Mutualismo Anarquismo

Publicado em 3 de dezembro de 2014 | por Horacio Langlois

A História do Pensamento Anarquista

[Nota dos Tradutores: O trabalho de tradução se deu a liberdade de adaptar para o português os títulos citados, exceto pelas obras hispanófonas, nestas o texto original foi conservado. Além do mais, as datas de publicação de algumas das obras citadas pelo autor não condiziam com a realidade; a tradução corrigiu essa pequena falha. Por fim, informa-se que este texto corresponde ao primeiro de uma série de dez artigos sobre a filosofia anarquista, os quais serão traduzidos do espanhol e publicados neste site.]

O que segue é um longo ensaio sobre o progresso das ideias anarquistas desde que Proudhon deu o pontapé inicial. Vou tentar continuar esta série de escritos sobre o anarquismo e a teoria anarquista, e mais adiante sobre o Estado e a luta de classes, focando nesta perspectiva. Espero que o trabalho não resulte em algo difícil de ler e que as numerosas notas e referências não comprometam a compreensão do texto.


O pensamento anarquista teve a particularidade, ao longo da história, de não apresentar uma linha de ideias homogênea e compacta até o fim do século XIX, quando o anarcocomunismo se construiu como doutrina hegemônica dentro do movimento libertário. As “minorias” anarquistas persistiram algum tempo depois, mas acabaram perdendo influência e desaparecendo como correntes alternativas a principal 2[1]. O anarcocomunismo se apresentou como a única corrente viável e até legitima a partir de então, marginalizando as demais tendências. Contudo, investigando as raízes históricas do anarquismo, podemos ver que os anarquistas mais primitivos teriam posições muito distante do denominado “comunismo libertário”.

Podemos considerar como o primeiro teórico anarquista o francês Pierre-Joseph Proudhon, famoso por dizer em 1840 que “a propriedade é um roubo”. Muitos anarquistas, atualmente, tomam está frase sem se perguntar muito sobre tudo o que há por trás dela e qual é o verdadeiro pensamento proudhoniano. As justificativas de Proudhon como libertário são irrepreensíveis. Foi o primeiro pensador a se denominar “anarquista” e a utilizar o termo “anarquia” para se referir a um tipo de organização social onde prevalece a ordem voluntária, sem coerção do governo, em contraposição a habitual comparação do mesmo com a desordem e o caos[2]. Por outro lado, foi uma influência direta do filósofo russo Mikhail Bakunin – junto com o alemão Max Stirner -, algo que Karl Marx e Friedrich Engels se esforçaram em destacar, incomodados pela persistência e errônea utilização que Bakunin fazia do materialismo histórico, de forma com que as correntes permanecessem bem divididas por mais um tempo.

O núcleo do pensamento proudhoniano é no geral desconhecido para os atuais anarquistas, que lhe reconhecem o único mérito de ter formulado sua frase acima mencionada e ter estabelecido os princípios da organização federativa. Mas os auxílios de Proudhon ao anarquismo vão muito mais além, e as contribuições de sua maturidade intelectual costumam ser menosprezadas. O francês, que começou aderindo em sua juventude a uma anarquia naquele tempo imprecisa, e a um socialismo baseado principalmente na teoria valor-trabalho de David Ricardo, terminou se afirmando melhor como partidário do mutualismo e do principio federativo. Se os atuais anarquistas contemplam a propriedade privada como o principal dos males, Proudhon a defendia como uma força verdadeiramente libertadora, sempre que estivesse baseada no trabalho e não na exploração.

Este último tipo seria seu principal inimigo ao longo de sua trajetória teórica; E seu mutualismo estaria destinado a expulsá-lo da economia humana. O mutualismo era concebido por Proudhon como um sistema de livres transições baseadas no “princípio do custo”, isto é, a quantidade de trabalho objetivamente incorporada nos bens. O princípio do custo se deduzia em sua teoria do valor, a qual indicava que o valor dos bens estava determinado, efetivamente pela quantidade de esforço envolvido no processo de produção. Deste fenômeno, Proudhon extraía um princípio moral qual estabelecia que “O trabalhador conserva, mesmo depois de receber seu salário, um direito natural de propriedade sobre a coisa que ele produziu. [...] O trabalho dos operários criou um valor, logo este valor é propriedade destes[3]. A maioria dos socialistas pré-marxistas concordavam neste ponto[4]. O socialismo para eles era, mais que a propriedade coletiva, a socialização dos meios de produção, a instauração do princípio do custo na organização econômica da sociedade, ou seja, os trabalhadores são recompensados com o produto integral de seu esforço[5].

Proudhon estabelecia que a verdadeira revolução, e o caminho para uma organização socialmente e economicamente viável, dependeria dos indivíduos defenderem a propriedade baseada neste princípio, isto é, legitimada pelo trabalho. Este direito natural deveria ser defendido das pressões do Estado e da exploração capitalista. Aqui vemos de onde nasce o “anticapitalismo” de Proudhon. A exploração era o mecanismo pelo qual uns podiam, mediante a proteção estatal, violar o principio do custo natural. O Estado fornecia a certos indivíduos privilégios como o direito absoluto da propriedade sobre a terra[6], sustentava um meio de câmbio como o ouro, que possibilitava a acumulação extraordinária e cobrança de juros sobre o capital, interferia nos mecanismos do laissez-faire, cujo resultado eram preços de mercado que se diferenciavam dos custos de produção, e regulava os negócios bancários. Estas denúncias seriam logo reformuladas por seu seguidor mais fiel Benjamin Tucker, com os “quatro grandes monopólios”.

Proudhon não costumava questionar os princípios da economia clássica sobre a livre concorrência e o livre mercado; ele os adaptava. Podemos encontrar numerosas citações de seu pensamento mais maduro em referência a este:

[Os mutualistas] reconhecem de bom gosto, como os economistas da escola puramente liberal, que a liberdade é a primeira das forças econômicas, e a esta se deve confiar tudo o que pode fazer por si só; contudo, onde a liberdade não pode chegar, domina o bom senso, a justiça e os interesses gerais, que intervenha a força coletiva, que não é esta senão a mutualidade mesma…[7]

Em relação a este último, afirmava que a liberdade de comércio necessitava eliminar a exploração para permitir que o mercado tenda a distribuir os produtos segundo o esforço e o trabalho dos indivíduos na sociedade, mediante a abolição do ouro como meio de troca, a instauração de um Banco do Povo ou Banco de Trocas, a instauração de um direito sobre a terra baseada na usufruto, e a completa libertação das forças do mercado. Proudhon aparentemente tinha em mente, e seu principal discípulo Benjamin Tucker mais explicitamente ainda, a ideia de que o livre mercado tende ao equilíbrio como no modelo de concorrência perfeita de Leon Walras – que polemizou com Proudhon em 1859 sobre o tema do crédito popular gratuito -. Neste modelo não há lugar para os benefícios capitalistas, a economia está dividida entre unidades familiares e empresas, não existe o dinheiro como meio de enriquecimento, e os preços refletem o custo de produção. A diferença é que Proudhon chamava o preço de equilíbrio de um bem de “preço justo”, conforme o princípio do custo, e apontava a existência da exploração quando os preços se distanciavam do equilíbrio. Ele viu neste estado de equilíbrio o cenário social ideal, no qual uma vez alcançado pelo mercado, se manteria estático e os preços permaneceriam “fixos”.

Não é possível vender por muito tempo nenhuma mercadoria acima do preço justo; se isso ocorre é porque o consumidor não é livre. A moral pública e a regularidade das transações ganhariam se e somente se generalizasse a venda a preço fixo; os negócios iriam melhorar para todos. Não haveriam tão grandes e rápidas fortunas, mas haveriam menos quebras e falências, menos indivíduos arruinados e desesperados. Um país onde se vendessem as coisas só pelo que valem, sem especulações, haveria resolvido o duplo problema do valor e da igualdade.[8]

Algumas destas ideias econômicas podem surpreender vários anarquistas da atualidade, dado que se trata de uma faceta de Proudhon quase esquecida. Proudhon manifestava mais proximidade com alguns princípios liberais que com algum tipo de livre comunismo – ainda que em seu tempo o comunismo “libertário” não tinha se formulado sistematicamente -. Isto se faz ainda mais evidente se observamos sua ideia de federação, como um tipo de organização política baseada no livre contrato – conceito liberal clássico -, e não só como uma ferramenta de organização geográfica e econômica[9]. E não deveria, por isso, nos surpreender que cite entre seus principais “mestres” Adam Smith.

Como já dito, Mikhail Bakunin é um dos principais “filhos” intelectuais, e de fato o russo compartilhou alguns princípios econômicos de Proudhon mais que com Marx. O sistema de Bakunin é essencialmente filosófico e político, e não desfruta de uma séria formação sobre economia social – algo que Marx e Engels sempre insistiram em destacar -, apesar de adotar grande parte das teorias proudhonianas. O tributo de Bakunin ao francês é enorme, como podemos ver na seguinte citação:

…Proudhon: filho de um camponês e por natureza e instinto cem vezes mais revolucionário que os socialistas doutrinados e burgueses, se armou de uma crítica tão profunda e penetrante como implacável, para destruir todos os sistemas deles. Impondo a liberdade à autoridade contra esses socialistas de Estado, se proclamou atrevidamente anarquista, e, na essência do seu deísmo e panteísmo, teve a coragem de se declarar simplesmente ateu, ou melhor, como Augusto Comte, positivista. Seu socialismo, fundado na liberdade tanto individual como coletiva, na ação espontânea das livres associações, não obedecendo a outras leis gerais da economia social, descobertas ou a descobrir pela ciência, a margem de toda regulamentação governamental e de toda proteção do Estado, subordinando, por outro lado, a política aos interesses econômicos, intelectuais e morais da sociedade, deveria mais tarde, e por uma consequência necessária, chegar ao federalismo.[10]

Proudhon, para Bakunin, era um autêntico revolucionário da ciência e do socialismo, e como ele, acreditava que a proliferação das associações voluntárias e dos intercâmbios livres estavam entorpecidos pela ação do Estado. Inclusive reconhece que “a liberdade da indústria e do comercio é certamente relevante e um dos fundamentos essenciais da futura aliança internacional de todos os povos do mundo. Amigos da liberdade a todo custo, de todas as liberdades, devem ser igualmente desta.”[11] Bakunin compartilhava com Proudhon a ideia de que o trabalhador deveria receber o justo e íntegro produto de seu trabalho e esforço. Se por um lado afirmava que a organização na produção deveria ser coletiva e cooperativa, a distribuição dos bens deveria corresponder à retribuição de cada individuo à sociedade. Inclusive concebia um meio de pagamento similar ao dinheiro pelo qual os trabalhadores poderiam dispor para trocar produtos[12].

As diferenças reais entre Bakunin e Proudhon surgem no terreno filosófico. O russo, que adota a filosofia materialista e dialética de Marx, considerava equivocada a postura de Proudhon, que havia herdado a visão mais idealista de Hegel.

Proudhon, apesar de todos seus esforços para se colocar no terreno prático, tem permanecido, todavia, idealista e metafísico. Seu ponto de partida é a ideia abstrata do direito; do direito vai até o eixo econômico, enquanto que Marx, em oposição a Proudhon, expressou e demonstrou a verdade inquestionável, confirmada pela história passada e contemporânea da humanidade, dos povos e dos Estados, que o fator econômico sempre prevaleceu e prevalece sobre o direito jurídico e político.[13]

A filosofia de Bakunin tem vários pontos em comum com o individualismo de Max Stirner. Se tem algo em que Engels tinha razão, é que o anarquismo de Bakunin é uma mistura de elementos proudhonianos e stirnerianos, combinados com algo de materialismo histórico. Stirner sustentava, influenciado pelo idealismo hegeliano, que em cada período histórico reinava um “espirito” distinto – em termos mais materialistas, uma “ideologia dominante” – que exigia o total sacrifício individual para se alimentar e se expandir, seja “Deus”, o “Estado”, a “Nação”, a “Raça”, etc. Contrapondo a isto, Stirner apresentava sua ideia do Único, o humano individualista e egoísta, que se nega a sacrificar o próprio interesse pelo interesse de um espirito dominante, e sua visão da associação egoísta e de uma sociedade de livres contratos se baseia totalmente nela.

Bakunin não chega a tal grau de individualismo, mas pega de Stirner a avaliação que faz do indivíduo frente aos grandes “espíritos” que tentam lhe devorar, como o estatismo e o nacionalismo. A estes contrapõe a importância da liberdade individual, criticando as ideologias dominantes que exigem um sacrifício absoluto do homem em favor de uma causa maior, seja a glória do Estado ou a glória da nação. A obra Deus e o Estado (1882) é uma representação lúcida e enérgica desta concepção. Nada deixa tão claro como é que a ideia de um Deus nos céus implica, como consequência lógica inevitável, a total submissão e sacrifício da individualidade e da liberdade dos homens na terra; em uma palavra, a escravidão.[14]

Em resumo, os pais do anarquismo, Proudhon e Bakunin, não estavam tão alheios às ideias liberais clássicas[15] e individualistas. Embora o segundo estivesse mais próximo do marxismo e do socialismo igualitarista e o primeiro tivesse maior afinidade com o laissez-faire, ambos acreditavam na liberdade de associação entre empresas dirigidas por coletivos de trabalhadores livres e na propriedade privada – aquela que não havia sido fruto da especulação e dos privilégios governamentais -, criticavam fortemente o comunismo e viam o Estado como o principal responsável pelos males sociais.

Muitas dessas concepções mudaram bastante no anarquismo com a aparição do anarcocomunismo. Poderíamos dividir o anarcocomunismo em duas subcorrentes. Um primeiro ramo, o anarcomunismo que tem dominado até hoje, que começa com Kropotkin e continua atualmente com múltiplas aproximações ao marxismo libertário ou de conselhos e mesmo ao marxismo-leninismo; e um segundo ramo que vê no anarcocomunismo um ideal ético e enfatiza mais a liberdade de associação, herdado do pensamento do genial anarquista italiano Errico Malatesta.

Kropotkin começou se separando do anarquismo do Proudhon e do Bakunin criticando seu “coletivismo assalariado”.

Entende-se que os socialistas ingleses do começo deste século inventaram os cheques de trabalho. Trataram simplesmente de harmonizar o capital e o trabalho, repudiando toda ideia de gerenciar com violência a propriedade dos capitalistas. Que mais tarde isso foi endossado por Proudhon, também se compreende. Em seu sistema mutualista, tratava de fazer menos lesivo o capital, a despeito da manutenção da propriedade individual, coisa que o aborrecia do fundo da alma, mas que acreditava necessária como garantia do indivíduo contra o Estado. Contudo, como pode se defender essa nova forma de trabalho assalariado – o cheque de trabalho – se se admite que a casa, o campo e a fábrica não são propriedade privada, mas pertencem ao município ou à nação?[16]

Kropotkin via uma contradição irreconciliável em manter a propriedade comum em alguns aspectos e privada em outros. “Pois bem; para nós é evidente que uma sociedade não pode se organizar com base em dois princípios absolutamente opostos, que se contradizem o tempo todo. E a nação ou o município que se dissessem organizados dessa forma, se veriam obrigados ou a voltar à propriedade privada ou a se transformar imediatamente em uma sociedade comunista.”[17] A despeito disso, ele não fundamenta muito seu ponto de vista. Kropotkin assume simplesmente que todos têm direito a satisfazer suas necessidades mais elementares e que, portanto, dividir o papel de cada indivíduo na produção e remunerar de acordo com a produtividade é um absurdo. A única coisa, na verdade,  que Kropotkin faz é opor o jusnaturalismo que os anarquistas adotavam naquela época, baseado na teoria do valor-trabalho, por outro fundado nas necessidades e no bem-estar de todos. Mas a falácia naturalista é a mesma em ambas as concepções, de forma que o príncipe russo não conseguiu superar em nenhum aspecto o sistema mutualista ou bakuninista. E os problemas para estimar o trabalho realizado de cada um seriam tão difíceis de resolver quanto as necessidades de cada indivíduo.

Na verdade, o anarquismo de Kropotkin pretendia ser científico, mas se baseava mais ainda em princípios éticos e morais. O problema de Kropotkin, e o que pode nos permitir colocar em dúvida sua qualidade de “anarquista”, se se insiste nessa interpretação, é que ele exige uma única organização social, uma única organização de produção e consumo, uma única moral solidária e cooperativa, que deve ser estendida a todos os membros da sociedade. Não fica claro como se poderia obter semelhante coesão social, para que todos os indivíduos sigam estes princípios.[18]

Kropotkin argumenta que o progresso e o desenvolvimento que a humanidade alcançou como espécie se devem em grande parte aos instintos solidários e ao apoio mútuo. A humanidade não teria chegado aonde chegou se os interesses e o bem-estar individuais não coincidissem com os interesses sociais, pelo que seu anarcocomunismo passaria a estar fundado mais em uma espécie de utilitarismo do que em jusnaturalismo. “Em geral, os moralistas que levantaram seus sistemas baseados em uma pretensa oposição entre o sentimento egoísta e o altruísta, erraram de caminho. Se essa oposição existisse de verdade, se o bem da indivíduo fosse realmente oposto ao lado da sociedade, a espécie humana não existiria; nenhum animal poderia ter alcançado seu atual desenvolvimento[19]. Mas não fica claro então como são possíveis os sentimentos egoístas e os comportamentos que contrariam os interesses dos outros. Só podemos afirmar que os interesses individuais podem não coincidir com os sociais e que não são em si contraditórios. Isso nos leva a uma situação de uma moralidade solidária-comunista a uma moralidade baseada na liberdade de associação, isto é, em que cada indivíduo se associe com outros que compartilhem seus interesses individuais e levem suas vidas segundo a moral que desejem como princípio genuinamente anarquista, ou, o que dá no mesmo, propor uma multiplicidade de sistemas morais em lugar de uma moral única.

Não foi por acaso que esse princípio universalista de Kropotkin resultou posteriormente em um anarquismo dogmático, que via toda conduta individual que não fosse solidária e cooperativa, ainda que não implicasse coerção ou violência contra terceiros, não só como anti-anarquista, mas como antinatural. Essa deturpação acabaria considerando o comunismo como o único sistema viável, libertário e humano, e, ante essa situação, o flerte com os comunistas marxistas seria inevitável. O anarquismo de hoje em dia pega emprestado grande parte da teoria marxista sobre o Estado, sobre a economia capitalista e sobre a sociedade em geral. E o lógico resultado disso seria um distanciamento cada vez maior das ideias originais de Proudhon, de algumas ideias de Bakunin e de anarquistas individualistas como Stirner, Tucker, Spooner, entre outros, ao ponto de nem sequer considerarem seus seguidores como parte do anarquismo.

Aqui salta aos olhos a notável superioridade do anarcocomunismo de Malatesta, que, poderia se dizer, está fundado no “senso comum” anarquista. Malatesta considerava o anarcocomunismo como um ideal ético, mas que deveria ser voluntariamente aceito e socialmente corroborado. Via na experiência o principal instrumento para demonstrar que o comunismo era realmente o melhor sistema, motivo pelo qual nunca reclamou de antemão a superioridade deste sistema sobre os demais sistemas anarquistas mutualistas, individualistas ou coletivistas. Com efeito, considerava os anarquistas individualistas verdadeiros irmãos, com quem os anarcocomunistas deviam se aliar para formar uma só frente contra o Estado.

A perspectiva e as exposições de Malatesta nas absurdas polêmicas entre os anarcocomunistas, que se desviavam cada vez mais da liberdade de associação e os anarco-individualistas, são excelentes. Considerava que “os individualistas supõem ou falam como se supusessem que  os comunistas (anarquistas) desejassem impor o comunismo, o que naturalmente os excluiria em absoluto do anarquismo[20]. Essa atitude criticada pelos anarco-individualistas não é comum a todos os anarcocomunistas, mas atualmente parece que sim, como mencionamos acima. Por outro lado, “os comunistas supõem ou falam como se supusessem que os individualistas (anarquistas) repudiam toda ideia de associação, desejando a luta entre os homens, o domínio do mais forte e que isso os excluiria não apenas do anarquismo, mas também da humanidade[21]. Contudo, essa suposição é uma má interpretação – e em alguns casos tergiversação deliberada – que foi demonstrada acima, quando tratamos das relações entre o mutualismo de Produhon e as ideias liberais clássicas e a relação entre o primeiro e a filosofia de Bakunin com o individualismo de Stirner. Malatesta estava ciente disso e por isso afirmava que “estava claro que não existia uma diferença essencial”.

O comunismo, o individualismo, o coletivismo, o mutualismo e todos os programas intermediários e ecléticos são, no campo anarquista, se não o modo que se acredita o melhor para realizar na vida econômica a liberdade e a solidariedade, o modo que se considera mais adequado para a liberdade e a justiça de distribuição entre os homens dos meios de produção e os produtos do trabalho.[22]

Essa última ideia levaria Malatesta a sugerir que os distintos sistemas poderiam conviver em uma mesma anarquia, na qual cada indivíduo decide a qual sistema se associar de acordo com seus interesses e preferências, e apostava com toda sua boa-fé que impor o comunismo a todos e uma única moral solidária a todos era não só desnecessário, mas também absurdo, já que a maioria das pessoas os adotaria voluntária e espontaneamente[23]. Esse enfoque notavelmente pragmático ficaria em evidência no seguinte comentário, dirigido a Nestor Makhno em uma carta de 1929:

Acredito que o importante não é a vitória de nossos planos, de nossos projetos, de nossas utopias, que de qualquer modo precisam da confirmação da experiência e podem ser modificadas pela experiência, desenvolvidos e adaptados às condições materiais e morais reais de cada época e lugar. O que mais importa é que o povo, todas as pessoas, percam o instinto e os hábitos servis que ganharam a partir de mil anos de escravidão e aprendam a pensar e agir livremente. É a essa grande tarefa de liberação do espírito a que os anarquistas devem se dedicar especialmente.

Em síntese, Malatesta, ao contrário de outros anarquistas, não acreditava que estes deveriam dizer às pessoas e ao povo em geral o que fazer, como deveriam se organizar e quais princípios seguir. Só deveriam pedir do povo que reclamasse sua autonomia e permitir aos indivíduos que se organizassem livremente como preferissem e pensassem por si mesmos, sem delegar soberania a outros. Isso é o mesmo que elevar a liberdade de associação como valor máximo, princípio que deveria ser adotado por todos os anarquistas. Por que os anarquistas se desviaram deste princípio? Explicar isso é algo que irei fazer depois, já que disso depende o futuro do movimento libertário.

Notas

[1] Estamos nos referindo por um lado às tendências anarco-individualistas, herdeiras do pensamento proudhoniano, cujos representantes mais lembrados foram Lysander Spooner e Benjamim Tucker, entre outros, localizados nos Estados Unidos; e por outro ao bakuninismo dos revolucionários espanhóis, corrente mais pragmática que teórica, que influenciou notavelmente as massas trabalhadoras à Guerra Civil. Nas últimas décadas tem havido um ressurgimento do anarquismo individualista no Estados Unidos, reunindo elementos do mutualismo de Spooner e Tucker, e do anarcocapitalismo de Murray Rothbard e Karl Hess, entre outros.

[2] Pierre-Joseph Proudhon, O que é a propriedade? (1840).

[3] Pierre-Joseph Proudhon, Ibid.

[4] Esta teoria, embora fosse formulada de forma independente por Proudhon, já estava sendo divulgada principalmente na Inglaterra pelos chamados “socialistas ricardianos”, entre os quais podemos citar Thomas Hodgskin, William Thompson, John Gray ou John Bray, que extraiam as mesmas conclusões da teoria do valor de Ricardo, como explicita Diego Guerrero em sua obra Historia del pensamiento económico heterodoxo (1997): ![este] grupo de escritores ingleses se dedicavam a utilizar a obra de Smith e (sobre tudo) Ricardo com base teórica para a defesa dos trabalhadores contra o que consideravam abusos do capital. Estes ricardianos proletários, ou “socialistas ricardianos”, como são conhecidos, escreveram na época em que era percebida a influencia de autores como Godwin (considerado pai do anarquismo) ou como Owen (um dos socialistas “utópicos” mais conhecidos), a época em que se desenrolavam as primeiras tentativas de resistência aos efeitos da industrialização capitalista, quando ao mesmo tempo aparecem os primeiros exemplos de união organizada dos trabalhadores em defesa de seus interesses”. De fato, uma das principais criticas de Marx a Proudhon na Miséria da Filosofia consistia em repreender o francês neste ponto, apontando a escassa originalidade de seu descobrimento. Para uma brilhante explicação e aplicação mutualista do principio do custo proudhoniano, ver Anarquismo e socialismo de Estado: em que coincidem e em que diferem, de Benjamin Tucker, em Liberdade individual (1888).

[5] Vale a pena notar que a teoria do valor-trabalho já está suficientemente refutada pelo economista austríaco Eugen von Böhm-Bawerk. Este demonstrou a superioridade da teoria da utilidade marginal frente às teorias do valor baseadas somente no trabalho, não só das escolas clássicas e os socialistas ricardianos, mas também da teoria de Marx e de outros economistas influenciados pelas ideias de Ricardo como Alfred Marshall. Eu não desejo me alongar demais neste ponto, simplesmente posso recomendar alguns de seus escritos, como A causa última do valor (1894) ou Uma contradição não resolvida no sistema econômico marxista (1896).

[6] A obra O que é a propriedade? de Proudhon, tem sido, neste ponto, fatalmente incompreendida entre os anarquistas. A acusação de que a propriedade é um roubo se dirige, neste escrito, unicamente à propriedade lockeana sobre a terra, e não a todo tipo de propriedade. O direito natural do trabalhador individual ao produto integro de seu trabalho jamais é questionado.

[7] Pierre-Joseph Proudhon, A capacidade política da classe operária (1865).

[8] Pierre-Joseph Proudhon, Ibid.

[9] Pierre-Joseph Proudhon, O princípio federativo (1863).

[10] Mikhail Bakunin, Federalismo, Socialismo e Antiteologia (1872).

[11] Mikhail Bakunin, Ibid.

[12] Neste ponto, é onde aparecem as diferenças com os anarcocomunistas, e é um dos principais pontos criticados por Piotr Kropotkin, que afirmava que para este ultimo se necessitaria de um centro de distribuição que atribua a retribuição segundo o trabalho, que poderia degenerar em uma burocracia administrativa e, em última instancia, em um Estado.

[13] Mikhail Bakunin, Estatismo e anarquia (1873). Já falaremos mais adiante sobre o materialismo histórico de Marx e a teoria do Estado.

[14] O filósofo anarquista Ángel Cappelletti sustenta, em Bakunin y el socialismo libertario (1986), que Bakunin levanta um claro paralelo entre a relação de dominação entre Deus e o mundo dos homens e a relação entre o Estado e os governados: “O homem ‘sábio’ para a teologia e para a filosofia tradicional é o que não só reconhece a divisão da realidade, mas que também a aceita, e renuncia ao mundo por Deus, ao corpo pela alma, a seus direitos de governado em favor dos direitos do governante. Daí a correção do título que seus editores deram a esta obra de Bakunin: Deus e o Estado, já que, dada a dualidade do corpo e da alma, se faz necessário admitir as outras duas, e Deus é no universo o que o Estado é na sociedade.

[15] Entendido o liberalismo clássico não como uma corrente apolegética das grandes empresas e corporações, mas como uma defesa das liberdades individuais, do livre comércio, da livre iniciativa, da competência e do contrato.

[16] Piotr Kropotkin, A conquista do pão (1892).

[17] Piotr Kropotkin, ibid.

[18] Na verdade, esse problema se aplica a grande parte das tendências anarquistas anteriores. Como se pode conseguir que todos os indivíduos respeitem uma norma única e sigam uma única forma de vida? Há meio de conseguir tal coesão sem um aparato de coação que os obrigue a isso como o Estado? Proudhon, Bakunin, Malatesta e Tucker solucionaram mais ou menos esse problema defendendo a liberdade de associação de todos se associarem segundo seus interesses individuais na organização social que desejassem – digo mais ou menos porque eles também exigiam certas regras e princípios que todos deveriam seguir parar viver em sociedade, de modo que o problema não ficava totalmente solucionado. Mas Kropotkin assume uma sociedade única e ideal, a comunista, onde todos se organizam “espontaneamente” de acordo com seus princípios e consequentemente é difícil encontrar em sua obra alguma referência à existência de dissidentes que busquem se organizar de formas alternativas.

[19] Piotr Kropotkin, A moral anarquista (1889).

[20] Errico Malatesta, Anarquismo e anarquia (1932).

[21] Errico Malatesta, ibid.

[22] Errico Malatesta, ibid.

[23] É óbvia a semelhança entre essa proposta e a sugestão de Max Nettlau de uma sociedade onde os diferentes sistemas e governos voluntariamente adotados compitam entre si, exposta no texto Panarquia (1909), ideia já apresentada por Paul E. de Puydt em 1860.

// Traduzido por Rafael Bechara e Diogo Sales. Revisado por Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Horacio Langlois

Horacio Langlois é um argentino autor do blog mutualista "Orden Espontáneo y Natural".



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