Ciência Política intelectuais e o estado

Publicado em 16 de junho de 2014 | por George H. Smith

Intelectuais e libertarianismo: Thomas Sowell e Robert Nisbet

No livro Knowledge and Decisions (1980), Thomas Sowell alega que “delegar o processo decisório a ‘especialistas’ tem se tornado uma característica central… da visão intelectual do processo decisório político-social”. Economistas e outros cientistas sociais frequentemente se retratam como conselheiros imparciais –na verdade, como peritos no assunto – cujo conselho deveria ser seguido por aqueles que detêm o poder político.

Por que as pessoas estão dispostas a conceder tanto poder a economistas, sociólogos, psicólogos, educadores e outros autoproclamados especialistas no campo da ação humana? Sowell faz algumas observações interessantes sobre esse tema.

Dificilmente se explica tal fato por sucessos comprovados. As taxas de criminalidade aumentaram quando teorias de criminologistas foram colocadas em prática; resultados de testes educacionais caíram quando novas teorias educacionais foram colocadas em prática. Realmente, o grande feito dos intelectuais tem sido manter a verificação empírica fora da discussão. Além disso, aqueles com perfil mais intelectual em sua ocupação – principalmente, os produtores de ideias – tem sido mais ávidos e mais favorecidos em termos de poder do que aqueles que produzem benefícios tangíveis abertos à verificação empírica. Não foram os agrônomos, médicos ou engenheiro que obtiveram poder, mas os sociólogos, psicólogos e teóricos do direito.

É o segundo grupo que transformou o cenário político e social nos Estados Unidos e em grande parte do mundo ocidental. Não é somente grande parte de sua produção cognitiva inerentemente inverificável empiricamente; eles têm, por meio de várias definições e procedimento axiomáticos tornado sua produção menos suscetível à autenticação do que acontecia anteriormente. Os jargões desses campos por si só já tornam sua essência em grande parte inacessível aos leigos. O transicionismo explica minimizando todas as consequências desastrosas como o preço de curto prazo para o triunfo de longo prazo. Eles chegaram até o poder mais por fé do que obras. Isso não é surpreendente à luz de conquistas similares por parte de intelectuais religiosos que os precederam. O que quer que tenha feito os seres humanos ansiosos por ouvir aqueles que clamam conhecer o futuro funciona tanto para os intelectuais contemporâneos quanto funcionou os antigos.

Os especialistas nas ciências sociais, de acordo com Sowell, são os equivalentes contemporâneos e seculares da classe sacerdotal com a seguinte diferença: os cientistas sociais, aproveitando-se do prestígio das ciências físicas, alegam apresentam julgamentos objetivos, livres de valores ou vieses pessoais, sobre o que promoverá o bem da sociedade ou, às vezes, o bem da humanidade. Intelectuais que se associam aos governos normalmente se orgulham de sua objetividade, especialmente quando se opõe ao que caracterizam como grupos de interesses especiais. No entanto, esses intelectuais meramente ocultaram seus valores pessoais sob o manto da ciência; na verdade, eles são somente outro grupo de interesses especiais com uma agenda política.

Robert Nisbet (um conhecido sociólogo que, embora normalmente seja chamado de “conservador”, tinha fortes tendências libertárias) tinha algumas coisas terríveis a dizer sobre seus colegas que disfarçavam seus valores políticos como ciência objetiva, e que buscavam se esconder em posições de poder.

Em 1982, Nisbet publicou um comentário elegante (no seu livro Prejudices) sobre as ciências sociais e seu papel na sociedade americana contemporânea. A economia, por muito tempo considerada a mais exitosa das ciências sociais, foi alçada a um nível quase aristocrático na década de 1930, devido à grande influência de John Maynard Keynes. No entanto, nos anos 1950, quando a economia alcançou a reputação prestigiada de uma ciência matemática exata, que os serviços de economistas profissionais foram ansiosamente procurados pelos políticos.

Ao final dos anos 1950, outras ciências sociais, além da economia, desfrutavam de grande prestígio, e o dinheiro rolava solto tanto do governo como de fontes privadas (tais como a Fundação Ford) com bilhões em ativos.

Outras fundações se fortaleceram, e na metade dos anos 1950, era raro um cientista social conhecido que não tinha os pré-requisitos de status que os cientistas do ramo da física tinham conhecido no início da 2ª Guerra Mundial. Muitos institutos de pesquisa focados nas ciências sociais surgiram; escritórios se tornaram cada vez mais luxuosos e seus ocupantes cada vez mais engajados em pesquisas, conferências, consultoria a governos entre outros serviços, viajando por várias partes do mundo – preocupados com tudo, exceto com o ensino dos universitários, uma responsabilidade progressivamente repassada à recém-formados ou técnicos.

O prestígio de algumas ciências sociais começou a diminuir abruptamente na década de 1960, alcançando o ponto mais baixo na década seguinte.

Na década de 1970, o que um sociólogo, um cientista político, um psicólogo social ou um antropólogo dissesse o que fosse sobre um assunto, para a maioria da população norte-americana, não teria importância. A credibilidade da qual tinham disfrutado por cerca de duas décadas depois da 2ª Guerra Mundial estava despedaçada, seus números reduzidos, e seu capital praticamente zerado. Agora que a economia tinha se juntado a elas, o drama chegava ao fim, o auge e a queda das ciências sociais era uma realidade.

Por que o prestígio público das ciências sociais sofreu um revés dramático em meados de 1982, o ano que Nisbet publicou seus comentários? Nisbet notou e rebateu as três razões padrão dadas pelos cientistas sociais:

  • Razão 1: Os cientistas sociais reclamavam de fundos insuficientes. Nisbet rebateu dizendo que verbas abundantes nunca tinham sido uma condição para o progresso das ciências físicas no decorrer da história.
  • Razão 2: Foi-nos dito que as ciências sociais, ao contrário das ciências físicas, estão ainda na sua infância, de forma que devemos perder seus muitos erros. A isto, Nisbet rebateu dizendo que as ciências sociais não estão na sua infância, tendo se originado (assim como as ciências físicas), ainda na Grécia Antiga.
  • Razão 3: Os cientistas sociais normalmente justificavam seus erros apontando para a complexidade dos dados sociais. A isso, Nisbet destacou que os cientistas físicos também se deparam com fenômenos altamente complexos. No entanto, eles tem obtido cada vez mais sucesso na superação desse obstáculo.

Um pouco demais para auto-piedade”, diz Nisbet, quem então sugere razões mais convincentes para o prestígio paulatinamente reduzido das ciências sociais.

Há, em primeiro lugar, o cientificismo pomposo que dominou as diversas disciplinas na década de 1950. A crença era que, se seus praticantes imitassem o comportamento dos cientistas, o mundo acreditaria que eles eram cientistas. Mais e mais ensaios nas ciências sociais vieram a se parecer como se tivessem sido feitos por um químico ou geólogo medíocre.

A segunda razão para o estado deplorável das ciências sócias é a megalomania que se estabeleceu em conjunto com a sua postura científica. Tão cedo quanto a década de 1950, somente alguns anos depois que as ciências sociais tinham começado a se fantasiar de ciência, iniciou-se um movimento em prol de monstruosidade como uma academia nacional de ciências sociais, fundos para as ciências sociais e uma fundação nacional de ciências sociais. Mais pedidos foram feitos em prol de posições como “Conselheiro Presidencial de Ciências Sociais” em Washington. O país inundado com a complacência dos cientistas sociais. Tudo o que era necessário para a erradicação instantânea da pobreza, crime, racismo, más condições de habitação e guerras era um governo corretamente aconselhado por cientistas sociais. Arrogância: orgulho virtualmente demandando a queda.

A terceira razão é o que Nisbet chama de “politização das ciências sociais”. A palavra “social” originalmente representava as instituições voluntárias, tais como a família, vilas, paróquias, cidades e assim por diante. A esfera social da interação voluntária foi contrastada com a esfera política do governo coercivo, então, quando os primeiros teoristas sociais falavam de “problemas sociais”, eles não estavam, necessariamente, reivindicando ações políticas.

Esse não é mais o caso; os cientistas sociais contemporâneos apagaram a linha que separava a esfera social da esfera política, tornando-as virtualmente indistinguíveis. Assim, quando um cientista social contemporâneo identifica algo como um “problema social”, é seguro apostar que ele está buscando uma solução política, que deveria ser implementada por meio dos mecanismos coercivos do governo. Dessa forma, o cientista social esconde seus valores e aspirações pessoas atrás de um véu de objetividade.

Esse mascaramento das agendas políticas como ciência objetiva nos leva à quarta explicação de Nisbet sobre a reputação pública negativa das ciências sociais. Desde a 2ª Guerra Mundial, os cientistas sociais (com a notável exceção de muitos economistas) tem sido quase unanime na sua defesa do liberalismo político (por “liberalismo”, Nisbet fala do “novo liberalismo” do século XX (progressivismo) nos Estados Unidos, a ideologia do “estado assistencialista”, não o significado da antiga tradição do liberalismo clássico, o qual defendia o estado mínimo e a liberdade individual). Como Nisbet explica:

Seria difícil encontrar em toda história uma cena mais flagrante de hipocrisia do que aquela apresentada pelos cientistas sociais, fingindo-se cientistas físicos, assegurando ao mundo que a objetividade era possível no estudo dos seres humanos (assim como o era no estudo dos átomos), mas, ao mesmo tempo, assegurando que suas hipóteses, princípios e conclusões fossem demonstrados de forma simples em qualquer apresentação nas primárias dos progressistas.. A ladainha do progressivismo era a ladainha da ciência social, com possível exceção do campo econômico… qualquer conclusão de um cientista social que não terminasse com um apelo ao governo nacional por ação imediata, adequadamente financiada por impostos, era puramente acidental…aqueles que participavam dos encontros dessas várias associações nas décadas de 1960 e 1970 poderiam ser perdoados por não saberem exatamente se eram encontros profissionais ou comícios em nome de progressistas e outros radicais. 

O prestígio público das ciências sociais provavelmente aumentou depois dos comentários de Nisbet em 1982, mas pouco mudou intrinsecamente nas ciências sociais. Na verdade, elas se tornaram ainda mais politizadas. Hoje, é pouco provável abrir um jornal ou uma revista séria, ou assistir a um telejornal, sem encontrar algum especialista psicológico, social ou político oferecendo sua ou sua opinião – “científica”, é claro – sobre a última crise social que está na moda. Além disso, os resultados de um estudo ou pesquisa “científico” frequentemente será citado e aceito como um evangelho, como se a aprovação de uma universidade prestigiada, think tank ou agência governamental automaticamente garantisse sua precisão.

Especialmente relevante para os libertários é a observação de Nisbet que a linha divisória entre o “social” e o “político” virtualmente desapareceu no discurso contemporâneo. Essa tinha sido por muito tempo a distinção crucial para pensadores individualistas, tais como John Locke, Thomas Paine e Thomas Jefferson, que claramente diferenciavam a esfera voluntária da sociedade da esfera coerciva do governo. Dada essa distinção, engajar-se na ciência social ou discutir problemas sociais não necessariamente carrega implicações políticas. Jefferson, por exemplo, acreditava que a vida noturna tendia a enfraquecer os valores morais, mas não demandou que o governo resolvesse esse problema social. Um problema social era somente esse – uma consequência indesejada da interação voluntária. E um problema social demandava uma solução social, por exemplo, um esforço voluntário e cooperativo das partes em questão de forma a melhorar essa situação.

Hoje, é claro, a situação é muito diferente. Para muitas pessoas, especialmente os políticos, meramente identificar algo como um “problema social” é implicitamente sugerir que o governo deveriam impor uma “solução” coerciva.

Convicção na eficácia dos métodos coercivos – uma forte crença daqueles chamados pelo sociólogo Roberton Merton de “intelectuais burocráticos” – foi caracterizada por Herbert Spencer (um dos fundadores da sociologia contemporânea) como “a maior superstição política”. Essa é a crença mágica de que um grupo de indivíduos que se chama “governo” pode gerar resultados supostamente impossíveis para aqueles meros mortais que agem, individual ou em grupo, por meios voluntários. Com pouca ou nenhuma demanda por seus serviços no mercado, os intelectuais burocráticos servem como conselheiros da corte que podem aplicar seus valores morais, não pela persuasão, mas por meio dos mecanismos coercivos da legislação, decisões jurídicas e decretos administrativos.

 // Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

George H. Smith

George H. Smith é Senior Research Fellow do Institute for Humane Studies, também é professor de História Americana nos Seminários de Verão do CATO Institute. Recentemente, Smith teve seu quarto livro, The System of Liberty, publicado pela Cambridge University Press.



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