História fordlândia

Publicado em 9 de junho de 2014 | por Tom W. Bell

Fordlândia: a distopia amazônica de Henry Ford

Libertários sonham com a construção de cidades privadas em países em desenvolvimento. Nunca se tornarão realidade, todavia, se ignorarem os pesadelos do mundo real. Considere o maior e pior fracasso de um governo privado: a Fordlândia.

Em 1927, o empresário norte-americano Henry Ford começou a construir uma cidade privada – Fordlândia – nas profundezas da Amazônia brasileira. Sua empresa, Companhia Ford Industrial do Brasil, tinha adquirido uma área de aproximadamente 3800 m² com o intuito de plantar seringueiras (produzindo látex para a produção de pneus) e de construir uma cidade industrial. Ford gastou cerca de U$ 20 milhões (U$ 300 milhões em valores atuais corrigidos) para a construção de estradas, sistemas de água e energia, rede ferroviária, fábricas, escritórios, postos médicos, casas, escolas e lojas.

Atraídos pela perspectiva de bons empregos e um estilo de vida moderno, milhares de trabalhadores e suas famílias migraram à Fordlândia. Contudo, logo ondas de tumultos, pilhagens e incêndios tomaram conta da cidade. Ford abandonou seu projeto em 1945, deixando-o perecer na selva.

Arrogância

Por que a Fordlândia foi um fracasso?

Talvez porque nasceu da arrogância. Seu gênio fundador era o homem mais rico dos anos 20 nos Estados Unidos. Ele enriqueceu por meio da fundação e administração da Ford Motor Company, uma das maiores e mais lucrativas empresas do mundo. Mas Henry Ford se preocupava com mais do que carros e dinheiro. Ele queria criar um novo tipo de trabalhador.

As linhas de produção em massa de Ford necessitavam de trabalhadores regimentados e confiáveis. Ford conseguiu isso pagando o dobro do salário de mercado e sujeitando seus trabalhadores à supervisão do departamento de sociologia da própria empresa, a qual controlava a higiene pessoal, a administração do lar e o tipo de recreação fora do horário de trabalho.

Ford exerceu controle ainda maior sobre os trabalhadores que viviam nas cidades criadas pela Ford, construídas na região do Midwest dos Estados Unidos para extração de madeira das grandes e remotas florestas de sua propriedade. Henry Ford tinha interesse particular nessas cidades, ditando o que os trabalhadores deveriam plantar na fachada de suas casas e quais passos de dança que os filhos deles deveriam aprender na escola.

Contudo, Ford queria muito mais. Ele estabeleceu planos para a construção de uma cidade de 120 km de comprimento ao longo de um trecho muito pobre às margens do rio Tennessee, mas legisladores federais não aprovaram a ideia. Talvez Ford teria melhores resultados se não tivesse anunciado sua intenção de criar um “dólar energético” lastreado pela energia de suas hidrelétricas. Em vez disso, a Autoridade do Vale do Tennessee assumiu o controle dos rios da região. Frustrado em seu país, Ford procurou opções no exterior.

A Fordlândia nasceu da necessidade de grandes quantidades de borracha por parte da Ford Motor Company, não somente para os pneus do Modelo T, mas também para gaxetas, mangotes, fios e outras partes. A empresa passou a se preocupar com a borracha durante os anos 20, quando percebeu que era totalmente dependente das plantações localizadas nas colônias do sudeste asiático (alternativas comerciais à borracha natural ainda não tinham sido inventadas). O aumento dos preços e a incerteza política convenceram Ford a encontrar – ou melhor, criar – outra fonte de borracha. Assim como a Ford Motor Company obtinha madeira de suas próprias florestas, ela obteria borracha de suas próprias plantações. E assim como construiu cidades para os madeireiros e suas famílias, Ford construiria uma cidade para apoiar a sua plantação de borracha.

Problemas de Planejamento

No final das contas, a Fordlândia foi um fracasso porque suas seringueiras foram um fracasso. Embora nativa à região, as árvores da Hevea brasiliensis não crescem juntas no ambiente silvestre. Usar o método de plantation as tornaram presas fáceis das doenças e pestes locais. Tal regime pode funcionar no Sudeste Asiático, onde as seringueiras não possuem inimigos naturais, mas estavam fadadas ao fracasso na Fordlândia.

Temos, ali, uma das grandes razões do fracasso da Fordlândia: problemas de planejamento. Surpreendentemente, para uma empresa tão grande e de sucesso, a Ford Motor Company não fez um bom trabalho de planejamento. O aviador Charles Lindberg, que trabalhou na divisão de aviação da companhia, explicou, “a política da Ford é agir primeiro e planejar depois, normalmente negligenciando por completo detalhes essenciais”.

Ford não confiava em especialistas. No projeto Fordlândia, colocou homens capazes e esperou que resolvessem todos os pormenores através do senso comum e do trabalho árduo. “Aprender fazendo”, era a filosofia da administração da Ford, assim como o cerne da pedagogia que Ford imprimiu às escolas que administrava.

A Fordlândia então foi inaugurada sem que ninguém se preocupasse em entender o motivo do sucesso das seringueiras na Ásia – ou qual poderia ser a razão do fracasso das seringueiras no Brasil. E enquanto a Ford Motor Company conhecia algo sobre construir e administrar cidades privadas, ela nunca pensou em consultar a United Fruit Company, a qual administrava cidades privadas nas regiões vizinhas. Ford teria que aprender a lidar com uma cultura e um governo estrangeiro por conta própria.

Consistente com seu desprezo aos especialistas, Ford não pediu a advogados qualificados para negociar os detalhes de seu acordo com as autoridades brasileiros. No papel, os negociantes da Ford obtiveram vários tipos de concessões: milhões de hectares de terras públicas; o direito de exploração de recursos naturais, da construção de prédios, estradas de ferro, campos de aviação, direito de organização de uma força policial privada e administração das escolas; e isenções de tributos relacionados à exportação e à importação. No entanto, Ford não tinha como assegurar essas promessas quando administrações públicas seguintes as acharam inconvenientes.

Dificuldades logísticas atormentaram a Fordlândia desde o início. Não era simplesmente um problema de isolamento – embora a selva amazônica era realmente distante de Detroit, sede da empresa. Ninguém percebeu, até que já era tarde demais, que a única forma efetiva de se alcançar a Fordlândia – o rio Tapajós, que atravessava a propriedade – na época de secas, não tinha calado suficiente para a passagem de navios de grande porte. Um cargueiro que foi enviado de Detroit cheio de suprimentos necessários para que a Fordlândia começasse a funcionar teve de esperar 4 meses até que o rio subisse. Quando o cargueiro finalmente chegou ao canteiro de obras, os trabalhadores descobriram que as gruas necessárias para descarregar as cargas pesadas tinham sido embarcadas primeiro, isto é, estavam embaixo de todo o resto.

Esses e outros erros logísticos não permitiram aos diretores da Ford oferecer aos trabalhadores alimentos adequados, moradia decente ou gasolina para os equipamentos motorizados. Abrir a mata à mão provou ser uma tarefa extenuante e frequentemente mortal. Os trabalhadores se tornaram vítimas de mosquitos, cobras venenosas, escorpiões, exaustão e doenças tropicais. Depois de refeições demais de carne podre eles se rebelaram, armando-se com facões e forçando a fuga dos norte-americanos.

Embora os oficiais da Ford tenham restaurado a paz naquele momento, maus-tratos posteriores aos trabalhadores – incluindo programas rígidos de limpeza das áreas residenciais e tentativas fúteis de proibir o consumo de álcool – desencadeou surtos de violência ainda piores. No último deles, trabalhadores revoltados atearam fogo à Fordlândia, enquanto bradavam, “Brasil para Brasileiros! Matem todos americanos!”. Os gerentes da Ford tiveram de recorrer ao exército brasileiro para restaurar a ordem.

A Fordlândia continuou por mais alguns anos mas nunca produziu lucros. A Grande Depressão prejudicou diretamente todos os tipos de negócios, ainda mais aqueles que sofriam com árvores morrendo e trabalhadores se revoltando. Ford finalmente pôs um fim ao experimento em 1945, entregando a Fordlândia ao governo brasileiro por míseros U$ 244 mil dólares – quantia suficiente para demitir os trabalhadores de acordo com a CLT.

Pessoas frustradas com as deficiências do estatismo frequentemente defendem a ideia de um governo privado. Ayn Rand imaginou o “Vale de Galt”, Robert Nozick imaginou a “utopia das utopias”, e Randy E. Barnett descreve como empresas concorrentes poderiam criar uma ordem legal policêntrica.

E não é só papo. Como discuti em outra coluna, os reformistas em Honduras têm trabalhado em planos de construção de zonas especiais de desenvolvimento que desfrutariam de considerável autonomia em relação ao governo central.

De pouco servirá sonhar com governos privados, todavia, a menos que estejamos cientes dos problemas potenciais. A história da Fordlândia oferece lições valiosas sobre como não construir e sobre como não administrar uma cidade. Resta a nós aprender com os erros de Ford e fazer melhor.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão Ivanildo Terceiro | Artigo Original


Sobre o autor

Tom W. Bell

Tom W. Bell, co-editor da Regulators' Revenge, é professor direito na Chapman University, sendo um especialista em tecnologia, propriedade intelectual e lei de telecomunicações.



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