Oriente Médio Gaza

Publicado em 19 de julho de 2014 | por Dean Córnito

Gaza outra vez

Se o atual recrudescimento das tensões nesta região do Oriente Médio é parte de uma larga história de confrontos entre Israel e seus vizinhos árabes, é interessante notar que o contexto e a realidade política atual dos protagonistas do presente conflito é bastante distinta da de novembro de 2012, quando se deu a última escalada entre Israel e Hamas. São justamente essas diferenças as que me interessa expor, para ajudar ao leitor a compreender o contexto e os motivos do conflito atual.

1. Os Fatores Externos

1.1. O Eixo Irã-Síria-Hezbollah

Na última vez que escrevi sobre Gaza, o Irã era governado por Mahmoud Ahmadinejad, um raivoso antissemita que defendia a destruição de Israel e negava o Holocausto toda vez que o colocavam de frente a um microfone. Israel estava pressionando a comunidade internacional para desmantelar o programa nuclear iraniano, ao mesmo tempo que ameaçava destruí-lo por meios militares no caso destes diálogos multilaterais fracassassem em alcançar este objetivo.

O Hamas, uma organização islâmica sunita, acabava de se aliar ao eixo xiita formado por Irã, Síria e Hezbollah. Com fundos e armas chegando em quantidades significantes do Irã, e o suporte logístico do Hezbollah no Líbano, o Hamas estava em júbilo e podia se dar ao luxo de disparar centenas de foguetes de curto alcance e mísseis de mais alcance contra Israel. Isto, por sua vez, servia aos propósitos do Irã de gerar um evento chamativo para o exército de Israel, que se por um lado é muito poderoso, não é tão grande para enfrentar vários conflitos de maneira simultânea. Israel, não duvidemos, é um país com menos de 8 milhões de habitantes, que possui de 20 mil a 30 mil quilômetros quadrados de extensão (a metade da Costa Rica), dependendo de quais territórios estamos dispostos a considerar legitimamente israelenses.

Os diálogos entre os poderosos do Ocidente e o Irã jamais chegaram a nada, mas Israel tampouco atacou. Entretanto, o Irã teve eleições presidenciais em agosto de 2013, elegendo um clérigo relativamente moderado – ao menos no discurso – chamado Hassan Rouhani, que não só buscou uma aproximação com o Ocidente, como moderou o discurso anti-Israel, evitando clamar por sua destruição, como fazia rotineiramente seu antecessor. Hoje em dia, os serviços de inteligência de Israel consideram que o Irã não é a principal ameaça a sua existência.

1.2. Egito, a Irmandade Muçulmana e o Hamas

Na última vez que escrevi sobre Gaza, o Egito acabava de eleger um novo presidente, produto da malograda Primavera Árabe. Mohamed Morsi era o líder da Sociedade de Irmãos Muçulmanos, também conhecida como a Irmandade Muçulmana. Esta organização quase centenária esteve proibida no Egito durante décadas no regime militar, por sua associação com movimentos armados e terroristas. Contudo, dado que nasceu como um movimento majoritariamente popular, com um forte componente de ajuda social, pode resistir na clandestinidade. Dois dados se mostram importantes para nossa análise: a Irmandade, como a imensa maioria da população egípcia, pertence a vertente sunita do Islã, e dela nasceu, como uma espécie de galho, o movimento Hamas em Gaza, território que esteve sob o domínio egípcio até que Israel o conquistou em 1967.

Apesar da afinidade ideológica e organizacional entre a Irmandade e o Hamas (sigla em árabe de “Movimento de Resistência Islâmica”), não podemos perder de vista que, se por um lado Morsi ascendeu a presidência em eleições relativamente democráticas, nunca teve o verdadeiro poder no Egito, já que o Exército não o permitia. A situação financeira e econômica do Egito era caótica no momento que assumiu, e Morsi não podia dar mais que apoio moral ao Hamas. Isto, em parte, explica a incorporação do Hamas ao eixo xiita do Irã. Entretanto, poucos meses depois, quando a luta sectária na Síria recrudesceu, o Hamas tomou partido pelos seus irmãos sunitas sírios, o que provocou sua ruptura com o eixo xiita.

Morsi, para seu próprio pesar e do Hamas, durou apenas um ano e três dias no poder, até ser deposto pelas forças militares do Egito. E então o Hamas ficou sem o santo e sem a esmola.

2. Os Fatores Internos Palestinos

2.1. O Governo de Unidade Nacional Palestina

Esta situação no front externo provocou um debilitamento paulatino do Hamas. Não só se viu sem o dinheiro do Irã, como sem o apoio logístico do Hezbollah e o apoio moral da Irmandade Muçulmana. Aliás, as novas autoridades egípcias tomaram a decisão de fechar a sua passagem para Gaza, e de alguma maneira impedir o contrabando de armas no deserto do Sinai, como parte de uma série de medidas destinadas a erradicar as guerrilhas salafistas que haviam levado a cabo ataques terroristas contra a infraestrutura da região, assaltos a bases militares e policiais egípcias, e provocado conflitos fronteiriços com Israel.

É este novo panorama que “obriga” o Hamas a buscar a reconciliação com o movimento Fatah, que governa a Cisjordânia, e a aceitar a criação de um governo de unidade nacional que vise convocar eleições num futuro próximo.

2.2. A queda de popularidade do Hamas

Nunca é aconselhável na política se sentar para negociar de uma posição de relativa debilidade. Mas sem financiamento, sem apoio logístico nem moral, foi exatamente isso o que fez o Hamas. Israel pode não gostar da formação do governo de unidade nacional palestina, mas o Hamas gosta ainda menos. Especialmente que, ainda que seja só da boca pra fora, Mahmoud Abbas, o líder do Fatah na Cisjordânia e presidente da Autoridade Palestina, tem reiterado a disposição do governo palestino de respeitar os acordos negociados até agora com Israel, e de continuar com a cooperação entre os órgãos de segurança de ambas as partes.

Nas últimas semanas, várias pesquisas de opinião realizadas nos territórios palestinos revelam a queda abrupta de popularidade do Hamas. Se as eleições fossem hoje, as pesquisas indicam margens de 2 para 1 e até 3 para 1 a favor dos possíveis candidatos do Fatah, em detrimento dos do Hamas. Até cerca de quatro meses os resultados estavam muito mais equilibrados. Diante deste panorama, o Hamas necessitava, então, fazer um movimento que chamasse a atenção e o colocasse novamente no “top of mind” palestino.

3. Os Fatores Internos Israelenses

3.1. Liberman, sua situação jurídica, a fusão Likud-Beitenu

Quando Israel teve sua mais recente eleição em janeiro de 2013, o Ministro das Relações Exteriores, Avigdor Liberman, fundador e líder do partido da direita Yisrael Beiteinu, se encontrava sob acusação de corrupção. Em um movimento calculado para evitar o colapso eleitoral de seu partido, Liberman propôs ao Likud de Benjamin Netanyahu fundir suas respectivas agremiações, e participarem do pleito como um só partido. Como a fusão não se completou até as eleições, os partidos participaram como uma aliança Likud-Beiteinu, apresentando uma cédula única liderada por Netanyahu, que obteve 31 assentos (de um total de 120), se convertendo na maior bancada legislativa. Para governar, Likud-Beiteinu formou uma coalizão com partidos da direita religiosa (Habait Haiehudí de Naftali Bennett) e centro (Yesh Atid de Yair Lapid e Hatnuá de Tzipi Livni).

3.2. A fissura na coalizão governista de Israel

Em novembro de 2013, o ministro Liberman foi absolvido de todas as acusações. Com o caminho livre para regressar ao centro do palco político, o equilíbrio da coalizão governista começara a girar para a direita, em detrimento dos partidos mais moderados que a formava. Um acordo entre o Yisrael Beiteinu de Liberman e o Hanait Haiehudí de Bennett, culminou nos últimos dias no fim da aliança Likud-Beiteinu, mas sem a saída (por enquanto) de Liberman e seu partido da coalizão do governo.

Esta mudança do eixo político do governo israelense é importante, porque ao se apresentar as causas da atual crise militar, essa direita mais recalcitrante, novamente fortalecida, pressionou para endurecer as posições contra o Hamas.

4. As Causas do Conflito Armado Atual

4.1. O sequestro e assassinato de três jovens israelenses

Em 12 de junho deste ano, três jovens israelenses – dois deles menores de idade – foram sequestrados por uma célula terrorista do Hamas. Não está de todo claro se se tratou de um ato planejado ou de um sequestro oportunista. Tampouco está claro se os sequestradores seguiam instruções do alto comando do Hamas ou se atuaram por sua própria conta. Este sequestro, curiosamente, praticamente não foi noticiado pela imprensa internacional. Dezoito dias depois do sequestro, apareceram os corpos mutilados dos três garotos em um clareira perto de Hebron, na Cisjordânia, desencadeando a ira popular israelense.

4.2. O lançamento de foguetes de Gaza

Simultaneamente com o sequestro dos três garotos israelenses, grupos extremistas em Gaza – a princípio independentes do Hamas – reiniciaram o lançamento indiscriminado de foguetes de curto alcance contra as regiões fronteiriças de Israel, violando o cessar-fogo negociado para pôr fim a escalada de violência de novembro de 2012.

Se inicialmente a reação do primeiro-ministro Netanyahu foi cautelosa, tentando evitar um confronto de maior magnitude, os partidos mais a direita da coalizão governista começaram a pressionar por uma resposta forte.

4.3. O sequestro e assassinato de um jovem árabe

Dois dias depois de encontrados os cadáveres dos três jovens israelenses, um jovem árabe, também menor de idade, foi sequestrado por três homens que, depois de uma rápida investigação policial, foram identificados como israelenses. O corpo carbonizado do jovem palestino apareceu algumas horas depois em um bosque perto de Jerusalém.

Este fato abominável desencadeou uma série de distúrbios por todo o território de Israel, como forma de protesto dos palestinos e dos árabes israelenses.

5. A escalada que quase ninguém queria, mas tampouco pode impedir

Foi neste momento que o Hamas, se dando conta de que se não participasse da “festa” terminaria perdendo mais popularidade, se uniu a campanha de lançamento de foguetes iniciada semanas antes pela Jihad Islâmica e possivelmente outras organizações menores presentes em Gaza. Em poucos dias já não se tratava só de foguetes caseiros de curto alcance, mas se iniciaram o disparo de mísseis que tem chegado a cidades situadas a mais de 165 quilômetros da fronteira entre Israel e Gaza. Isto, como era de se esperar, fez com que crescesse a pressão que já estava sentindo Netanyahu para reagir.

Para o Hamas, por sua relativa debilidade atual, não lhe convém se engalfinhar em uma guerra com Israel neste momento. Sua situação financeira é precária e, por não contar desta vez com o patrocínio externo que desfrutou no passado, lhe custará muito mais se recompor deste conflito comparando-o com os anteriores. Seu arsenal é diminuído duplamente: porque são gastos uma boa parte de seus mísseis ao dispará-los contra Israel e porque o exército israelense está se encarregando de bombardear aqueles que ainda estão armazenados.

Para Israel, em plena temporada de turismo de verão, tampouco lhe convém uma escalada neste momento. E se, igualmente como em 2012, o resultado final da confronto não garantir aos cidadãos israelenses a calma e silêncio em suas fronteiras, ao menos por um longo período, a ruptura política recairia sobre Netanyahu. Liberman e Bennett estarão ansiosos para abandonar a coalizão e forçarem eleições antecipadas se isto ocorrer.

Concluindo, estamos diante de uma guerra que (quase) ninguém queria, mas que nenhum dos seus protagonistas pode terminar sem a ajuda, intervenção e pressão da comunidade internacional. Se o Hamas se rende, poderia significar o fim do seu projeto político; Abbas poderia convocar as eleições e assegurar um triunfo contundente sobre o Hamas. E se Netanyahu ordenar motu proprio o final da operação militar, isso poderia significar o fim do seu governo (e de suas probabilidades de se reeleger).

A comunidade internacional, por sua vez – e com isto me refiro aos governos e organismos internacionais, e não a opinião pública – parece reconhecer desta vez que Israel exerce seu direito de legítima defesa diante dos ataques indiscriminados de foguetes e mísseis, e não tem demonstrado muita urgência para intervir. Conforme cresça a cifra de vítimas do lado palestino, e sobre tudo se o exército de Israel chegar a cometer algum erro de planejamento (como seria bombardear um prédio cujo interesse militar não pode claramente demonstrar, que cause significativas baixas civis), crescerá a pressão internacional para acordar um novo cessar-fogo. É muito difícil, pela subjetividade envolvida, definir qual é esse número mágico de vítimas que levará a comunidade internacional a pressionar de maneira mais enfática. Neste sentido, parece que já no último fim de semana (12 e 13 de julho) começaram alguns esforços com este fim. Por consideração as vítimas inocentes de ambos os lados, esperemos esperançosamente e de imediato que encontrem a fórmula para alcançar a trégua.

 

// Tradução de Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Dean Córnito

Dean Córnito é o pseudônimo de um cidadão costa-riquenho a quem não interessa a fama nem a notoriedade. Define-se como liberal, progressista, livre pensador e democrata. Mantêm o blog La Suiza Centroamericana (http://lasuizacentroamericana.ticoblogger.com/) onde aborda questões econômicas, políticas e relações internacionais.



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