Economia confusão

Publicado em 4 de setembro de 2014 | por Steven Horwitz

Os mercados são confusos (no bom sentido)

Nós, defensores do livre mercado, frequentemente nos encontramos respondendo a dois tipos de críticas. Uma toma a forma de apontamento de imperfeições nos mercados do mundo real, utilizando-as para argumentar sobre o porquê dos mercados não funcionarem e, por consequentemente, a necessidade da intervenção governamental. A outra é um tipo de frustação porque nós não podemos explicar exatamente a razão pela qual os mercados resolverão algum tipo de problema. Essa segunda crítica afirma, com efeito: “se você não pode explicar como os mercados farão algo, por que eu deveria acreditar que eles farão algo”?

Eu penso que essas duas linhas de crítica estão conectadas e servem como um lembrete sobre como os defensores do livre mercado deveriam responder. A ligação é que ambas negligenciam a natureza dos mercados como um processo de descoberta – embora seja bagunçado. Esperar que os mercados sejam perfeitos ou que nós saibamos previamente como as pessoas resolverão seus problemas usando o mercado é enganar-se sobre o que os mercados efetivamente fazem, como fazem e porque eles constituem-se no melhor processo para a resolução de problemas.

Disperso, tácito, contextual e imperfeito

Para entender a razão pela qual os mercados são processos de descoberta, primeiro, nós temos de reconhecer que o problema fundamental com o qual se depara qualquer tentativa de cooperação social é que o conhecimento humano é disperso, tácito, contextual e imperfeito: cada um de nós sabe coisas diferentes; nós podemos não ser capazes de articular o que sabemos; e o que achamos que sabemos pode somente ser relevante em contextos particulares; e o que achamos que sabemos pode estar errado. O desafio, como F.A. Hayek abordou em seu famoso ensaio, “O Uso do Conhecimento na Sociedade” é como permitir a outras pessoas utilizar o conhecimento que possuímos de forma que possamos colaborar na alocação de recursos mais efetivamente, aumentando, assim, os padrões de vida. O problema da cooperação social e do crescimento econômico é um problema de como melhor usar o conhecimento.

Assim, a função da concorrência no livre mercado é ajudar-nos a descobrir tanto o que os consumidores desejam e como melhor produzir tais coisas, fazendo com que aquele conhecimento disperso fique disponível para todos. A chave para fazê-lo é a função que os preços têm como representantes do conhecimento. Eles sinalizam aos produtores e consumidores o que as pessoas sabem e o que valorizam, e nos permitem coordenar nosso comportamento apropriadamente. Os lucros e os prejuízos nos dizem posteriormente se fizemos a escolha certa. O processo de mercado competitivo (concorrencial) é mais bem entendido como uma forma para nós aprendermos o que nós, de outra maneira, não saberíamos. Assim como determinamos qual é o melhor time de baseball através de um jogo, também determinamos como melhor produzir coisas deixando que a concorrência aconteça.

Mas convenhamos: a competição é confusa. Por ser um processo de descoberta, os empreendedores sempre cometerão erros. Eles tentarão novos produtos e os consumidores podem não os aceitarem (o Ford Edsel ou a New Coke, por exemplo). Eles tentarão produzir produtos existentes de novas maneiras que acabam não sendo tão lucrativas ou porque são muito caras ou porque os clientes não gostaram da mudança. Empreendedores podem negligenciar o que, em retrospecto, parecia uma oportunidade óbvia. O fracasso é tão importante para o funcionamento do mercado quanto o sucesso. O resultado é que, a qualquer momento, os mercados parecem confusos enquanto erros são cometidos e os empreendedores tentam descobrir como corrigi-los. Mercados do mundo real, diferentemente dos modelos de equilíbrio nos quais muitos economistas confiam, nunca podem ser perfeitos dado que o processo de descoberta nunca pára.

Nenhum aviso prévio

A confusão dos mercados também explica o porquê não podemos saber com antecipação exatamente como as pessoas resolverão seus problemas usando o mercado. Esperar uma resposta detalhada para aquela crítica é equivalente a esperar um cientista dizer o que sua pesquisa descobrirá antes mesmo de ela começar! A justificação da liberdade para a ciência é que nós não podemos saber com antecedência o que será descoberto, porque se soubéssemos, nós não precisaríamos da ciência. O mesmo é verdade para o mercado: se nós soubéssemos como os mercados resolveriam problemas, nós não precisaríamos deles!

A resposta a essas críticas então se reduz a explicar o porquê nós acreditamos que os mercados, confusos como são, resolverão os problemas melhor do que a intervenção governamental. Em vários artigos anteriores, eu discuti a razão pela qual a função do lucro e do prejuízo não pode ser duplicada pelo governo e a razão pela qual o governo não pode ter acesso ao conhecimento gerado pelo processo competitivo de mercado.

Meu ponto aqui, contudo, é que a confusão do mercado não é um problema, mas um sinal de sua saúde. É o processo de descoberta em ação, ajudando seres humanos imperfeitos a aprender o que produzir e como produzir, coisas que, de outra forma, não poderíamos saber.


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



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