Biografias herbet spencer

Publicado em 17 de dezembro de 2013 | por Peter Richards

Herbert Spencer: darwinista social ou profeta libertário?

2009 marcou o bicentenário do nascimento de Charles Darwin. Entretanto, este ensaio não é sobre o teórico da evolução das espécies. Este ensaio é sobre um contemporâneo dele, Herbert Spencer, que desenvolveu uma teoria da evolução antes de Darwin e é creditado pela famosa frase que versa sobre a “sobrevivência dos mais aptos”. Enquanto esteve vivo, Spencer foi um autor best-seller e definitivamente pode ser considerado o maior filósofo da Era Vitoriana. Charles Darwin referia-se a ele como “nosso grande pensador”. [2]

Enquanto a maioria dos filósofos não logra êxito em alcançar tanto o público leigo, quanto o acadêmico, por volta 1870 e 1880, Spencer tinha uma popularidade incomparável, como seu enorme volume de vendas indica. Ele foi provavelmente o primeiro, e possivelmente o único, filósofo na história a vender mais de um milhão de cópias de suas obras ainda em vida. [3]

O único outro filósofo inglês a alcançar tamanha popularidade foi Bertrand Russell, e isso só veio ocorrer no século XX.

Na segunda metade dos anos 1800, Herbert Spencer era tão famoso quanto Darwin, conhecendo muitos dos intelectuais mais importantes de seu tempo: John Stuart Mill, Mary Ann Evans (George Eliot), Thomas Henry Huxley (“O cão de guarda de Darwin”) e George Henry Lewes, só para citar alguns.

O darwinismo foi primeiro focado na biologia, concentrando-se na flora e na fauna e na expressão de sua ideia original do mecanismo pelo qual a evolução opera – a seleção natural. Enquanto que o trabalho de Spencer era muito mais amplo, cobrindo biologia, psicologia, sociologia, ética e política, assim como a filosofia.

Então, penso que é interessante analisar o porquê, mais de 100 anos depois, Charles Darwin ser muito mais conhecido do que seu ilustre contemporâneo, Herbert Spencer, que quase não é lembrado hoje em dia.

O que levou Herbert Spencer ao ostracismo foi a forma que o rotularam. Uma classificação que estranhamente leva o nome de Darwin, o chamaram “darwinista social”. Implicando que Spencer apropriou-se da teoria de Darwin e a aplicou na evolução social das sociedades humanas.

Darwinista social?

A responsabilidade por denegrir e virtualmente destruir a reputação de Herbert Spencer pode ser atribuída a um homem, Richard Hofstadter, o autor do livro Social Darwinism in American Thought 1860-1915. Seu livro, uma crítica hostil à obra de Spencer, foi publicado em 1944, vendeu em grandes quantidades e é muito influente, especialmente nos círculos acadêmicos. O livro afirma que Spencer usou a evolução para justificar a desigualdade econômica, social e defender uma postura política de extremo conservadorismo, o que levou, entre outras coisas, ao movimento eugênico. Em poucas palavras, é como se a frase de Spencer, “a sobrevivência dos mais aptos”, tivesse sido expressa como base para uma doutrina política.

No entanto, existe um problema com a obra mais aclamada de Hofstadter: suas afirmações não têm praticamente nenhuma semelhança com o Herbert Spencer real. Na verdade, como o economista Tim Leonard da Universidade de Princeton argumenta no seu novo artigo, intitulado ”Origins of the Myth of Social Darwinism“, publicado no Journal of Economics Behavior and Organization, Hofstadter é o culpado pelo espantalho criado em torno de Spencer, manchando suas visões pró livre mercado com a marca de um racismo coletivista baseado em Darwin. [4]

Mesmo assim, a influência de Hofstadter na academia persiste. Sua opinião sobre Spencer é frequentemente repetida em livros acadêmicos, como Roderick T. Long destaca:

Os livros-texto resumem Spencer em poucas palavras como um “darwinista social” que pregava “que as coisas se resolvem pela força”, o qual defendia que os pobres morressem de fome de forma a eliminar os ineptos – uma descrição que provavelmente não atrairia muitos leitores [5]

Esses comentários são incrivelmente injustos, como Long explica:

O resumo do livro-texto é um absurdo, é claro. Longe de ser um proponente de que “as coisas se resolvam pela força”, Spencer escreveu que o “desejo de comandar é essencialmente um desejo bárbaro”, pois “implica um apelo à força”, o qual é “inconsistente com a primeira lei da moralidade” e “radicalmente errado”. Enquanto Spencer era contrário a programas assistencialistas financiados através da tributação, ele apoiava fortemente a caridade voluntária, realmente devotando dez capítulos de seu Principles of Ethics para uma discussão sobre o dever da “beneficência positiva”. [6]

Eu penso que é importante nesse momento analisar o background e o viés de Hofstadter. Hofstadter nasceu em 1916 nos Estados Unidos, formou-se na Buffalo University, e obteve seu doutorado na Columbia University. Juntou-se Partido Comunista em 1938 e, embora tenha se desiludido com os marxistas, ainda continuou se opondo livre mercado, afirmando: “Eu odeio o capitalismo e tudo que dele deriva” [7]. Era um historiador que simpatizava com a esquerda norte-americana durante os anos da administração Roosvelt. Posteriormente, muitos escritores da esquerda democrata (progressista) citaram Hofstadter ao falarem de Spencer sem se preocupar em estudar o trabalho original do próprio, assim perpetuando uma mentira.

Como George H. Smith afirma,

Provavelmente nenhum intelectual sofreu tantas distorções do seu pensamento como Spencer. Ele é continuamente condenado por coisas que nunca disse – na verdade, ele é censurado por coisas que explicitamente condenou. O alvo da crítica acadêmica é sempre o Spencer mítico em vez do Spencer real; e embora alguns críticos possam obter imensa satisfação com suas refutações devastadoras ao Spencer que nunca existiu, esse tipo de comportamento obstrue em vez de ajudar a busca por conhecimento [8].

A passagem mais citada da obra de Spencer por Hofstadter e outros que desejam macular a reputação de Spencer é:

Se eles são suficientemente completos para viver, eles vivem, e é bom que vivam. Se não são suficientemente completos para viver, eles morrem, e é melhor que morram.[9]

Pode parecer cruel, mas o que os críticos de Spencer convenientemente esquecem é de citar é a primeira sentença do parágrafo seguinte:

É claro que a severidade desse processo foi mitigada pela simpatia espontânea dos homens uns pelos outros, e é adequado que ela fosse mitigada. [10]

Assim, seu argumento é que a mitigação da seleção natural pela benevolência humana supera o benefício resultante da morte dos ineptos. Em outras palavras, é melhor responder a nossa empatia natural e salvar os ineptos em vez de deixa-los morrer. Isso transmite um significado bem diferente do que quando a sentença original é citada isoladamente.

Não surpreende, então, que desde a mancha na reputação de Spencer (injusta, no meu ponto de vista), ele não é tratado com o mesmo respeito quanto era na sua época, e raramente é estudado nas universidades atualmente. A crítica mais condenatória de todas é que suas ideias levaram ao movimento eugênico, o que, novamente, é uma completa mentira.

Como Damon W. Root explica,

A eugenia, que é baseada em racismo, coerção e coletivismo, é contrária a tudo aquilo Spencer acreditava. [11]

Frequentemente, sites da internet também difamam Herbert Spencer. Em um site devotado a explicar a evolução, e descrito por Richard Dawkins como “profundamente impressionante”, denomina Herbert Spencer como “o pai do darwinismo social como teoria ética”. [12] E prossegue descrevendo as implicações do darwinismo social:

O darwinismo social foi usado para justificar numerosos feitos que vemos como de valor moral dúbio nos dias atuais. O colonialismo era visto como natural e inevitável, e plenamente justificado por meio da ética darwinista social. O darwinismo social aplicado à ação militar também; o argumento era de que o exército mais forte venceria, e, portanto, seria o mais apto. Mortes do lado perdedor, é claro, foram consideradas como resultado natural de seu status de inaptidão. Finalmente, deu o seu consentimento a governo coloniais brutais que usavam táticas opressoras contra suas vítimas. [13]

Isso é o que Herbert Spencer tem a dizer sobre o colonialismo:

Além disso, o governo colonial, corretamente assim chamado, não pode continuar a existir sem transgredir os direitos dos colonos. Pois se, como geralmente ocorre, os colonos recebem ordens das autoridades do país colonizador, então a lei de igualdade de liberdade é quebrada para essas pessoas, como faria qualquer outro tipo de regime autocrático. [14]

É explícito que essa declaração do Spencer se opõe ao colonialismo.

Ele também compara o tipo militar de sociedade (baseado na guerra) e o tipo industrial de sociedade (baseado no comércio), criticando o primeiro por sua ênfase no autoritarismo e louvando o último porque conduz à liberdade individual.

Isto é o que Spencer diz sobre o tipo militar de sociedade:

Em síntese, então, sob o tipo militar, o indivíduo é de propriedade do estado. Enquanto a preservação do sociedade é o objetivo principal, a preservação de cada membro é um objetivo secundário – um objetivo importante subserviente ao primeiro. [15]

Spencer ao comparar os tipos de sociedade diz:

Em uma sociedade organizada para ação militar, a individualidade de cada membro, vida, liberdade e propriedade devem ser subordinadas ao estado. O indivíduo é largamente, ou completamente, propriedade do estado; em uma sociedade organizada industrialmente, nenhuma subordinação do indivíduo é requerida. [16]

Essas não são as palavras de um homem incitando a ação militar na base do “poder faz o correto”. Na verdade, ele está preocupado com os direitos individuais e vê o colonialismo e a sociedade militar como condições as quais debilitam os direitos individuais.

O website que citei anteriormente é ainda outro exemplo da afirmação frequentemente repetida que Herbert Spencer foi um darwinista social, o que com base na sua definição é completamente falso.

Profeta libertário?

Não obstante o fato de que nos tempos de Herbert Spencer o termo libertário não existia, eu acho que Spencer pode ser classificado como um dos primeiros porta-vozes e visionários do movimento libertário – ou, utilizando a expressão de Roderick T. Long, ele pode ser descrito como um “Profeta Libertário”. Eu acredito que Spencer não somente expressou ideias libertarias de forma sucinta, mas também apresentou uma visão libertária para o futuro. Eu darei alguns exemplos:

Da ética Spencer derivou um “Lei de Igual Liberdade”, a qual declara que todo o homem tem a liberdade de fazer o que quiser, contanto que não infrinja a igual liberdade de qualquer outro homem. [17]

Isso é libertarianismo puro. Roderick T. Long continua,

Spencer deduziu da Lei da Igual Liberdade, a existência de direitos à liberdade de expressão, imprensa e religião; integridade corporal; propriedade privada; e negociações comerciais – virtualmente todas opções de políticas dos libertários atuais [18].

A visão de Spencer sobre a tributação é também muito libertária, como essa passagem demonstra:

Pois o que se indica junto a cada imposto adicional é: “até agora tem sido livre para dispor dessa porção de tuas economias da forma que quiseres; a partir de agora não serás mais livre para gasta-la, mas sim a gastaremos para o benefício geral”. Assim, direta ou indiretamente, e na maioria dos casos ambas as formas ao mesmo tempo, o cidadão está cada vez um passo mais distante, no crescimento dessa legislação obrigatória, privado de alguma liberdade que antes possuía.

Ao pensar sobre o tamanho adequado do governo, Spencer se pergunta quais são os requisitos de uma comunidade para um governo se formar naturalmente:

Então, para que querem um governo? Não para regular o comércio, não é para educar o povo, não é para ensinar a religião, não é para administrar a caridade, não é para construir rodovias ou ferrovias, senão simplesmente para defender os direitos naturais do homem: para proteger a pessoa e a propriedade, para impedir as agressões dos poderosos aos mais fracos, em uma palavra, para administrar a justiça. Essa é missão natural e original de um governo. Não se pretende que faça menos: não deveríamos permiti-lo a fazer mais.

Isso coincide com a opinião de muitos libertários de hoje em dia.

Outro fato interessante é que Spencer argumentou a favor dos direitos das mulheres muito antes de serem estabelecidos legalmente. Por exemplo, em seus Princípios de Ética, com seu capítulo sobre “Os direitos das mulheres”, falava que:

Portanto, se homens e mulheres são considerados seriamente como membros independentes da sociedade e cada um deles tem que fazer o melhor para si próprio(a), disso se deduz que não se pode estabelecer limitações equitativas às mulheres com respeito a ocupações, profissões ou outras carreiras que possam querer seguir. Devem ter igual liberdade para se preparar e igual liberdade para se beneficiar dessa informação e habilidades que adquirirem.

Mais uma vez isso está de acordo com o pensamento libertário.

A importância de Herbert Spencer para o libertarianismo tem sido reconhecida por Tibor R. Machan:

O que Spencer fez pelo libertarianismo é o que Marx fez pelo comunismo: proporcionar o que seria uma completa justificativa científica, seguindo o modelo de ciência predominante em seu tempo.

Mas indica que:

nenhum dos pensadores teve êxito. Mas enquanto Marx é consagrado em todas as partes como um messias (com roupas seculares), mesmo que suas teorias estejam sendo remendadas para se ajustar aos fatos – Herbert Spencer, um cientista superior, e em sua teoria moral e político mas astuto do que Marx, é amplamente rechaçado como um insensato ou darwinista puro.

O que Spencer efetivamente reconheceu foi que muitos liberais de seu tempo estavam abandonando seus princípios (tanto que os chamou de “novos tories”). Apontava que haviam perdido de vista a verdade de que, em tempos passados, o liberalismo defendia a liberdade individual frente a coerção estatal.

Não sabia que esses “novos tories” se converteriam nos novos “liberais” e que os liberais originais ou clássicos necessitariam de um novo nome para identifica-los: esse nome seria o de “libertários”.

Spencer foi profético pois viu a chegada de uma era militar dos governos, que levaria à guerra e ao coletivismo. A chegada do nazismo e do comunismo no século XX demonstrou que seus receios eram justificados.

Sem dúvida, o otimismo de Spencer em relação ao futuro (longo prazo), no qual acreditava que prevaleceria a sociedade industrial, baseada na cooperação voluntária e no intercâmbio pacífico, segue proporcionando esperança e, de fato, uma visão positiva do futuro, é o que inspira os libertários de hoje em dia.

Conclusão

Herbert Spencer é frequentemente mal entendido nos livros e websites como um “darwinista social”, mas essas afirmações descrevem um Spencer mítico que nunca existiu. O real Spencer era totalmente diferente. O real Spencer frequentemente expressava visões efetivamente similares aos libertários atuais e, realmente, seu otimismo de longo prazo sobre o futuro do mundo baseado na cooperação voluntária justifica sua alcunha como “profeta libertário”.

Notas

[1] Rev. Dr. Malcolm Brown, Good religion needs good science.”

[2] Charles Darwin, The Descent of Man, John Murray, London, 1882, p. 123.

[3] Wikipedia, ”Herbert Spencer”.

[4] Damon W. Root, “The Unfortunate Case of Herbert Spencer,” Reason.com, July 29, 2008.

[5] Roderick T. Long, “Herbert Spencer: Libertarian Prophet,” July/August, 2004.Download PDF

[6] Ibid.

[7] Wikipedia: Richard_Hofstadter.

[8] George H. Smith (Atheism, Ayn Rand, and other Heresies, p. 293)  citado por Roderick T. Long, Too Awful to Read? Susan Jacoby on Herbert Spencer,” July, 2004.

[9] Herbert Spencer, Social Statics: or The Conditions essential to Happiness Specified and the First of them Developed, John Chapman, London, 1851, Part III, Chapter XXVIII, 4, disponível em LibertyFund.org.

[10] Herbert Spencer, Social Statics: or The Conditions essential to Happiness Specified and the First of them Developed, John Chapman, London, 1851, Part III, Chapter XXVIII, 4, disponível em LibertyFund.org.

[11] Damon W. Root, Ibid.

[12] Herbert Spencer, Social Statics: or The Conditions essential to Happiness Specified and the First of them Developed, John Chapman, London, 1851, Part III, Chapter XXVIII, 4, disponível em LibertyFund.org.

[13] “Social Darwinism,” ThinkQuest.org.

[14] Herbert Spencer, Social Statics: or The Conditions essential to Happiness Specified and the First of them Developed, John Chapman, London, 1851, Part III, Chapter XXVII, 1, disponível em  LibertyFund.org.

[15] Herbert Spencer, Political Institutions: being PART V of the Principles of Sociology (the concluding Portion of Vol. II), Williams and Norgate, London, 1882, Chapter XVII, 551, disponível em LibertyFund.org.

[16] Ibid., Chapter XVIII, 564.

[17] Herbert Spencer, Social Statics: or The Conditions essential to Happiness Specified and the First of them Developed, John Chapman, London, 1851, Part II, Chapter VI, 1, available online at LibertyFund.org. This Law is prominently featured on the back cover of every issue of The Individual, the journal of the Society for Individual Freedom.

[18] Roderick T.Long, Ibid.

[19] Herbert Spencer, The Man Versus the State, Liberty Classics, Indianapolis, 1981, pp. 23–24.

[20] Ibid., p. 187.

[11] Herbert Spencer, The Principles of Ethics, Liberty Fund, Indianapolis, 1978, Vol. II, pp. 177–178.

[22] Ibid., Vol. I, Introduction by Tibor R. Machan, p. 9.

[23] Ibid., Vol. I, Introduction by Tibor R. machan, p. 9.

[24] Herbert Spencer, The Man Versus the State, Liberty Classics, Indianapolis, 1981, p. 10.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo original


Sobre o autor

Peter Richards

Peter Richards é um empresário e escritor na cidade de Hampshire, na Inglaterra. Ele é um membro vitalício da Rationalist Press Association e um membro da British Humanist Association, da Society for Individual Freedom, e da Freedom Association. Ele já contribuiu para o The Individual, The Freethinker e o Right Now!



Voltar ao Topo ↑