Ciência Política política inimigo

Publicado em 12 de junho de 2014 | por Aaron Ross Powell

A inumanidade da política

Como seres humanos, temos a capacidade de raciocínio. Com ela, surge a capacidade de relacionamento racional com outrem. Se você desejar mudar minha opinião sobre algo, a melhor e mais humana forma de fazê-lo é através da persuasão pacífica. Argumente. Questione meu ponto de vista e tente mostrar onde estou errado. Esse é o método utilizado por pessoas boas.

O que não fazem é apelar para a violência. Quando encontram desavenças insolúveis, não sacam facas, armas ou atacam seus adversários. Em vez disso, eles reconhecem que as pessoas irão discordar mesmo em questões muito importantes, e que o respeito que devemos uns aos outros como seres humanos demanda que também respeitemos aquelas diferenças. Enquanto você não estiver iniciando a violência contra mim ou minha propriedade, sou obrigado a não iniciar a violência contra você ou sua propriedade. Proceder de outra maneira seria comportar-se de forma irracional. E não deveríamos nos comportar assim porque isso não é o que pessoas boas fazem e porque isso não nos leva ao nosso potencial, quando vivemos a vida em plenitude. Nenhum homem vive bem se comportando como um bruto.

Se a humanidade básica – e, portanto, o respeito pela dignidade humana básica de outrem – me proíbe de agir de forma violenta para que as coisas saiam do meu jeito, também me proíbe de ter outras pessoas agindo violentamente em meu nome. Se eu quero o seu carro e você não quiser vender, as mesmas regras de moralidade dizendo que não posso quebrar o vidro e roubar seu carro também dizem que não posso contratar um ladrão para quebrar o vidro e roubá-lo para mim.

Contudo, contratar um ladrão para cometer violência para nós é, na verdade, o que grande parte da política é. Veja a guerra às drogas. Na sociedade civil, se eu acho que o seu consumo de drogas é prejudicial, eu lhe digo diretamente. Eu ofereço evidências e argumentos sobre o porquê você não deveria fazer isso. Eu trago sua família e amigos para a discussão. Se você persistir, todavia, eu tenho que aceitar tal fato – contanto que o seu uso de drogas não infrinja meus direitos básicos, por exemplo, se você roubar para pagar pelo seu vício.

No entanto, na sociedade política, eu não paro quando argumentos e evidências fracassam. Eu recorro ao estado. Eu reúno alguns companheiros para que votem uma lei contra o uso da droga, ou convenço um grupo de políticos a fazê-lo. Com aquela nova lei ao meu lado, eu posso agora utilizar a violência para que as coisas saiam do meu jeito. Você quer continuar usando drogas? Tudo bem, mas agora um policial armado vai fazer você parar, e se você não cooperar, ele irá prendê-lo. E se você resistir, ele pode atirar em você.

Esse princípio básico – a política como uso da violência quando outros meios de persuasão fracassaram – se aplica a muito mais políticas do que somente as leis contra o uso de drogas. Os negócios usam a violência da política para evitar concorrentes. Funcionários de escolas estatais se utilizam da violência da política para evitar que estudantes fujam de escolas de má qualidade. Reformadores que financiam campanhas usam a violência da política para denunciar discursos com os quais discordam. O prefeito de Nova Iorque deseja utilizar da violência da política para impedir que os cidadãos de Nova Iorque ingiram grandes quantidades de açúcar.

Todos nós deveríamos abominar essa tendência em direção à inumanidade. Todos nós deveríamos lutar para sermos melhores do que a política nos encoraja a ser. Todos nós deveríamos recusar a recorrer à violência para que as coisas saiam do nosso jeito.

O problema é que, com o crescimento da política – e o crescimento do processo decisório político em detrimento do privado – torna-se cada vez mais difícil escapar da inumanidade que cria em nós. As decisões políticas são regidas pelo “ou”. Ou são legais ou não. Ou são de minha preferência ou sua. Como resultado, a política nos encoraja a ver uns aos outros como inimigos. Você não é somente alguém com uma opinião diferente do que a minha. Em vez disso, você é alguém que quer que eu faça as coisas a sua maneira – e assegura isso por meio de ameaças de violência.

Uma vez que nossa opinião sobre alguém nos faz vê-lo como inimigo, nós inevitavelmente começamos a desumaniza-lo. Como resultado não vemos necessidade de tratar a outrem de forma humana, respeitosa e por meio da razão. Em vez disso, a violência parece mais aceitável. Se nosso oponente é um bruto, você pode lidar com ele de forma bruta.

Isso é, sem dúvida, agravado pela raiva que a política desperta em muitos de nós, raiva que paralisa ou mesmo supera nossa capacidade de raciocínio, e, assim, é menos provável que reconheçamos a inumanidade no nosso comportamento.

Podemos fazer melhor do que isso. Na verdade, temos um dever moral a fazer melhor do que isso. Contudo, é igualmente importante querermos fazer melhor do que isso: alcançar o enorme potencial que temos como seres humanos.  Usar a política – usar a violência distante do Estado – para conseguir o que queremos representa um recuo com relação a esse potencial. Nossa relação com outrem deveria ser pautada pela razão, respeito, compaixão e gentileza – não mesquinhez, ameaças e violência. Nós deveríamos abraçar uma sociedade verdadeiramente civil, e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para deixar a inumanidade da política para trás.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Sobre o autor

Aaron Ross Powell

Aaron Ross Powell é pesquisador e editor do Libertarianism.org, um projeto do CATO Institute



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