Feminismo we can do it

Publicado em 8 de março de 2014 | por Zenon Evans

As feministas como praticantes do livre mercado

Se você colocar um monte de pessoas que se identificam como feministas em uma sala junto com um monte de pessoas que se identificam como defensoras do capitalismo de livre mercado, provavelmente elas teriam algumas conversas tensas. Isso no melhor dos casos. Elas simplesmente não discursam para o mesmo público. Isso é uma vergonha, porque as feministas, na verdade, são bem habilidosas em operar os mecanismos voluntários de um livre mercado.

Infelizmente, as vozes do movimento feminista, como a filosofa Nancy Fraser, supersticiosamente temem que as mulheres utilizem as forças do livre mercado. Fraser explica que ela quer um mundo “mais igualitário, justo e livre”, mas seria uma “cruel reviravolta do destino” para a “liberação das mulheres tornarem-se envolvidas em uma ligação perigosa com os esforços neoliberais de construir uma sociedade de livre mercado”. Ela está convencida que o aumento do empreendedorismo e do individualismo entre as mulheres não pode ser alinhado com outros valores feministas, como o avanço social. Embora seja vaga sobre qual seria a outra forma de avançar efetivamente uma agenda social, ela nos garante que o primeiro passo é de alguma forma destruir todas as conexões com o livre mercado.

Para ser justo, as feministas (e outras minorias) têm motivos para se aliarem com esquerdistas defensores de um governo inchado. Elas se sentiram protegidas através de várias leis, como o Violence Against Women Act e várias partes da legislação que versa sobre discriminação e direitos de reprodução. E é difícil culpá-las por não pular nos braços dos defensores libertários do capitalismo, que tem um problema muito bem documentado sobre como passar suas ideias para as mulheres.

Mas as feministas tem sim uma boa razão para reconhecerem que é imprudente colocar tanta fé na política. Afinal, seus oponentes são totalmente capazes de fazer leis de um modo que as feministas não gostariam.  O escopo de influência feminina na política ainda é bastante limitado, já que as mulheres são apenas 18% do Congresso Americano, o governo Obama ainda tem mais homens que mulheres, e os Republicanos podem ser muito hostis. Quando chega a hora da verdade, as feministas ignoram as instituições problemáticas e levam sua luta diretamente ao livre mercado.

Vamos analisar um exemplo recente. A Burt’s Bees, um subsidiária do conglomerado Clorox, vende um produto chamado Güd Vanilla Flame Body Butter [Loção Corporal Sabor Baunilha da Güd]. Até 14 de Novembro, o produto trazia no rótulo o slogan “Que os assobios comecem”.

Horas após a descoberta desse slogan, a organização sem fins lucrativos que luta pelos direitos das mulheres Hollaback! começou a protestar contra o rótulo. O grupo considera “assobio” uma forma de assédio nas ruas e “a forma mais comum de violência baseada em gênero em âmbito global”. O Hollaback! iniciou uma petição para que a Burt’s Bees retirasse a declaração sobre assobios. A petição rapidamente acumulou centenas de assinaturas e a história se espalhou organicamente através das mídias sociais.

A  Burt’s Bees respondeu que iria continuar a vender o produto e emitiu o que o grupo defensor considerou uma “não-desculpa”. Isso levou a uma reação ainda mais forte e um maior número de feministas foi ao Twitter para informar a companhia que elas iriam boicotar seus produtos. A petição alcançou 2.000 assinaturas rapidamente.

A companhia sentiu o golpe, percebeu que poderia perder bastante dinheiro, e como uma matéria do jornal New York Observer mostra, emitiu uma nova desculpa e prometeu mudar o rótulo do produto.

As feministas tiveram uma vitória clara e direta sem ter o braço da lei envolvido. Elas mostraram seu poder através do mercado e convenceram um ramo de uma corporação multinacional e multibilionária a parar de defender o que elas viram como uma violência contra as mulheres. Ao contrário de qualquer resposta vinda do governo, essa resposta custou virtualmente nada e foi conquistada em poucos dias.

Compare isso com outro grupo que também geralmente tem pouca representação política. A Navajo Nation entrou com um processo contra a Urban Outfitters sobre produtos que a entidade alegou que não eram apenas ofensivos (a companhia de roupas rotulou algumas cuecas padronizadas como “Navajo”), mas também violaram sua marca registrada. Vários anos depois e com vários dólares gastos, nenhum acordo foi alcançado. Levar seus problemas para o governo, apesar de algumas vezes necessário, geralmente é arriscado. Um resultado positivo nunca é garantido, e as corporações tendem a ter bastante dinheiro que podem fazê-las arcar com os processos por anos.

A vitória das feministas contra a Burt’s Bees não foi uma casualidade. Pelo contrário, foi uma função do mercado. E é uma tendência que é fortalecer ainda mais grupos mais excluídos. Como Cathy Young recentemente salientou na revista Reason, as mulheres controlam 60% da riqueza nos EUA. Isso dá a elas uma influência enorme para mudar a forma que as companhias se envolvem com as mulheres. Além disso, como o site feminista Jezebel salienta, o mercado tem até fornecido os meios para uma forma mais fácil de boicotar produtos, com os aplicativos de smartphones.

Mesmo se a petição de mudar o rótulo do produto da Burt’s Bees falhasse, um concorrente mais afinado com as demandas feministas poderia ter surgido. Isso, também, é uma função do mercado. Para cada vez que a Lego ignora a demanda para brinquedos orientados para meninas que estão se capacitando e que não venha apenas em tons de rosa, a companhia perde lucros potenciais para companhias de mercado mais amigáveis como a GoldieBlox. Cada edição da revista Cosmo que promove o que os leitores consideram como imagens de corpos irreais ajuda competidores como a revista Verily Magazine, que se recusa a imprimir fotos de mulheres photoshopadas.

Esse processo não precisa ser visto de forma negativa, também. Isso não é uma guerra de atrito em que cada loja deve ser sufocada por isso. Embora nenhuma entidade coerciva, obrigatória, burocrática ou faminta por tributos do governo esteja envolvida, corporações como a Cisco dedicam recursos a educar e promover as mulheres na esfera profissional tecnológica na Arábia Saudita.

As empresas têm um incentivo para responder a seus consumidores. Podemos ver isso cinicamente como nada mais que uma tática de relações públicas e de marketing eficiente. Ou podemos aceitar o fato que as corporações dependem de nós. Elas estão dispostas a mudar suas atitudes, seus produtos e mensagens, porque queremos que elas façam isso.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Johnny Jonathan e Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Zenon Evans

Zenon é editor na revista Reason



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