Inovação & PI internet conexões

Publicado em 14 de fevereiro de 2014 | por Jeffrey Tucker

Como a internet salvou a civilização

Acabei de completar uma agenda cheia de palestras no evento Agora Financial Investment Symposium em Vancouver. Todas as minhas palestras foram centradas em temas como Economia da informação, startups web, e a produtividade da Internet e o seu significado. Como sempre, aprendi tanto dos participantes quanto (espero) eles aprenderam de minhas palestras. A pesquisa que fiz para preparar minhas apresentações, sobre o papel que a revolução digital tem desempenhado em nossas vidas, me tirou o sono.

Qual o tamanho do papel que a revolução digital tem desempenhado? Bem, 2,5 bilhões de pessoas usam a Internet todo dia, e dessas aproximadamente 80% estão na América do Norte, 67% na Europa e 43% na América Latina. Suspeito que o uso na África de 15,6%, esteja sendo subestimado, dado que smartphones estão invadindo o continente todos os dias.

Outros dados interessantes incluem: aproximadamente 140.000 novos websites entram em funcionamento todos os dias, metade dos usuários fazem operações bancárias online, e os usuários de redes sociais ficam navegando nos sites 3,2 horas por dia! Uma questão ainda ficou martelando na minha cabeça, porque eu lembro de um tempo no fim dos anos 1990 quando os usuários estavam ocupados gravando tudo que podiam da Internet em CDs. Acontece que, se você tentar usar seu computador hoje para baixar todo o conteúdo existente online, isso iria levar cerca de… prepare-se… 11 trilhões de anos.

A “nuvem” tem se tornado o novo mundo em que vivemos, nos comunicamos, trabalhamos, construímos nossas vidas profissionais e familiares, distribuímos o que sabemos, descobrimos coisas novas, e geralmente administramos todas as nossas vidas. A migração para a nuvem se intensifica em velocidade e substância todos os dias. Toda vez que você olha para um mapa do que está acontecendo, você descobre algo novo. Ninguém em particular está construindo esse mundo. Ele está sendo construído sem nenhum  planejamento, por escolhas individuais das pessoas, uma escolha por vez.

Não posso fazer nada a não ser comparar esse novo mundo com o antigo. O mundo antigo era governado por Estados-Nação com fronteiras, organogramas, categorias e planos para tudo. O novo mundo transcende estados, fronteiras, gráficos e planos. É uma ordem espontânea, constantemente estendida pelo desejo das pessoas de se conhecer e conectar-se. É o exemplo mais mordaz e bonito em nosso meio da habilidade das pessoas de organizarem as suas vidas por conta própria, com a assistência de empreendedores, programadores, promoters e proprietários.

O CEO da Google recentemente resumiu isso tudo nessa declaração profunda: “A Internet é a primeira coisa que a humanidade construiu que a humanidade não entende, é o maior experimento anárquico que nós já tivemos”.

Por “não entender”, ele quer dizer que ninguém pode possivelmente compreender a extensão, estrutura ou direção nessa ordem que está emergindo em nosso tempo. O conhecimento que a torna possível é descentralizado entre bilhões de usuários, em que cada um compreende apenas as escolhas discretas que ele ou ela está fazendo em certo instante. Você apenas pode ver o todo da mesma forma que você apenas pode ver a plenitude de uma cidade ao sobrevoá-la e olhar para baixo. A regularidade torna-se clara. Mas desse ponto de vista vantajoso, você perde os detalhes que tornam tudo isso possível.

As implicações políticas ainda têm que despontar nessa geração. De certa forma, ainda continuamos fingindo que os governos estão no comando. Eles não estão. Sim, eles saqueiam, ameaçam, regulam, dissimulam, são presunçosos e intimidam. Mas finalmente eles não controlam mais. Simplesmente não é possível. Mesmo as regulações mais restritas que existem em lugares como a China são uma piada nacional.

Se as pessoas de fato entendessem as implicações do aumento da ordem global na nuvem digital, todas as pessoas no mundo iriam descartar completamente a ilusão de que na nossa época analógica os governos podem fazer algum tipo de contribuição positiva para o nosso futuro.

Eu fiquei espantado que havia tantas pessoas de gerações anteriores que participaram de minhas palestras e prestavam tanta atenção. Elas fizeram tantas perguntas maravilhosas. Mesmo minhas discussões sobre questões mais atuais como o Bitcoin atraíram uma quantidade enorme de interesse das pessoas mais velhas. Isso completamente desafia o estereótipo, que estou convencido de que é uma mentira.

Pessoas mais velhas veem seus filhos trabalhando em indústrias em que a Internet é primordial. A Internet as têm salvo da solidão ao mantê-las conectadas com seus filhos, netos e bisnetos. Elas veem seus netos começarem negócios na web, e veem com admiração como seus bisnetos usam as novas ferramentas sem nenhum esforço.

Elas veem o futuro, e estão emocionadas ao ver que ele é brilhante. Elas querem saber que, quando deixarem esse mundo, irão deixar para trás um mundo de esperança e promessas. Elas estão vendo esperança nesse setor, e isso as emociona.

Às vezes eu brinco com uma história alternativa em minha cabeça, uma em que a Internet nunca foi aberta ao setor privado e não teve nenhum progresso tecnológico desde, digamos, 1990. Tenho completa certeza que o cenário econômico seria mais terrível que qualquer coisa que já vivenciamos em centenas de anos. O desespero já teria tomado conta da Terra. Os governos – seus impostos, regulações, manipulações de moeda e controles – teriam matado qualquer esperança de prosperidade.

Mas isso não aconteceu. Fomos legados com esse glorioso novo espaço em que construímos e vivemos, e é em grande parte um espaço em que o governo não pode controlar de nenhuma forma próxima à capacidade que certa vez administrou o mundo físico. A inovação essencialmente deu à civilização outra dose de sobrevida depois da humanidade bagunçar completamente o mundo no passado. Espaços digitais liberaram a energia criativa da humanidade quando os dominadores do mundo físico quase a mataram.

As pessoas me perguntam qual o motivo de meu otimismo. A melhor resposta que eu posso fazer segue adiante.

O estado, em todas as épocas e lugares, deseja uma população de pessoas desesperadas, tristes, desesperançosas e sobrecarregadas. Por quê? Porque tais pessoas não fazem nada. Elas são previsíveis, categorizáveis, dóceis e, essencialmente, sem poder. Tais pessoas não oferecem surpresas, ameaças à mudança e não desestabilizam nada. Esse é o mundo ideal que os burocratas, plutocratas e os tecnocratas desejam. Torna suas vidas mais fáceis e o caminho livre. Hoje sempre é como foi o ontem e será o amanhã – e como será eternamente. Essa é a máquina que o estado quer administrar, um mundo de pessoas depressivas e cidadãos obedientes da sociedade que o estado acha que é dono.

Em contraste, a esperança perturba a ordem dominante. Enxerga coisas que ainda não existem. Age na  promessa de um futuro diferente do atual. Brinca com a incerteza do futuro e se atreve a imaginar que ideais podem se tornar realidade. Aqueles que pensam dessa forma são uma ameaça a qualquer regime. Por quê? Porque as pessoas que pensam dessa forma eventualmente começam a agir dessa forma. Elas resistem. Elas se rebelam. Elas triunfam.

Mesmo assim, olhe à sua volta: podemos ver progresso em todo lugar. O que isso implica? Implica que a desobediência é a norma humana. As pessoas não podem eternamente ser impressas em um molde de decisões do estado. O futuro irá acontecer, e será modelado por aqueles que ousam romper com o convencional, ousam discordar, e ousam assumir riscos para triunfar em favor do que pode vir a ser.

Percebi tudo isso alguns anos atrás, e quando você começa a olhar em volta e ver como as elites no poder não podem e de fato não governam, você descobre o segredo atrás da ordem social. Acontece que eles não estão de fato no controle, finalmente não mais. Então tudo acaba se tornando uma piada.

É excitante ver os poderosos derrubados dos tronos que eles querem tanto sentar. É emocionante usar e possuir tecnologias, como as conhecemos, que ninguém entre a elite nunca deu permissão para existir. É estimulante ver como o mercado – que significa seres humanos agindo com a visão voltada para o  futuro – está constantemente vencendo os planejadores arrogantes que querem congelar a história, controlar nossas mentes e quebrar nosso mundo.

Para desafiá-los é muito simples: apenas imagine um futuro melhor que o presente. Você se torna um inimigo do estado, e começa a amar cada minuto disso. Você se torna parte da solução, e vê que sua vida e energia estão valendo a pena e fazendo a diferença. Que sortudos todos nós somos em viver nesses tempos.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Adriel Santana e Robson Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Jeffrey Tucker

É o presidente da Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org. É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo.



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