Economia futebol versus educao

Publicado em 21 de agosto de 2013 | por Sandy Ikeda

Futebol versus Educação?

Durante o último Super Bowl, uma amiga do Facebook postou algo em seu status que demandava uma análise. Dizia: “Se pegarmos todo o dinheiro das propagandas do Super Bowl e gastá-lo na educação de nossas crianças, não seríamos a América”. Embora a sentença seja um tanto quanto oblíqua, eu acho que é seguro dizer que ela estava implicando que os valores dos EUA são tão perversos que “nós” valorizamos mais um jogo de futebol americano do que a “educação de nossas crianças”. O consumismo supera a alfabetização, ou algo deste tipo. Evidentemente é um sentimento popular, já que a última vez que eu vi tinha 1.748 “curti” e 551 “compartilhamentos”.

É possível ler essa declaração sendo politicamente neutro. Conheço libertários radicais que condenam o materialismo que domina tantas vidas em países prósperos como os EUA. Mas as referências a “nós”, “América” e “nossas crianças” refletem uma atitude que acredito que os libertários não estariam de acordo. Tais sentimentos, expressos desta forma, tendem mais a vir de estatistas. É parecido com as coisas que as pessoas costumavam dizer quando eu era criança, como, “se podemos colocar um homem na lua podemos acabar com a pobreza!”. Isso se resume a uma disputa ideológica sobre como melhor gastar “nosso” dinheiro, com o “nós” não definindo quem recolheria o dinheiro e de quem seria recolhido.

Parece que, além de interpretar o conteúdo ideológico, também é possível e provavelmente mais construtivo examinar a atualização do status de duas outras formas.

Quando li a atualização, primeiro eu quis saber se a suposição básica é verdadeira: que os propagandistas de corporações gastam tanto na propaganda do Super Bowl que, redistribuindo o dinheiro para a educação, faria uma diferença material na realização acadêmica de nossas crianças. Agora, da mesma forma que gastar no complexo militar-industrial não é o mesmo que gastar com “defesa”, porque há muitos podres envolvidos, gastar no complexo educacional-industrial não é o mesmo que gastar efetivamente na educação das crianças. Mas vamos desconsiderar esse tipo de coisa. Eu fiz uma rápida pesquisa no Google e cheguei aos seguintes “fatos” (eu usei umas aspas assustadoras porque eu não apostaria minha reputação nos resultados, mas eu realmente acho que eles dão uma noção das quantidades envolvidas).

De acordo com um website chamado Marketing Vox, entre 1988 a 2007, “as propagandas do Super Bowl se transformaram em US$ 1,84 bilhões em vendas de mercado para 200 diferentes anunciantes”. (Esse quadro, se confiável, é de 5 anos atrás, então podemos assumir com segurança que agora o total é de cerca de US$ 2 bilhões). Em seguida, eu rapidamente achei um website do National Center for Education Statistics, uma entidade federal localizada no Departamento de Educação dos EUA, que diz que o gasto com educação nas escolas fundamentais do governo chegam a “aproximadamente” US$ 596,6 bilhões nos anos de 2007-08”, que, com sorte, foi o último ano dos dados do Super Bowl mencionados acima. Então parece que o gasto governamental com educação em um ano foi 324 vezes a quantidade que as companhias gastaram no Super Bowl por 20 anos.

Mas e sobre os sentimentos morais envolvidos? Embora eu não me importe realmente em argumentar sobre se a propaganda do Super Bowl é moralmente superior à educação das crianças (deixando de lado o financiamento por impostos envolvido), existem três maneiras pelas quais a Economia pode esclarecer esse assunto.

Primeiro, em um mundo de conhecimento perfeito, claramente não precisaríamos de propaganda, por que já saberíamos quais são as melhores marcas, onde consegui-las, e a qual preço. O grande economista Israel Kirzner nos diz que a propaganda não só transmite informação sobre produtos que já conhecemos, mas – mais fundamentalmente em um mundo de conhecimento imperfeito – a propaganda atrai nossa atenção para a existência de vários produtos, ou características daqueles produtos, que poderíamos não estar cientes – o que ajuda a explicar por que os comerciais tentam chamar tanto a atenção, especialmente durante o Super Bowl. Então a propaganda produz (gera) benefícios.

Segundo, a maioria dos anunciantes provavelmente não estaria disposta a mudar seus gastos com anúncios no Super Bowl, que eles vêem tipicamente como um investimento caro de longo prazo, para financiar educação, porque sua vantagem comparativa provavelmente não está na educação, mas sim na venda da cerveja, comércio eletrônico, pizza e carros. Ao mesmo tempo, os telespectadores estão dispostos a tolerar esses comerciais, independentemente de seu valor de entretenimento (como ele é), porque os anúncios tornam possível a eles desfrutar de um jogo do campeonato de futebol americano de graça. Minha amiga pode achar que isso não é importante, e tudo bem se ao invés disso ela desligar a televisão e ler uma história para seus filhos. Torna-se um problema, entretanto, se ela força suas preferências pessoais sobre os outros por meios políticos.

Finalmente, e mais importante, o tipo de pensamento que está por trás de todos esses chamados dilemas – futebol americano versus educação, ou pousos na lua versus pobreza – comete uma falácia que a Economia refutou mais de 140 anos atrás. Um desafio que os economistas tinham que resolver antes de fornecer uma teoria satisfatória de valor era o “paradoxo da água e do diamante”: por que a água, que é mais útil em manter a vida humana, tem um preço tão baixo no mercado enquanto os diamantes, que são bem menos úteis nesse sentido, têm um preço tão alto? A resposta se baseia em reconhecer que essa é uma dicotomia falsa. Ninguém, ao menos em uma sociedade livre, está em uma posição de decidir entre toda a água do mundo e todos os diamantes do mundo. Não é, em geral, água versus diamante. Ao invés disso, cada pessoa escolhe quanta água seria capaz e estaria disposta a negociar por um diamante específico em um local em específico em um tempo particular. Como isso se aplica ao futebol americano versus educação?

Da perspectiva de um anunciante, a escolha não é entre dedicar seu orçamento inteiro à propaganda ou outra coisa. É se ele gasta mais ou menos em propaganda ao invés de talvez gastar em instalação e equipamento, ou possivelmente mesmo em educação de certa forma. Da perspectiva do telespectador de TV, a escolha não é entre gastar todo seu tempo assistindo futebol americano ou todo seu tempo ensinando nossas crianças. Ao invés de dar a preferência e orçamento dela, é como melhor ela pode gastar quatro horas de uma tarde específica de domingo.

Em uma sociedade livre, podemos dispor nosso tempo e riqueza como desejarmos desde que não violemos os direitos de propriedade de outros. Coletivistas, entretanto, podem querer usar seus meios políticos para impor suas preferências em como toda a riqueza deve ser gasta, neste caso a decisão pode muito bem acabar sendo muito mais educação e muito menos futebol americano. Não estou dizendo que minha amiga deva buscar abertamente coerção para impor seus valores. Na verdade, eu tenho quase certeza que ela não buscaria. Mas o que está por trás de seus sentimentos e de sua fala é uma mentalidade coletivista que levada à sua conclusão lógica geraria um governo maior e menos liberdade individual.

Tradução de Robson Silva. Revisão de Matheus Pacini// Artigo Original


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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