a salvação). O descritivo, por outro lado, é frequentemente implícito – isto é, é tratada nas escrituras de uma maneira prática como a estrutura moralmente neutra contra o qual o drama da vida humana – batalha eterna entre o bem e o mal – ocorre. Por exemplo, o fato de que a lei da gravidade puxa as coisas para baixo não é bom ou mau; é simplesmente a forma como o mundo normalmente funciona. [Eu enfatizo “normalmente”, já que o caminhar pelas águas (Mt 14:25*32), e Eliseu fazendo o ferro flutuar (2Re 6:1-7), indicam que a gravidade, como outras leis naturais do mundo físico, não são imutáveis ou eternas (mas temporais), as quais podem, em qualquer momento, serem suplantadas por uma lei divina e espiritual].

A Bíblia deixa claro que o mesmo aspecto da vida humana pode ter tanto um contexto livre como repleto de valores. Veja a sexualidade humana, por exemplo: que a procriação humana pode resultar da relação sexual é a afirmação de um fato, não um julgamento de valor. É simplesmente o reconhecimento de uma lei natural (novamente, uma lei temporal, como a Imaculada Conceição provou). Uma questão totalmente separada é a questão imbuída de valores de quando a relação sexual é moral.

Da mesma forma, a Bíblia trata dos fenômenos econômicos de ambas as formas. O ponto de partida lógico na discussão sobre o tratamento dualístico dos conceitos econômicos na Bíblia é o ponto de partida da economia misesiana – a premissa fundamental que o indivíduo faz escolhas motivadas pelo desejo de aumentar sua felicidade (ou, pelo menos, diminuir o seu “mal-estar”, como Mises, de alguma forma negativa, fraseou). A partir desse axioma, Mises desenvolveu o que ele denominou “economia em um sentido amplo” na sua importante obra, Socialism, publicada em 1922 – um conceito que se transformou em algo menos pesado – praxeologia - no momento da publicação de sua obra-prima, Ação Humana, em 1949.  Quando a Bíblia trata desse mesmo conceito, ela utiliza uma palavra simples e comum no vocabulário contemporâneo da economia: lucro. É claro, quando a Bíblia menciona “lucro”, ela frequentemente inclui bons conselhos sobre quais objetivos são dignos do esforço do homem e quais desejos o deixarão vazio, insatisfeito e afastado de Deus; todavia, o claro sentido da Bíblia é que o impulso para melhorar o sentimento individual de bem-estar não é inerentemente bom ou mau, mas simplesmente uma característica dos seres humanos. O Próprio Mestre reconhece a faculdade de planejamento econômico racional da pessoa humana nessa passagem, “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar?” (Lucas 14:28)

Cataláxia e a Bíblia

Similar ao paralelo entre a “praxeologia” de Mises e o “lucro” da Bíblia é a marcante congruência entre o que Mises chamou de “economia em sentido estrito” na obra Socialismo e a “cataláxia” – a ciência da troca dentro de um sistema monetário, o que a maioria das pessoas considera “economia” – na obra Ação Humana, e o uso bíblico da palavra ganho. (Note que tanto na Bíblia como na Ação Humana, o leitor encontrará alguma sobreposição entre os conceitos de lucro e ganho, praxeologia e cataláxia). Realmente, a equivalência entre a terminologia misesiana e a bíblica é, às vezes, tão excepcional que uma pessoa poderia ser desculpada por pensar que Mises pudesse ter tomado emprestado o paradigma da praxeologia/cataláxico das Escrituras. Todavia, você pode ter certeza que não o fez, pois Ludwig von Mises foi um homem e um estudioso de honra e integridade irrepreensíveis, que nunca teria “tomado emprestado” uma ideia importante sem dar o crédito devido, como é atestado pelo uso meticuloso das notas de rodapé em seus livros.

A abordagem dualística da Bíblia aos conceitos econômicos – tratando-os no sentido descritivo misesiano (ausente de valor) como distinto do contexto prescritivo, carregada de valor – também acontece com respeito ao “preço”. Os teólogos cristãos em particular tem debatido sobre o conceito de “preço justo” pelo menos desde os tempos de Tomás de Aquino. O problema dessa busca é que, conforme a Bíblia, você vê que os preços são, em geral, justos ou injustos, mas moralmente neutros, sendo determinados pela interação entre oferta e demanda. O exemplo mais claro disso na Bíblia é o cerco sírio de Samaria. Depois que todas as fontes de oferta foram cortadas, os preços subiram demasiadamente, já que a escassez extrema aumentou muito a utilidade marginal dos bens econômicos remanescentes. Quando a intervenção divina fez com que os sírios abandonassem todos os seus pertences e fugirem, quatro leprosos encontraram o campo deserto. Eles então notificaram a cidade sitiada, cujos ocupantes logo se apossaram dos bens abandonados. Naturalmente, os preços prontamente voltaram ao normal, pois o equilíbrio entre oferta e demanda foi restaurado (Veja 2Reis 6:24-7:18).

O fenômeno da lei natural, isento de valores – preço – que tende a equilibrar a oferta e a demanda de nenhuma forma implica que os valores morais de um indivíduo – o que para ele é certo ou errado – nunca afetarão o preço que uma pessoa cobra ou paga. Abraão e o Rei Davi, cada qual recebeu ofertas generosas de presentes – Abraão, um local para servir de mausoléu para Sara, e Davi, um pedaço de terra e as ferramentas necessárias para construir um altar para fazer oferendas ao seu Deus (veja Gn. 23 e 1 Crônicas 21:18-26). Ambos decidiram que não era correto aproveitar-se da sua posição hierárquica para obter vantagens. Ambos insistiram em pagar o preço que para eles parecia justo, o qual, em cada instância, parece ter sido o preço de mercado – “dinheiro que parece valer” nas palavras de Abraão, e “o preço total” nas palavras de Davi. Esses grandes homens de Deus claramente não se comportaram como o homo economicus – mas sim como homo agens (praxeologia).

Outro exemplo de um fenômeno econômico que pode ser isento ou carregado de valor é a “taxa de juros”. Historicamente, a cristandade tem se debatido com a questão da moralidade ou imoralidade da taxa de juros. Hoje, a taxa de juros é ainda proibida em alguns países árabes. Interessantemente, na única vez que o Salvador mencionou a questão foi em uma parábola na qual os dois diligentes servos foram elogiados pelo senhor que voltava de viagem por terem aumentado o valor dos recursos que lhes tinha confiado, e o servo tímido foi censurado por não ter nem mesmo colocado o dinheiro a ele confiado em um banco onde, pelo menos, teria rendido a “usura” (Lc 19:23)

Aqui está um reconhecimento explícito do fato que existe um valor temporal ao dinheiro – isto é, que um dólar normalmente vale muito mais hoje que no ano seguinte; por isso, os tomadores de dinheiro estão dispostos a oferecer um prêmio futuro pelo uso do dólar no dia de hoje. Tal como os preços determinados pela oferta e demanda, esse é um fenômeno moralmente neutro. O Antigo Testamento não bane a usura completamente, mas somente em aplicações específicas, tais como quando Neemias repreende os judeus por usar seus filhos como garantia – assim, de forma profana, valorizando a vida humana (ou, pelo menos, as vidas do povo escolhido por Deus) menos que a cobiça (Neemias 5:1-10).

A lei espiritual supera a lei natural

Eu espero ter demonstrado que a Bíblia, em vez de refutar a noção de uma economia isenta de valor, na verdade corrobora a sua existência. O tratamento bíblico da economia do direito natural, isto é, a praxeologia, é esparsa – detalhes ocasionais no cenário mundano do grande drama do contato e redenção divina dos seres humanos – contudo evidentemente presente. Enquanto a Bíblia brevemente registra incidentes que ilustram o fenômeno econômico da lei natural, os escritos de Mises amplamente os elucidam. Mises, e não a Bíblia é o expositor das leis naturais da economia.

Apresso-me em adicionar que isso não significa que Mises nos deu a palavra final sobre a economia, pois a lei natural nunca será a lei suprema. A Bíblia claramente nos mostra que a lei espiritual supera a lei natural na economia assim como o faz na física e na biologia. A Bíblia claramente indica a existência de leis superiores da economia em episódios tais como o aparecimento súbito de água a Agar e Ismael (Gên. 21:14-19); o sustento dos refugiados hebreus por maná, codornizes e água que brotava da terra (Ex. 16:11-18 e 17:5,6); o estoque de óleo inexaurível da viúva (2 Reis 4:1-7); o alimento (suficiente para saciar e ainda sobrar) um número maior de pessoas que poderiam normalmente serem alimentadas pelo que parecia ao sentido humano como uma quantidade de alimento totalmente inadequada (2 Reis 4:42-44; Marcos 8:1-21). Mises silenciou sobre as leis espirituais e divinas da economia que são manifestadas na Bíblia – as leis que demonstram que, para os que olham para o céu – não há escassez; que o bem está sempre presente, que a oferta é sempre mais que suficiente para atender a demanda legítima; que um Deus de amor infinito pode conceder nada menos que evidências abundantes do Seu amor para o homem que nele crê.

Moisés, Mises e a propriedade privada

Existe outro esclarecimento do fenômeno econômico sobre o qual Mises e a Bíblia falam, e este é a política econômica. Quando o fenômeno econômico se volta mais ao campo do normativo – nas questões políticas como tributação, política pública sobre a dívida, redistribuição de riqueza, trabalho social vs assistência social – então a Bíblia necessariamente ofusca Mises como maior autoridade. Mises tem muito a contribuir para o entendimento das implicações econômicas de tais políticas, mas a Bíblia, para aqueles de nós que a aceitam como guia para o certo e o errado, deve ser a fonte principal da qual derivar os valores morais que são codificados na legislação humana.

É significativo, todavia, que exista uma questão político-ética confrontando todas as sociedades que ambos Mises e Bíblia insistem que é de importância fundamental, e sobre os quais estão de comum e total acordo: o princípio da propriedade privada. Moisés e Mises trataram da questão por diferentes ângulos. Moisés repetiu o ensinamento moral fundamental da lei revelada por Deus “não roubarás” à humanidade. Mises demonstrou com uma lógica irrefutável que se uma sociedade deseja a prosperidade, então a única escolha racional é que o governo honre e proteja os direitos de propriedade dos indivíduos.

Mises esperava que a racionalidade pudesse alcançar o que o profeta não conseguiu: fazer com que, eventualmente, toda a humanidade concordasse com a superioridade da propriedade privada. Mises baseou tal esperança no fato que virtualmente todos os homens têm a faculdade da razão, considerando que homens racionais frequentemente discordam sobre a autoridade de um profeta particular e a autoridade subsequente de sua mensagem. Minha suspeita – que somente o futuro confirmará ou negará – é que a esperança de Mises é em vão. Eu digo isso por duas razões: primeiro, eu acredito que somente Deus – e não a razão humana – é capaz de vencer o pecado que vai em contra o desejo de Deus; segundo, considerando que é possível para virtualmente qualquer pessoa entender o simples conceito “não roubarás”, eu duvido que chegará o tempo quando a maioria das pessoas escolherá ler atentamente o livro Ação Humana ou mesmo alguma exposição mais simples da ciência praxeológica.

Um de nós

Tendo dito isso, concluo com uma bênção pelo que Mises conquistou na sua vida como economista. Mises demonstrou de forma definitiva à razão humana porque a propriedade privada é um princípio indispensável sobre o qual se deve basear qualquer sociedade. Ao fazê-lo, ele não descobriu um novo princípio, mas vigorosamente defendeu um antigo – o princípio de que não é somente econômico, mas moral; não somente racional, mas religioso; não meramente humano, mas com um toque de divino.

Realmente, qual conquista intelectual pode haver que aquela que confirma a verdade que a lei de Deus é o caminho correto, a obediência da qual emana grandes bênçãos? Nós que defendemos a tradição judaico-cristã deveríamos estar feliz por acolher Ludwig von Mises como um dos nossos irmãos.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo Original


Sobre o autor

Mark W. Hendrickson

Professor de Economia no Grove City College, é graduado em Direito pela University of Michigan, Literatura em Oxford , e educação moral em Harvard.



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