Ciência Política ideias

Publicado em 7 de julho de 2014 | por George H. Smith

Ideias, ação humana e mudança social

A ação, de acordo com Ludwig von Mises, é um comportamento propositado pelo qual o homem tenta substituir “um estado menos satisfatório por outro mais satisfatório”. Essa noção do agente homem pressupõe três coisas: (1) um homem está insatisfeito com a sua condição atual; isso lhe dá o incentivo a procurar uma situação mais satisfatória. (2) Um homem pode imaginar uma situação mais satisfatória; isso se torna um propósito. (3) Um homem acredita que sua ação tem o poder de alcançar seu propósito; isso requer uma teoria de relações causais.

O terceiro componente dessa análise misesiana é especialmente importante se quisermos apreciar o papel das ideias na ação humana. Sem ideais sobre causa e efeito, não teríamos razão para preferir uma ação sobre qualquer outra em busca de um objetivo. Sempre que agimos, exibimos nossa crença num teorema causal. Se colocarmos dois homens praticamente idênticos, com objetivos idênticos, em circunstâncias idênticas, mas que possuem ideias radicalmente diferentes sobre relações causais, provavelmente, essa diferença, por si só, resultará em ações diferentes. Nossas crenças subjetivas sobre as relações causais – sejam certas ou erradas, implícitas ou explicitas – são ingredientes essenciais em todas as decisões que tomamos com respeito às nossas ações.

As ideias são essenciais para a ação. Antes que uma pessoa possa buscar maior satisfação, ele deve formar uma ideia do que ele deseja. Essa ideia é o propósito subjetivo que motivará sua ação. Tudo o que importa aqui é a realidade subjetiva do propósito para o agente homem, não seu status no mundo objetivo. O paraíso pode não existir no mundo objetivo, todavia pode existir como uma ideia subjetiva na mente do homem. Se um homem almeja o céu e acredita que o suicídio o levará para lá, então seu ato subsequente de autodestruição será tão real e irrevogável como qualquer ação baseada em crenças verdadeiras. Da mesma forma, se as pessoas acreditam que a vontade política é tudo o que é necessário para provocar uma mudança social desejada, então, essa crença falaciosa terá consequências reais, mesmo se não intencionais.

Portanto, quando uma pessoa decide agir, suas ideias (como especificadas acima) acabarão determinando a natureza daquela ação. Contrastando com isso, é normal que se diga que interesses são os determinantes fundamentais da ação; contudo, como David Hume observou, “embora os homens sejam governados pelo interesse, mesmo o próprio interesse, e todos os assuntos humanos, são totalmente governados pela opinião”. Por isso, dizer que todos os homens agem pelo interesse próprio é uma verdade incompleta, porque não podemos possivelmente saber a configuração particular de ideias e crenças – as opiniões pessoais – que determinam o significado do “interesse próprio” para cada individuo. Da mesma forma, qualquer teoria que conceda um status privilegiado aos motivos econômicos será verdadeira somente se for trivial. O comportamento econômico se relaciona à alocação de recursos escassos, mas isso descreve toda a ação humana. Toda a ação gera alocação de recursos escassos (nosso tempo e mão-de-obra, pelo menos) de forma a substituir uma condição que valorizamos menos por uma que valorizamos mais. A natureza específica da ação variará de acordo com as valorações subjetivas do indivíduo, então a teoria que atribui todas as ações aos motivos econômicos nunca irá além de argumentos vazios.

Varias tentativas tem sido feitas para depreciar ou negar completamente o papel fundamental das ideias na ação humana. Muitas delas são qualificadas como argumentos com viés ideológico. De acordo com esse tipo de análise, todas as ideias sociais, econômicas e políticas são manchadas pelo viés da cultura, gênero, interesses econômicos e assim por diante. Tem-se afirmado, por exemplo, que a defesa da propriedade privada por John Locke foi determinado pelo seu viés ideológico, o qual, por sua vez, foi o produto da mentalidade burguesa emergente na Inglaterra do século XVII.  Existem sérios problemas com tal abordagem, não importando os pormenores.

Qualquer mancha causada por viés ideológico deve servir tanto para o interprete, ou historiador de ideias, quanto para o objeto de seu estudo. Considere o marxista que atribui a defesa da propriedade privada de Locke a um viés ideológico historicamente determinado. De acordo com a teoria do viés ideológico, aplicada de forma consistente, essa interpretação de Locke não pode reivindicar objetividade, dado que a própria interpretação será produto do viés ideológico do marxista. Talvez o marxista, levado pelo seu viés ideológico contra a propriedade privada, distorceu ou mal interpretou as ideias de Locke. A única forma de sair desse círculo vicioso é o interprete clamar que ele é imune ao viés ideológico, o que é muito conveniente.

Esse problema assombra a abordagem celebrada da “sociologia do conhecimento” de Karl Mannheim em seu livro Ideology and Utopia (1936, Ideologia e Utopia, tradução livre), segundo o qual pretensões de conhecimento sobre a sociedade são socialmente condicionadas. Os sociólogos têm defendido muitas variações dessa doutrina, contudo, qual seja seu significado preciso, precisamos questionar o sociólogo sobre o status cognitivo de sua própria crença no condicionamento social. Essa é uma crença socialmente condicionada? Se a resposta for Não, então nem todas as crenças são socialmente condicionadas, o que torna a teoria falsa. Se a resposta for Sim, então seguimos para a próxima questão: o sociólogo pode adquirir conhecimento objetivo da sociedade? Se a resposta for Não, então o sociólogo não pode defender suas crenças do ponto de vista racional, incluindo sua crença no condicionamento social. Se a resposta for Sim, então o sociólogo pode legitimamente reivindicar a veracidade de sua própria teoria, da mesma que todas as outras pessoas.

O argumento do viés ideológico se parece à antiga abordagem, comum no decorrer do século XIX, que as ideias meramente refletem o “espírito” de uma época. No entanto, todos esses argumentos nada provam porque eles tudo provam. Não existe nada que não possa ser “explicado” por essa abordagem. Toda a ideia, teoria, argumento reflete a cultura intelectual de seu tempo de alguma forma, se não por meio da linguagem convencional que utiliza. Além disso, o “espírito” de uma época não pode explicar o que é mais importante, a saber, as diferenças que existem entre os filósofos, os economistas e os teóricos sociais contemporâneos de uma mesma cultura.

Tem frequentemente sido dito que mudanças intelectuais significativas são sempre precedidas por mudanças sociais significativas, e que as primeiras são, em ultima instância, causadas pelas últimas. Essa é uma forma enganosa de colocar a questão, dado que as próprias mudanças sociais refletem mudanças na perspectiva intelectual. Nossas percepções sobre a realidade social são formadas por nossas ideias sobre as instituições sociais, causalidade social e assim por diante. Dizer que as mudanças sociais abrem caminho para uma revolução nas ideias é meramente dizer que muitas pequenas mudanças intelectuais são necessárias antes que uma grande mudança intelectual possa ocorrer.

Instituições não são entidades físicas que podem ser percebidas pelos nossos sentidos. Como Herbert Spencer disse: “você não pode ver ou tocar uma instituição política: pode ser reconhecida somente por um esforço de imaginação construtiva”. Da mesma forma, a nossa compreensão sobre a causalidade social dependerá, não dos nossos sentidos per se, mas sim de nossas ideias sobre a natureza e a ação humanas. Como Max Weber coloca, as ideias de um individuo determinam “a imagem que esse individuo tem do mundo”, e tais imagens possuem “como um guarda-chaves, determinaram os caminhos ao longo dos quais a ação tem sido direcionada pela dinâmica do interesse”.

Assim, a forma pela qual pensamos sobre as entidades sociais influenciará, em grande parte, como as compreendemos. Nós, libertários, sabemos disso por experiência, já que temos encontrado muitas pessoas que parecem “ver” o governo de forma distinta do que nós. Algumas pessoas não veem o governo como essencialmente coercivo; eles podem até mesmo considerar os tributos como voluntários. Essas diferenças na percepção social resultam da visão da realidade social por meio de diferentes lentes ideológicas. A ideologia é absolutamente essencial para o sucesso do movimento libertário porque estabelece um quadro comum de referência. Se fracassarmos no convencimento do cidadão comum, isso frequentemente se deve ao fato de que vemos uma realidade social diferente do que o cidadão comum.

A importância das ideias torna-se especialmente evidente, às vezes de forma dolorosa, quando os libertários tentam explicar os efeitos nocivos das políticas governamentais. É prudente citar F. A. Hakey (Law, Legislation, and Liberty, II, p. 56): “dado que o valor da liberdade depende das oportunidades que ela oferece para ações inesperadas e imprevisíveis, nós raramente sabemos o que perdemos por causa de uma restrição particular à liberdade”. Os efeitos diretos, de curto prazo das intervenções governamentais serão aparentes em muitos casos, mas nós não podemos conhecer todas as oportunidades concretas que têm sido perdidas por meio de tal intervenção. Isso significa que os argumentos de livre mercado às vezes perdem em importância nas analises de custo-benefício, porque os benefícios da intervenção podem ser “vistos”, enquanto os custos (as oportunidades que não se tornaram realidade) permanecem, em grande medida, “desconhecidas”.

Por conseguinte, sempre e quando as decisões sobre políticas forem baseadas na conveniência em vez do princípio, “a liberdade está fadada a ser sacrificada em quase todos os casos”. Hayek (p.61) continua:

A preservação do livre mercado é tão difícil precisamente porque requer uma rejeição constante das medidas que parecem ser requeridas para assegurar resultados particulares, sob bases não melhores do que aquelas com as quais estão em conflito, e frequentemente sem sabermos quais serão os custos da não observação das regras naquele caso particular. Uma defesa exitosa da liberdade deve, portanto, ser dogmática e não fazer concessões à conveniência política [...] a liberdade prevalecerá somente se for aceita como um principio geral cuja aplicação a casos particulares não requer nenhum justificação.

A importância dos pontos supracitados para o movimento libertário dificilmente podem ser superestimados. O mundo das interações é composto de muito mais do que os movimentos físicos dos seres humanos. É, em ultima instância, um mundo subjetivo, filtrado através de suposições, premissas e preconceitos ideológicos. O mundo social é constituído por ideias que as pessoas tem sobre ele. Se os libertários puderem mudar aquelas ideias, eles podem, literalmente, mudar o mundo.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

George H. Smith

George H. Smith é Senior Research Fellow do Institute for Humane Studies, também é professor de História Americana nos Seminários de Verão do CATO Institute. Recentemente, Smith teve seu quarto livro, The System of Liberty, publicado pela Cambridge University Press.



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