Liberdade Econômica Globalização

Publicado em 27 de janeiro de 2014 | por Tom G. Palmer

A globalização é fabulosa!

A globalização provoca sentimentos fortes em muita gente, mas hoje não vou falar muito de sentimentos. Vou falar de razões, lógica e evidência. É importante que os argumentos façam sentido, que possam ser verificados ou refutados, e que possamos cativar o coração através da mente. Espero poder cativar as suas mentes para que assim coloquemos nossos corações ao lado da humanidade.

É comum que os oponentes da globalização utilizem o termo para descrever todas as características da vida humana que eles não apreciam. Eu usarei o termo “globalização”, de forma mais precisa, para me referir à diminuição ou eliminação das restrições estatais aos intercâmbios entre fronteiras e ao cada vez mais integrado e complexo sistema global de produção e trocas que emergiu como resultado. As interrogações que se colocam são as de saber os efeitos que a globalização realmente tem e se eles são benéficos ou prejudiciais.

A questão política fundamental é se uma fronteira deve ser utilizada para impedir as transações que seriam permitidas se ambas as partes estivessem do mesmo lado dessa fronteira. Deve-se permitir aos produtores de trigo dos EUA comprar celulares das pessoas da Finlândia? Deve-se permitir aos tecelões de Gana vender camisas e calças aos operários alemães?

Eu acredito que a resposta é sim. Os oponentes da globalização, da esquerda e da direita, desde Ralph Nader a Patrick Buchanan e Jean Marie Le Pen, dizem que não. Antes de explicar o meu sim, devo enfatizar que o debate não é sobre a interação de números, mas antes sobre a interação de pessoas reais, pessoas de carne e osso com corpos, mentes e vidas que são importantes e têm significado.

Para colocar alguma dessa carne e osso nos argumentos formais, permitam-me contar uma história. No ano passado, um amigo maia que ensina antropologia na Guatemala levou-me às terras montanhosas maias. Ele disse-me que antropólogos da Europa e dos Estados Unidos que querem “estudar” os aborígenes se queixam de que muitas mulheres maias já não vestem cotidianamente os seus belos trajes indígenas feitos à mão. Essas peças estão crescentemente reservadas para ocasiões especiais como batismos e casamentos. A reação dos visitantes é quase unanimemente de horror. Os maias estão a ser despojados da sua cultura, afirmam eles. São as primeiras vítimas da globalização e do imperialismo cultural.

Os visitantes não se preocupam em perguntar às mulheres maias porque razão muitas delas não veste mais roupas tradicionais, mas o meu amigo fez. As mulheres lhe disseram que já não usam os seus vestidos feitos à mão porque eles se tornaram bastante caros. O que significa as roupas feitas à mão terem se tornado mais caras? Significa que o trabalho da mulher maia se tornou mais valioso. Em vez de passar horas e horas num tear  manual fazendo um vestido para usar , ela pode empregar esse tempo fazendo esse mesmo vestido para vender a uma mulher na França e utilizar as receitas para comprar três outras peças de roupa – e óculos, ou um rádio, ou um medicamento para combater doenças. Ou as mulheres podem fazer outros trabalhos e ainda assim ter capacidade para comprar  mais coisas que valorizam. Não estão sendo roubadas. Elas se tornaram mais ricas. E da sua perspectiva, isso não é uma coisa má; mas é uma grande decepção da perspectiva daqueles a quem o meu amigo chama de “turistas da pobreza” anti-globalização, que gostam de tirar fotografias de gente pobre colorida.

Assim, quando discutimos a globalização, devemos ter em conta as mulheres que fazem roupas que se estão se tornando bastante caras para que elas as possam usar todos os dias. Essas são as pessoas de carne e osso cujo destino será decidido, para melhor ou para pior, pelo debate sobre a globalização. Se tornarão mais ricas ou mais pobres? Terão vidas mais longas ou mais curtas? A resposta a estas questões depende de adotarmos políticas sábias ou estúpidas.

Mitos sobre a Globalização
1. A Globalização destrói empregos

A política comercial não afeta o número de empregos, mas afeta o tipo de empregos que as pessoas têm. Se o protecionismo aumenta o número de empregos em indústrias que competem com importações, ele reduz de forma correspondente o número de empregos em indústrias exportadoras, ou seja, nas indústrias que produzem bens que teriam sido trocados por bens que teriam sido importados, mas que são agora mais caros devido às tarifas ou excluídos por cotas. As exportações são, afinal, o preço que pagamos pelas importações, tal como as importações são o preço que os estrangeiros pagam pelas nossas exportações, de tal forma que se reduzirmos através de uma tarifa o valor de bens importados, reduziremos também o valor de bens exportados para pagar essas importações. Isso se traduz numa perda de empregos nas indústrias exportadoras.

2. A Globalização direciona o capital para onde os salários são mais baixos e explora os trabalhadores mais pobres

Se fosse verdade que os fluxos de capital se dirigem para onde os salários são mais baixos, seria de esperar que Burkina Faso e outros países pobres com baixos salários estivessem inundados de investimento externo. A afirmação tem implicações verificáveis, pelo qual podemos testá-la. Durante a década de 1990, 81% do investimento direto estrangeiro dos EUA foi para três partes do mundo: o desesperadamente pobre Canadá, a empobrecida Europa Ocidental e o faminto Japão. Países em desenvolvimento (com salários em crescimento) como a Indonésia, o Brasil, a Tailândia e o México representaram 18%. O resto do mundo, incluindo toda a África repartiram o 1% restante. Os investidores colocam o seu capital nos locais que lhes oferecemos maiores retornos, e em geral isso acontece onde os salários são mais altos, não mais baixos. Além disso, as empresas estabelecidas por investidores externos tendem a pagar salários mais altos do que as empresas locais, porque os estrangeiros querem atrair e reter os melhores trabalhadores.

3. O capital é exportado dos países ricos para o Terceiro Mundo criando sweatshops, que por sua vez exportam grandes quantidades de bens baratos para os países ricos, gerando excedentes comerciais nos países pobres e reduzindo a atividade industrial nos países ricos, de tal forma que todos ficam pior

Isto é um tipo de história que ouço frequentemente nas universidades. É tão confusa que é difícil saber por onde começar. Primeiro, não é possível ter simultaneamente um superavit na conta de capital e um superavit comercial. Se um país exporta mais do que importa, ele recebe algo em troca das suas exportações, e o que obtém é a propriedade de ativos – ou investimento líquido – nos países para os quais exporta. Se um país importa mais do que se exporta – como os EUA têm feito nas últimas décadas – é necessário vender algo aos estrangeiros que lhe estão a enviar os seus produtos, e o que se vende são ativos, tais como ações de empresas. A identidade contabilística fundamental é: Poupança – Investimento = Exportações – Importações. A maioria dos cenários aterrorizadores anunciados pelos oponentes da globalização se assenta na simples ignorância dos elementos mais básicos da contabilidade do comércio internacional.

4. A globalização origina uma deterioração dos padrões ambientais e trabalhistas

Outra falácia é a de que o capital flui para onde os padrões ambientais e trabalhistas são mais baixos. Mas verifiquemos os fatos. Os investidores investem nos locais onde os retornos são maiores, os quais tendem a ser onde a mão de obra é mais produtiva, os quais são onde as pessoas são, consequentemente, mais ricas – e as pessoas mais ricas tendem a exigir  melhores, e não piores, condições ambientais e trabalhistas. Os dois casos mais citados como exemplos de efeitos supostamente negativos sobre o ambiente dos acordos comerciais – os do “atum/golfinho” e “camarão/tartaruga” – revelam uma melhoria, não uma deterioração, na medida em que outros países adotaram os padrões legais dos Estados Unidos para proteger os golfinhos e as tartarugas.

O mesmo se aplica às condições trabalhistas. Os postos de trabalho nas empresas propriedade de estrangeiros são geralmente muito procurados, porque pagam melhores salários e oferecem melhores condições trabalhistas do que as alternativas domésticas.

5. A globalização cria uma cultura norte-americana homogênea em todo o mundo

É de fato verdade que os Estados Unidos são culturalmente atraentes e que algumas pessoas – geralmente elites – se opõem a isso. Mas consideremos a moda que tomou todo o mundo, o pequeno mago inglês Harry Potter, ou a loucura que se instalou nas crianças de sete anos por todo o mundo há alguns anos com o fenômeno japonês do Pokemon, assim como com o também japonês Anime, a indústria cinematográfica indiana “Bollywood” e muitas outras contribuições de outras culturas, as quais nos enriqueceram e a outros. Isto sem mencionar a comida tailandesa ou a capacidade de poder ouvir músicas gravadas em praticamente todas as línguas faladas no planeta. Se as culturas permanecerem hermeticamente seladas e estáticas, elas deixam de ser culturas humanas; convertem-se em exposições de museu. A globalização enriquece-nos culturalmente.

6. A globalização cria desigualdade

As causas do aumento e diminuição da desigualdade  são complexas, mas há uma verdade substancial na afirmação de que a globalização gera desigualdade: o diferencial de riqueza entre os países que têm economias fechadas e aqueles que praticam o comércio livre continua a aumentar. Essa não é a desigualdade que os anti-globalização têm em mente. No interior dos países que abriram as suas economias ao comércio e ao investimentos, as classes médias cresceram, o que significa que existe menos desigualdade, e não mais.

Benefícios da Globalização

1. A globalização conduz à paz ao diminuir os incentivos para o conflito

O protecionismo baseia-se numa mentalidade e num conjunto correspondente de políticas que enfatizam os interesses divergentes das nações. Em contraste, o comércio livre une os países em paz. Há um velho adágio que diz “quando os bens não podem atravessar as fronteiras, os exércitos certamente o farão”.

2. O comércio gera riqueza

Imaginem que alguém criou uma máquina que nos permitiria fazer passar por uma porta coisas que podemos produzir de forma barata e obter por outra porta as coisas que gostariam de termos, mas que custam mais a produzir. Os australianos poderiam fazer passar ovelhas por uma porta e da outra sairiam automóveis e câmaras. Os japoneses poderiam empurrar eletrônicos por uma porta e obter petróleo, trigo e aviões pela outra. O inventor dessa máquina seria louvado como um benfeitor da humanidade – até que Pat Buchanan ou Ralph Nader mostrassem que o invento é… um porto! Então, em vez de ser considerado um herói, o “inventor” seria vilipendiado como um destruidor de empregos – e pela sua falta de patriotismo. Mas qual é a diferença entre essa máquina maravilhosa e o comércio?

3. O comércio conduz a benefícios para todos

O erro mais comum dos protecionistas é confundir vantagem absoluta com vantagem comparativa. Mesmo que a pessoa na primeira fila seja melhor que eu em tudo, ambos beneficiamos do comércio se ela se especializar  naquilo que faz melhor e eu me especializar naquilo que faço melhor. O velho exemplo da datilógrafa e do advogado aplica-se tanto entre fronteiras como dentro dos escritórios. O advogado pode escrever documentos jurídicos e datilografar melhor que a secretária, mas ambos se beneficiam se o advogado se especializar em escrever documentos jurídicos, os quais custam menos em termos de produção datilográfica perdida, e se a secretária se especializar em datilografar, o que custa menos em termo de perda de argumentação jurídica, já que a secretária é melhor em datilografar do que em redigir documentos jurídicos. O produto total é maior e ambos geram um maior rendimento. Essa é também uma razão pela qual o comércio está relacionado tão de perto com a paz. É em primeiro lugar pelo fato de as pessoas poderem ver os outros seres humanos como parceiros numa cooperação mutuamente benéfica, e não como rivais mortais, que a sociedade humana se torna possível. O comércio é a base primordial da civilização humana.

4. O comércio livre é o caminho mais rápido para a eliminação do trabalho infantil

Em todo o mundo, trabalham aproximadamente 250 milhões de crianças. A porcentagem de crianças que trabalham tem vindo a cair –e não a aumentar – como incremento do comércio e a globalização, e por razões relativamente óbvias. Os países pobres não são pobres por as crianças trabalharem. As crianças trabalham porque são pobres. Quando as pessoas enriquecem através da produção e do livre comércio, elas enviam as suas crianças para a escola, em vez de as mandarem para os campos. O comércio global é o caminho mais rápido para a eliminação do trabalho infantil e sua substituição pela educação infantil.

5. O comércio, a abertura e a globalização reforçam os governos democráticos e responsáveis e o Estado de Direito

À medida que as barreiras comerciais foram caindo, a porcentagem de governos classificados como democráticos pela Freedom House aumentou dramaticamente. Dos 40% de países com maior abertura econômica segundo o Economic Freedom of the World (co-publicado pelo Cato Institute), 90% são classificados como “livres” pela Freedom House. Pelo contrário, nos 20% de países com economias mais fechadas, menos de 20% foram classificados como “livres” e mais de 50% foram considerados “não livres”. O México é um bom exemplo; a abertura da economia mexicana através do Tratado de Livre Comércio da América do Norte tornou possível a vitória do presidente Vicente Fox e a ruptura do monopólio sobre o poder detido pelo Partido Revolucionário Institucional. Os defensores de governos democráticos e responsáveis e do Estado de Direito deveriam apoiar a globalização.

6. O livre comércio é um direito humano fundamental

Os anti-globalização e os protecionistas partem do pressuposto que têm o direito de usar a força para evitar que vocês e eu levemos a cabo trocas voluntárias. Mas os direitos fundamentais deveriam ser  iguais para todos os seres humanos, e o direito de comercializar é um direito fundamental, de que desfrutam todos os seres humanos, independentemente do lado da fronteira em que possam viver. O comércio livre não é um privilégio; é um direito humano.

O comércio é algo distintamente humano. Algo que nos diferencia de todos os outros animais. O comércio se baseia na nossa faculdade de raciocinar e na nossa capacidade de persuadir. Como assinalou Adam Smith numa conferência em 30 de Março de 1763: “A oferta de um trocado, que para nós parece ter um significado tão simples e direto, é na realidade a oferta de um argumento para persuadir alguém a fazer algo de tal forma que se ajusta ao seu interesse”. Como ele notou, outros animais podem cooperar, mas não comercializam, e não comercializam porque não empregam a razão para persuadir.

O comércio não só é distintamente humano, como é também uma característica distintiva da civilização, tal como salientou Homero na Odisseia. No Canto IX, quando Ulisses nos relata a sua chegada à terra dos Ciclopes, ele nos oferece alguns pensamentos sobre as razões pelas quais os Ciclopes são “gigantes sem leis”. Ulisses observa que:

Os Ciclopes não possuem nenhumas naus de faces pintadas de vermelho, nem artífices capazes de fabricar essas naus bem munidas de ponte, que, adequadas a todas as viagens, rumam na direção das cidades povoadas, e tantas são as que transportam através do mar os homens que vogam de uns países para outros.

Os Ciclopes são selvagens porque não comercializam. Vivem no mundo adorado pelos anti-globalização, um mundo sem comércio, um mundo em que toda a produção é local. O protecionismo deve ser rejeitado não apenas porque é ineficiente. Ele deve ser rejeitado porque conduz ao conflito e à guerra, porque é imoral, e porque é contrário à civilização.


Sobre o autor

Tom G. Palmer

Tom G. Palmer é um membro sênior do Instituto Cato e diretor do Cato University, braço educacional do Instituto. Palmer também é o vice-presidente executivo para os programas internacionais da Atlas Economic Research Foundation , e é responsável pela criação de programas que operam em 14 idiomas.



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