Cultura & Humor O Lobo de Wall Street

Publicado em 4 de fevereiro de 2014 | por Valdenor Júnior

Lições de O Lobo de Wall Street

O que o “O Lobo de Wall Street” tem a ver com livre mercado financeiro, crise de 2008, representações duais do capitalismo norte-americano, guerra às drogas e sexismo corporativo?

Vi o filme do “O Lobo de Wall Street”, que tem dado muito o que falar e que recebeu, em geral, uma boa apreciação pela crítica, em especial pela atuação de Leonardo Di Caprio no papel principal.

Alguns criticam o filme por certa glamourização da vida criminosa do protagonista, na ideia de que “o crime compensa” para um criminoso do colarinho branco envolvido em escândalos corporativos. Eu não quero discutir se isso ocorre ou não no filme, mas é importante perceber que algumas das lições mais cruciais que podemos tirar do filme são sutis e/ou precisam de uma complementação com conhecimentos do expectador advindo de outras fontes.

Se olharmos por essa ótica, o filme pode levantar, ao expectador, importantes questões, envolvendo a economia, direitos civis e crítica social, inclusive de uma perspectiva libertária.

Então, vamos falar brevemente de alguns desses temas que o filme suscita. São os seguintes: 1) crimes financeiros, brechas no sistema e livre mercado; 2) problemas com a quantificação de risco no sistema financeiro e a crise de 2008; 3) contraposição entre modelos de capitalismo norte-americano; 4) a política de drogas; 5) sexismo na cultura corporativa.

1. Crimes financeiros, brechas no sistema e livre mercado

É importante explicar uma coisa de antemão. Algumas pessoas tendem a pensar que liberais e libertários seriam condescendentes com o tipo de conduta apresentada pelo protagonista, Jordan Belfort, que isso seria o livre mercado. Mas o oposto é verdadeiro: o livre mercado precisa de instituições robustas que impeçam esse tipo de coisa, e aquilo que o protagonista fez é completamente criminoso, uma vez que realizou fraude em larga escala contra pessoas inocentes, que foram muito prejudicadas por isso. (O filme não mostra, mas o sofrimento dessas pessoas foi real, tendo perdido muito com as fraudes cometidas)

Jessica Flanigan argumenta que liberdade econômica não significa que as corporações podem colocar fezes de rato em salsichas, comercializar remédios inúteis, despejar lixo tóxico nos rios e conduzir a economia global para o colapso financeiro, porque  muitos desses exemplos são fraudes.

Portanto, Jordan Belfort  foi um criminoso torpe e detestável, que, em busca de dinheiro e de um estilo de vida hedônico, fez muito mal a inúmeras pessoas que enganou. Independente da classe social, criminosos devem ser punidos.

O problema é se a punição que ele recebeu foi adequada. Por ter acordado auxiliar a Justiça americana, de uma forma não muito bem explicada no filme, ele acabou conseguindo uma sentença de 3 anos apenas, e em condições bastante confortáveis.  Fala-se que ele estava ameaçado de pegar 20 anos de cadeia, mas, no final, foram apenas 3 anos mesmo. A própria fiança durante o processo não foi ele quem pagou, pois os colegas da corporação Stratton Oakmont, criada a partir de vários atos fraudulentos, ajudaram-no a pagar, de modo que ele não precisou hipotecar a casa. O acordo da sentença previa a indenização, mas uma grande parte dela ainda não foi paga , apesar de ele ainda estar rico com a venda de livros.

Isso mostra que a Justiça americana deixa enormes brechas para que criminosos financeiros sejam parcamente punidos; Que o sistema judicial americano está passível de brechas e falhas quando se trata de punir um criminoso do colarinho branco que lucrou muito em cima de suas fraudes.

Belfort foi condenado em 2003, e, de fato, é possível que algumas dessas brechas tenham sido sanadas. Mas devemos ter essa lição bem clara em mente: brechas no sistema para que grandes criminosos não sejam punidos desmerecem a Justiça e incentivam o comportamento criminoso, o que é um grande problema para o funcionamento do livre mercado.

A liberdade financeira é boa. Raghuram Rajan e Luigi Zingales, em seu livro “Salvando o Capitalismo dos Capitalistas” descrevem que:

O que é especialmente relevante é a extensa infra-estrutura que possibilita a expansão do acesso ao financiamento, e que vai dos estudiosos que resolvem intrincados problemas financeiros aos bancos de investimento que encontram formas criativas de alocar riscos, das agências de classificação de risco que divulgam históricos de crédito aos experientes tribunais que sabem como assegurar o cumprimento de contratos financeiros complexos. Quando toda essa infra-estrutura foi implementada, os financiadores podem deixar de emprestar apenas aos que têm garantias ou que já tiveram contratos anteriores com o financiamento para fazê-lo de modo bem mais amplo. Isso não quer dizer que as garantias ou as conexões deixem de ter importância, mas haverá substancial financiamento disponível mesmo sem isso.  O financiamento dependerá muito mais da difusão do risco, do uso de históricos de crédito disponíveis publicamente e de informações em tempo real sobre o comportamento dos tomadores de financiamento, e da elaboração de contratos financeiros que ofereçam os incentivos certos.  (p. 72-73)

Rajan, no livro “Linhas de Falha”, completa o raciocínio acima:

Um sistema competitivo é também apropriado para produzir a necessária inovação financeira, ampliando o acesso e difundindo o risco. Hoje em dia a inovação financeira parece ser sinônimo de swaps de crédito e obrigações de dívida garantidas, títulos derivativos que poucas pessoas, fora do eixo de Wall Street, acham que deveriam ter sido inventados. Mas  a inovação também nos deu a conta-corrente, o cartão de crédito, os swaps de taxas de juro, os fundos indexados e os fundos negociados em bolsa, que se revelaram muito úteis.” (p. 259)

Não podemos esquecer disso. Independente do quão o capitalismo atual em vários lugares no mundo, inclusive nos EUA, seja uma paródia imperfeita do livre mercado de que precisamos, é importante perceber que os livres mercados financeiros são uma das principais ferramentas para aumentar o valor das liberdades econômicas individuais para cada vez mais pessoas e acabar com a pobreza. E isso nunca passará por compactuar com elites econômicas que desejam capturar o sistema financeiro para seu próprio proveito, seja por meio de fraudes ou de lobby junto ao governo para prejudicar as pessoas de forma legalizada.

2. Problemas com a quantificação de risco no sistema financeiro e a crise de 2008

Logo no início do filme, o corretor experiente da firma em que Belford trabalha pela primeira vez com corretagem, diz a ele que ninguém sabe o que vai acontecer com as ações. Que, portanto, tudo o que os corretores fazem é convencer os clientes de que eles sabem de alguma coisa, para conseguir lucrar.

A crítica aqui parece sutil, mas com um alvo claro: a pretensão das agências, no mercado financeiro, de quantificar apropriadamente o risco, de que saberiam o que vai acontecer no futuro por meio de seus modelos econômicos.

No livro “Linhas de Falha”, Raghuram Rajan escreve que

O ‘pão nosso de cada dia’ dos economistas financeiros é a construção de modelos econométricos detalhados que descrevam o nível de retorno ‘adequado’ ou ‘determinado pelo mercado’ para certo nível de risco. (p. 227)

Ele também enfatiza a questão da distribuição do risco:

Um texto sobre o setor financeiro característico daquela época [pré-crise de 2008] descreveria, sem a mínima hesitação, a excepcional expansão dos mercados financeiros ao redor do mundo. Enfatizaria as maravilhas da securitização, que permitiam a um banco reunir seus empréstimos imobiliários de risco, ou os de cartão de crédito, em um pacote único e vender direitos sobre esse pacote no mercado financeiro. A securitização permitia aos bancos eliminar os empréstimos de risco de seus livros contábeis. Ao mesmo tempo, fazia com que investidores de longo prazo, como fundos de pensão e seguradoras, assumissem uma pequena parcela dos direitos – que eles poderiam manter com mais facilidades que os bancos, por vislumbrarem horizontes mais longos e por terem uma carteira de ativos mais diversificada. Em teoria, com o risco mais bem distribuído entre ombros robustos, os investidores exigiriam uma remuneração mais baixa por assumi-lo,  permitindo ao banco cobrar taxas de empréstimo menores e ampliar o acesso dos mutuários ao financiamento. (p. 22-23)

Rajan afirma que vários problemas importantes não estavam sendo bem avaliados quanto a dimensão do risco envolvido na securitização, e que estariam ligados à crise de 2008. Uma delas era o incentivo do governo norte-americano aos empréstimos sub-prime e a própria interação entre o sistema financeiro bem-desenvolvido dos Estados Unidos e o sistema financeiro muito mais corporativista de outros países.

E a crise de 2008 veio para escancarar as consequências maléficas desses problemas. Mas novamente, devemos questionar o quão rapidamente os Estados Unidos mostrou que não seguia um verdadeiro livre mercado financeiro, mas que havia um conluio entre os principais agentes do sistema financeiro e o governo para “privatizar os benefícios, socializar os custos”.

Mas, afinal, quem pagou o pato? Não foram os fundadores da New Century, que liquidaram suas posições em ações quando a situação da empresa se deteriorou. Nem os corretores que ganharam gordas comissões enquanto o trem da alegria trepidava.  Tampouco foram as agências de classificação [de risco], que não perceberam, ou preferiram ignorar, a deterioração da qualidade das hipotecas. E não foram alguns proprietários de imóveis que gastaram além da conta enquanto tratavam as casas, que nunca deveriam ter comprado, virtualmente como caixas eletrônicos. Quem pagou foi o aposentado que, ludibriado para que sacasse uma hipoteca cara numa idade em que não deveria ter preocupações, agora está enfrentando o despejo. Quem pagou foram os fundos de pensão e as seguradoras, que agora estão amargando perdas consideráveis, que irão desvalorizar os retornos dos investimentos de cada família que conta como eles. E, acima de tudo, quem pagou foram os contribuintes, cujo dinheiro socorreu a Fannie Mae e a Freddie Mac, e quem quer que esteja por trás da FHA (p. 216-217)

Como discuti em um texto em meu próprio blog, esse tipo de investidas corporativistas no setor financeiro são responsáveis pela parcela ruim do aumento da desigualdade de renda nos Estados Unidos.

Esse cartoon da The Economist , traduzido para o português, fala tudo:

cartoom

 

Mas Rajan argumenta também que, quanto à quantificação inadequada do risco, devemos ser cautelosos em querer mais governo:

As inquietações durante a recente crise se centraram basicamente na baixa precificação do risco. Mais uma vez, seria tentador, apesar de equivocado, culpar a concorrência entre os bancos. A abordagem correta seria reduzir as várias distorções à precificação do risco, que se origina da intervenção governamental real e potencial, bem como do comportamento de manada. (p. 259)

3. Contraposição entre modelos de capitalismo norte-americano

O filme tem uma clara tendência em nos levar a pensar que Wall Street é um aspecto negativo do capitalismo norte-americano. Muitos libertários, de fato, têm grande desconfiança e mesmo rejeição pelo setor financeiro atualmente existente, em especial quanto ao sistema de reservas fracionárias.

Eu adoto uma visão mais nuançada: o sistema financeiros dos Estados Unidos é muito mais próximo de um sistema de livre mercado do que muitos outros ao redor do mundo, contudo, têm mostrado sinais claros de que o “capitalismo de compadrio”, o rent-seeking e o lobby estão em alta, o que nos dá muito motivos para desconfiar sobre quem está manipulando esse sistema e em proveito de quem.

Mas algumas pessoas tendem a um extremo que devemos evitar. Se Wall Street mostrou-se tão falha em vários momentos, então deveríamos rejeitar inteiramente a economia de mercado existente nos Estados Unidos. Há uma tendência comum, inclusive, em confundir a falha do mercado no setor financeiro (assunto controverso na economia) com a falha mais geral do mercado em outros setores da economia (que não é um assunto controverso em economia: fora casos especiais, o mercado funciona de modo eficiente se deixado livre; o que mesmo Paul Krugman concorda, veja seu livro de Elementos de Economia).

A economia de mercado dos EUA não é apenas Wall Street, e nem deveria ser julgada predominantemente pelos sucessos e falhas de Wall Street. Mesmo que Wall Street seja o “lado negro” do capitalismo norte-americano (o que por si mesmo é uma afirmação muito exagerada se aplicada generalizadamente, já que o setor financeiro é importante de muitas maneiras para o desempenho da economia), o Vale do Silício certamente é o lado positivo mais saliente do capitalismo norte-americano (e que o filme não retrata).

A inovação do Vale do Silício tem trazido grandes ganhos para o mundo inteiro. E muito ainda se espera que venha por aí com esses avanços tecnológicos. Enquanto as velhas economias europeias, com Estados de bem-estar social mais generosos, contribuem pouco para a melhora da condição humana a nível global, uma vez que basicamente usam sua maior riqueza para financiar sistemas extensos de seguridade social que ajudam apenas poucas pessoas mais pobres de seus próprios países e geram pouca inovação, o Vale do Silício tem sido vanguarda em inovações que tem melhorado em muito a condição humana, em suas oportunidades, liberdade e resolução de problemas.

A importância da inovação não pode ser subestimada. Sempre me pareceu estranho, por exemplo, que as pessoas elogiassem o sistema de saúde universal da Suécia, que é desfrutado por uma população de 9,5 milhões de pessoas apenas, enquanto não elogiam a inovação do sistema de saúde mais competitivo norte-americano (ainda que não o suficiente livre como se desejaria) e cuja cobertura não é universal, mas que criou a tecnologia médica e os remédios usados pelos hospitais suecos e que vão sendo disseminadas ao redor do globo, atingindo muito mais pessoas. Ambos os sistemas de saúde têm suas falhas, mas porque superestimar a cobertura universal sueca, que atinge 9,5 milhões de pessoas, e subestimar a inovação norte-americana, cujo potencial é atingir números muito mais altos de pessoas, mesmo bilhões de pessoas, ao longo do tempo?

4. A política de drogas

Não, este filme não discute a guerra contra as drogas. Mas o expectador deve ter a proibição das drogas e seus efeitos em mente enquanto assiste. O filme mostra o uso e abuso de drogas entre corretores de Wall Street, particularmente pelo próprio Belford e seus comparsas. Ricos usuários de drogas, em quantidades altas, vivendo como se a proibição não existisse.

Mas e o outro lado que o filme não mostra? A política de Guerra às Drogas dos Estados Unidos tem devastado comunidades pobres  e negras dos EUA, estimulou a violência e o crime organizado em vários países como no México, aumentou a taxa de encarceramento de negros e pobres. Aliás, como o gráfico abaixo demonstra, apesar dos brancos serem os maiores usuários de drogas ilícitas nos Estados Unidos, os negros são aqueles que mais sofrem com o encarceramento:

Uso de drogas quantidade de pessoas presas por drogas por cor nos EUA

Você pode ver também as taxas de detenção de negros e brancos por posse de maconha, onde a disparidade é muito clara, pesando contra os negros:

taxa de prisões por posse de maconha por cor nos EUA

Ainda devemos ressaltar mais uma grave iniquidade no sistema de justiça criminal. Enquanto Belford pegou apenas 3 anos de prisões, a legislação federal americana prevê sentenças mínimas, de 5 e de 10 anos, dependendo da quantidade de droga em posse. Isso significa que, por um ato que não envolve violência nem fraude contra as pessoas, americanos negros e pobres podem ser presos por 5 ou 10 anos, como pena obrigatória mínima, enquanto Belford, que cometeu inúmeras fraudes e prejudicou muitas pessoas, ficou preso por apenas 3 anos. Você pode conferir aqui as penas mínimas obrigatórias para crimes de posse de drogas.

Os custos humanos gerados pela proibição das drogas, em termos da violência e encarceramento gerados, supera em muito os custos que o livre uso de drogas teria. Milton Friedman inclusive já explicou muito bem esta questão, pelo que me reporto à história em quadrinhos que explica sucintamente esta questão.

Portanto, o filme também nos ajuda a ver o quão injusta e iníqua é a guerra às drogas, que manda milhares de jovens negros para as prisões, enquanto criminosos como Belford, que além de enriquecer à custa de suas vítimas também são usuários de drogas, são punidos de forma muito mais leve.

5. Sexismo na cultura corporativa

Por fim, um último aspecto que chama atenção no filme é o sexismo inerente ao modo como ocorre a interação entre a diretoria da Stratton Oakmont e as redes de prostituição. Na cultura corporativa ali presente, há dois tipos de mulheres: as corretoras e as “vagabundas”.

Todo o papel que as prostitutas cumprem no filme é meramente passivo, sendo apenas objetos de prazer à disposição de endinheirados gananciosos. É como se comprar sexo de inúmeras prostitutas fosse um dos grandes prêmios para uma cultura corporativa corrupta como a da Stratton Oakmont.

E o próprio fato de que prostitutas e strippers eram trazidas para o ambiente de trabalho reforça essa conclusão. A diretoria fazia questão de reforçar a mensagem do tipo de mulheres que estariam acessíveis àqueles que fossem cúmplices das questionáveis operações da Stratton Oakmont. Essas mulheres eram tratadas como meros objetos sexuais, não como pessoas.

Não estou aqui fazendo nenhuma defesa de que a prostituição deveria ser proibida, nem que não seja possível uma dissociação entre prostituição e sexismo. Contudo, não podemos negar que a demanda pela prostituição se move, em grande proporção, por atitudes sexistas, que espelham noções prejudiciais acerca das mulheres. Em que pese a prostituição ser uma troca voluntária e que, por isso mesmo, não deveria ser proibida, muitos dos contextos da prostituição se relacionam com atitudes culturais que são muito questionáveis desde o ponto de vista da igualdade de gênero.

Algumas pessoas entendem que a prostituição seria, por si só, uma prática de rebeldia contra um sistema patriarcal que relegasse às mulheres a serem donas de casa. Mas, pela mesma razão que seria absurdo afirmar que a prostituição é criação do capitalismo, não é possível concordar com essa ideia, pois a prostituição existiu no passado, onde as atitudes patriarcais eram muito mais fortes do que hoje. Como Ariel Levy escreve em seu livro “Female Chauvinist Pigs”, como é possível que imitar strippers ou estrelas pornôs – mulheres cujo emprego é imitar excitação em primeiro lugar – implicaria em mulheres sexualmente liberadas?

Ressalto novamente: não estou dizendo que, a nível individual, adotar a prostituição, ou outras práticas relacionadas à indústria do sexo, não possa significar um ato de rebeldia de uma mulher contra o controle da sexualidade feminina. Contudo, em uma dimensão agregada/cultural, não parece ser o caso, inclusive porque a própria ideia de relegar as “mulheres que fazem sexo sem ser com o marido” à prostituição pode ser vista como uma forma de controle patriarcal da sexualidade feminina.

E outro aspecto importante em que a permanência de atitudes sexistas influi na demanda da prostituição está nas redes de tráfico humano que suprem parte dessa demanda. Um mundo onde a indústria do tráfico humano ganha muito dinheiro em cima da prostituição forçada e infantil tem a ver também com a clientela que constitui a demanda. Muitas mulheres ao redor do mundo foram forçadas à prostituição, e inclusive atraídas a elas por meio de fraude (como a promessa de trabalhar como domésticas ou em outro tipo de emprego, não como prostitutas). Será que uma cultura corporativa sexista faria qualquer triagem nesse sentido? A noção de prostitutas como meros objetos sexuais, cuja pessoa não é importante, contribui à persistência do tráfico humano, com milhões de vítimas. Uma das grandes causas liberais de nosso tempo deve ser o combate às formas modernas de escravidão, onde o tráfico humano se inclui.


Sobre o autor

Valdenor Júnior

Valdenor Júnior é advogado, e desde janeiro de 2013 mantém o blog "Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart", onde discute seus principais interesses: naturalismo, ciência evolucionária, economia e libertarianismo, especialmente a corrente libertária bleeding heart. Também escreve para o blog "Mercado Popular" e realiza traduções para o Portal Libertarianismo.



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