Ciência Política triângulos haykeanos

Publicado em 2 de fevereiro de 2015 | por Max Borders

Uma heresia libertária?

Hayek está bem próximo do que podemos chamar de ortodoxia libertária. Sua estrutura de produção também. Dessa forma, a aplicação da heurística de Hayek ao mundo das ideias parecia benéfica.

Hoje em dia, a “estrutura de mudança social” vem sendo disseminada como ortodoxia entre os libertários que querem mudar as coisas. Contudo, penso que ela restringe o pensamento libertário.

A estrutura de produção original é descrita dessa forma por Roger Garrison:

Um triângulo retângulo representa a macroeconomia como tendo duas dimensões: valor e tempo. Ele representa no maior nível de abstração (metáfora) o processo de produção (estágios) da economia e os bens de consumo que deles se originam. Um cateto do triangulo representa os gastos em dólares em bens de consumo; o outro representa a dimensão temporal que caracteriza o processo de produção [...]

Em um dado momento e na ausência de ociosidade de recursos, o investimento é feito às custas do consumo. Os investimentos, que exigem uma alocação de recursos mais gastadora de tempo, aumentam a dimensão temporal do triângulo. Para que os investimentos aumentem, o consumo deve cair, inicialmente tanto em termos nominais como reais. Uma vez que a reestruturação do capital esteja completada, aumentará o nível correspondente de consumo real, mas o nível de consumo nominal ficará abaixo de seu valor inicial, porque a nova estrutura de produção, para ser mantida, exigirá gastos maiores em bens de ordens superiores que anteriormente.

O comprimento relativo dos dois catetos do triângulo, então, representa a relação inversa entre o gasto nominal de consumo e o gasto nominal de poupança. – o último refletido pela dimensão tempo da estrutura de capital da economia.

Se você compreendeu o conceito de estrutura de produção por meio dessa citação, muito bem. Ela explica satisfatoriamente a dinâmica no mundo dos bens físicos. Resumindo: produzir bens leva tempo, isto é, o consumo cai enquanto o estoque de capital aumenta e as matérias-primas estão sendo transformadas em algo que pode ser consumido. Assim que os recursos passam por esse processo de restruturação, há maior consumo de bens finais. Lave, enxague, repita.

Muitos estrategistas da liberdade tentaram aplicar essa heurística ao mundo das ideias, denominando-a “estrutura de mudança social” e é muito interessante.

A teoria é que as boas (e as más) ideias passam por um processo similar: intelectuais e sabichões imaginam novas ideias, elas passam por um processo que as levam da abstração à restruturação política e, por fim, à implementação ou como inspiração na mente dos leigos, ou legislação ou como outro meio de mudança social.

Contudo, existem sérios problemas com a aplicação dessa heurística da mudança social na era digital. Permitam-me analisar, ponto a ponto:

  1. Essa estrutura gera uma psicologia da paciência em oposição a um senso de urgência. Em outras palavras, existe um sentimento generalizado – justo ou não – que se esperarmos, nossas ideias passarão por esses processos de restruturação, e o mundo será, eventualmente, um lugar melhor. Uma razão para tal paciência é que muitas pessoas estão dispostas a pensar (ou treinar para pensar) que o objetivo final do processo é a mudança política. A teoria da Escolha Pública deveria nos livrar dessa ilusão, porque sabemos que os interesses especiais e os eleitores – confrontados por diversos vieses – distorcem qualquer versão elegante desse processo, e no mínimo, atrasam dito processo. Em todo caso, existem boas razões para sermos céticos quanto a esse processo, da forma como é vendido aos membros do movimento libertário.
  2. O processo de implantação de boas ideias é lento, primeiramente porque as más ideias são, com grande frequência, bens concorrentes no mercado das ideias. A demanda por más políticas é baseada no aumento da demanda por más ideias.  O melhor caminho para que nos livremos desse pensamento, preservando a estrutura de mudança social, poderia ser a remoção de quaisquer tendências à consideração da mudança política como um “bem de consumo”. E essa seria uma melhoria bem-vinda (necessária talvez, porém não suficiente). A verdade é que as más ideias prosperam no mercado das ideias precisamente porque (a) são frequentemente mais atraentes para as pessoas (talvez porque elas queiram se sentir bem consigo mesmas), (b) as consequências de manter uma ideia não afetam diretamente o indivíduo que a mantem e (c) abraçar novas ideias pode ser uma proposição de alto custo.
  3. Na estrutura de mudança social, ideias são distribuídas e conectadas a outras ideias, assim como acontece com bens e serviços no mundo real. Isso torna a difusão das inovações libertárias não lineares e contextualizadas. Em outras palavras, o processo não é uma abstração, e a cultura interconectada do processo significa que é acelerado e unido à estrutura de produção digital de muitas formas interessantes, as quais podem nos levar a adotar uma nova heurística ou mesmo abandoná-la por completo. Por exemplo, uma pessoa pode argumentar que Satoshi Nakamoto leu o pequeno tratado sobre moedas privadas (concorrentes) e foi inspirado a desenvolver o cerne da tecnologia do bitcoin com um pequeno grupo de cyberpunks.

Notar que o desenvolvimento de uma moeda concorrente não é somente uma questão política per se. Nós deveríamos seguir o exemplo de Hayek e entender que as circunstâncias de tempo e espaço tornam a implementação de ideias um caminho tortuoso, no qual as pessoas descobrem por meio de repetidos processos de experimentação novas formas de implementação de ideias – e rapidamente. Não é uma macro abstração onde os bens (ideias) de Mises, Hayek e Friedman ficam imersos no éter até que think tanks e legisladores os retirem da solução. Mas sim um processo pelo qual mentes criativas reúnem fragmentos de ideias, permitindo que se unam, interajam e talvez morram em uma placa de Petri gigante de criação de valor não linear. É claro, a produção econômica ocorre de forma semelhante. Mas esse jardim parece menos com caminhos bifurcados de um triangulo retângulo, e mais com um ecossistema na contraeconomia.

Não estou argumentando que a inovação ocorre de forma automática. De certa forma, você tem que passar pela estrutura, mesmo na era digital onde as necessidades de capital podem ser surpreendentemente baixas. Mas quando você sai do padrão, o que você encontra é uma visão irrestrita de mudança social, na qual os insumos e os produtos da produção conectam-se a uma rede sofisticada, um sistema complexo. Nele, os implementadores também podem gerar novas ideias e assim por diante. Essa dinâmica incessável de matérias-primas, produtores e consumidores torna a dinâmica muito mais interessante.

Analisar a mudança social por esse prisma nos concede um senso de urgência – uma mentalidade criativa que nos permite compartilhar muito (mas não todo) o pensamento linear que nos faz esperar que senadores leiam a Ação Humana de Ludwig von Mises, e aprovem legislações iluminadas que serão aceitas prontamente pelas massas.

Em vez disso, Cody Wilson trabalha em sua garagem e cria novas especificações para armas impressas em 3D. Em vez disso, a economia compartilhada emerge nos espaços deixados pelos intrometidos. Em vez disso, os Edward Snowdens do mundo tornam o governo mais transparente, ou o povo norte-americano responde diretamente à perspectiva de guerra contra a Síria com protestos nas ruas, enquanto os sírios se organizam – para o bem ou mal – pelo Twitter.

Nós vivemos em um novo mundo. A estrutura de mudança social, como é proposta atualmente, pode ajudar na formação de um exército de cientistas políticos programados que acabam trabalhando no complexo industrial. Essa estratégia vale de algo: é bom para atrasar o crescimento do Leviatã enquanto os criadores de valor prosseguem com o negócio de tirar vantagem de um estado cada vez mais engessado.

É hora de pregarmos o evangelho da criação de valor de Kirzner, junto à heurística de Hayek e a sabedoria de Mises.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Max Borders

É editor da revista The Freeman e diretor de conteúdo da Foundantion for Economic Education (FEE). Também é autor do livro Superwealth: Why we should stop worrying about the gap between rich and poor.



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