Esquerda Libertária ovelhas-coletivismo-621

Publicado em 30 de agosto de 2013 | por Sheldon Richman

Livre mercado: coletivista ou individualista?

O livre mercado é um arranjo social individualista ou coletivista? Não responda de forma rápida. É uma questão difícil.

A maioria das pessoas – simpatizantes ou não do livre mercado – responderá “individualista”. E isso faz todo o sentido. O livre mercado descreve um ambiente político qual os indivíduos são livres para se engajar em qualquer atividade pacífica, com somente a força e a fraude sendo proibidas. Ninguém pode agressivamente interferir com os projetos pacíficos de outrem. Esse ambiente permite a cada pessoa definir-se por meio da busca de suas subjetivas preferências. Se isso não é individualismo, o que é então?

Uma linha popular de ataque contra o livre mercado é que ele deixa pouco ou nenhum espaço para as pessoas se pronunciarem em questões importantes que afetam suas vidas. É uma preocupação importante. O libertarianismo diz respeito ao controle de sua própria vida. A questão é: qual sistema social concede maior controle ao indivíduo?

Claramente, é o livre mercado (não confundindo com o atual corporativismo) que permite muito mais controle, mesmo no meio de “forças de mercado impessoais”. Quando a concorrência não é limitada por privilégios governamentais e outras restrições, o indivíduo tem grande variedade de escolhas no que tange ao consumo e atividades produtivas. Se você não gosta de uma oferta, há grande chance que haverá outras. A chave para a escolha é a ausência de barreiras à entrada no mercado – barreiras como tributos, regulações, restrições ao acesso à terra, cartéis apadrinhados pelo governo, “propriedade” intelectual, entre outros.

O controle que um indivíduo exerce no mercado é de longe superior à suposta influência que ele ou ela possui na democracia política, onde o voto de um indivíduo em particular nunca é decisivo, e os benefícios oriundos das ações governamentais são concentrados em grupos de interesse bem organizados – enquanto os custos são espalhados em pequenas partes, quase invisíveis, pela população geral.

Então, onde o coletivismo figura no livre mercado? Essa é uma dimensão do mercado que não pode ser ignorada sem que se perca algo essencial. Se eu quisesse ser especialmente provocativo, eu a chamaria de dimensão coletivista ou socialista.

Se os social democratas parassem com seu preconceito contra o lucro e buscassem uma nova perspectiva, eles se surpreenderiam por quão próximo o livre mercado abordaria o que eles dizem quererem para a sociedade. Ludwig von Mises afirmava que a “economia de mercado é uma democracia na qual cada centavo constitui um voto. A riqueza dos empresários bem sucedidos é o resultado do plebiscito do consumidor”. É verdade que alguém com mais dinheiro possui mais “votos” do que alguém com menos dinheiro.

individualismoEntretanto, a pessoa com menos dinheiro pode ainda obter coisas que deseja, o que torna o mercado superior à democracia política, na qual qualquer um que vota para o lado perdedor nada ganha. Aqui é onde a analogia democrática colapsa em favor do mercado. Como o acadêmico e jurista liberal Bruno Leoni notou, no voto democrático 50% mais um efetivamente significa 100%, enquanto 50% menos um efetivamente significa 0%. No mercado, as preferências da minoria são atendidas. Não é uma situação na qual o vencedor leva tudo.

Mises salientou ainda um aspecto que deveria impressionar social democratas honestos: “em ultima análise, todas as decisões são dependentes da vontade das pessoas como consumidores”. Em outro momento, ele escreveu:

“Se um empresário não obedecer estritamente as ordens do público assim como lhe são transmitidas pela estrutura de preços de mercado, ele sofrerá perdas, falirá, e é, dessa forma, removido de sua posição eminente na direção. Outros homens que fizeram mais para satisfazer a demanda dos consumidores o substituirão.”

No livre mercado (e mesmo hoje dentro de limites), nós coletivamente decidimos quem controla os meios de produção. Um individuo hostil não tem chance contra o veredicto dos consumidores. Quem foi responsável pela falência da livraria Borders no ano passado? Nós, eu ou você, individualmente, não poderíamos haver gerado tal fato. Mas nós o fizemos coletivamente por meio de nossas decisões individuais sobre onde e como comprar livros. Na verdade, nós dissemos,

TEAM UNITY AND COOPERATION“Borders, nós pensamos que existem melhores usos para os seus ativos, então queremos que sejam transferidos para alguém que não sejam vocês. E preferimos que seus 10.700 funcionários produzam outra coisa, porque outras pessoas já estão satisfazendo nossas necessidades de livros”.

Isso parece o tipo de processo de decisão coletivo que os social democratas dizem que querem. (Sem protecionismo corporativista, o poder do consumidor seria ainda mais marcante do que é hoje). Se nosso idioma tivesse evoluído diferentemente, o livre mercado poderia, hoje, ser conhecido como socialismo, dado que as decisões sobre quem controla os meios de produção seriam feitas socialmente. A posição oposta – a qual favorece o processo de decisão dentro do Estado – seria corretamente chamada de Estatismo. Na verdade, Benjamin Tucker e outros individualistas pró-mercado de sua era denominavam-se socialistas.

No livre mercado, portanto, nós temos uma combinação benéfica de individualismo e coletivismo. F.A. Hayek, em seu ensaio “Individualism: True and False”, aludiu a essa ironia quando escreveu “o que o individualismo nos ensina é que a sociedade é maior do que o indivíduo somente na medida em que é livre. Na “medida em que é controlada ou dirigida, é limitada aos poderes das mentes individuais que a controla e dirige”.

Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. // Artigo Original


Veja Também:


Sobre o autor

Sheldon Richman

Sheldon Richman é um escritor político americano, acadêmico, ex-editor da revista The Freeman, atual vice presidente da Future of Freedom Foundation e editor da Future of Freedom, publicação mensal da FFF.



Voltar ao Topo ↑