Economia lucros

Publicado em 5 de junho de 2013 | por Steven Horwitz

Lucros não são apenas uma motivação

Uma das maiores queixas dos críticos do mercado é que o “o motivo-lucro” lida com objetivos contrários aos objetivos das pessoas e empresas fazendo “a coisa certa”. Por exemplo, o filme de Michael Moore, Sicko, foi motivado pelo seu desejo de tirar o lucro da área da saúde porque, na visão dele, a maneira que as pessoas visam o lucro não as leva a fornecer o nível e o tipo de cuidado médico que ele acha que os pacientes deveriam ter.

Deixando de lado por um momento se a indústria da saúde realmente é dominada pelo lucro (dado que, quase metade dos gastos com a saúde nos EUA são feitos pelo governo federal, não está claro qual motivação predomina) e se Michael Moore sabe melhor que milhões de indivíduos quais são suas necessidades médicas, a queixa de que uma “motivação” é a origem de patologias sociais é digna de algumas reflexões críticas. Os críticos parecem sugerir que, se as pessoas e as empresas fossem motivadas por algo além do lucro, elas seriam mais capazes de fornecer as coisas que os pacientes realmente precisam.

O problema primordial em culpar uma “motivação’ é que isso ignora a distinção entre intenções e resultados. Isto é, ignora a possibilidade de consequências não-intencionais, tanto benéficas como danosas. Desde Adam Smith, os economistas têm entendido que o interesse próprio dos produtores (em que o lucro é somente um exemplo) pode gerar benefíciossociais. Como Smith notoriamente disse, não é a “benevolência” do padeiro, açougueiro, e cervejeiro que os leva a nos fornecer o jantar mas seu “egoísmo”. O insight de Smith, que foi a ideia fundamental do Iluminismo Escocês do qual ele fez parte, coloca o foco nas consequências da ação humana, e não na sua motivação.

O que nos interessa é se os produtos foram entregues, não os motivos daqueles que os forneceram. Smith levou os economistas a pensar sobre o porquê de ser assim, ou sobre em quais circunstâncias o interesse pessoal gera consequências benéficas não-intencionais. Talvez seja da natureza humana assumir que intenções são iguais a resultados, ou que interesse pessoal significa ausência de benefício social, como geralmente era o caso em sociedades pequenas e simples, em que a humanidade evoluiu. Entretanto, em um mundo mais complexo e anônimo em que Hayek chamou de “Great Society” (A Grande Sociedade), a simples equação de intenções igual a resultados não é válida.

Como Smith reconheceu, o que determina se o lucro gera bons resultados são as instituições pelas quais a ação humana é mediada. Instituições, leis e políticas afetam quais atividades são lucrativas e quais não são. Um bom sistema econômico é um em que essas instituições, leis e políticas são tais que o comportamento dos produtores visando seu interesse pessoal gera resultados socialmente benéficos. Em economias mistas como a dos EUA, a estrutura das instituições geralmente recompensa o comportamento visando o lucro que não produz benefício social ou, inversamente, previne o comportamento visando o interesse pessoal que pode gerar tais benefícios sociais. Por exemplo, se os subsídios agrícolas pagam aos fazendeiros para não cultivarem, então o lucro irá gerar menor oferta de comida. Se a política ambiental confisca terras nas quais existem espécies em extinção, proprietários de tais terras que são guiados pelo lucro irão “atirar, enterrar e ficar quietos” (isto é, matar e enterrar qualquer espécie em extinção que acharem em suas terras).

As mesmas questões podem ser levantadas nas indústrias de saúde. Antes de culpar o lucro pelos problemas da indústria, os críticos podem querer olhar para as maneiras em que os programas governamentais existentes como Medicare e Medicaid, a interpretação de direito de responsabilidade civil, e regulações tais como aquelas que limitam quem pode praticar quais tipos de medicina, podem fazer empresas e profissionais se empenharem em comportamentos lucrativos, mas não-benéficos para os consumidores. Rotular o lucro como a fonte dos problemas permite que os críticos ignorem as questões realmente difíceis sobre como as instituições, políticas e as leis afetam os incentivos dos produtores visando o lucro e como esse comportamento visando o lucro se traduz em resultados. Colocar a culpa no lucro sem qualificação simplesmente negligencia a questão de Adam Smith, se melhores instituições permitiriam que o lucro gerasse melhores resultados e se as políticas atuais ou regulações são a fonte do problema porque elas guiam o lucro de maneira que produzem os principais problemas que os críticos identificam.

Por exemplo, altos custos médicos podem muito bem ser resultados de fornecedores visando o lucro reconhecendo que os programas do governo são notoriamente ruins em precificar serviços com precisão e manter um bom controle de seus gastos. Ignorar a maneira que as instituições podem afetar o que é lucrativo geralmente ocorre devido a uma cegueira mais geral sobre a possibilidade do comportamento visando o interesse próprio gerar consequências benéficas não-intencionais. Antes de tentarmos banir o lucro, não deveríamos ver se podemos fazê-lo funcionar melhor?

Culpar o lucro pelos problemas sociais também é fácil se os críticos não oferecem nenhuma alternativa. Qual deve ser a base para determinar como os recursos são alocados que não seja em termos do comportamento visando o lucro sob o conjunto certo de instituições? Como as pessoas devem ser motivadas se não pelo lucro? Geralmente essa questão é simplesmente ignorada quando críticos estão meramente interessados em colocar culpa em alguém. Quando isso não é ignorado, as respostas podem variar, mas elas em geral pedem um papel significante para o governo. O aspecto interessante de tais respostas é que as críticas não sugerem que nós, de alguma forma, convencemos os produtores a agir com base em outra coisa que não seja o lucro, mas que, pelo contrário, os trocamos por burocratas presumidamente não-motivados pelo lucro ou com esses burocratas limitando seriamente as escolhas disponíveis aos produtores. As suposições implícitas, é claro, são que o pessoal do governo não estará visando o lucro ou seu interesse próprio da mesma forma que os produtores do setor privado estão.

Quão realística é essa suposição ainda é altamente questionável. Por que deveríamos assumir que os oficiais do governo tem menos interesse próprio que os indivíduos privados, especialmente quando a divisão entre os dois setores está constantemente mudando? E se os oficiais do governo agem em seu interesse próprio e são motivados pelos análogos políticos do lucro (por exemplo, votos, poder, orçamentos), eles irão produzir resultados que são melhores que o setor privado? Se culpar o lucro implica dar ao governo um maior papel em resolver problemas, que garantia os críticos do lucro podem fornecer que os oficiais políticos terão menos interesse próprio e que seus interesses próprios irão produzir melhores resultados?

Alguém olhará em vão para Sicko, por exemplo, em procura de falhas da saúde socializada financiada pelo estado em Cuba, Canadá, Grã-Bretanha, ou em qualquer lugar. Culpar o lucro sem perguntar se uma alternativa será melhor em resolver os problemas supostamente causados pelo lucro é influenciar o caso contra o setor privado.

Como eles irão saber?

Mesmo esse argumento, entretanto, não vai fundo o suficiente. Ainda estamos, depois de tudo, focados em intenções e motivações. O que os críticos do lucro quase nunca perguntam é como, na ausência de preços, lucros, e outras instituições de mercado, produtores serão capazes de saber o que produzir e como produzir. O lucro é uma parte crucial que permite aos produtores e consumidores compartilharem conhecimento de formas que outros sistemas não fazem.

Suponha por um momento que tentamos tirar o lucro da área médica indo para um sistema em que o governo paga e/ou fornece diretamente os serviços. Suponha, além disso, que possamos, de alguma forma, assegurar que os burocratas não sejam interesseiros. Para muitos críticos do lucro, o problema está resolvido porque os políticos zelosos pelo bem estar público e burocratas substituíram empresas visando o lucro.

Não é bem assim. Por qual método exatamente os burocratas irão saber como alocar recursos? Por qual método eles irão saber quanto de que tipo de assistência médica as pessoas querem? E mais importante, por qual método eles irão saber como produzir qual assistência médica sem gastar recursos? É uma coisa dizer que qualquer adulto deveria, por exemplo, fazer um checkup todo ano, mas deveria ser fornecido por um médico, um enfermeiro, ou um técnico de enfermagem? Que tipo de equipamento deve ser usado? Quão completa deveria ser? E mais fundamentalmente, como os políticos tomadores de decisão irão saber se eles estão respondendo essas questões corretamente?

Em mercados com boas instituições, os produtores visando o lucro podem ter respostas a essas questões observando os preços e seus próprios lucros e perdas, a fim de determinar qual uso de recursos é mais ou menos valioso para os consumidores. Ao invés de ter uma solução imposta para todos os produtores, baseado na melhor tentativa dos burocratas, uma indústria movida pelo lucro pode tentar outras soluções alternativas e aprender quais delas funcionam mais eficientemente. A competição pelo lucro é um processo de aprendizado e descoberta. Para todas as preocupações dos críticos do lucro – especialmente, mas não só na área médica – que alocar recursos pelo lucro gera prejuízo, poucos (se algum) entendem como o lucro e o preços sinalizam a eficiência (ou a falha) no uso de recursos e permite que os produtores aprendam esses sinais. A perda de recursos mais intensa na indústria de assistêcia média nos EUA deriva dos incentivos e distorções do mercado criadas pelos programas do governo como a Medicare e Medicaid.

Então, o verdadeiro problema em se focar no lucro é que se assume que o principal papel do lucro é motivar (ou, na linguaguem contemporânea, “incentivar”) produtores. Se você pega essa visão, pode parecer relativamente fácil achar outras maneiras para motivá-los ou planejar um novo sistema em que a produção é tomada pelo estado. Entretanto, se o papel mais importante do lucro é comunicar conhecimento sobre a eficiência do uso de recurso e permitir produtores a aprender o que eles estão fazendo bem ou mal, o argumento torna-se muito mais complicado. Agora os críticos precisam explicar o que, na ausência de lucros, dirá aos produtores o que eles devem e não devem fazer. Eliminar a visão o lucro de uma indústria não requer somente que um novo incentivo seja encontrado, mas também uma nova forma de aprender a desenvolver esse novo incentivo. O lucro não é só uma motivação; é também parte integrante do processo de aprendizado social do mercado. Os críticos podem considerar a eliminação do lucro o equivalente a dar ao Homem de Lata de Óz um coração; mas na verdade é mais como fazer Édipo arrancar seus próprios olhos.

Tradução de Robson Silva. Revisão por Matheus Pacini. // Artigo Original


Veja Também:

 Lucros são para as pessoas.


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



Voltar ao Topo ↑