Oriente Médio Gaza Israel

Publicado em 24 de julho de 2014 | por Juan Carlos Hidalgo

Israel, Hamas e o sofrimento de Gaza

Não há tema que desperte mais emoções nestes dias que a intervenção militar de Israel em Gaza e o crescente número de vítimas que esta tem provocado. As notícias estão cheias de imagens angustiantes de crianças e mulheres mortas, hospitais destruídos e familiares desconsolados pela perda de seus entes queridos. A guerra se transferiu para as redes sociais, onde os críticos e os defensores da ação israelense trocam argumentos – e em muitos casos desinformação e insultos – sobre a natureza do conflito. Há poucos dias o comediante americano Jon Stewart ironizou a dificuldade que é opinar sobre este tema.

Dada a complexidade da crise, com todas suas facetas, não vou fazer uma análise exaustiva desta nem de suas possíveis soluções. Para quem quer um resumo bastante completo e imparcial dos antecedentes desta última rodada de violência, lhes recomendo este artigo do blog La Suiza Centroamericana. Diferentemente, me limitarei a compartilhar minha impressão sobre aspectos particulares deste confronto.

Israel tem todo o direito a se defender: Ninguém pode esperar que um país atacado por centenas de mísseis direcionados a alvos civis permaneça de braços cruzados e não faça nada para se defender. Felizmente, graças aos avanços tecnológicos de Israel, particularmente o chamado “Domo de Ferro“,  muitos destes foguetes (embora não a maioria), são destruídos no ar, minimizando as baixas civis israelenses. Ainda assim, a chuva de mísseis lançados de Gaza pelo Hamas destrói moradias, edifícios e aterroriza a população de Israel. O governo de Tel Aviv tem todo o direito – e a responsabilidade – de proteger seu povo.

O debate sobre a “proporcionalidade”: Somente aqueles que no fundo querem o desaparecimento de Israel não acreditam que este deva exercer seu direito a se defender, e isto implica atacar de volta o Hamas, a organização que controla a Faixa de Gaza e que é responsável pelos lançamentos dos mísseis. O problema reside na natureza terrorista do Hamas, cujo objetivo declarado é a destruição de Israel. A Faixa de Gaza é um território de apenas 360 quilômetros quadrados (pouco menos que a extensão da província central de Alajuela, na Costa Rica) onde habitam 1,8 milhões de pessoas. Conta com uma das densidades populacionais mais altas dos planeta, o que torna impossível conduzir operações militares sem colocar em risco inocentes. Pior ainda: o Hamas recorre a táticas condenáveis, como guardar armamentos e munições em escolas, casas e demais edificações civis, para que assim qualquer ataque provoque baixas na população e gere revolta contra Israel. A pergunta, então, é até que ponto pode Israel buscar atacar alvos militares em Gaza sabendo que provocará baixas civis. A última notícia, até a hora que escrevo isto (23 de julho), é que foram mortos mais de 600 palestinos, 70% destes civis, segundo as Nações Unidas. Do lado de Israel, morreram dois civis por conta dos mísseis do Hamas.

Conforme aumenta de maneira alarmante o número de vítimas civis, cresce a impressão de que Israel está forçando a mão em sua intervenção em Gaza. Aqui cabe assinalar dois pontos. Primeiro, o objetivo das Forças de Defesa Israelense é o Hamas, não a população civil. O exército israelense toma medidas para diminuir a morte de inocentes: desde panfletos que são atirados pelo ar, mensagens de textos aos moradores de um edifício ou casa, até tiros de advertência para que estes abandonem seus aposentos. Como é de se esperar, estas táticas são altamente falíveis, e por isso centenas de inocentes tem perdido suas vidas, incluindo muitas crianças. Em segundo lugar, existe um debate jurídico sobre a doutrina da proporção nas intervenções militares. Não é tão fácil como comparar a quantidade de civis mortos de ambos os lados, dado que também se deve incorporar elementos como a finalidade e a distinção nos objetivos militares (o Hamas ataca civis, Israel ataca o Hamas). Como tudo neste conflito, não é branco ou preto.

Predomina a desinformação, a propaganda e o duplo peso e medida: Não há nada que carregue mais as energias da propaganda e da desinformação que uma incursão militar de Israel nos territórios palestinos. Nas últimas semanas, temos visto como as redes sociais se encheram de imagens sangrentas de vítimas civis, que logo se revelaram serem fotos provenientes dos conflitos na Síria, Egito ou Iraque. Curiosamente, vemos que muitas das pessoas que mostram indignação pelo que ocorre em Gaza não se pronunciaram sobre as 170 mil pessoas assassinadas na Síria ou sobre o uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad contra populações civis. Fica bastante claro que grande parte da má vontade para com Israel entre amplos setores, principalmente identificados com a esquerda, tem mais a ver com antissemitismo que com uma preocupação real pelos direitos humanos. Contudo, isso não quer dizer que TODA crítica as ações de Israel se deva a preconceitos contra os judeus.

A população de Gaza é a principal vítima: É necessário fazer a distinção aqui entre o Hamas e a população palestina de Gaza. Se bem o Hamas chegou ao poder mediante a eleição de 2006 (especialmente pela sua promessa de lutar contra a corrupção), desde então não se voltou a realizar eleições que legitimem o controle do grupo sobre Gaza. Mais ainda, os palestinos tem experimentado um conflito interno próprio que terminou no Fatah (o partido secular fundado por Yasser Arafat e que dominou a Organização para a Liberação Palestina por muitos anos) controlando a Cisjordânia e no Hamas dominando Gaza. Esta organização islâmica aproveitou o controle desse território para se abastecer de mísseis e foguetes (fornecidos historicamente pelo Irã e Hezbollah) e atacar Israel. Isto forçou o governo de Tel Aviv a impor um bloqueio naval e territorial sobre Gaza. Por outro lado, depois do golpe de estado que derrubou a Irmandade Muçulmana no Egito, esse país também fechou sua fronteira com Gaza. Como resultado, seus habitantes se encontram literalmente presos ali. Não podem escapar para nenhuma parte.

Aliás, as atitudes dos palestinos de Gaza não estão em concordância com o objetivo final do Hamas (que é destruir Israel). Uma pesquisa recente do Washington Institute assinala que cerca de 70% dos palestinos de Gaza apoiam um cessar das hostilidades contra Israel. Cerca 60% acreditam que um governo de unidade nacional entre o Fatah e Hamas renunciará a violência. A popularidade da organização islâmica havia caído significadamente nos últimos meses e era de se esperar que qualquer eleição fruto de um acordo para esse governo unificado resultaria em uma forte derrota do Hamas. Esta dinâmica provavelmente tem mudado agora com esta última escalada de violência, a qual serve aos objetivos (eleitorais) do Hamas.

Israel buscou a crise: Como começou tudo? De forma resumida, o gatilho desta última crise foi o sequestro de três jovens israelenses na Cisjordânia que, três semanas depois, apareceram assassinados. O governo de Benjamin Netanyahu imediatamente responsabilizou o Hamas, apesar de que a referida organização nunca assumiu a autoria do crime e se acredite mais fortemente que foi o clã Qawasmeh de Hebron o responsável. O governo de Tel Aviv se mostrava extremamente incomodado pelo acordo de unidade nacional palestina entre o Fatah e o Hamas, o qual inclusive foi bem recebido em Washington e outras capitais ocidentais, como um primeiro passo hesitante para a renúncia definitiva da violência pelo Hamas. Aproveitando o horrendo crime destes três garotos, Israel prendeu ativistas do Hamas (que provavelmente não tiveram nada a ver com os assassinatos), o que provocou uma resposta em forma de uma chuva de mísseis e na crise que agora enfrentamos. Tel Aviv nunca ocultou sua intenção de minar o acordo entre o Fatah e o Hamas. Com esta crise, atingiu seu objetivo.

O atual governo israelense não quer um Estado Palestino: É preciso dizer: a extrema direita israelense tem controlado o governo deste país de tal forma que nem Netanyahu, nem seu partido, nem a enorme maioria do seu gabinete, está comprometido com um acordo de paz com os palestinos que estabeleça uma solução de dois Estados, ou seja, a criação de um Estado palestino em pé de igualdade com Israel. Dentro do governo de Netanyahu, há vozes que vão desde a criação de uma “Grande Israel” que anexe oficialmente os territórios palestinos até aqueles que inclusive defendem a expulsão dos 20% da população israelense que é árabe. Sob o governo de Netanyahu se tem acelerado a construção de assentamentos judeus na Cisjordânia, que cada vez mais comprometem a viabilidade de um Estado palestino. Tel Aviv insiste que não pode fazer um acordo de paz até o Hamas renunciar a violência, contudo a contínua construção de assentamentos na Cisjordânia põe em questionamento seu interesse numa solução de longo prazo. Mais ainda: elementos radicais dentro do governo israelense, como Avidgor Liberman, o ministro das Relações Exteriores, e Naftali Bennett, o ministro da Economia, consolidaram seu poder e influência, enquanto os moderados como Tzipi Livni, a ministra da Justiça, já não possuem espaço.

O ganhador até agora é o Hamas: Enquanto escrevo estas linhas, as baixas militares israelenses estão na casa dos trinta de seu efetivo, a mais alta em quase uma década. As linhas aéreas americanas e europeias decidiram suspender voos para Tel Aviv, supostamente por razões de segurança, mas alguns especulam que as decisões dos burocratas americanos e europeus são uma maneira dissimulada de por pressão em Israel para que encerre as hostilidades. Os pedidos de Netanyahu para que retomem os voos tem chegado em ouvidos surdos. Por outro lado, Israel está perdendo de goleada a batalha das relações públicas, onde, é preciso repetir, há muita propaganda e desinformação contra esse país. Daí que não seja uma surpresa que o Hamas tenha rechaçado várias propostas de trégua negociadas pelo Egito e aceitadas por Israel. Lembremos: o Hamas não se importa com as vítimas civis palestinas. E, lamentavelmente, Netanyahu se encontra agora em uma posição política onde não pode cessar unilateralmente a ofensiva.

Se pela véspera se prevê o dia seguinte, a incursão israelense terminará em aproximadamente uma semana, não sem antes ter superado o limiar de mais de mil mortos em Gaza. Tel Aviv dirá que dizimou severamente a capacidade do Hamas de atacar Israel, enquanto que esta organização cantará uma vitória moral pelas baixas militares israelenses infligidas e o dano a imagem de seu inimigo mortal. Tudo isto sobre o sangue de mil inocentes. Não há luz no fim desse túnel.

 

// Tradução de Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Juan Carlos Hidalgo

Juan Carlos Hidalgo é o analista político para a América Latina do Center for Global Liberty and Prosperity. Escreve frequentemente para os jornais americanos International New York Times, Miami Herald, Forbes, Huffington Post, New York Post, El País (Espanha), La Nación (Argentina), El Tiempo (Colômbia), El Universal (México), El Comercio (Perú), e El Mercurio (Chile). Atua como comentarista recorrente nos canais BBC News, CNN en Español, Univisión, Telemundo, Voice of America, Al Jazeera e Bloomberg TV.



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