Liberdade Econômica yes

Publicado em 18 de setembro de 2014 | por Marian L. Tupy

A Independência Escocesa Vai Matar o Socialismo dos Dois Lados da Fronteira

Muito foi dito sobre o impacto da independência escocesa na política britânica. Sem os parlamentares predominantemente socialistas da Escócia, o Partido Conservador provavelmente dominaria a política britânica pelo futuro próximo. As reformas econômicas necessárias e, talvez, a retirada do Reino Unido da União Europeia se tornariam muito prováveis.

E quanto ao impacto da independência na Escócia? A separação da República Tcheca e da Eslováquia, cerca de 21 anos atrás, nos dá um exemplo interessante.

As eleições de 1992 produziram resultados radicalmente diferentes nas duas partes da antiga federação da Tchecoslováquia. Na República Tcheca, a eleição foi vencida pelo Partido Democrático Civil (ODS), liderado por Vaclav Klaus. Klaus era um ex-ministro das finanças federal altamente conceituado, que mais tarde se tornou Primeiro Ministro e Presidente da República Tcheca independente. O ODS era dominado por reformistas econômicos cujo objetivo principal era uma transição rápida da República Tcheca de uma economia planejada centralmente para o capitalismo.

Na Eslováquia, as eleições foram vencidas pelo Movimento pela Eslováquia Democrática (HZDS), de esquerda, liderado por Vladimir Meciar. Meciar, um ex-comunista que se opunha instintivamente às reformas econômicas dramáticas favorecidas por Klaus, venceu as eleições ao prometer aos eslovenos cada vez mais nacionalistas algum tipo de arranjo confederativo com os tchecos, mas não independência. Já que o HZDS, com apoio do Partido Nacional Eslovaco, que era menor, possuía votos suficientes para bloquear toda legislação no Parlamento Federal, o futuro da federação iria depender de um acordo entre o ODS e o HZDS.

Enquanto exigiam uma autonomia maior para a Eslováquia, os líderes eslovacos não se deram ao trabalho de descobrir até que ponto os tchecos estavam preparados a ir. Os líderes eslovacos pareciam acreditar que os tchecos, que tinham uma ligação emocional mais forte com a continuidade da federação da Tchecoslováquia do que os eslovacos, iriam simplesmente concordar com quaisquer demandas os eslovacos decidissem fazer. Isso foi um erro colossal.

Os tchecos estavam decididos a não deixar suas reformas econômicas serem impedidas pelos eslovacos, que eram mais socialistas. Se o governo federal em Praga iria se tornar inefetivo pelo veto eslovaco e portando impedido de reformar as economias socialistas das duas partes da federação, então as duas nações iriam simplesmente se separar. Assim, os tchecos rejeitaram um arranjo confederativo que iria oferecer uma moeda comum, mas conceder autonomia às decisões econômicas das duas partes da federação. Do ponto de vista dos tchecos, o estatismo eslovaco iria desestabilizar a coroa da Tchecoslováquia, e assim prejudicar as perspectivas econômicas tchecas.

Os tchecos expuseram o blefe eslovaco e as duas repúblicas se separaram.

Ficou aparente que muitas das preocupações dos eslovacos que eram contra a independência eram justificadas. A Eslováquia não estava pronta para a independência. Praticamente todos os ministérios do governo estavam em Praga e os eslovacos trabalhando lá não voltaram para a Eslováquia. Enquanto os tchecos simplesmente “repintaram” as placas dos prédios do governo de “Tchecoslováquia” para “República Tcheca”, os eslovacos teriam que começar tudo do zero.

A Tchecoslováquia foi dissolvida no dia 31 de janeiro de 1993. Na República Tcheca, Klaus realizou suas amplas reformas econômicas. A República Tcheca saiu na frente e se tornou uma das primeiras histórias de sucesso pós-comunismo. E melhor ainda, os tchecos não precisavam mais pensar que estavam subsidiando seu “irmão mais novo”.

A Eslováquia, em comparação, sofreu um declínio político e econômico que durou anos. O estilo de governo de Meciar se tornou cada vez mais autoritário, fazendo com que a Secretária de Estado americana Madeleine Albright se referisse à Eslováquia como o “buraco negro no coração da Europa”. A economia eslovaca continuou sem reformas. Enquanto algumas das empresas mais lucrativas foram vendidas aos amigos de Meciar (que, por sua vez, financiavam suas campanhas políticas), a maior parte das empresas estatais obsoletas continuou perdendo dinheiro. Em 1998, quando Meciar deixou o cargo, a Eslováquia estava quase falida.

Depois da mudança de governo, a Eslováquia retornou a uma democracia verdadeira e colocou em prática amplas reformas econômicas. Os eslovacos privatizaram parcialmente seu sistema previdenciário, introduziram um imposto de renda fixo e reduziram a regulação. Reconhecendo essas melhorias, o relatório “Doing Business in 2005″ [“Fazendo Negócios em 2005” em tradução livre] do Banco Mundial declarou a Eslováquia o líder mundial em reformas e a listou entre os 20 países com as melhores condições para negócios. Em 2006, a economia eslovaca estava crescendo a 10% ao ano e a Eslováquia era a maior exportadora de carros per capita do mundo.

A independência obrigou os eslovacos a perceberem que eles não tinham ninguém para culpar por seus problemas além de si mesmos. Do mesmo jeito, o sucesso do “tigre de Tatra”, como a Eslováquia ficou conhecida nos meados da década de 2000, fez com que os eslovacos ficassem otimistas e confiantes. Quanto às relações entre os tchecos e os eslovacos: elas nunca estiveram melhores.

Desde a devolução escocesa em 1997, os socialistas nos partidos Nacional e Trabalhista da Escócia estiveram ocupados regulando excessivamente as partes da economia escocesa que tiveram a infelicidade de cair sob seu controle. De acordo com o Índice de Competitividade Britânico de 2010, a região com “a maior queda na competitividade relativa” entre 1997 e 2010 foi a escocesa.

O estatismo maior da Escócia, junto com suas suspeitas do capitalismo – irônico, para o país onde nasceu Adam Smith – é um obstáculo potente para reformas na Inglaterra e em Gales. Também é um perigo sério para a prosperidade econômica ao norte da fronteira. Mais cedo ou mais tarde, a Escócia vai precisar introduzir reformas que ela jamais aceitaria de um governo Westminster. O fim da União pode ser um preço alto a pagar pelo fim do socialismo nas ilhas britânicas, mas as recompensas de um crescimento econômico robusto em longo prazo também não são pequenas.

// Tradução de Pedro Galvão De França Pupo. Revisão de Russ da Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Marian L. Tupy

Marian L. Tupy é analista político do Center for Global Liberty and Prosperity. É especialista em globalização e bem-estar global, e a economia-política da Europa e da África sub-saariana. Seus artigos foram publicados no Financial Times, Los Angeles Times, Wall Street Journal (EUA e Europa), The Atlantic, Spectator (UK), Reason Magazine e em vários outros órgãos da imprensa, tanto nos Estados Unidos como na Europa.



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