Moeda inflação

Publicado em 1 de julho de 2014 | por Lawrence W. Reed

A hiperinflação ameaça o Brasil

[ Em 1 de Julho, 1994 o governo brasileiro lançava a moeda que acabou com anos de hiperinflação, o  "Real". O texto a seguir foi escrito em 1988 pelo atual presidente da Foundantion of Economic Education Lawrence W. Reed em ocasião da sua visita ao Brasil. Nós acreditamos que não existe nada melhor para alertar dos perigos da inflação do que olharmos para a nossa própria história. ] 

Imagine um lugar onde os preços, de praticamente todos os produtos, mudam a cada semana – e sempre para cima. O café subiu 50% em apenas dois meses, enquanto que um hambúrguer do McDonald’s mais que dobrou. Diárias de hotel tiveram as tarifas reajustadas em 110% em apenas 30 dias. Empregados de supermercados passam metade do tempo nas prateleiras – substituindo os preços dos produtos. Os menus de restaurantes estão borrados, devido à frequente correção dos preços que estão escritos a lápis. Taxas de juros para um empréstimo bancário de um mês – 25 por cento – são mais altas do que as que os americanos pagam em seus cartões de créditos em um ano.

Esse é o Brasil, um gigante sul-americano tomado pela inflação galopante que ameaça afundar tanto a economia, como a sua recente democracia.

Durante dez dias em abril de 1987, examinei a hiperinflação na vasta, bela e selvagem sauna brasileira, conhecida como região Amazônica. Longe das gigantescas cidades situadas no sul (apenas a cidade de São Paulo tem 15 milhões de habitantes), eu conversei com dezenas de pessoas em três cidades: Belém, uma cidade portuária no estuário do rio Amazonas com 1 milhão de habitantes; Santarém, uma cidade de aproximadamente 100 mil habitantes, 500 quilômetros rio acima; e Alter do Chão, um vilarejo de aproximadamente mil pessoas à beira do Rio Tapajós, cerca de 50 quilômetros de onde o esverdeado Tapajós encontra o lamacento Amazonas em Santarém.

A floresta equatorial amazônica é um local exótico para qualquer atividade, mas também pode ser desconfortável para pessoas acostumadas com um clima seco. O ar fica pesado com a umidade e encharca a terra em sua grande abundância.

Um quinto de toda água doce do planeta flui pelo poderoso Amazonas. Ao desaguar no oceano, a água doce continua 160 km a dentro do Atlântico.

Navios de água salgada podem navegar 3700 quilômetros rio acima em seus mais de 6500 quilômetros de comprimento. Mais de 1500 espécies de peixe habitam o Amazonas e seus 1000 afluentes, em uma bacia que drena incríveis quatro milhões de quilômetros quadrados de território de selva.

Porém, água não é a única coisa que este país de 135 milhões de habitantes parece ter em abundância. A nação também está com abundância de papel-moeda, o que explica o porquê dos valores das coisas despencarem a cada vez que os preços sobem. A administração do presidente José Sarney, desastrada desde o princípio, está recebendo a maior culpa por este acontecimento.

Em 1985, os 21 anos de ditadura militar acabaram após a eleição de Tancredo Neves para a presidência. No entanto, Neves morreu antes de tomar posse.

Seu candidato à vice-presidência era Sarney, um poeta e político de pouca importância, o qual subitamente se encontrou batalhando contra problemas econômicos acumulados desde a ditadura militar. Ele teve sucesso em piorar a situação econômica ao aumentar os gastos públicos e imprimir mais dinheiro para ajudar a pagar os 50% do PIB que o governo estava consumindo.

No começo de 1986, a inflação no Brasil estava num ritmo anual de 400%. Em fevereiro daquele ano, Sarney assustou o país com um anúncio dramático: para acabar com a inflação, ele iria congelar salários e preços, e ainda iria reformar a moeda. Três zeros foram colocados depois do Cruzeiro velho e uma nova moeda, o Cruzado, foi introduzida.

Enquanto o congelamento de preços estava em efeito, o governo expandiu os gastos do setor público, alimentando um déficit anual abissal e triplicando a quantidade de moeda.

Sarney fez as donas de casa do país “xerifes”, para que reportassem os violadores do controle de preços, e mandou levas de homens armados às fazendas de gado, forçando os fazendeiros a venderem a carne pelo preço fixado. Produtos sumiram das prateleiras ao mesmo tempo em que mercados-negros cresciam rapidamente. Foi como tampar o bico de uma chaleira fervendo e aumentar a chama do fogão ao mesmo tempo.

O esquema todo explodiu em fevereiro de 1987, quando o presidente foi forçado a retirar o controle de preços e, em um movimento que mandou ondas de choque através da comunidade financeira internacional, suspendeu o pagamento de juros da dívida da maior parte dos 110 bilhões de dólares de dívida externa brasileira.

A economia parecia estar se direcionando ao abismo, com nenhuma certeza de que futuro ela teria. A prestigiada revista financeira, The Economist (21 de fevereiro de 1987), colocou desta maneira: “A economia Brasileira está indo ladeira abaixo tão rápido que pode descarrilar”.

Conversando com consumidores e vendedores no famoso mercado de Belém, Ver-O-Peso, eu descobri o difundido ceticismo sobre os números da inflação fornecidos pelo governo.  Em vez de 400%, anunciados oficialmente, o consenso nas ruas é de que a porcentagem é muito mais alta.

As roupas que eu gostaria de comprar estão três vezes mais caras do que estavam no mês passado”, uma mulher reclamou amargamente. E assim como todas as pessoas com que eu conversei, o salário dela não seguia o ritmo, apesar da prática comum de indexar os salários à taxa de inflação.

Os negócios vão mal,” lamentou um vendedor de redes, “e com uma taxa de juros de 25% ao mês, eu não tenho mais recursos para pedir dinheiro emprestado”. Ele culpou o colapso do poder de compra de seus clientes pela perda do negócio.

Ninguém poupa e ninguém tem planos para algo além de hoje,” outro freguês me disse. “Assim que você ganha os cruzados, você se livra deles, tanto comprando dólares, comprando algo real.”

A inflação pareceu ter acentuado a divisão de classes. Uma reclamação comum era que “os não tão ricos estavam ficando pobres, enquanto que os ricos continuavam ricos ou se tornavam mais ricos”.

 “Os ricos sempre encontram uma maneira de se protegerem, mas o que a inflação está fazendo com a classe média e a classe baixa, é o mesmo o que as piranhas do Amazonas fazem com uma vaca na água,” disse um vendedor de cestas de vime. Piranhas são aqueles peixes carnívoros, com dentes parecidos com serras afiadas e dispostos da mesma maneira. Cardumes desses peixes são conhecidos por comer uma vaca até os ossos em meia hora.

Oposição ao trabalho e desordem civil parecem estar aumentando como consequência da economia decadente. Alguns moradores comentaram sobre a segurança nas estradas de ferro devido à greve dos ferroviários. Estivadores estão ameaçando fechar as cidades portuárias brasileiras. Na cidade de São Paulo, há, em média, 13 ataques por dia contra bancários. Rumores de um golpe militar se alastram pelo país.

Em Santarém, eu coletei informações detalhadas sobre os preços de dúzias de itens. Eu perguntei há muitos vendedores:  “Qual era o preço desse produto há um mês e qual é o preço dele agora?”. Aqui está uma amostra do que eu encontrei:

“Glymiton”, um suplemento vitamínico liquido popular: de 24 por 60 cruzados (26 cruzados são equivalentes a 1 dólar); um rolo de 1 quilo de tecido: de 111 por 390 cruzados; um copo de água mineral: de 2 por 5; um carretel de linha de pesca: de 60 por 90; e 1 quilo de carne: de 20 por 70.

Empresários reclamam da queda dos estoques e do desabastecimento por causa da falta de crédito.

Nós costumávamos a pegar os produtos e pagá-los 30 dias depois,” me contou o dono de uma loja de ferramentas. “Agora”, ele disse, “todos querem o dinheiro à vista.”

É irônico,” um gerente de restaurante me disse, “que meus fornecedores demandem pagamento imediato de mim neste papel sem valor, papel que irão dar um jeito de se livrar depois”.

Na fábrica de redes Aparecida em Santarém, fabrica-se as melhores redes da região. Automação ainda não chegou a este lugar. As redes são tecidas à mão em enormes teares de madeira por tecelões que trabalham incrivelmente rápido, sob o intenso barulho das lançadeiras. Lucros de vendas são doados à Igreja Católica para ajudar programas de bem-estar social. Eu perguntei ao gerente como a inflação afetou os negócios e acabei ouvindo uma história familiar.

Nós fomos duramente atingidos” o gerente disse, “o turismo diminui e até os locais não compram mais como costumavam comprar. Eles são pessoas necessitadas que dependem do nosso sucesso aqui e vão precisar se virar com menos esse ano. É triste, mas o que podemos fazer?

Quando perguntados sobre o futuro, todos demonstraram completa incerteza ou pessimismo explícito.

Esses problemas representam a pior crise que podemos lembrar. Nós não temos como imaginar o que vai acontecer no futuro“, um gerente de hotel disse.

Em Alter do Chão, várias pessoas sugeriram que a causa da inflação era a gigantesca dívida externa do governo e a solução era ir um passo além da moratória proposta por Sarney e simplesmente dar um calote na dívida unilateralmente.

Alguns culpam os Estados Unidos por colocar o Brasil nessa armadilha de dívidas, no entanto o sentimento antiamericano não parecia ser preponderante nas pessoas em nenhum dos lugares que visitei.

Um dos poucos setores que a inflação talvez esteja ajudando é a prospecção de ouro. Na verdade, o Brasil está no meio de uma das maiores corridas do ouro da história.

Aproximadamente meio milhão de garimpeiros — indivíduos trabalhando com pouco mais que uma picareta , uma pá e uma peneira na beira do rio — extraíram aproximadamente oitenta toneladas de ouro da Amazônia ano passado. O salário mínimo de 70 dólares por mês não os afeta, eles ganham aquilo que sua busca pelo ouro proporciona, e muitos fizeram uma fortuna.

Eu conversei com um dos funcionários da SUDAM, a agência do governo que supervisiona o desenvolvimento da região amazônica, sobre as descobertas de ouro. A descoberta mais rica, em um lugar conhecido como Serra Pelada, “pode resolver o problema da dívida brasileira um dia“, confidenciou. “Se o ouro não fizer isso por nós, talvez o petróleo faça; nós acreditamos que talvez possamos estar sentados em um vasto mar de petróleo aqui na Amazônia“.

É difícil imaginar ouro e petróleo o suficiente para resgatar o Brasil de suas dificuldades presentes a tempo de evitar uma revolta geral. Essa não é uma economia com tempo o bastante pra resolver seus problemas. O espectro de uma inflação galopante, depressão e agitações políticas está logo adiante.

Infelizmente, o governo brasileiro parece ter aprendido muito pouco nos últimos dois anos de caos. Em Junho de 1987, anunciou um novo programa que inclui mais uma rodada de controle de preços e salários. No mesmo mês, a oferta de moeda cresceu 28.8%.

Essa não é a primeira hiperinflação que o mundo já testemunhou. Não é a primeira que o Brasil enfrentou também. Mas vendo ela em primeira mão e sentindo a dor e confusão que provoca te faz perguntar por que uma coisa assim tem que acontecer. Certamente uma das lições mais duradouras da experiência econômica é que inundar um país com dinheiro sempre destrói a moeda e a economia junto com ela. É uma lição que o Brasil aprende agora da maneira mais dolorosa.

// Tradução de Russ Silva e Leonardo Tavares Brown. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Lawrence W. Reed

Lawrence W. Reed é presidente da Foundation for Economic Education desde 2008. Formado em economia, já foi professor e é um prolifero palestrante



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