Moeda bitcoins

Publicado em 15 de maio de 2014 | por Jeffrey Tucker

As influências dos pensadores austríacos sobre o Bitcoin

Existe um pouco de Menger, Mises, Hayek, Rothbard e Kirzner no plano de Satoshi

O Bitcoin parece ter surgido do nada no início de 2009 como um sistema monetário e de pagamento unificado, algo que ninguém tinha previsto. É verdade que as primeiras pessoas que viram o mérito e viabilidade do projeto foram slingers e hackers. Eles publicam seus papers em locais estranhos, e esses trabalhos não estão disponíveis nas bibliotecas universitárias. É muito difícil acompanhar esses trabalhos, e não existe literatura acadêmica sobre isso. Daí reside a beleza do Bitcoin, você embarca neste mundo, começa a usá-lo, e aprende tudo do zero.

De minha parte, permaneci cético em relação ao Bitcoin por dois anos. Parecia loucura que a moeda pudesse, de alguma forma, ser criada por um computador sem um lastro físico ou externo. De certa forma, parecia contradizer tudo que sabíamos até o momento sobre a moeda.

Mas agora que a moeda está consolidada, sua infraestrutura sendo construída, caixas eletrônicos se espalhando por aí, a opinião pública está se rendendo a ela. A criptomoeda é uma realidade e chegou para ficar.

É o momento ideal para uma retrospectiva, de modo a descobrir quais economistas anteciparam essa ideia radical, que os próprios mercados poderiam descobrir e sustentar uma moeda independente do estado. Para encontrarmos esses economistas, precisamos começar por aqueles que consideraram a moeda como um bem de mercado, criado por meio da experimentação empresarial.

Esse caminho leva, invariavelmente, à Escola Austríaca.

Carl Menger (1840-1921). “A moeda não é uma invenção do Estado”, escreveu o fundador da Escola Austríaca.

Não é produto de um ato legislativo. Nem mesmo a sanção da autoridade política é necessária para a sua existência. Certas commodities se tornaram uma forma de moeda naturalmente, como resultado das relações econômicas que ocorriam independentemente do poder do Estado.

Essa ideia vai contra muito do que pensamos saber. Hoje, a moeda é produzida pelo estado, e tem sido assim em grande parte do mundo há, pelo menos, 100 anos, criando uma ilusão de que a moeda não existiria sem o estado.

Isso não é verdade. A moeda foi estatizada, assim como as estradas e as escolas foram. Nenhuma das razões para tal acontecimento é boa. O governo gosta de controlar a moeda, porque pode deprecia-la e, por meio disso, obter outra fonte de receita além dos impostos. Ele pode afiançar suas próprias dívidas, evitando que o mercado possa avalia-las de forma realista.

Os bancos respeitam esse desejo do governo. Em troca, são protegidos da concorrência do mercado e disfrutam de proteção contra as corridas aos bancos [N.R.: Quando inúmeros clientes desejam sacar todo o seu dinheiro de um banco]. Essencialmente, o governo concede aos bancos o direito à falsificação contanto que o governo tenha o direito de se aproveitar dos primeiros frutos [N.T: notas] das impressoras [N.T: conhecido como imposto inflacionário].

Assim que você se livra do mito de que o governo criou a moeda, surgem novas possibilidades. Menger descreve o surgimento da moeda em termos evolucionários. Existe um processo de tentativa e erro. Existe um processo de inovação. Existem dificuldades. Algo pode servir como moeda em um lugar e não em outro. O seu surgimento é gradual e é repetida diversas vezes. “Essa transição não ocorre de forma abrupta, nem ocorre da mesma forma em todos os povos”, Menger escreveu. Essa é uma boa descrição do surgimento do Bitcoin.

Ludwig von Mises (1881-1973). Em um livro publicado em 1912, Mises aprofundou e ampliou a teoria original de Menger sobre a origem da moeda. Ele estava buscando descobrir o preço original da moeda em termos de bens e serviços. Ele explicou que, a qualquer hora, existem muitos bens competindo pelo status de moeda – isto é, alguém adquirindo um bem não somente para consumo, mas também para comercializá-lo em troca de outros bens.

Ele explicou que é impossível que algo seja simplesmente rotulado “moeda” e, consequentemente, obtenha valor. Deve haver algo mais. O ouro e a prata, por exemplo, obtiveram seu valor como moeda em virtude de seu uso prévio no processo de escambo. Nesse sentido, a moeda deve ser consequência de uma experiência real de mercado.

Como essa lição se aplica ao Bitcoin? O valor intrínseco do Bitcoin está conectado ao seu incrivelmente inovador sistema de pagamentos. A tecnologia combina uma rede de distribuição, um sistema de contabilidade atualizado e verificado para cada transação, criptografia, e um sistema direto de troca P2P para criar um blockchain. Os usuários fizeram testes com os resultados por oito meses antes que a moeda Bitcoin obtivesse seu primeiro valor de mercado.

Conceder valor a essa moeda digital não era algo que o governo ou um contrato social poderiam fazer. É necessária a experiência real de mercado para que um bem adquira valor – ou, no caso do Bitcoin, um serviço magnífico do qual o mundo precisa. Essa é a origem do valor do Bitcoin. Na verdade, se não existisse uma rede de pagamentos ligada à moeda, a moeda não teria valor.

Quando explico esse processo às pessoas, a rede de pagamentos é um ponto de controvérsia. A maioria das pessoas pensa na moeda e no sistema de pagamento como entidades distintas (dólares versus Visa, por exemplo). Com uma moeda estatal, esse raciocínio é totalmente correto. Mas o Bitcoin é diferente. Ele é dois-em-um. É difícil entender.

Mises fez duas contribuições adicionais à teoria da moeda. Ele disse que o banco central não era necessário e previu que seria prejudicial à estabilidade da moeda. A história provou que ele estava certo. No seu modelo, a moeda funcionaria totalmente separada do estado – assim como o Bitcoin. Além disso, Mises ligou intimamente a causa da estabilidade da moeda à própria liberdade. Ele comparou a estabilidade da moeda a instituições que garantem os direitos humanos fundamentais.

F. A. Hayek (1899–1992). Hayek foi aliado de Mises na luta por uma reforma monetária por muitas décadas. Juntos, eles alertaram sobre os perigos relacionados a um banco central. Eles demonstraram como a política creditícia expansionista leva à inflação e a ciclos econômicos e também estimula o crescimento do governo. Eles argumentaram e imploraram para que as coisas mudassem. Mas eles estavam condenados a serem profetas da decadência.

Um ano depois da morte de Mises, Hayek decidiu mudar de estratégia. Em 1974, ele escreveu Desestatização do Dinheiro Ele desistiu da ideia do envolvimento governamental na questão monetária em qualquer nível e concluiu que deveria ocorrer uma separação completa, até em nível de reformas. Ele sugeriu uma revolução de baixo para cima.

No início, Hayek preferiu o padrão-ouro. Em seu livro, todavia, ele disse que, na verdade, “Nós certamente podemos fazer melhor que isso, mas com certeza não através do governo”. Ele explicou que “sempre tivemos uma moeda fraca porque a iniciativa privada nunca pode nos oferecer uma opção melhor”. Ele defendeu um sistema de moedas privadas baseadas em uma variedade de tecnologias, inclusive índices de cestas de commodities. Essas moedas competiriam pela preferência do mercado, da mesma forma que qualquer outro bem.

Esse livro surpreendeu a todos. Mas com o Bitcoin, deixou de parecer loucura. As tecnologias necessárias surgiram somente após a morte de Hayek, mas agora sabemos quanto tempo perdemos na era da moeda nacionalizada. A moeda foi ficando pior em vez de melhor – ao contrário do que aconteceu com as commodities privadas, como telefones, carros e computadores. A moeda pode realmente ser um produto da iniciativa privada.  O plano de reforma ideal é esquecer o sistema governamental e evoluir para algo melhor. Na concorrência entre moedas e sistemas de pagamentos, o sistema de mercado prevalecerá.

Murray Rothbard (1926–1995). A primeira vez que li sobre cunhagem privada foi na obra de Murray Rothbard, O que o governo fez com o nosso dinheiro? publicada em 1963. A ideia me surpreendeu, embora, novamente, a noção não pareça tão estranha hoje. Novas pesquisas foram feitas e mostraram que a moeda privada foi usada em grande parte da história, por exemplo, na Inglaterra (Revolução Industrial) ou até mesmo nos Estados Unidos (século XIX).

A ideia da cunhagem privada não foi a sua contribuição principal. Rothbard era um teórico da ideia da propriedade privada, falando de suas implicações para a ordem social como um todo. É a propriedade privada que estabelece a ordem, assegura a liberdade, aloca racionalmente os recursos, mantêm conflitos sob controle, permite a abjudicação de disputas, incentiva a produção e, por via de regra, reforça a liberdade humana. Rothbard estabeleceu firmemente que a moeda é e deve permanecer sendo propriedade privada.

Qual a importância desse insight? Em poucas palavras: bancos. Primeiramente eram armazéns, necessários devido à segurança e aos custos de transporte. A função dos bancos como emprestadores é realmente algo diferente. Em ambos os casos, os direitos do proprietário do dinheiro devem permanecer claros. Aliás, não é o caso. Os bancos amam a ambiguidade relativa à propriedade do dinheiro. Se eles puderem guardar seu dinheiro e obter rendas (o valor que você paga em serviços financeiros) e, ao mesmo tempo, juros emprestando-o, isso é bom para eles. Se eles puderem obter apoio governamental para fazê-lo, melhor ainda.

A melhor ideia de reforma de Rothbard – explicada em detalhes no seu livro de 1983, The Mystery of Banking – era re-institucionalizar os direitos de propriedade no campo da moeda. Não deveria mais existir confusão e incerteza sobre o título de propriedade do dinheiro. Assim como no resto do mundo, deveria haver distinções claras. Você pode guardar o seu dinheiro, ou você pode emprestar a um banco recebendo juros, mas não deveria haver confusão entre as duas coisas. No mundo atual, ninguém sabe exatamente quem tem o direito a quê.

Agora considere o Bitcoin. Quando sou dono, você não é. Quando você é dono, eu não sou. Não existem intermediários, nem contestações, nem confusões sobre quantos e de quem são. Pagar é transferir, não um mero registro contábil fictício que pode ou não refletir a realidade. Esse sistema é um sonho rothbardiano tornando-se realidade.

Sem dúvida, o colapso do Mt. Gox tornou as coisas um pouco confusas, no entanto, esse fracasso não é um fracasso do Bitcoin em si. Foi resultado da má administração de uma empresa, comprometida por um ataque de hackers, disfarce, incompetência ou mesmo fraude (ainda está sendo analisado – por exemplo, Mt. Gox acabou de detectar 200.000 BTC que não percebeu que tinha). Mas a beleza da situação é que mesmo com a ofuscação dessa instituição, os usuários souberam dessa desonestidade. Anos antes da falência, era óbvio que algo estava errado. O Bitcoin ainda está sendo negociado. As novas firmas já estão indo além para esclarecer que tudo o que é seu está guardado, a todo o momento. Ademais, com a possibilidade da impressão das chaves privadas e dos endereços de Bitcoin e a manutenção das reservas off-line, você não necessita usar terceiros.

Ao contrário do ouro que Rothbard preferia como moeda (ele faleceu em 1995, quando a internet tornou-se efetivamente privada e começou a amadurecer), os Bitcoins não pesam nada e não ocupam espaço. Isso significa que a função de armazenamento de Bitcoin é tecnicamente desnecessária. Todo o proprietário pode ser o seu próprio “banco”. Isso é um sonho em muitos aspectos, dado que a função de armazenamento é tecnologicamente temporária, não uma característica eterna do mundo.

Israel Kirzner (1930– ). Kirzner é um aluno de Mises que tem dedicado seu trabalho acadêmico ao entendimento e expansão dos insights de seu professor. Mises percebeu que a economia resistia à modelagem formal por muitas razões, mas um fator principal foi a presença do empreendedorismo. Existe uma razão pela qual os livros-textos tem negligenciado esse tópico por décadas. Ele contradiz a meta de previsão e controle perfeito. O empreendedorismo introduz um elemento de caos que define todas as expectativas. Kirzner elaborou.

Empreendedorismo é a ação de reconhecer tecnologias e necessidades ainda não atendidas pelo mercado, disponibilizando-as para o consumo e produção. Empreender significa introduzir algo novo que era anteriormente desconhecido. Existe um elemento de surpresa que é essencial ao empreendedorismo, que impulsiona o processo de desenvolvimento do mercado.

Quando pensamos no Bitcoin, como não pensar no elemento surpresa do empreendedorismo? Ele não foi lançado como um produto capitalista tradicional, mas sim em um fórum da internet. Qualquer um poderia baixa-lo e começar a “minerar” Bitcoins. Mas somente os efetivamente alertas à oportunidade o fizeram. Um deles foi o próprio inventor, que é uma pessoa muito rica hoje em dia. Isso é o que significa “estar alerta” e descobrir uma oportunidade.

Hoje, existem milhares de empresas que cresceram em torno do Bitcoin. Existem carteiras, bolsas, lojas de varejo e atacado, prestadoras de serviços e muito mais. Cada uma delas corre algum tipo de risco. A maioria falirá. O que determina seu sucesso ou fracasso (deixando de lado as regulamentações governamentais) é se atenderão as necessidades do público consumidor. Ninguém pode saber os resultados de antemão.

Kirzner é mestre em descrever esse processo, considerado por Menger no centro do surgimento de uma nova moeda. Assim, completamos um ciclo completo: 120 anos de conhecimento que descreve as características principais de uma criptomoeda. Para a maioria das pessoas, esse processo tem algo de místico e surpreendente, e realmente parece. Mas existe uma lógica, mesmo que isso seja óbvio somente em retrospectiva.

Quantos anos o mainstream econômico levará para entender isso? Por agora, a maioria desses profissionais está polidamente ignorando como o Bitcoin destruiu praticamente toda a sabedoria comum sobre a teoria e política monetária. (Konrad Graf, porém, já está debatendo a questão). Realmente, o Bitcoin era necessário, em parte, porque o sistema estatal atual fracassou totalmente, não evoluindo com os tempos. Se o mercado tivesse podido trabalhar desde o princípio, em vez de ter sido restringido e truncado pelo controle estatal, o sistema poderia estar mais avançado do que está nesse momento.

Agora é uma boa hora para olhar para trás, tirar a poeira daqueles livros preciosos, e redescobrir a escola de pensamento que antecipou todos os princípios fundamentais que tornam o Bitcoin algo tão incrível.

Veja também

A verdade sobre o Bitcoin e outras moedas alternativas

Uma introdução à teoria monetária austríaca

Um sistema monetário de livre mercado

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Jeffrey Tucker

É o presidente da Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org. É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo.



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