Socialismo Karl Marx

Publicado em 27 de novembro de 2013 | por Mike P.

Marxismo e a Esquerda Libertária

Parece que nunca nos livraremos do marxismo. Apesar da violenta história do século XX e todo o sangue e arame farpado que resultaram dessa ideologia, ressurgindo muitas vezes, em formas diferentes, geração após geração. Por quê? Qual apelo o marxismo possui, particularmente para a classe intelectual? Por que, mesmo com todas as falácias do socialismo marxista terem sido destruídas por Ludwig von Mises, e o fracasso histórico da União Soviética e outros Estados comunistas, não podemos nos livrar dele?

A primeira questão a ser respondida é: o que é o marxismo, exatamente? Marx escreveu muitas coisas diferentes, a maioria sobre o capitalismo. Ele escreveu três volumes enormes coletivamente chamados de “O Capital”. O curioso, senão hilário, sobre esses é que o terceiro volume, lançado postumamente, parece contradizer as coisas que ele escreveu nos primeiros dois. Na verdade, Marx nunca traçou qualquer teoria ou visão para sua utopia socialista. Ele deu algumas sugestões em relação a passos preliminares para se chegar lá no Manifesto Comunista. Esses passos são um show dos horrores e envolvem o Estado praticamente tomando o controle de absolutamente tudo.

Mas então, no que realmente consiste o marxismo? O marxismo é uma variedade de economia política. É uma mistura das teorias econômicas e valores políticos que, quando aglutinados, formam uma filosofia política coerente. A economia politica de Marx logicamente leva diretamente à violenta revolução comunista como a única solução para os problemas que ele [o marxismo] cria, como veremos.

O objetivo da particular economia política marxista é desenvolver uma teoria da exploração do trabalho, assim justificando a ação violenta da classe trabalhadora para “desapropriar” os meios de produção dos malvados capitalistas. Marx inicia por uma nova interpretação da Teoria do Valor Trabalho (TVT) clássica. Essa teoria afirma que o valor de um produto é determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo. Enquanto obviamente falsa, e há muito superada pela teoria mais sofisticada da Utilidade Marginal, essa teoria apresenta uma atração irresistível para aqueles que desejam desenvolver uma teoria da exploração. A teoria da exploração marxista afirma que, dado que o valor de um produto está ligado ao tempo de trabalho necessário para produzi-lo, qualquer lucro que o capitalista obter é necessariamente tirado da pele do trabalhador e é uma forma de exploração. Essencialmente, o lucro do capitalista representa tempo de trabalho não pago ao trabalhador. Isso se chama de teoria da “mais-valia”.

Essa teoria ignora o valor temporal do dinheiro, entre outros erros. Marx ignora o fato de que o capitalista arrisca-se e deve esperar para concretizar seu lucro. Ele pode até mesmo nem lucrar, ainda assim, o trabalhador é pago pelo seu trabalho da mesma forma. O capitalista presta o serviço de espera e risco ao trabalhador. O trabalhador também pode fazer isso, todavia, ele demonstra por suas ações que ele prefere não fazê-lo. Sua preferência temporal é maior, e ele prefere receber um pagamento agora e não correr riscos.

O propósito da economia politica marxista e toda a sua teorização é criar uma razão para a chamada “revolução do proletariado”. Se os maldosos capitalistas estão roubando o valor criado pelos trabalhadores, então os trabalhadores estão justificados a rouba-lo de volta. Assim, obtemos as recomendações de Marx para o comunismo estatal e a ação violeta por parte da classe trabalhadora.

Então, nós podemos definir o marxismo como um tipo de economia política que se baseia na Teoria do Valor Trabalho, deriva uma teoria da exploração do trabalho e então recomenda a ação de uma classe trabalhadora militante e o comunismo como uma cura. A exploração do trabalho advém do fato de que o capitalista, para colher os lucros, deve necessariamente tomar para si o valor criado pelo tempo de trabalho do trabalhador.

Essa teoria parece ter algum tipo de alcance permanente na imaginação dos intelectuais. O renascimento mais recente da economia política marxista está atualmente sendo introduzido clandestinamente sob a forma de libertarianismo. O chamado teórico “libertário de esquerda” Kevin Carson recentemente desenvolveu uma nova teoria econômica baseada em um antigo e obscuro sistema anarquista de esquerda chamado “mutualismo”. Sua teoria é a síntese das ideias de anarquistas do século XIX, tais como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker. Ele também adiciona um pouco de Marx e até mesmo Murray Rothbard, entre outros austríacos. Enquanto ele retira de todas essas fontes discrepantes e até mesmo contraditórias, sua teoria surge como uma reformulação dos princípios básicos da economia política marxista.

Minha suspeita é de que a motivação de Carson para desenvolver tal sistema é um desejo de desenvolver uma teoria para se adaptar a uma conclusão preconcebida. A conclusão sendo virtualmente idêntica à conclusão marxista de que o trabalho é explorado pelo capital, os capitalistas não são realmente donos de sua propriedade e a ação militante da classe trabalhadora levando ao socialismo / comunismo como solução. Interessantemente, a própria crítica de Carson aos economistas marginalistas é que eles são oportunistas somente buscando propor uma defesa aos grandes negócios. Eu concordo comStephan Kinsella que a ideologia do libertarianismo de esquerda provavelmente advém de uma relutância em abandonar certos preconceitos sentimentais de esquerda como o localismo, a escravidão salarial, a alienação do trabalho e ao entusiasmo romântico em relação ao estado dos “trabalhadores”.

Carson utiliza sua própria versão de uma Teoria do Valor Trabalho para desenvolver seu sistema, mas ele também endossa a defesa marxista da TVT objetiva em relação aos seus críticos subjetivistas e marginalistas. Em ultima instância, qualquer TVT terá de propor uma teoria objetiva do valor trabalho de forma a conceber uma teoria da exploração. Carson diz que Marx está correto que o tempo de trabalho “socialmente necessário” é uma resposta válida aos críticos marginalistas da TVT marxista, mas a própria TVT subjetivista de Carson vai por outro caminho. Contudo, não existe nada realmente novo na formulação de Carson. É simplesmente a inversão da teoria do valor subjetivo e marginal padrão aplicada à visão do trabalhador sob seu próprio trabalho. A teoria de Carson é uma tentativa de partir daí até uma teoria objetiva do valor, como vamos ver. Carson diz:

Um produtor continuará a levar seus produtos ao mercado somente se receber um preço necessário, na sua avaliação subjetiva, que compense-o pela desutilidade em produzi-los. E ele não será capaz de cobrar um preço maior do que essa quantidade necessária, por muito tempo, se a entrada no mercado é livre e a oferta é elástica, porque os competidores entrarão nesse mercado até que o preço iguale-se a desutilidade de produção do detalhe final da commodity.

Não há aqui muito que já não foi dito pela teoria da utilidade marginal. Em um dado preço por hora, um trabalhador continuará a levar seu bem ao mercado (trabalho) até o momento que a desutilidade de continuar tornar-se muito para ele (cansado ou estressado) ou até ele sofrer algum colapso físico (ou quando o escritório não tiver mais café). Quanto menor a remuneração por hora nessa circunstância, mais rápida a desutilidade fará com que o trabalhador pare. Um problema que surge imediatamente é que essa teoria não parece levar em conta as diferenças entre trabalhadores individuais e, em vez disso, vê o trabalho como algo totalmente disforme.

Outro problema advém da tentativa de derivar uma teoria da exploração dessa fórmula. Carson diz que a desutilidade irá continuar para ajustar o preço do trabalho para cima até que o preço de equilíbrio seja alcançado. Esse preço iria então representar o valor de troca objetivo do trabalho. Assim, a combinação de todas essas avaliações subjetivas dos trabalhadores em relação ao seu próprio trabalho iguala-se ao valor objetivo do trabalho. Os preços das commodities dessa forma tendem em direção ao equilíbrio, o preço onde a oferta iguala-se a demanda e o lucro é zero. Teoricamente, um capitalista não pode cobrar mais por uma commodity do que seu preço de equilíbrio de trabalho / desutilidade. Então, de onde vem o lucro?

Fundamentalmente, a TVT subjetiva afirma que o valor de troca das commodities é determinado pelo custo de oportunidade do trabalho. Basicamente, todos os fatores de produção podem ser reduzidos a trabalho e, assim, pode ser valorados de acordo com esse custo de oportunidade. Qualquer lucro que os capitalistas obtêm representa uma diferença entre o que é pago pelo trabalho e o real valor do trabalho como determinado pelo custo de oportunidade. Então, assim como no marxismo clássico, nós chegamos à ideia de que o capitalista está roubando “a mais valia” dos trabalhadores.

Daqui Carson pode agora seguir para onde realmente deseja, que é começar sua teoria da exploração. Dado que os preços tendem em direção ao equilíbrio e lucro zero no livre mercado, a única fonte de desequilíbrio que resta é a desutilidade do trabalho. Assim, o trabalho é a fonte de lucro, e ainda assim o lucro é tomado pelo capitalista e não o trabalhador. E, portanto, nós temos a dita exploração. Os lucros são necessariamente tirados do suor dos trabalhadores. Agora, Carson pode concluir tudo que desejar sobre a natureza exploratória do capitalismo, mas ele também pode dizer que defende o livre mercado. Um livre mercado onde ninguém lucra e todo mundo está organizado em comunas socialistas voluntárias e coletivas, mas, ainda assim, um livre mercado.

Existem alguns problemas com essa visão. O livre mercado é bom porque os sinais dos preços organizam os recursos da melhor forma possível no que diz respeito às valorações subjetivas dos indivíduos, não porque impede o lucro e a exploração. Um mercado é dinâmico e descobre como atender aos desejos das pessoas diariamente, não algo que é planejado para alcançar o equilíbrio. Outro problema é que teoria parece argumentar que o trabalho é explorado porque começa o trabalho em taxas que são inferiores as que seriam necessárias para obter mão-de-obra para começar o trabalho. Mas aquelas taxas não podem ser determinadas até que a mão de obra comece a trabalhar em primeiro momento. Essa é uma contradição lógica muito confusa.

Carson argumenta que o estado é a ferramenta primária usada pelos capitalistas para criar o desequilíbrio que lhes permite extrair o lucro. Os capitalistas fazem isso usando o estado para limitar a concorrência de outros capitalistas, assim, elevando os preços. Mas isso é somente um adendo posterior. Não existe razão pela qual o estado seja um elemento fundamental na teoria da exploração. Por que o estado seria a única fonte de desequilíbrio? Por que o estado seria a única razão pela qual os capitalistas tomariam o lucro que é, por certo, de direito dos trabalhadores? Essa teoria parece afirmar que o estado é uma grande conspiração capitalista para gerar o desequilíbrio, criando as condições para lucrar. Tal visão ignora os numerosos outros grupos de interesse que o estado serve, incluindo grandes sindicatos e o próprio estado.

Essa teoria também parece negar a si própria. A teoria que a desutilidade do trabalho é a única fonte remanescente de desequilíbrio, e, portanto, a fonte dos lucros não é mais válida uma vez que existe outra fonte de desequilíbrio: o estado. A limitação da concorrência de outros capitalistas imposta pelo Estado de fato significaria que os lucros podem ser realizados de outra forma em vez de explorando o trabalho. Na verdade, os capitalistas exploram outros capitalistas, criam o desequilíbrio e então lucram (eu argumentaria que isso acontece na realidade, mas de uma perspectiva teórica diferente). Não é necessário que o trabalho apareça na equação. Para dizer a verdade, o estado parece ser amigo do trabalhador aqui porque ele coloca os capitalistas uns contra os outros e evita que eles sejam os únicos que devem ser explorados pelos capitalistas para que estes lucrem. Daqui podemos ver a teoria de Carson caindo cada vez mais em contradição na sua busca para provar a exploração capitalista.

Outra teoria de exploração comum do libertarianismo de esquerda é que os trabalhadores não concordam realmente em ser assalariados, estabelecendo contratos voluntários, como os austríacos “vulgares” consideram, porque os capitalistas são privilegiados pelo estado. Os trabalhadores não tem chance de se tornarem capitalistas, e, portanto, não existe um nivelamento de opções abertas aos trabalhadores. É indubitavelmente verdade que medidas tomadas pelo estado para regular, controlar e cartelizar os negócios efetivamente levantam barreiras à entrada que dificultam aos trabalhadores começar um negócio e competir com capitalistas já estabelecidos. Contudo, essa observação válida não valida a Teoria do Valor Trabalho, ou necessariamente significa que os trabalhadores são explorados por alguém além do estado. Disso não procede que os trabalhadores não estabelecem voluntariamente contratos ou que eles aceitam empregos por qualquer razão além de que eles assim preferem em relação as outras opções. Essa versão de teoria da exploração ignora a extensão pela qual os proprietários de negócios são explorados pelo estado e o fato de que os trabalhadores nos sindicatos protegidos pelo estado são eles próprios exploradores dos capitalistas junto com virtualmente todo o resto das pessoas que formam a sociedade.

O estado dificulta o início de um negócio, e todos nós sofremos por causa disso. Nenhum aspecto da economia política marxista torna-se verdade por esse fato. Disso não procede além do entendimento que devemos nos livrar do estado. Os libertários de esquerda não oferecem uma teoria adequada sobre o porque esse fato significa que aqueles capitalistas que ultrapassam a teia estatista são necessariamente imorais ou exploradores. Não é que a exploração não seja possível, somente que não existe razão – e tampouco argumento oferecido – sobre o porque é necessário uma regra sob o capitalismo regulado pelo estado. Se qualquer pessoa que prospera sob o estado é culpada, então todos nós temos culpa no cartório e não significa nada querer criticar ninguém por imoralidade ou exploração. Todos nós estamos explorando uns aos outros, todo o tempo, por lucrar enquanto o estado existe. Ninguém pode ser bom, então, que sentido existe nessa discussão?

Enquanto Carson discorda com Marx em alguns pontos, e eu certamente não posso acusá-lo de ser estatista, seu método e motivos seguem o caminho marxista. Carson efetivamente classifica o trabalho como a fonte mais importante de valor. Ele efetivamente afirma que os trabalhadores são explorados sob o capitalismo. Ele efetivamente afirma que os lucros são resultado da tomada do valor do trabalho não pago por parte dos capitalistas. Ele afirma que os capitalistas no sistema estatista não são legítimos donos da propriedade. E finalmente, ele efetivamente defende a ação militante da classe trabalhadora e propõe o socialismo como solução. É por isso que afirmo que Carson é um marxista no seu âmago, mesmo que não necessariamente um marxista ortodoxo na sua conceituação econômica. Em última instância, eu penso que as ideias de Carson são potencialmente perigosas e que arriscam apoiar ou desculpar a violência, desde que ela seja focada em uma classe específica de vítimas: os capitalistas.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana. | Artigo original


Sobre o autor

Mike P.

Mike P. é dono do blog "theemptiness.info"



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