O Estado Islâmico (EI) é uma empresa

Publicado em 19 de agosto de 2014 | por Colin W. O'Reilly

O Estado Islâmico (EI) é uma empresa

Para o Estado Islâmico (EI), o terrorismo é um empreendimento.

Dias antes que o EI (grupo antigamente conhecido como ISIS, Estado Islâmico do Iraque e do Levante) capturasse as cidades iraquianas de Mosul e Tikrit, oficiais de inteligência obtiveram pendrives de um esconderijo do conselho militar desse grupo. Neles, uma grande quantidade de informação sobre a estrutura e a administração do grupo militar islâmico que pode mudar nossa forma de pensar sobre a política externa e o desenvolvimento econômico foi encontrada.

A liderança e a organização do EI é o exemplo mais recente e claro de um grupo extremista empenhado no empreendedorismo destrutivo. John Robb, escritor, analista militar e empresário norte-americano descreveu o EI como “um livre bazar de violência”. A característica empresarial e decentralizada do EI a torna, segundo Robb, “praticamente indestrutível”. O conceito de empreendedorismo destrutivo, então, merece ser tratada com a mesma seriedade que o empreendedorismo produtivo tradicional.

Não temos razão para acreditar que os povos do Iraque e da Síria são menos empreendedores do que os povos dos Estados Unidos ou da Polônia. A diferença é como a consciência empresarial e a disposição para assumir riscos serão usadas de acordo com a cultura, os incentivos, e os objetivos da organização. No norte e no leste da Síria, o enfraquecido regime de Assad deixou vários poços de petróleo abandonados; o líder alerta e consciente, Abu Bakr al-Baghdadi, aproveitou essa oportunidade “de lucro”. Da Síria, o EI está contrabandeando milhões de dólares em artefatos antigos para ajudar no financiamento de suas operações, um ato tanto de roubo, como de arbitragem.

O economista William Baumol explicou que nosso entendimento do empreendedorismo era unilateral. Por anos, os estudiosos do empreendedorismo analisaram como os indivíduos assumem riscos e lidam com incerteza não quantificável. Considerava-se que os empreendedores inovavam por meio da destruição criativa, utilizando o seu estado de alerta para assegurar lucros. Esses empreendedores são produtivos e contribuem para a eficiência da economia – isto é, se eles agirem dentro do âmbito da lei e ordem. O empreendedorismo destrutivo ocorre quando o estado de alerta empresarial e a tomada de risco são usados para destruir recursos, interromper investimentos e obter rendas. Alguns de nós estamos familiarizados com o empreendedorismo político no comportamento do rent-seeking (rentista), mas poucos estudiosos veem o terrorismo pelas lentes do empreendedorismo.

Não há dúvida de que os membros da ES estão se engajando em atividades de risco, embora, em primeiro momento, a maioria de nós não consideraria os riscos de lutar uma Jihad como empresariais. O risco de morte, caso um indivíduo decida fazer parte de uma organização terrorista é séria, mas quantificável; no entanto, a incerteza oriunda da desestabilização de sistemas políticos e culturais complexos é verdadeiramente desconhecida. Os ataques do EI provocarão os Curdos,  farão com que os EUA vão ao Iraque de novo, farão com que o Irão intervenha ou provocarão uma série de eventos que não podemos atualmente imaginar?

Chamar o comportamento do EI de “empresarial” pode não parecer convincente. Mas considere como o EI se comporta como uma firma de formas muito mais concretas.

Liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, PhD pela Universidade Islâmica de Baghdad, o EI é administrado como uma firma. Da mesma forma que as firmas tradicionais, o EI publica o que a The Economist chama de um relatório corporativo, um documento que detalha os ataques do EI no decorrer do ano anterior. Dentro do EI, os “líderes do grupo foram tem sido meticulosamente escolhidos” e a administração possui um registro detalhado dos esforços de guerra do grupo. “Eles relacionaram tudo por itens”, de acordo com uma fonte do The Guardian. O EI também oferece serviços que o governo iraquiano tinha dificuldades em prover de forma eficiente: controle do tráfego, combate ao crime e emissão de comprovante de recolhimento de impostos.

Muitos que entendem como os mercados e os incentivos promovem a prosperidade por meio do empreendedorismo, de baixo para cima, fracassam na aplicação da mesma lógica de incentivos e agentes descentralizados às relações exteriores. O empreendedorismo destrutivo é um processo descentralizado de busca por oportunidades – o que é exatamente como o EI é formado. Como um oficial de inteligência em entrevista ao The Guardian afirmou, “não houve nenhum agente estatal relacionado  ao processo, o que já sabíamos desde o início. Não precisamos de um”.

Após uma década tentando desenvolver o Iraque e o Afeganistão enquanto luta contra insurgentes descentralizados, a política externa permanece muito focada no tratamento de ameaças por meio de uma abordagem de cima para baixo, pelo contato com chefes de Estado como Nuri al-Maliki, Vladimir Putin e Bashar Assad, em vez de focar em como o processo descentralizado de empreendedorismo se desenrola. .

A politica de desenvolvimento também é conduzida de cima para baixo, canalizando a ajuda externa por meio de burocracias corruptas – ou, pior, “bandidos estacionários” – em vez de diretamente focar nas pessoas que necessitam de ajuda humanitária. Instituições culturais, políticas e econômicas emergem juntas; da mesma forma que o empreendedorismo produtivo impulsiona esse processo, o empreendedorismo destrutivo o faz regredir.

Os seres humanos são criativos, atentos e empreendedores. Assim como o entendimento desse conceito leva a uma política pública humilde e efetiva, levará a mais política externa humilde e efetiva.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Colin W. O'Reilly

É professor-assistente de economia na University of Wisconsin-Stout. Sua mais recente pesquisa na recuperação civil em um conflito foi publicada no Comparative Economic Studies



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