Inovação & PI carros

Publicado em 17 de setembro de 2014 | por Jeffrey Tucker

A Homogeneização do Carro

O carro clássico, especialmente encomendado para a ocasião, estava esperando pela noiva e noivo para leva-los à festa após o casamento. Eu estava entre os convidados que estavam mais encantados pelo carro do que pelo evento principal. Absolutamente atordoante.

Era um Studebaker. Pelo que sei, era um Commander 1940, conversível. Eu tinha que verificar: essa companhia foi fundada em 1852 e faliu em 1967, e produziu alguns dos carros de maior beleza do seu tempo. Ela até mesmo produziu um carro elétrico em 1902! Os controles de guerra encolheram suas margens de lucro e levaram a uma consolidação na indústria que causou a falência da companhia.

Nesse sábado de tarde, esse carro estava ainda fabuloso, após todos esses anos. Nós estávamos em um estacionamento repleto de novos modelos. Ninguém se importava com eles. Todos nós estávamos hipnotizados por esse antigo Studebaker. É corretamente nomeado: ele atrai as atenções. O seu design torna-o uma obra de arte. A tampa do motor não se parece com nada feito hoje. O revestimento interior em couro vermelho é luxuoso.

Permanecemos lá, perplexos, em total admiração. Pensamos sobre o seu rendimento pof litro. Não pode ser maior do que o apresentado pelos gigantes “caminhões leves”, mas concordamos que pagar mais para dirigir algo tão legal valeria a pena.

Contudo, não é uma escolha. Nenhum fabricante pode produzir um carro assim hoje em dia. Analisemos a situação imparcialmente. Nos anos 1930, os telefones eram terríveis e você era sortudo de ser proprietário de um. Hoje em dia, ninguém trocar seu smartphone por um daqueles antigos aparelhos. A mesma coisa se aplicaria a sapatos, computadores, televisões, fogões e muito mais. Ninguém quer voltar no tempo.

Com carros o assunto é diferente. Nosso senso de nostalgia está crescendo, não diminuindo. Mas nós nem mesmo temos a chance de voltar atrás. Não existirão mais carros bonitos. O governo e suas milhares de micro-regulações sobre automóveis não permitirão tal coisa.

No dia anterior ao casamento, eu estava na padaria e vi outro carro incrível, esse era um pequeno modelo esportivo com barras estabilizadoras. Ele me deixou estupefato, e eu nem sou um fã de carros. Eu normalmente não me importo com o que dirijo. Mas esse era muito bom para não despertar admiração.

Eu pedi ao proprietário onde o tinha comprado, qual modelo, qual fabricante, etc. O carro desafiou minha impressão que todos os novos carros parecem iguais. Ele disse que o construiu em sua garagem. Ele obteve o kit da Factory Five Racing.

“Você tem que construir seu próprio carro em uma garagem porque nenhum fabricante é capaz de vendê-lo?”
“Isso mesmo”

Esses kits para construção de carros são uma forma de “rebelar-se” em uma era de total controle governamental sobre o mundo físico. Eles são uma alternativa. A lei permite a esses colecionadores de antiguidades, proprietários de carros usados e admiradores dirigirem esses belos carros por aí. Mas não permite aos fabricantes de automóveis venderem carros com permissão para andar nas ruas que se pareçam com esses.

O antigo ditado diz “se você quer fazer algo certo, faça você mesmo”. Existe somente um problema: ele não deveria valer em uma economia desenvolvida.
Nós deveríamos ser capazes de nos aproveitar da divisão do trabalho. Nós não deveríamos ter de construir nossos próprios carros não mais do que deveríamos ter de tecer nossas próprias roupas. Mas é justamente aí onde as regulações nos levaram.

Eu sempre fiquei intrigado com isso. Eu pensava que era somente porque os carros conceito eram muito caros para produzir. Não é isso. É que os reguladores não permitem que existam como itens de varejo.

Não aconteceu tudo de uma hora para outra. Foi um pouco de cada vez, acontecendo no decorrer de quarenta anos, em nome da segurança e do meio ambiente.
Tudo isso começou em 1966 com a criação da National Highway Traffic Safety Administration – (Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário), seguida da Agência de Proteção Ambiental e uma dezena de outras mais. Todo o regulador queria uma parte do carro.

Cada nova regulação parece fazer sentido de alguma forma. Quem não quer estar mais seguro e quem não quer poupar gasolina?

Mas essas ordens são impostas sem qualquer análise de custo e benefício e surgem sem nenhuma consideração sobre como influenciam no design do carro. E uma vez que as regulações são publicadas nos registros oficiais, elas nunca serão revogadas. Elas são mais pegajosas do que os adesivos de um cd de instalação de um software patenteado.

Chegou a hora de reconhecer: por mais que tentem, os produtores tem muitas dificuldades em distinguir seus próprios carros. A homogeneização do carro tornou-se algo como um meme da Internet. No fim das contas, todos os carros novos mais ou menos assemelham-se. Eu comecei a perceber isso no decorrer dos últimos 12 anos e pensei que estava somente imaginando coisas. Mas as pessoas que estão brincando com o Photoshop detectaram que você pode misturar e fazer uma BMW parecer um Kia e um Hyundai parecer um Honda. Em resumo, todos se constituem no “mesmo” carro.

Indiscutivelmente, esse fato demanda uma explicação. Então fiquei feliz por assistir a um vídeo feito pela CNET que cita cinco razões: obrigação de ter grandes para-choques para proteger os pedestres, motores não potentes para poupar combustível, uma parte traseira igualmente grande para contrabalançar a grande parte frontal, janelas pequenas resultando de regulamentações de segurança que na verdade acabam tornando o carro menos seguro e longos cintos de segurança. Em outras palavras, uma preocupação histérica com segurança e o meio-ambiente destruiu totalmente com a estética dos carros.

Não importa que a segurança e o meio ambiente criem resultados contraditórios. Quanto menos gasolina usar, mais leve o carro ficará e mais provável que você morra em uma colisão. A regulação da CAFE (Corporate average fuel economy – Média corporativa de economia de combustível) certamente matou muitas pessoas. Da mesma forma, quanto mais seguro é, mais gasolina utiliza, como um principio geral. Entrementes, a gasolina em si está sendo degradada com etanol à base de milho que diminui a vida útil do motor.

Essas regulações são responsáveis pelo desaparecimento da perua pequena e a dominação do mercado de automóveis por parte de grandes carros que podem ser classificados como caminhões, os quais são regulados de acordo com outros padrões. É isso mesmo: regulações designadas para encorajar a diminuição do consumo de combustível causaram exatamente o oposto por meio do estímulo às pessoas no sentido de trocar carros por SUVs, o que acaba sendo exatamente o que os três grandes produtores de carros desejam. Não é surpreendente que as vozes mais consistentes contra os padrões da CAFÉ vieram do exterior, e não de Detroit.

Ninguém se propôs a acabar com a diversidade, a funcionalidade e a beleza dos nossos carros. Mas isso é precisamente o que aconteceu, assim que as elites burocráticas e políticas aplicaram seus próprios sistemas de valor sobre os valores dos produtores e dos consumidores. Eles são os mestres e nós somos os escravos, e devemos aceitar esse nosso destino.

Considere a questão dos pedestres. Quantas vidas uma parte frontal superior (painel frontal) realmente salvou? Ninguém sabe. Mas a própria regulação parece descartar a possibilidade que os motoristas e os pedestres podem resolver os problemas por sua própria conta, sem a intervenção regulatória. Em outras palavras, nós estamos sendo tratados como crianças. Espero, nem mesmo assim. Nós estamos sendo tratados como se não tivéssemos nenhuma capacidade mental.

A situação é muito séria. Há 30 anos atrás, os futuristas imaginaram que os carros do futuro iriam ser impressionantes e bonitos e iriam trazer prazer total à direção. Considere, por exemplo, esse Triumph que foi chamado de “carro do futuro”. Aquele futuro tem sido totalmente destruído.
Os reguladores tornaram-no o carro do passado, um sonho frustrado que tinha de terminar para dar espaço a uma coisa estranha, homogênea que nos é permitido comprar atualmente.

Os norte-americanos costumavam orgulhar-se de seus carros e rir-se dos carros horríveis produzidos sob o regime socialista, por exemplo, na Alemanha Oriental. O Trabant ficará para a história como um dos piores carros que já existiu. Contudo, olhando para trás, pelo menos você poderia ver fora da janela ou, pelo menos, o plano parecia colocar os interesses do motorista sobre os da Mãe Natureza ou dos pedestres. Os planejadores centrais socialistas tinha um pouco mais de sensibilidade do que os reguladores norte-americanos.

No fim das contas, se o objetivo é proteger os pedestres e a Terra, você não pode propor nada melhor do que o transito em massa e a bicicleta. Todos nos sabemos que é isso que desejam. Ano passado, a administração Obama anunciou novos padrões de economia de combustível para serem obedecidas até 2025 que nenhum carro movido unicamente à gasolina existente pode adequar-se. Esses padrões irão aumentar consideravelmente o preço do carro e forçará a criação de um mundo no qual os carros são todos elétricos ou híbridos (veja os detalhes grotescos, aqui).

Todo mundo acertadamente condena os bailouts e o corporativismo que mantem indústrias economicamente insustentáveis em operação. Mas aqui está a verdade. Se os grandes empresários na indústria automobilística e os sindicatos que os dominam não tivessem força política, a abolição do carro seria provavelmente um fato consumado. É por isso que a existência do carro ainda é permitida. Mas não se permite que ela se desenvolva, que produza o que os
clientes realmente desejam, que funcione como um bem verdadeiramente econômico.

O carro estabeleceu a fundação para a segunda revolução industrial. O dinossauro governamental está roubando-o de seu futuro. Nós uma vez sonhamos com o carro voador. Os reguladores estão colocando-nos na posição de somente sonhar com o retorno aos dias gloriosos da década de 1970. É patético.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ da Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Jeffrey Tucker

É o presidente da Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org. É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo.



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