Ciclos Econômicos Explicação de Milton Friedman para A grande depressão

Publicado em 21 de novembro de 2014 | por Ivan Pongracic Jr.

A Grande Depressão de Acordo com Milton Friedman

O autor agradece a Lawrence H. White e a Ivan Pongracic, Sr., pelos seus úteis comentários.

Poucos eventos na história dos Estados Unidos tiveram o mesmo impacto que a Grande Depressão. O período entre 1929 e 1941 foi palco de mudanças substanciais nos cenários político e econômico dos EUA, tendo criado eventos balizadores como o fim do padrão ouro e a criação da previdência social. Foi um marco para a expansão do governo federal.

A Grande Depressão foi responsável pela popularização da ideia equivocada de que economias de mercado são inerentemente instáveis e precisam ser gerenciadas pelo governo para evitar grandes flutuações macroeconômicas, isto é, ciclos econômicos. Essa visão persiste até hoje apesar de terem se passado mais de 40 anos desde que Milton Friedman e Anna Jacobson Schwartz mostraram de maneira convincente que as políticas econômicas do Federal Reserve foram as grandes culpadas pela severidade da Grande Depressão. Em 2002, Ben Bernanke (ainda apenas mais um dos governadores do Federal Reserve) fez essa confissão assustadora em um discurso feito em homenagem ao 90º aniversário de Friedman: “Eu gostaria de dizer para Milton e Anna: Sobre a Grande Depressão, vocês estão certos. Fomos nós. Sentimos muito.”

Friedman, o principal defensor do livre mercado das últimas cinco décadas e um dos economistas mais influentes dos últimos dois séculos, morreu em novembro de 2006 aos 94 anos. Ele nos deixou um legado intelectual imenso, incluindo sua explicação da Grande Depressão, que, se por um lado convenceu a maior parte dos economistas profissionais, por outro ainda não chegou ao público. É realmente um mistério por que a explicação de Friedman não é amplamente mais reconhecida e aceita, especialmente se levarmos em conta sua influência entre os economistas. Talvez seja porque ela não favorece a narrativa de políticos ávidos por mais poder. Ou a maneira que ela geralmente é apresentada não seja de fácil compreensão para quem não entende de economia. Ou ainda simplesmente as pessoas achem mais fácil culpar os “capitalistas” do que o sagrado Federal Reserve. Seja como for, é bom revisitar o argumento de Friedman.

A explicação padrão da Grande Depressão, encontrada na maioria dos textos de história dos colégios americanos, é que ela foi criada pela especulação financeira selvagem e irracional que acabou resultando no grande colapso de outubro de 1929. As especulações dos investidores foram tão excessivas – ou assim conta a história – que quando a bolha estourou, o resultado foi o maior declínio da atividade econômica de toda a história dos Estados Unidos. O ponto chave dessa história é que tanto o colapso quanto a depressão subsequente foram causadas por fatores inerentes ao sistema capitalista, que agia livremente sob as políticas supostamente laissez-faire de Herbert Hoover. Foi só quando Franklin Delano Roosevelt tomou posse que o governo deu início ao processo de recuperação. Assim, é dito que as políticas de FDR foram responsáveis não só pela recuperação, mas por “salvar o capitalismo de si próprio” dado que muitos americanos estavam dispostos a considerar a adoção do socialismo puro como uma maneira de lidar com a crise.

A maioria das pessoas não percebe o quanto dessa explicação foi moldada por teorias econômicas keynesianas, o paradigma econômico dominante da década de 40 até a década de 70. A economia keynesiana teve sua origem com a publicação do livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda“, de John Maynard Keynes, em 1936. Nesse livro, Keynes ofereceu uma visão da Grande Depressão que contradizia o que o resto dos economistas profissionais diziam na época. A maioria dos economistas da época concordavam que economias de mercado eram “auto-ajustáveis” e que elas não podiam ficar presas em uma recessão por muito tempo. No entanto, essa visão parecia contradizer a realidade da época: taxas de desemprego persistentes de 20% e mais, chegando a 25% em 1933 – e nenhuma recuperação à vista.

Keynes parecia ser o homem certo para seu tempo, já que ele refletia a opinião cada vez mais comum de que os próprios capitalistas eram os culpados pela sua situação. Em “A Teoria Geral”, Keynes rejeitou a visão que o ciclo de expansão e quebra era causado por uma política monetária governamental excessivamente expansiva, e que a teimosia da Depressão era causada pela interferência do governo com os mecanismos de mercado. Ele batizou todos os economistas que acreditavam nessa visão de “clássicos” – em outras palavras, totalmente fora de contato com a realidade. Em vez disso, Keynes propôs uma “teoria geral” que ele acreditava ser capaz de explicar não só as épocas boas como também as ruins.

De acordo com Keynes, o que impulsiona a economia é a demanda agregada ou gastos agregados. A demanda agregada pode ser dividida em três componentes: consumo pessoal (C), investimento privado (I) e gastos do governo (G). A relação pode ser resumida com essa fórmula: DA = C + I + G. Se a Demanda Agregada é forte, a economia vai ser forte. No entanto, se a Demanda Agregada fraqueja, empresas vão ficar com grandes estoques de itens que não puderam ser vendidos e vão reduzir a produção para evitar desperdícios no futuro. Conforme eles reduzem a produção eles obviamente vão precisar de menos recursos – incluindo trabalho – e como resultado teremos níveis altos de desemprego.

O culpado nessa história, o elemento que derruba o sistema inteiro, é o investimento privado. Investimento privado consiste nos gastos de empresários em máquinas, prédios, fábricas, e afins. Em outras palavras, investimento é formação de capital. Keynes afirmava que o investimento privado era inerentemente instável devido ao que ele chamava de “espírito animal” dos empresários/capitalistas. Ele acreditava que em última análise, empresários eram irracionais e vulneráveis a comportamento de rebanho. Assim como ovelhas que seguem cegamente outras ovelhas do rebanho, é fácil para empresários ficarem “irracionalmente exuberantes” – assim como irracionalmente letárgicos. A letargia de investimentos resultaria em uma grande queda nos investimentos privados, reduzindo os gastos agregados e causando uma contração econômica.

Da Contração à Depressão

Como nós vamos dessa contração econômica à uma recessão verdadeira ou até mesmo uma depressão? Conforme a economia desacelera, o desemprego sobe e resulta em uma queda na confiança dos consumidores. O pessimismo dos consumidores vai resultar em mais poupanças e menos gastos, reduzindo o componente do consumo pessoal da demanda agregada, piorando a contração. Perceba que tanto I quanto C, portanto, dependem das expectativas de indivíduos privados (irracionais no caso de empresários investidores): se tanto investidores quanto consumidores ficam pessimistas e passam a esperar uma recessão, eles vão reduzir seus gastos e portanto fazem com que a demanda agregada seja baixa demais para fazer uso pleno dos recursos disponíveis. De acordo com Keynes, uma recessão é basicamente uma profecia que realiza a si mesmo.

A Grande Depressão, portanto, foi um período longo e teimoso de demanda agregada excepcionalmente baixa, e de acordo com Keynes, não haviam forças econômicas trabalhando para tirar a economia dessa situação automaticamente. Em outras palavras, ele acreditava que não existia algum mecanismo auto-corretivo (ou mão invisível) na economia de livre mercado. Em vez disso, mudanças irracionais nas expectativas resultariam regularmente em flutuações amplas e destrutivas na macroeconomia. Assim, vemos que o ciclo econômico é a consequência natural e inesperada da operação desregulada de uma economia de mercado. Portanto, se uma economia de mercado desregulada resulta em depressões, ela é claramente indesejável. Também deve estar óbvio a essa altura que a explicação padrão de livros de história de colegial é basicamente uma versão simplificada do paradigma keynesiano.

Para evitar uma recessão, portanto, é necessário que o governo garanta que os gastos agregados são suficientes para atingir emprego pleno. O governo pode fazer isso ou via política fiscal (cobrança de impostos e gastos do governo) ou via política monetária (controle da emissão de moeda). Keynes favorecia a política fiscal e recomendou que o governo gastasse grandes quantidades de dinheiro gerando um déficit fiscal. Esses gastos permitiriam um aumento nos gastos do governo sem um aumento equivalente na carga tributária sobre empresas e indivíduos privados. Assim, os maiores gastos do governo poderiam neutralizar quaisquer reduções em gastos no setor privado, preservando renda e empregos e finalmente revertendo as expectativas pessimistas que resultaram na contração em primeiro lugar. O “gerenciamento da demanda” keynesiano claramente receitava um papel importante para o governo.

A explicação de Keynes, além de criar uma nova maneira de analisar a economia como um todo, influenciou muito políticos e pessoas comuns no mundo todo. A ideia de que o governo precisava adotar políticas anti-cíclicas de gerenciamento de demanda para estabilizar a economia de mercado logo foi aceita pela sociedade. Tanto FDR quanto Keynes foram proclamados os “salvadores do capitalismo!”

Friedman Investiga os Fatos

Na década de 50, Friedman e Anna Schwartz começaram a compilar dados históricos sobre variáveis monetárias sem nenhuma agenda específica e nenhuma intenção de derrubar a explicação dominante da Grande Depressão. Mas ficou óbvio que os dados contradiziam a explicação keynesiana padrão. Portanto, em seu livro “Uma História Monetária dos Estados Unidos, 1867-1960“, de 1963, eles mostraram as evidências empíricas que os levaram a uma explicação completamente diferente.

Como resultado de sua análise dos anos cruciais entre 1929 e 1933, Friedman e Schwartz primeiro concluíram que a Grande Depressão não era o resultado direto e necessário da quebra da bolsa de valores de outubro de 1929, que eles atribuíram a uma bolha especulativa de investimentos. (O estouro da “bolha” pode ter sido causado pelo Federal Reserve elevando a taxa de descontos – a taxa de juros que o Fed cobra sobre empréstimos para bancos comerciais – em agosto de 1929. (A causa da bolha especulativa que resultou na quebra é um assunto polêmico. Enquanto Friedman e Schwartz aceitaram que a bolha foi causada por investidores, aparentemente apoiando – pelo menos em parte – a explicação keynesiana sobre “espíritos animais” economistas austríacos defendem outra versão.) Na verdade, eles acreditavam que a economia poderia ter se recuperado rapidamente se o Fed – o banco central dos Estados Unidos – não tivesse adotado uma série de políticas desastrosas depois da quebra.

O Fed havia sido criado apenas 15 anos antes de quebra, tendo sido fundado em 1914. Os Estados Unidos tiveram dois bancos centrais antes do Fed (o Bank of United States, 1792-1812; e o Second Bank of United States, 1816-1836), mas o país ficou sem nenhum tipo de autoridade monetária central por mais de setenta-e-cinco anos. Ele foi criado principalmente para agir como um “emprestador de última instância” de onde bancos privados poderiam emprestar dinheiro em tempos de crise. A necessidade de um emprestador de última instância no sistema bancário americano era uma fraqueza sistemática causada acidentalmente pelas regulações bancárias estaduais e federais. (O Canadá, que tinha um sistema bancário mais livre, não tinha essas fraquezas sistemáticas e não tinha necessidade de um emprestador de última instância). Bancos fracos estão sujeitos a crises quando seus depositantes não confiam mais que seu banco possui reservas suficientes para satisfazer todas as suas demandas de saque em um certo momento. Isso pode causar uma “corrida ao banco”, onde poupadores tentam chegar ao banco antes dos outros para sacar seu dinheiro antes que as reservas limitadas do banco se esgotem. Uma corrida a um banco pode facilmente gerar outras corridas a bancos conforme depositantes ficam preocupados sobre a saúde financeira de seus próprios bancos, igualmente fracos.

O problema com as corridas a bancos é que quando os depositantes sacam seu dinheiro e passam a guardá-lo embaixo do colchão em vez de realizar depósitos em outros bancos, a oferta monetária encolhe. Para compreender esse fenômeno, precisamos explicar como a oferta monetária é medida. As medidas mais simples incluem não só moeda corrente mas também depósitos em conta corrente, já que eles também são usados para efetuar pagamentos. O que complica as coisas é que o sistema bancário de reserva fracionada resulta em uma expansão múltipla dos depósitos. Quando alguém coloca dinheiro em um banco, sua conta corrente reflete o depósito, mas o banco não fica com todo o dinheiro guardado – ele não é um armazém. Em vez disso, ele guarda uma fração como “reserva” e empresta o resto para um mutuário, que por sua vez compra bens ou serviços. O vendedor desses bens então deposita sua nova renda em um banco, criando uma nova conta corrente. A oferta monetária aumenta na quantia do novo depósito. O processo vai continuar, mas em quantidades decrescentes já que os bancos precisam ficar com alguma parte dos novos depósitos como reservas. No entanto cada ciclo vai aumentar a oferta monetária ao aumentar a quantidade total de depósitos em bancos.

O processo também funciona ao contrário. Quando bancos perdem reservas devido a corridas a bancos, a economia sofre uma contração múltipla de depósitos. Os depósitos que são removidos da economia excedem em muito a moeda corrente adicional que o público agora tem em mãos, portanto a oferta monetária cai.

A quebra da bolsa de valores de outubro de 1929 fez com que muitos empresários não conseguissem pagar seus empréstimos ao banco, e como resultado muitos bancos ficaram no vermelho. Mas a causa mais importante das corridas a bancos que começaram em outubro de 1930 foram colheitas ruins nas zonas rurais, onde os bancos eram especialmente fracos e pouco diversificados. O número de corridas a bancos aumentou exponencialmente em dezembro de 1930 – só naquele mês, 352 faliram. A maioria das falências ocorreu na região meio-oeste, e foram causadas por fazendeiros que deram calote em suas dívidas porque estavam sofrendo com a contração econômica. Assim que a primeira leva de corridas a bancos terminou, uma nova onda começou na primavera de 1931, resultando no que Friedman e Schwartz descreveram como um “medo contagiante” entre depositantes. Crises bancárias continuaram a chegar em ondas até a primavera de 1933.

A Chegada de Roosevelt

FDR tomou posse no dia 4 de março de 1933, e dois dias depois ele declarou um “feriado bancário”, permitindo legalmente que bancos recusassem saques dos depositantes; o feriado durou dez dias. Com sua famosa frase “a única coisa que devemos temer é o próprio medo” ele pretendia dissuadir depositantes de correr a seus bancos, mas aí já era tarde demais. Em 1929 existiam 25.000 bancos nos Estados Unidos. Quando o feriado bancário terminou, somente 12.000 bancos estavam operando (mas outros 3.000 eventualmente voltaram a operar). O efeito na oferta monetária foi igualmente drástico. De 1929 a 1933 ela caiu em 27% – para cada $3 em circulação em 1929 (seja em moeda corrente ou em depósitos), somente $2 continuaram circulando em 1933. Uma queda tão drástica na oferta monetária inevitavelmente resultou em uma redução enorme na demanda agregada. Indivíduos tiveram suas economias liquidadas, então sua resposta natural foi economizar mais para compensar, resultando em uma queda nos gastos com consumo. Naturalmente, a produção econômica total também caiu de forma dramática. O PIB em 1933 era 29% mais baixo do que era em 1929. E a taxa de desemprego atingiu seu auge histórico de 25% em 1933.

Friedman e Schwartz defenderam que tudo isso foi causado pelo fracasso do Fed em desempenhar seu papel como emprestador de última instância. Em vez de oferecer liquidez através de empréstimos, o Fed ficou apenas observando enquanto milhares de bancos iam à falência, parecendo ignorar o efeito que isso teria na oferta monetária. O Fed poderia ter comprado títulos do governo para contrabalancear a redução na oferta monetária criada pelas falências bancárias, mas ele não fez isso. Como Milton e Rose Friedman escreveram em seu livro “Livres para Escolher”:

   O Fed poderia ter oferecido uma solução muito melhor se tivesse começado a comprar títulos do governo em grande escala. Isso teria fornecido aos bancos o dinheiro adicional que eles precisavam para atender às demandas de seus depositantes. Isso teria encerrado – ou pelo menos reduzido bastante – a onda de falências bancárias e impedido que a tentativa do público de converter depósitos em moeda corrente reduzisse a quantidade de dinheiro. Infelizmente, as ações do Fed foram pequenas e hesitantes. No geral, ele ficou parado e deixou a crise tomar seu rumo – um comportamento padrão que iria se repetir várias vezes durante os próximos dois anos.

De acordo com Friedman e Schwartz, essa foi uma abdicação completa das responsabilidades principais do Fed – responsabilidades que ele havia tirado das câmaras de compensação bancárias comerciais que haviam agido para mitigar pânicos antes de 1914 – e foi a principal causa da Grande Depressão.

A pergunta óbvia é: Por que o Fed não agiu? Não podemos ter certeza, mas Friedman e Schwartz ofereceram várias explicações possíveis: 1) os funcionários do Fed não compreendiam plenamente as consequências desastrosas de deixar tantos bancos irem à falência. Friedman e Schwartz escreveram que oficiais do Fed podem ter “considerado as falências como consequências lamentáveis da administração bancária ou de práticas bancárias ruins, ou como reações inevitáveis a excessos especulativos anteriores, ou como uma consequência mas não uma causa do colapso financeiro e econômico em progresso“; 2) funcionários do Fed podem ter agido em interesse próprio já que muitos deles eram afiliados a grandes bancos da região nordeste. Falências bancárias, pelo menos nos estágios iniciais, “ocorriam principalmente entre bancos menores e já que a maioria das pessoas importantes no sistema eram grandes bancários metropolitanos que deploravam a existência de bancos menores, seu desaparecimento pode ter sido visto com complacência“; 3) a inatividade pode ter sido causada por disputas políticas entre o Federal Reserve Board em Washington, D.C., e bancos regionais do Fed, em especial o banco do distrito de Nova York, que era a parte mais importante do sistema naquela época. Talvez nunca saibamos o verdadeiro motivo.

Os Perigos do Poder Centralizado

Existe uma lição importante nesse episódio. Quando centralizamos grandes poderes e responsabilidades em uma única instituição, o seu fracasso vai ter consequências amplas e terríveis. O Fed foi criado para agir de forma decisiva exatamente nas circunstâncias que ocorreram em 1930-33. Friedman e Schwartz mostraram que o fracasso do Fed era ainda mais sério e difícil de compreender quando considerado como teria sido fácil evitá-lo.

Durante qualquer momento da contração de 1929-1933, existiam políticas alternativas disponíveis ao sistema que poderiam não só ter impedido a queda na oferta monetária como também poderiam a ter expandido. Essas políticas não envolviam inovações radicais. Elas envolviam um tipo de medida que o sistema já havia adotado em anos anteriores, um tipo que os criadores do sistema consideravam explicitamente ser adequado para lidar com a crise bancária que surgiu no fim de 1930 e que permaneceu depois disso. Elas envolviam medidas que foram de fato propostas e que provavelmente teriam sido adotadas caso a estrutura burocrática ou distribuição de poder fosse ligeiramente diferente, ou até mesmo se os homens no poder tivessem personalidades um pouco diferentes.

Isso é o mais preocupante. A instituição falhou por causa das pessoas dentro dela. E por causa do poder e influência imensos que ela tinha sobre a economia, o seu fracasso foi desastroso. É importante compreender que a Grande Depressão poderia ter sido evitada caso o Fed não tivesse adotado uma política monetária tão ruim. Na verdade, Friedman e Schwartz afirmaram que a depressão não teria sido uma Grande Depressão se o Fed não tivesse sido criado em primeiro lugar: “Se em 1929 ainda existisse o sistema bancário pré-1914 em vez do Federal Reserve System, é quase certo que a oferta monetária não teria sofrido um declínio comparável ao que realmente ocorreu.”

Esse argumento foi desenvolvido plenamente por Milton e Rose Friedman em Livres para Escolher:

Se o Federal Reserve System nunca tivesse sido estabelecido, e se uma série similar de corridas a bancos tivesse se iniciado, sem dúvidas as mesmas medidas que foram adotadas em 1907 teriam sido adotadas novamente – uma restrição de pagamentos. Isso teria sido mais drástico do que o que realmente ocorreu nos últimos meses de 1930. No entanto, ao impedir o esgotamento de reservas de bancos bons, a restrição quase certamente teria impedido as séries posteriores de falências bancárias em 1931, 1932 e 1933, assim como a restrição de 1907 encerrou rapidamente as falências bancárias da época. [. . .] Com o fim do pânico e a restauração da confiança, a recuperação econômica muito provavelmente se iniciaria no começo de 1931, assim como havia sido no começo de 1908.

A existência do Reserve System impediu a medida terapêutica drástica: diretamente, ao reduzir a preocupação dos bancos mais fortes, que erroneamente acreditaram que emprestar dinheiro do System oferecia um mecanismo de fuga confiável em casos de dificuldade; indiretamente, ao fazer com que a sociedade em geral e especialmente o sistema bancário acreditassem que medidas tão drásticas não eram mais necessárias agora que o System estava lá para cuidar desses assuntos.

Na edição de 15 de fevereiro de 2007 da revista New York Review of Books, o economista e colunista Paul Krugman acusou Friedman de “desonestidade intelectual” porque como resultado de seu trabalho sobre a Grande Depressão, Friedman exigiu diversas vezes uma redução significativa do poder do Fed ou até mesmo a sua abolição total. Krugman, porém, concluiu que a verdadeira lição a ser aprendida da explicação de Friedman é que instituições do governo devem ser mais ativas, e não menos. Krugman acredita que sua conclusão é tão óbvia que ele está convencido de que a recomendação contrária de Friedman deve ser motivada por uma agenda ideológica, e portanto é um exemplo de desonestidade intelectual. No entanto, Krugman claramente não está entendendo o essencial.

A conclusão de Friedman era perfeitamente lógica considerando a sua crença de que se o Fed não tivesse sido criado, a contração de 1929 não teria se tornado uma depressão grave. Friedman afirma no parágrafo acima que sem o Fed “as mesmas medidas que foram adotadas em 1907 teriam sido adotadas novamente – uma restrição de pagamentos“, e acredita que isso teria impedido a crise de se espalhar para “bancos mais fortes”, os bancos que não tinham se arriscado demais com seus empréstimos. O economista monetário Lawrence H. White da Universidade de Missouri-St. Louis preencheu os vazios do “contrafactual institucional” de Friedman em seu blog Division of Labour (12 de março de 2007):

“Friedman entendia [. . .] que antes do Federal Reserva Act pânicos financeiros nos EUA eram mitigados pela ação de câmaras de compensação bancárias comerciais. A visão de Friedman e Schwartz da década de 30 era que o Fed, depois de nacionalizar o papel das associações de câmaras de compensação [CHAs, em inglês], especialmente o papel de emprestador de última instância, fez menos para mitigar o pânico do que as CHAs haviam feito em pânicos anteriores como o de 1907 e de 1893. Nesse sentido, teria sido melhor para a economia se o Fed não tivesse sido criado. Essa crença é perfeitamente compatível com a crença de que, uma vez que o Fed nacionalizou o papel das câmaras de compensação, ele foi culpado de não fazer seu serviço.”

Portanto o fracasso do Fed no começo da década de 30 mostra os perigos da centralização excessiva de funções importantes do mercado que anteriormente estavam dispersados entre múltiplas instituições privadas. A conclusão de Friedman continua de pé: O Fed causou a Grande Depressão.

A Tempestade Perfeita

Nas décadas que se seguiram ao trabalho de Friedman e Schwartz, economistas começaram a examinar outros fracassos de políticas governamentais adotadas após a quebra e encontraram uma miríade deles. Aqui estão vários exemplos chave dessas políticas ruins: 1) Em resposta a um rápido declínio na arrecadação tributária em 1930 e 1931 (causado por uma redução nas atividades econômicas), o governo federal aprovou o maior aumento de impostos em tempos de paz na história dos Estados Unidos, que claramente freou qualquer recuperação que poderia ter ocorrido; 2) o governo federal também aprovou o Ato Tarifário Smoot-Hawley em 1930, que aumentou muito tarifas alfandegárias e resultou em restrições retaliatórias de parceiros comerciais, resultando em uma queda considerável nas exportações americanas e piorou a redução da produção (para não falar da perda da divisão de trabalho mutualmente vantajosa); 3) o governo federal também implementou diversos tipos de programas de “obras públicas”, começando com Herbert Hoover e aumentando de forma drástica com FDR; os programas removiam centenas de milhares de pessoas do mercado de trabalho e os empregavam em atividades economicamente inúteis, como esculpir o rosto de presidentes mortos nos lados de uma montanha, impedindo ou atrasando ajustes necessários no mercado de trabalho; 4) outra política federal que impediu ajustes de mercado (de trabalho e outros) foram os controles de preço e salário implementados pela National Recovery Administration e que duraram de 1933 a 1935 (quando foram julgados inconstitucionais); essa política criou distorções enormes nos preços relativos de mercado, prejudicando sua habilidade de funcionar como guias para empreendedores; 5) a culpa do Fed não terminou em 1933. Ele aumentou os requisitos de reserva bancária três vezes em 1936 e 1937, resultando em outra queda significativa na oferta monetária. O resultado foi a recessão de 1937-38 dentro da Grande Depressão, piorando ainda mais as coisas.

Economistas atualmente enxergam a Grande Depressão como uma “tempestade perfeita” de políticas fracassadas. Um número realmente assustador de políticas destrutivas fora implementado quase ao mesmo tempo. Em retrospecto, parece que toda vez que a economia começava a mostrar o menor traço de recuperação, uma nova política seria aprovada para impedir que isso ocorresse.

A explicação superior da Grande Depressão mostrou que ela não foi causada pelo mercado desregulado. Não existe nada na operação de livres mercados que cria depressões ou mesmo recessões. Em vez disso, nós agora sabemos que precisamos buscar as causas desses fenômenos em políticas governamentais errôneas e mal gerenciadas. E o trabalho inovador de Friedman e Schwartz sobre o papel do Fed foi o maior responsável por essa mudança na maneira em que economistas analisam a Depressão. Friedman ofereceu uma explicação alternativa – e acabou persuadindo a maioria dos economistas que ela correta – por causa de sua insistência na investigação intelectual honesta, livre de vieses ideológicos. Foi algo corajoso a fazer em uma época em que o keynesianismo reinava absoluto entre economistas profissionais, e poderia ter prejudicado ou até destruído a sua carreira. Mas a força de caráter pessoal de Friedman e sua honestidade intelectual o obrigaram a defender a verdade, e hoje todos estamos melhores por causa disso.

Ironicamente, como resultado da crise bancária de 1930-33, o Fed recebeu mais responsabilidades e mais controle sobre o sistema bancário. Como costuma acontecer em política, o fracasso justificou uma expansão de poder. Essa expansão do poder do Fed resultou em grande destruição econômica nas décadas que se seguiram. Em 1980, Milton e Rose Friedman escreveram sobre o histórico do Fed nos 45 anos que se seguiram à crise bancária de 1930-33:

Desde 1935 o [Federal Reserve] System gerenciou – e contribuiu bastante para – uma grande recessão em 1937-1938, uma inflação nos tempos de guerra e no pós-guerra imediato, e uma economia de montanha russa, alternando entre altos e baixos na inflação e aumentos e decréscimos no desemprego. Cada pico inflacionário e cada queda temporária na inflação tem atingido níveis mais e mais altos, e o nível médio de desemprego tem aumentado gradualmente. O System não cometeu o mesmo erro que cometeu em 1929-1933 – de permitir ou alimentar um colapso econômico – mas cometeu o erro oposto, de alimentar um crescimento excessivamente rápido na quantidade de dinheiro e assim causar inflação. Além disso, ao ir de um extremo ao outro rapidamente, ele tem continuado a produzir não apenas bolhas mas também recessões, algumas leves e outras graves.

A performance do Fed melhorou desde 1980, mas isso não significa que ele não é mais capaz de cometer erros que teriam consequências devastadoras para nossas vidas. O trabalho de Friedman deve servir como um aviso do que pode acontecer quando tanto poder é concentrado artificialmente em uma única instituição. É por esse motivo que é tão vitalmente importante que as pessoas de hoje aprendam a verdadeira história da Grande Depressão. A sua fé nas instituições do governo poderia se enfraquecer consideravelmente se elas compreendessem o que realmente ocorreu.

// Tradução de Pedro Galvão de França Pupo. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Ivan Pongracic Jr.

É professor de Economia no Hillsdale College, onde ensina desde 2000. É graduado em engenharia aeroespacial pela Purdue University, e é mestre e doutor em economia pela George Mason University Passou apreciar a importância do livre mercado para a liberdade e prosperidade humana graças a sua infância Iugoslávia comunista.



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