Economia concorrência

Publicado em 26 de novembro de 2014 | por Steven Horwitz

Os mercados são confusos, parte 2 – Os erros dos economistas

Cuidado com os modelos econômicos.

Na semana passada, eu argumentei que os críticos dos mercados estão errados quando apontam para imperfeições como um caso ipso facto em prol de intervenção governamental e quando eles criticam os defensores do mercado por não serem capazes de explicar exatamente como resolveriam um problema particular. Os mercados são inerentemente confusos e imperfeitos, argumentei, porque eles são processos pelos quais nós descobrimos o que, de outra forma, não saberíamos. Pedir que os mercados se tornassem perfeitos ou que os seus defensores saibam o que farão no futuro é pedir o impossível. O argumento em prol dos mercados tem de reconhecer suas imperfeições, mas também notar que eles são ainda melhores do que as alternativas.

Um comentador no Facebook observou que nós não deveríamos ficar surpresos que os críticos de mercado esperam perfeição quando tantos economistas e outros usam modelos que realmente destacam como os mercados resolvem problemas “perfeitamente”. Isso é, de certa maneira, correto e levanta alguns pontos que merecem ser explorados em detalhe.

O mais conhecido modelo econômico do mainstream descreve a “concorrência perfeita”, e mostra como, sob certos pressupostos, os mercados produzirão resultados ideias: os recursos serão todos alocados ao seu uso mais valoroso, os preços dos bens refletirão os custos marginais de produção, e produtores, sabendo exatamente quais bens os consumidores desejam, irão produzi-los com mínimo custo total (na média). Qualquer firma que lucra acima do custo de oportunidade atrairá novos concorrentes que lutarão por parte desses lucros. O mundo da concorrência perfeita é um mundo de alocação ótima de recursos em todos os níveis.

Para obter tal resultado, o modelo requer 5 suposições:

  1. Todo mundo possui informações relevantes;
  2. Existe um grande número de compradores e vendedores de forma que ninguém possui poder de monopólio;
  3. Cada mercado possui um produto perfeitamente idêntico;
  4. Todo mundo considera o preço determinado pelo mercado como dado;
  5. Existe mobilidade de recursos sem custos.
Não nesse mundo

Obviamente, essas são suposições extremamente fortes, praticamente nenhuma tem alguma validade no mundo real. Não surpreende que nenhuma parte da economia pareça tão perfeita como o modelo prevê. Como os economistas austríacos argumentaram por décadas, o problema fundamental com esse modelo é que ele interpreta erroneamente a natureza do problema econômico. Em particular, por assumir que todo mundo sabe o que precisa saber e que as firmas estão vendendo produtos idênticos, o modelo retira o processo de descoberta do centro da competição. Como Hayek escreveu em “O uso do conhecimento na sociedade”, o problema fundamental que encaramos é um problema da dispersão do conhecimento. A concorrência é justificada pela nossa própria ignorância. Nós precisamos da concorrência para descobrir o que é a demanda, quais são os custos, e quais tipos de produtos e características as pessoas desejam.

O problema aprofunda-se quando os economistas e outros confundem “concorrência perfeita” e “livre mercado”. O modelo de concorrência perfeita pode conter alguns elementos úteis, mas é somente um modelo e não uma descrição de como a concorrência do mundo real funciona ou deveria funcionar. Na medida em que os defensores dos mercados confiam em um modelo para argumentar em prol do livre mercado, eles próprios estão estabelecendo as bases para precisamente a resposta que discuti na semana passada: os mercados são, na verdade, nunca perfeitos. Se estabelecermos nosso caso pelo seu desejo de uma suposta perfeição, nosso caso será impossível de ser defendido.

A falácia antitruste

Reconhecidamente, essa confusão de concorrência perfeita com o laissez-faire é menos comum do que era. Contudo, na lei antitruste ainda existe, com frequência, uma presunção de que qualquer comportamento que parece desviar-se do ideal da concorrência perfeita é altamente suspeito. O desafio do governo à fusão da AT&T e T-Mobile é um bom exemplo. A fusão realmente reduziria o numero de concorrentes, mas de uma perspectiva mais austríaca, a fusão seria pró-concorrência dado que permitiria a essa nova empresa disputar com a Verizon. Utilizando o modelo de concorrência perfeita como um objetivo da política de concorrência confunde o modelo com os verdadeiros processos concorrenciais e leva a grandes erros de política. Como disse Robert Bork certa vez, utilizar a lei antitruste para fazer com que uma economia se pareça com a concorrência perfeita teria aproximadamente o mesmo efeito que diversas bombas nucleares bem localizadas.

Os defensores do mercado cometem um erro quando confiam na concorrência perfeita e modelos similares para defender o livre mercado. O modelo de concorrência perfeita retira a função primordial da concorrência real, a qual é descobrir exatamente o que o modelo considera como dado. Os economistas que ignoram esse aspecto, assim como a confusão dos mercados, não devem culpar a ninguém a não ser a eles próprios quando as imperfeições inevitáveis do processo de descoberta do mercado tornam-se as razões pelas quais os críticos o rejeitam.

// Traduzido por Matheus Pacini. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



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