Filosofia bitcoin

Publicado em 27 de maio de 2014 | por Max Borders

Ficando alerta contra o Leviatã

O sucesso exibido pelas economias de mercado capitalistas é o resultado de uma tendência poderosa na qual cursos de ação menos imaginativos e eficientes são substituídos por formas recém-descobertas e superiores de servir aos consumidores – produzindo bens de melhor qualidade e/ou  se aproveitando de fonte de recursos disponíveis, todavia até agora desconhecidas.

- Israel Kirzner

Israel Kirzner é um dos mais negligenciados economistas austríacos. Aqueles que conhecem seu trabalho apreciam a profunda conexão que Kirzner estabeleceu entre os empreendedores e o processo de mercado como um todo.

Sim, o mercado é um sistema – complexo e adaptável – que nenhuma mente pode projetar. Mas a mente humana ainda está, por assim dizer, no centro do mercado. O empreendedor, afirma Kizner, está “alerta”. Isto é, o empreendedor possui a habilidade de identificar oportunidades de ganho não detectadas – seja por meio de arbitragem de preço ou por meio de uma ratoeira superior. E o “ganho” pode ser monetário ou não.

Esse “estado de alerta” empresarial gerou revoluções nos padrões de vida. Quando pensamos em empreendedores, normalmente pensamos em pessoas que enriquecem fazendo dispositivos melhores/mais rápidos/mais baratos ou alimentos melhores/mais baratos/mais saborosos. No entanto, deveríamos começar a pensar em cultivar o “estado de alerta” para detecção de oportunidades de mudança social. Isso significa canalizar nosso pensamento kirzneriano na busca e exploração de nós “frouxos” e pontos de apoio do Leviatã.

Nós frouxos, pontos de apoio

Em outras palavras – e escrevo isso não sem certa hesitação – nós, amantes da liberdade, deveríamos ser mais empreendedores. Eu sei, eu sei. É muito fácil escrever uma crítica como essa. É muito fácil postar memes no Facebook ou dizer a alguém em uma festa ‘leia Hayek’. Contudo, existem muitas pessoas em “estado de alerta” entre nós. A hora é propícia, portanto, para que comecemos a nos reorientar de forma mais consciente à tarefa de superar o estado.

Pense nisso dessa forma: o estado faz muitas coisas de forma ineficiente. Empresas fazem mais coisas de forma ineficiente onde o estado interfere mais. O preço aumenta e qualidade, diminui. Nesse fato, existe oportunidade.

Considere alguns exemplos recentes do “estado de alerta” kirzneriano que estão ajudando a desestabilizar o Leviatã no seu território.

  • Khan Academy e outros websites que fornecem educação online reduzem o custo da educação infantil fora do monopólio das escolas estatais.
  • Bitcoin permite às pessoas abandonarem o monopólio da moeda controlada pelos bancos centrais. Grandes empresas estão deixando cada vez mais fácil se comprar com bitcoin.
  • Médicos da Concierge e consultas eventuais e de baixo custo como o sistema MinuteClinic estão encontrando fendas na armadura do complexo industrial da saúde que se tornará cada vez maior e mais voraz graças ao Obamacare.
  • Marginal Revolution University (e outros cursos gratuitos online similares) estão desestabilizando o ensino superior tradicional de várias maneiras. Existe ainda a questão do “diploma”, o qual é protegido pela acreditação de Universidades. Mas o emblema online e sistemas de portfólio podem ajudar nesse sentido.
  • O  Blueseed pode breve e literalmente gerar ondas por meio do projeto “Googleplex of the Sea”, no litoral da Califórnia. Esse seasteading permitirá a investidores internacionais criar startups perto do Vale do Silício sem a necessidade de obter vistos H-1B.

Esses são alguns dos exemplos. O que eles têm em comum é que são movidos por inovadores em vez de ativistas políticos. Você também notará que todos são empreendimentos feitos para mudar o panorama social, apesar do fato de que essas são indústrias nas quais o estado tende a interferir mais. Criar novas empresas nessas áreas exige uma grande coragem.

Não tenha medo: critique criando

Em uma era de mudança social possibilitada pela tecnologia e cooperação, deveríamos ser mais corajosos – isto é, mais agressivos em nossos esforços para competir contra antigos colossos. É verdade que as considerações da Escolha Pública podem pintar a realidade de uma forma horrenda, até mesmo desesperançosa. Se você sabe que os arranjos do capitalismo corporativista são difíceis de superar, então, você pode ser menos alerta em algum setor. Parece como se os tentáculos do governo estendem-se a todas as esferas da vida – especialmente quando os interesses escusos e poderosos estão alimentando a besta. Mas a natureza acelerada e distribuída da mudança deveria suprimir nosso niilismo.

Os corporativistas podem ser lentos para entender o que está ocorrer. Empresas “amigas” e indústrias protegidas têm lobbies poderosos, é verdade. Mas a velocidade da mudança está tão rápida que é cada dia mais difícil impedir a entrada de novas empresas por meio de regulamentações. A resposta do público ao comportamento de rent-seeking pode ser como o de um enxame de abelhas, se a resposta ao SOPA e o PIPA serve de exemplo. E existe um exército de inovadores esperando “criticar criando”. Empreendedores sociais podem funcionar em organizações que buscam ou não o lucro porque a separação entre essas formas de organização estão crescentemente se tornando opacas. Velhas dicotomias estão sumindo. (Por isso que existem termos como “capitalismo consciente”.)

O grande guru da Administração, Clayton Christensen escreve:

Como as empresas tendem a inovar mais rápido do que a evolução das necessidades dos consumidores, a maioria delas eventualmente acaba lançando produtos ou serviços que são, na verdade, muito sofisticados, caros e complicados para muitos consumidores no seu mercado. 

Empresas perseguem essas “inovações de suporte” nas camadas mais ricas dos seus mercados porque isso é o que as tem historicamente ajudado a ter êxito. Através da cobrança de preços maiores para os seus clientes mais exigentes e sofisticados na camada mais alta do mercado, elas alcançam a maior lucratividade.   

Contudo, fazendo isso, as empresas involuntariamente abrem a porta para os “inovadores disruptivos” agirem na camada mais inferior do mercado. Uma inovação que é disruptiva permite a uma nova população de consumidores na parte inferior do mercado acesso a um produto ou serviço que era histórica e unicamente acessível aos consumidores com muito dinheiro e habilidades.

Lembrem-se disso, empreendedores. Indústrias altamente subsidiadas podem se tornar dinossauros. Mesmo se você acha que sua abordagem possui margens pequenas ou praticamente nenhuma margem, os inovadores disruptivos podem transformar completamente segmentos de mercado, levando indústrias inteiras ao chão. 

É claro, nós deveríamos continuar fazendo nosso melhor para educar as pessoas na forma econômica de pensar. No entanto, já é tempo de vermos o mundo por meio de lentes kirznerianas. Isso significa continuar na busca por nós “frouxos” e pontos de apoio nas indústrias dominadas pelo corporativismo e o governo. Isso significa estar em “estado de alerta”, arregaçar nossas mangas e criar valor – no covil da besta.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Sobre o autor

Max Borders

É editor da revista The Freeman e diretor de conteúdo da Foundantion for Economic Education (FEE). Também é autor do livro Superwealth: Why we should stop worrying about the gap between rich and poor.



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