Economia imperfeição

Publicado em 10 de setembro de 2014 | por Sandy Ikeda

Os Frutos da Imperfeição

Por trás do nacionalismo e do quadro de medalhas que pareciam dominar os Jogos Olímpicos de Inverno que terminaram há pouco está uma lição mais profunda: a importância da imperfeição.

Por que os atletas competem em um nível tão alto, sacrificando tanto – às vezes, como vimos, as suas próprias vidas? Por muitas razões, é claro. No entanto, normalmente diz-se que estão “buscando a perfeição”. Isso não pode ser literalmente verdade.

Em alguns casos, é difícil até mesmo imaginar o que isso significa. Qual é o tempo de descida perfeito ou jogo de hóquei perfeito? Aqui, você está somente tentando melhorar seu tempo anterior ou derrotar o seu concorrente. Mais importante, mesmo naquelas situações onde se pode visionar a perfeição, essa visão mudará conforme aprendamos mais sobre o mundo e o que é possível fazer nele. Tal visão nunca poderia ser “perfeita” porque a perfeição exclui a possibilidade de melhora, e a mudança somente a diminuiria. Nesse sentido, a perfeição é essencialmente estática.

Atletas e o restante das pessoas estão somente tentando fazer o melhor que podem dentro das circunstâncias. Em um mundo de incerteza e mudança, é o máximo que podemos esperar – o melhor, não o perfeito. Ao mesmo tempo, é a própria incerteza e imperfeição do mundo que torna a melhora (ou a piora) possível.  Nesse sentido, a imperfeição é essencialmente dinâmica.

Com essa ideia em mente um indivíduo pode seguir em várias direções. Aqui, eu queria relacioná-lo com à filosofia política. (Eu não sou um filósofo político, portanto peço que me perdoem pela ousadia).

Tolerância e crítica

A crença de que a perfeição é alcançável nesse mundo pode ser extremamente perigosa. Isso porque a busca da perfeição parece caminhar de mãos dadas com a intolerância extrema. Às vezes – como quando um atleta, cientista ou artista dedica-se ao “aperfeiçoamento” de suas habilidades – os resultados de não tolerarem nada menos do que o esforço total pode ser bonito, apesar de toda a frustação e tormento intrínsecos ao processo. Contudo, quando a intolerância leva ao sofrimento de outrem, na busca por uma visão particular de perfeição, o resultado é feio e destrutivo.

Como todos nós somos imperfeitos, todos nós cometemos erros – o tempo todo. Nós podemos nos culpar (e culpar os outros) por eles, todavia, se queremos o progresso – se quisermos aproveitar as chances existentes para melhorar nossas circunstâncias – então, temos de saber conviver com o inesperado e o erro. A tolerância, e sua prima a confiança (e, possivelmente, o perdão, mas não vou tratar disso agora), são indispensáveis para o progresso socioeconômico.

Isso significa uma tolerância total? Não. O progresso – na minha concepção, a correção de nossos erros e a melhora de nossa situação – também demanda críticas. A tolerância sem crítica é algo como a indiferença, e essa não é uma atitude construtiva. Ajustar-se ou antecipar mudanças, tanto no âmbito social, como no individual, envolve utilizar a nossa razão para analisar o que fizemos e questionar o caminho de ação que estamos tomando.

Nós analisamos nossos erros de forma muito crítica de maneira a não repeti-los. Na verdade, primeiro temos que admitir que efetivamente erramos, o que pode ser a parte mais difícil. E por ser tão difícil fazer essas duas coisas, é importante que estejamos sujeitos à critica de outrem, assim como o criticamos. Critique e seja criticado! A competição e a ameaça de competição esportiva, científica, comercial e artística é uma expressão desse tipo de crítica, todas ocasionadas pela imperfeição.

Ao mesmo tempo, para evitar conflitos violentos, a competição requer tolerância. A tolerância e a crítica estão no cerne de uma sociedade livre. Elas são radicais: elas “vão a fundo” na questão – tolerância radical, crítica radical. Mas, novamente, você necessita das duas. Tolerância sem crítica é insípida; crítica sem tolerância é, bem, intolerável.

Conan e os Stones

Essas virtudes gêmeas de uma sociedade livre são os frutos das imperfeições inevitáveis nos seres humanos e suas relações com outros seres humanos. É claro, não estou argumentando que deveríamos nos esforçar para alcançar a imperfeição. Por um lado, isso seria uma perda de tempo porque já somos consideravelmente imperfeitos. Por outro lado, eu não acredito que seja realmente possível tentar ser imperfeito mais do que tentar cometer um erro propositalmente (porque se fizermos isso de propósito, não será um erro).

Contudo, eu acredito que apreciar as profundas imperfeições da vida é algo que ajudou Conan O´Brien a lidar com seu desapontamento por ter sido retirado do Tonight Show depois de apenas 7 meses no seu trabalho. Na sua última noite como apresentador, ele disse, sem mágoa ou cinismo, “na vida, ninguém consegue exatamente o que pensava que conseguiria”. Essa frase faz-me lembrar de uma música dos Rolling Stones “You Can’t Always Get What You Want.”

Conan e os Rolling Stones entenderam que a vida é imperfeita. Talvez, isso os torne mais sábios.


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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