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Publicado em 16 de setembro de 2013 | por Sarah Skwire

Kafka vs. Orwell: 1984 e o Estado Policial

No tipo de terrível coincidência que certamente teria instigado um de seus mais amargos ensaios, a notícia de que várias agências governamentais de vigilância dos Estados Unidos têm estado coletando informações de milhões de telefones, e-mails, e pesquisas de busca de seus cidadãos estourou durante a semana do 64º aniversário de publicação do livro 1984, de George Orwell. Com o fluxo crescente de notícias, e as vendas de 1984 aumentando espantosamente em 6884%, um amigo me pediu se a história da PRISM parecia, em minha opinião, mais orwelliana ou kafkiana.

Minha resposta? Seria bom que ela tivesse um perfil kafkiano.

Ninguém deseja ser parte de um romance de Franz Kafka. Mas o estado vigilante que ele descreve tem uma característica peculiar a todos os estados: incompetência. Nas histórias de Kafka, formulários importantes se perdem, licenças não são obtidas, e os burocratas fracassam em suas funções. Como o personagem principal no romance inacabado “O Castelo”, se você estivesse preso no mundo de Kafka você poderia viver sua vida inteira sem fazer nada, mas esperando por uma licença. Mas pelo menos você poderia viver. A incompetência gera um pouco de espaço de manobra.

O assustador na obra 1984 é a competência total do estado vigilante. Winston Smith começa o romance acreditando que está num mundo terrível, porém kafkiano, onde existe ainda alguma abertura no absoluto controle estatal, e ainda algum espaço para a ação privada. Winston diz que o mundo das teletelas da Oceania e a Polícia do Pensamento significa que existem “sempre olhos que o vigiam e uma voz que o envolve. Adormecido ou acordado, trabalhando ou comendo, dentro de casa ou fora, no banheiro ou no quarto – não há saída”. Mas ele prossegue dizendo, “nada era seu exceto alguns centímetros cúbicos dentro de sua cabeça”. Ele também acredita que, embora o diário que mantem será inevitavelmente descoberto, a pequena alcova no seu apartamento onde o escreve coloca-o “fora do alcance da teletela”.

O sentimento de que algum minúsculo espaço para a meditação e ação privadas pode ser encontrado induz-lhe a se relacionar com Julia. Embora saibam que inevitavelmente serão descobertos, Winston e Julia acreditam que, por algum tempo, seu relacionamento e seu ponto de encontro permanecerão secretos. Eles não poderiam estar mais equivocados.

Um dia depois de fazer amor com Julia no seu quarto clandestino, Winston, incitado por um canto entoado por uma mulher proletária que está lavando a roupa, tem a visão de um futuro que “pertence ao proletariado”.

Os pássaros cantavam, os proletários cantavam. O partido não cantava. Ao redor do mundo, em Londres e Nova Iorque, na África e no Brasil, e nas terras misteriosas e proibidas além das fronteiras, nas ruas de Paris e Berlin, nos incontáveis vilarejos das planícies russas, nos bazares da China e Japão – em todo o lugar existia a mesma figura sólida e indomável, moldada em monstro por trabalho e criação, trabalhando pesadamente do nascimento até a morte e, ainda assim, cantando. Dentre aqueles seres animais, uma raça de seres conscientes deveria surgir. Vocês, seres animais, estavam mortos; deles seria o futuro. Mas você poderia participar daquele futuro se você mantivesse ativa a mente como eles mantinham o corpo.

Nesse exato momento, assim como Winston vivencia o sentimento de esperança e a possibilidade, o sonho de algum tipo de futuro para a humanidade, a teletela que tinha estado escondida no quarto todo o tempo fala com Winston e Julia. A Polícia do Pensamento derruba a porta. O casal é preso, torturado e separado.

Nunca houve nenhum espaço privado para Winston ou Julia – não nos seus locais “secretos”, não na sua rebelião sexual, nem mesmo nos poucos centímetros cúbicos dentro de suas cabeças. “Por sete anos a Polícia do Pensamento tinha-o vigiado como um besouro sob uma lupa. Não existia nenhum ato físico, nenhuma palavra em voz alta, que eles não tinham percebido, nenhum conjunto de pensamentos que não tinham sido capazes de inferir”. Winston deveria ter levado mais a sério a descrição de Oceania que tinha lido no livro proibido The Theory and Practice of Oligarchical Collectivism, de Emmanuel Goldstein:

Um membro do partido vive do nascimento até a morte vigiado pela Polícia do Pensamento. Mesmo quando está sozinho ele nunca pode estar certo que está sozinho. Onde quer que esteja, adormecido ou acordado, trabalhando ou descansando, no banheiro ou no quarto, ele pode ser inspecionado sem notificação e sem saber que está sendo inspecionado. Nada que faz é negligenciável. Suas amizades, seu descanso, seu comportamento em relação a sua mulher e filhos, a expressão de sua face quando está sozinho, as palavras que balbucia no seu sono, mesmo os movimentos característicos de seu corpo, todos são cuidadosamente examinados. Não somente qualquer delito efetivo, mas qualquer excentricidade, mesmo que pequena, qualquer mudança de hábito, como tique nervoso que poderia possivelmente ser o sintoma de um conflito interno, é certamente detectado.

O estado vigilante orwelliano é assustador não porque – como no kafkiano – você poderia ser preso por causa de um rumor ou erro, ou porque, apesar de sua inocência, você poderia ser capturado no oceano inavegável do Estado. É assustador porque ele nunca erra. Ele não precisa ouvir rumores. E ele sabe que ninguém é nunca inocente.

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Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana.


Sobre o autor

Sarah Skwire

Sarah Skwire publicou artigos acadêmicos em áreas tão diversas quanto Shakespeare e Buffy, the Vampire Slayer, e seus escritos figuraram em diversos jornais renomados. Ela ocasionalmente palestra para o Institute for Human Studies e outras organizações. Sua poesia já figurou no Standpoint, no The New Criterion, e no The Vocabula Review. Seu atual projeto aborda longamente o tópico do dinheiro na jovem poesia moderna. Ela gradou-se com honra em Inglês pela Wesleyan University, e recebeu o Mestrado e o PhD em Inglês pela University of Chicago.



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