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Publicado em 1 de outubro de 2013 | por Jeffrey Tucker

Nossas Jaulas e Labirintos

Durante o último ano, tenho sentido que certos temas estão emergindo na literatura e filmes pop – temas que são diferentes das correntes dominantes do passado. Eu me esforcei para achar uma explicação, mas finalmente me veio quais são esses temas e por que eles são importantes.

Os enredos são altamente sugestivos sobre o que é viver (e vencer) em uma era de controle governamental generalizado – uma era muito parecida com a nossa.

Cinco seriados ilustram a questão: Breaking Bad na AMC; Orange Is the New Black e House of Cards, ambos que estão atualmente inundando a Netflix com uma fonte de novos assinantes; a insanamente popular série de romances e filmes Jogos Vorazes; e Boardwalk Empire, da HBO. Vamos ver o que eles têm em comum.

Todos os estudantes de literatura e cinema são treinados para encontrar a fonte básica de drama em uma história. O que está impedindo os personagens principais de alcançarem seus objetivos, e como os personagens vencem essas dificuldades? No século XIX e começo do século XX, as fontes eram previsivelmente naturais: o clima terrível (As Vinhas da Ira), privações e batalha contra a pobreza (Dickens), castas e classes (as irmãs Brontë), revolta da moral (Frankenstein, Dr. Jekyll), a reversão para o estado  de natureza como resultado de um acidente (Robinson Crusoé), e assim por diante.

Mas os tempos mudaram. E a cultura popular do século XXI reflete essas mudanças. Dado todo o progresso que fizemos, os obstáculos em nosso mundo não tendem mais a ser materiais, mas políticos. Na maioria dos lugares no mundo hoje, doenças, fome, moradia, pragas e desastres naturais não estão mais entre as questões fundamentais afetando nossa vida diária como eram antigamente. Algo diferente aflinge a geração atual.

E essas são as barreiras artificias de leis e legislações planejadas por burocratas e políticos.

Em muitos aspectos dos livros e filmes populares, a realidade de barreiras legais e as restrições institucionais resultantes criam limitações terríveis em que os personagens precisam encontrar soluções a problemas. Ao fazer isso, as pessoas lidam com certas características imutáveis da ação humana. Elas negociam entre si, legalmente ou não. Elas unem talentos individuais. Esses indivíduos aprendem e se preparam secretamente.  Eles juntam suas inteligências. Eles superam seus dominadores através de fugas astutas, empreendimentos criativos e com uma bravura impressionante. Eles perseguem seu auto-interesse enquanto procuram maneiras de beneficiar outros ao mesmo tempo, tudo com o objetivo de não apenas sobreviver mas de fato prosperar contra as adversidades. Eles não estão vencendo bestas selvagens ou furações ou outros aspectos da crueldade natural; eles estão vencendo agentes de fiscalização, autoridades e regras, e pretensos tiranos.

Jogos que as Pessoas Jogam

Jogos Vorazes ilustra bem a questão. Essa série distópica, altamente popular entre os  jovens, exibe um governo tirano inclinado ao total controle econômico e social. Na série, toda pessoa foi nomeada a um distrito e cada distrito tem certas privações atribuídas. A sociedade tem bastante riqueza, mas essa riqueza é apenas exposta na Capital. Para todos os outros, a riqueza é dividida baseada no favoritismo político e planejamento central.

O resultado é uma privação completamente desnecessária e totalmente seletiva. Tal provação é planejada para manter a população dependente do centro e fraca demais para se revoltar. As pessoas são especialmente desmoralizadas pelos jogos anuais em que duas crianças de cada distrito são escolhidas para um luta até a morte – um tipo de castigo anual que precisa ser pago como preço de uma tentativa de coup d´etat muitos anos atrás.

O que as pessoas fazem em relação a isso? Rendem-se completamente e tem sua individualidade destruída? De forma alguma. Essas pessoas formam famílias, cultivam o aprendizado e seus talentos, descobrem maneiras de negociar em seu benefício mútuo, e até mesmo descobrem formas de subverter o sistema dada as limitações extremas. Elas amam, crescem, lutam para serem livres, emergem profundamente em si próprias para encontrar e de alguma forma improvisar juntas uma existência civilizada.

A mensagem da série: o espírito humano é indestrutível, apesar de cada tentativa de  fazê-lo.

Vermelho, Branco e Azul (Sangue, Walter e Meth)

De uma maneira estranha, o altamente popular Breaking Bad de maneira similiar se baseia em restrições externas, dessa vez impostas pela guerra às drogas. Um professor de Química do ensino médio é diagnosticado com câncer; o custo do tratamento significa que sua família seria deixada sem nada quando a doença o matasse – como parece certo de acontecer. Então ele usa seu conhecimento e talento para entrar no setor de produção do mercado de drogas.

Nessa série, o leitor descobre uma sociedade gigantesca que prospera apesar da lei. Há estruturas de produção enormes, arranjos monetários e financeiros, investimentos de capital, canais de distribuição e competição feroz entre os fornecedores. A série é surpreendente porque todos nós sabemos de maneira abstrata que tais setores existem, mas não os encontramos na vida real. E ainda assim, a série mantém o personagem da vida real em cada detalhe.

Nesse setor de drogas, vemos distorções que resultam das restrições legais. Pessoas trapaceiam, mentem, roubam. A violência é endêmica. Há inveja e ego fora de controle. Mas apesar disso tudo, há certos universos humanos. Há ambição, talento, troca, determinação, troca de alianças, complexidade social e a luta por uma vida melhor. E tudo isso acontece no submundo, mesmo embora os senhores da guerra às drogas estejam em todo lugar e completamente determinados a acabar com ela – o cunhado do personagem principal é um figurão da DEA local. Ainda assim, não pára e não irá parar o mercado de drogas.

O tema: A inclinação humana de seguir adiante e viver à vida por completo, mesmo em grande risco à pessoa e propriedade, não pode ser destruída.

Proibido por Lei

Encontramos a mesma coisa no show Boardwalk Empire, que é a série de televisão mais longa sobre a proibição do álcool. À medida que os autores da série demonstram a situação, duas coisas são inconcebíveis sobre a lei em tal mundo: que pode parar ou até mesmo diminuir o consumo de álcool, e que não haveria um aparato vasto, (quase) no submundo administrando a produção e distribuição.

A corrupção oficial entre os agentes do governo é tão difundida que é difícil de chamá-la de corrupção; a proibição não é nada mais que uma oportunidade para eles. Todos os personagens principais estão focados nas mesmas questões em cada empreendimento: rotas de distribuição, pagamentos, contabilidade, fornecimento, competição, qualidade de produção. A grande diferença entre esse mercado e outros se deve à falta de canais legais para resolver disputas. E isso significa violência implacável no setor.

Jaula Enferrujada

Outra troca da ideia de barreiras artificiais é revelada no drama prisional Orange is the New Black. Mesmo na prisão e apesar dos guardas e vigias sempre presentes, das celas  e regras, de alguma forma uma sociedade complexa é formada. As prisioneiras aprendem a negociar e desenvolvem formas de seguir em frente, manter a dignidade, cultivar talentos e encontrar o amor. Todas as armas do mundo não podem parar esse processo.

Forma-se uma coordenação complexa entre as pessoas e grupos – uma sociedade completa em si mesma, mesmo na prisão, e não é diferente da sociedade regular exceto ao grau que ela é truncada e corrupta pelas restrições institucionais em que se desenvolve.

Então lá nós temos. Mesmo uma prisão de segurança máxima não consegue reprimir o que está em todos nós: a luta por uma vida melhor e mais próspera. Nós iremos formar associações, iremos improvisar uma vida juntos, iremos tirar o melhor de uma situação terrível e mesmo prevalecer sob restrições extremas. O drama em que nos identificamos é torcer por aqueles que estão contornando o sistema.

De maneira intrigante, você pode encontrar os mesmos temas na série House of Cards. Inicialmente eu não dei bola para a série – quem se importa quem está ganhando ou perdendo no sistema político?— mas eventualmente eu comecei a ver como sutilmente, de maneira brilhante, a série nos diz sobre o governo atual.

Os personagem principal tem a ambição de se tornar presidente. Ele é dedicado ao poder como uma ideologia e ambição de vida. Mas para conseguir obtê-lo, ele precisa cooperar com outros, que ele compra com favores e manobras cuidadosas. Ainda mais que na situação da prisão, o jogo político é ridiculamente artificial. Ainda assim, vemos as mesmas motivações em jogo como vemos em qualquer outra área da vida. Mercados existem mesmo no meio do atoleiro governamental. E mesmo com todas as restrições institucionais, eles impulsionam o objetivo perverso de mandar nas outras pessoas ao invés de serví-las.

Em outras palavras, em cada um desses casos, as pessoas continuam agindo como as pessoas que conhecemos – como as pessoas que somos – não importa qual cenário elas se encontram. Seja em uma distopia totalitária, em meio a guerra às drogas, em um sistema de justiça assolado por corrupção, uma prisão, ou mesmo no mundo autônomo  da política que é quase intocado pelas forças do mercado, os mercados ainda assim operam, porque mercados são construídos por pessoas que não são máquinas mas atores humanos reais.

Essas são todas histórias da invencibilidade do individualistmo, da ambição humana e do desejo de sobreviver e triunfar. Exemplos não faltam.

Sinais dos Tempos

Agora a questão: Por que esse tema está tão difundido na cultura popular atualmente? A razão tem a ver com os sinais de nossos tempos. A humanidade aprendeu a se vestir, se alimentar e a encontrar abrigo. A prosperidade da forma que conhecemos hoje nunca foi tão generalizada em toda a história. Temos aprendido a controlar pragas, infestações e más colheitas.  Temos até aprendido como lidar com desastres naturais melhor que qualquer outra geração anterior. Como resultado, no mundo desenvolvido, hoje o pobre vive melhor que o rico de um século ou até meio século atrás. Então, onde está o drama?

Onde encontramos as dificuldades e desafios no mundo atual?

A resposta é óbvia nesses temas. O problema é o governo. O governo é em certa forma artificial, algo construído por pessoas com poder; é desnecessário mas de certa forma maior e mais invasor que nunca. Um livre mercado não tem tais restrições legais. Há desafios e dificuldades mas elas não são distorcidas e dificultadas pela força da lei. Sua tendência é em direção a mais oportunidades e à eliminação de distorções.

O governo, pelo contrário, impõe sistemas, e esses sistemas tem o efeito de limitar a escolha humana e a formação de vidas e instituições comuns. Isso é obviamente o problema nos Estados Unidos atualmente. Lidar com burocracia, política, regras absurdas e complicadas legislações gigantescas é algo que afeta cada empresa e cada família. Nossas escolhas são limitadas por esse labirinto de controle. Esse estado de coisas desproporcionalmente afeta os jovens.

Mas nós desistimos? Não, nós precisamos vencer. Aprendemos a lidar com a realidade e de certa forma encontramos nosso caminho para uma vida melhor, apesar das barreiras e restrições. Essa realidade é ainda mais presente nas pessoas atualmente, simplesmente porque o aparato coercivo do estado está rastejando profundamente no cotidiano das pessoas, e essa realidade está se tornando óbvia. Os indivíduos não serão derrotados, não importa o quanto extremas sejam as restrições.

Tenha certeza, outras sociedades lidaram com tais problemas. A literatura russa do século XIX e XX lidou com esse tema. E também foi o caso das convicções políticas populares da europa oriental depois da Segunda Guerra Mundial. Uma mulher polonesa que vivia sob o comunismo recentemente me disse que em seu tempo, todos sabiam quem era o inimigo. O inimigo era o governo. Não havia dúvidas sobre isso. Como ela dizia, quanto pior era o sistema, mais havia uma clareza disseminada sobre qual era o problema e a solução. Todos sabiam que sobreviver e seguir adiante significava quebrar a lei.

Estamos chegando nesse ponto sobre a democracia moderna atualmente? Absolutamente. Mas a compreensão tem sido demorada. Os temas e popularidade desses seriados são um sinal de esperança que essa consciência está começando a se espalhar. As maiores barreiras ao avanço social atualmente são os sistemas de governo que os seres humanos criaram. Eles tentaram nos regimentar e retirar nossa liberdade de ação. Assim como a cultura pop está mostrando para nós, não podemos permitir isso acontecer. Acima de tudo, não podemos permitir isso vencer, porque o sucesso de controle externo significa a derrota do espírito humano.

Agradecimentos especiais a Paul Cantor, Steven Horwitz, Doug French e Nicholas Tucker por seus comentários no rascunho desse artigo.

***

Tradução de Robson Silva. Revisão de Ivanildo Terceiro.


Sobre o autor

Jeffrey Tucker

É o presidente da Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org. É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo.



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