Economia consumo

Publicado em 29 de dezembro de 2014 | por Steven Horwitz

A falácia do consumo

Uma das falácias mais comuns sobre economia que se vê na mídia é a ideia que o consumo é a chave para o crescimento econômico e bem estar. Por isso, não quero dizer a ideia que, de alguma forma, os indivíduos ficam felizes quando compram coisas, mas sim que níveis suficientemente altos de consumo são necessários para que a economia como um todo seja saudável. Durante o progresso de uma recessão e sua consequente recuperação, ouvimos essa ideia várias vezes. Várias das medidas de política pública usadas para combater recessões são baseadas na ideia de que uma falta de consumo é a causa e portanto mais consumo é a cura. As pessoas, de uma forma geral, parecem acreditar que quanto mais gastamos, mais crescemos.

Na verdade, essa é uma ideia ultrapassada. A verdadeira chave para o crescimento econômico sustentável não é o consumo, mas a poupança, e a realidade é que quanto mais crescemos, mais podemos gastar.

As famílias têm essencialmente duas formas pelas quais podem dedicar sua renda depois dos impostos (ou sua renda “disponível”): elas podem gastá-la no consumo atual ou podem poupá-la para o consumo futuro. A visão falaciosa de que o consumo é o caminho para o crescimento parece assumir que a renda que é poupada simplesmente desaparece em um buraco negro, e portanto não tem efeito na economia. Essa visão implicitamente iguala “poupança” com “guardar dinheiro debaixo do colchão” ou colocá-lo em um cofre.

Porém, para todas as famílias com exceção de algumas, não é isso o que acontece com a poupança. A poupança, na verdade, acaba no sistema financeiro de uma forma ou outra. Isso pode acontecer de várias formas, a mais simples através de uma típica conta-poupança ou conta-corrente em um banco. Quando depositamos dinheiro em um banco, ele não fica parado lá, mas acaba emprestado para investidores. Esses investidores usam esses fundos para financiar vários projetos que desejam empreender. Em geral, os projetos que eles financiam são aqueles que acrescentam ao estoque de capital da economia, que por sua vez é a verdadeira chave para o crescimento econômico no longo prazo.

As economias crescem ao encontrar formas com custos menores de produzir os insumos que os consumidores desejam. Em particular, elas crescem ao reduzir a quantidade de trabalho necessário para produzir tais bens. À medida que a produção torna-se menos dependente do trabalho, a mão-de-obra é liberada para ser posto em novos usos para satisfazer necessidades previamente insatisfeitas. Considere que 100 anos atrás, quase metade da população da América do Norte estava envolvida na agricultura de alguma forma ou outra. Atualmente, temos menos de 2%, ainda assim produzimos mais comida do que nunca, e a comida é muito mais barata do que era naquele tempo. O trabalho que usávamos previamente para produzir alimento agora está disponível para tudo, desde produção industrial à serviços de varejo, a web designs e a empregos que ainda nem podemos imaginar. E muitos daqueles que permanecem no setor agrícola, atualmente muito mais dependente do capital, recebem maiores rendas do que aqueles que trabalharam décadas atrás, à medida que o seu trabalho é mais produtivo quando combinado com o novo capital. A história do crescimento econômico é a história da liberação do trabalho repetida de indústria em indústria.

Para repetir a história, as indústrias precisam ter acesso à poupanças. À medida que o processo de produção torna-se mais ligado ao capital, elas normalmente precisam de mais tempo para criar os bens de consumo finais. Pense sobre a diferença entre tentar pegar um peixe com suas próprias mãos contra construir uma rede ou vara de pesca. Leva tempo para construir o bem de capital (a vara ou a rede). Durante esse tempo, os consumidores precisam ser capazes de se sustentar enquanto esperam que os bens de capital sejam finalizados. A poupança fornece essa “ponte”. A poupança torna possível a criação de bens de capital, que por outro lado aumenta a produtividade do trabalho, que gera maiores salários, e que é o que aumenta o padrão de vida e várias medidas de bem estar. Primeiro a mecanização, e agora a informatização, todos aumentaram os rendimentos do trabalho humano, enriquecendo cada vez mais a população.

Perceba que com maiores salários, os indivíduos e famílias podem se dar ao luxo de consumir mais. Uma maior produção ligada ao capital também tende a diminuir o custo dos bens. Maiores salários e menores preços tornam possível um maior consumo, o que abre novos mercados e novas demandas a serem satisfeitas pelo trabalho deslocado pelo capital financiado pela poupança. Foi, por exemplo, a riqueza criada pela mecanização e industrialização que criou a demanda por mais emprego em indústrias de serviço, à medida que esses trabalhadores se tornaram capazes de satisfazerem desejos que não podiam atender anteriormente. Maiores salários e preços mais baixos tem criado a demanda por desenvolvedores de aplicativos, web designers, gerentes de banco de dados, e todos os outros empregos que não existiam uma geração atrás.

O ponto chave aqui é: a capacidade de consumir é uma consequência, não uma causa, do crescimento econômico. É, em última análise, a poupança que causa o crescimento econômico na forma de maior produção, que então permite que as famílias consumam mais.

Em uma economia com baixo crescimento, a resposta não deve ser colocar mais recursos no consumo. Ao fazer isso, pode-se criar a ilusão de crescimento no curto prazo, mas ao longo do tempo irá devorar nossa capacidade de criar capital à medida que os recursos para o consumo devem vir, no curto prazo, às custas da poupança. Reduzir nossa capacidade de criar capital significa menor crescimento de salários, menores quedas de preços, e menores aumentos de insumos que teríamos de outra forma. Estimular o consumo apenas reduz o desempenho econômico ao longo do tempo.

Ao invés disso, devemos procurar formas de desimpedir o empreendimento e garantir que as regras governando instituições financeiras não distorçam seus incentivos em formas que as evitam de fazer empréstimos criadores de capital. Também devemos reduzir a incerteza e os custos associados com regulações governamentais excessivas, em especial aquelas que aumentam o custo de empréstimos ou de contratar os desempregados. Sem as distorções induzidas pelo governo, as famílias irão fazer os tradeoffs entre o presente e o futuro que se adapta a suas próprias necessidades, e acabarão com uma taxa de crescimento econômico que reflete nossas preferências agregadas em relação ao presente e ao futuro. O consumo, como o nome sugere, apenas “consome” recursos; a poupança os produz.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



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