Trabalho salário alto do neymar

Publicado em 26 de junho de 2014 | por William L. Anderson

O que explica o alto salário de atletas?

Muitos anos atrás, enquanto ensinava em escolas públicas, verifique que quase todos os professores acreditavam que eram mal pagos e subvalorizados. Provavelmente, a ladainha continua a mesma. Meus colegas expressaram seus sentimentos pendurando o editorial de um jornal em um quadro de avisos na sala dos professores que condenava os altos salários dos atletas profissionais.

 “Os Americanos não valorizam a educação”, o editorial opinava, citando como prova o fato de que um “meia medíocre da NFL” recebia mais do que 3x o salário médio de um professor. A declaração teve o efeito desejado, a julgar pela resposta de meus colegas ao descontente autor do editorial.

A mensagem era clara: os Americanos têm prioridades erradas. Se realmente valorizassem a educação mais do que os esportes profissionais, os professores receberiam mais do que os atletas profissionais. As pessoas rechaçam os salários que os atletas recebem, salários que parecem estar fora da realidade do que o resto de nós recebe. Em um exemplo extremo, Michael Jordan recebeu 36 milhões para jogar sua última temporada no Chicago Bulls. Mesmo grande parte dos médicos não consegue tal soma durante toda a sua vida laboral. Que os atletas são muito mais bem pagos é uma evidência clara de que as pessoas desse país não tem apreciação pelo que é realmente importante. Portanto, o Estado deveria impor os valores corretos sobre todos nós.

Mesmo que, a cada dia mais, os Americanos participem de eventos esportivos profissionais, os atletas e seus esportes estão sob grande ataque. Além disso, o comportamento extracampo de muitos atletas – incluindo a perpetração de sérios crimes em casos muito divulgados – supostamente demonstra que não deveríamos pagar grandes quantias de dinheiro para pessoas que não são exemplos a serem seguidos por nossas crianças.

Algumas das informações do editorial são verdadeiras. Na verdade, a diferença entre os salários médios de professores e atletas profissionais nas últimas duas décadas cresceu consideravelmente. Ainda assim, por incrível que pareça ao cidadão comum, esse é um sinal positivo. Longe de ser uma indicação de que as pessoas estão em situação pior, o crescimento explosivo nos salários dos atletas profissionais, assim como um aumento global dos esportes profissionais, isso demonstra que os indivíduos – incluindo os professores – tornaram-se mais prósperos.

Tal afirmação vai contra do senso comum. Acima de tudo, estatísticas econômicas como o índice de preços ao consumidor supostamente nos informam que as rendas reais caíram nas ultimas três décadas. Não somente é difícil argumentar contra tais números, mas para aqueles de nós que acreditam no governo limitado, existe também uma triste satisfação obtida pela constatação de que o padrão de vida está caindo com o aumento da intervenção estatal na economia.

O poder da análise econômica

As ferramentas praxeológicas da análise econômica, todavia, são muito mais poderosas do que os números cridos pelo Ministério do Trabalho dos Estados Unidos, e enquanto gostaríamos de estar argumentando que a expansão do Estado nos anos recentes significou um declínio absoluto no padrão de vida, talvez exista outro ponto a ser feito. Deveríamos estar falando ao mundo que o capitalismo de livre mercado teve sucesso, apesar das intrusões onipresentes do governo.

Para entender como aumento nos salários dos atletas profissionais demonstra que todos nós tivemos melhora no padrão de vida, voltamo-nos para uma questão antiga: o paradoxo da água e do diamante. No livro A Riqueza das Nações, Adam Smith questionou porque um diamante poderia custar muito mais caro do que água no mercado, apesar do fato de que a água era muito mais necessária para a existência humana.

A solução para o paradoxo foi dada pelos “marginalistas” no final do século XIX, incluindo Carl Menger da Áustria, William Stanley Jevons da Inglaterra e Jules Dupuit da França. O valor, eles astutamente apontaram, é determinado pela utilidade da unidade marginal disponível de um bem em questão, ou utilidade marginal. Um indivíduo atribui valor a uma unidade particular de água, não às características universais da água em si.

Como a água é abundante e os diamantes são escassos em relação à água, normalmente, uma unidade de água não será valorada ao mesmo nível que um diamante. Contudo, se alguém estiver perdido no deserto, morrendo de sede, ele poderá muito bem estar disposto a trocar um diamante fino por uma cantil cheio de água!

Utilidade decrescente

Considere um viajante do deserto que se depara com um oásis. Ele retira um balde de água de um poço e bebe até matar sua sede. Depois disso, ele usa o próximo balde para encher seus cantis, enquanto que o próximo ele o utiliza para dar de beber aos seus animais. Cada balde adicional é usado para finalidades cada vez menos importantes.

Próximo, podemos aplicar esse exemplo para a renda de um indivíduo. Suponha que Joe seja um professor e que é pago mensalmente. Os primeiros salários são destinados àquelas coisas mais essenciais ao seu bem-estar: aluguel (ou prestação da casa) e alimento, junto com outras contas que devem ser pagas de forma imediata. Em outras palavras, Joe aplica sua renda de forma ordinal, das prioridades de maior para menor valor. Somente depois que ele pagar pelo essencial é que aplicará o que sobrar de sua renda em entretenimento, jantar fora e assim por diante. A grande maioria das pessoas gastará sua renda da mesma forma que Joe.

O supracitado nos leva a comparar os gastos com educação versus gastos com esportes profissionais. Se o autor do editorial está correto, a maioria dos americanos não somente prioriza a compra de ingressos para eventos esportivos em detrimento de gastos com educação, mas também é provável que gastem mais dólares com atividades físicas do que com educação.

Mesmo sem recorrer a uma centena de estatísticas, é possível concluir que as condições requeridas para que a afirmação do editorialista seja verdade simplesmente não existem. Veja a educação pública, por exemplo. Os orçamentos da maioria dos governos estaduais dedicam mais do que 50% de sua arrecadação à educação. Se você incluir as despesas relativas à educação privada, os números se tornam enormes.

De acordo com o Statistical Abstracts of the United States de 1999 (estatísticas oficiais do governo), os gastos totais do ano 1995 para a educação pública e privada em todos os níveis foi de 532,4 bilhões de dólares. Em contrapartida, os americanos gastaram 57,2 bilhões com filmes (incluindo aluguéis de filmes) e 13,1 bilhões de dólares em esportes comerciais (incluindo corridas de cavalos).

Além disso, os Americanos gastam, em média, aproximadamente 10,7% de sua renda de 1995 em educação. Essa não é uma mudança radical: a porcentagem de renda gasta com educação em 1980 foi 10,1%. Comparando os gastos com educação a despesas com outras coisas, você conclui que as pessoas gastam mais somente com alimentação (690,5 bilhões de dólares), moradia (688,2 bilhões de dólares) e assistência médica (766,2 bilhões de dólares).

Listar o gasto com educação possui duas desvantagens. A primeira: como a utilidade é ordinal e não cardinal, os números em si não medem a utilidade; na melhor das hipóteses, servem como uma representação (ou parâmetro). A segunda: a maioria dos gastos com educação é pago pelos tributos, os quais não são pagamentos voluntários. No entanto, como os críticos a quem respondemos insinuaram que os americanos não pagam impostos suficientes para a educação em proporção ao que pagam para ver atletas, é conveniente listar o pagamento de impostos junto com pagamentos voluntários para educação privada.

Portanto, você não pode concluir desses números que os americanos valorizam mais os esportes profissionais do que a educação. No entanto, como você pode explicar o fato de que muitos atletas profissionais recebem salários enormes enquanto a maioria dos professores recebem 40 mil dólares ao ano? Por exemplo, em 1995, a média salarial de um jogador da MLB era 1,1 milhão de dólares, enquanto que a média salarial de um jogador da NBA era 1,9 milhão. A média salarial de um jogador da NFL naquele ano era “somente” 714 mil dólares.

Para a maioria dos observadores, a diferença salarial entre os atletas profissionais e os professores parece refletir um equívoco nas prioridades das pessoas. Contudo, para um economista, essa disparidade é explicada pela lei da utilidade marginal decrescente.

Mais professores do que atletas profissionais

Pessoas que podem se qualificar para serem professores são relativamente mais abundantes do que atletas que podem suportar a severidade dos esportes profissionais. Ademais, o atleta profissional trabalha em uma arena na qual ele (ou ela, já que há aumento dos esportes profissionais femininos) pode entreter um grande número de pessoas de uma só vez. Por exemplo, estima-se que mais do que um bilhão de pessoas ao redor do mundo assistem o Super Bowl. Os melhores palestrantes podem discursar para uma plateia de algumas centenas de pessoas, e a maioria dos professores ensina, aproximadamente, 25 estudantes por vez.

Cada ano, mais de 40.000 pessoas recebem Ph.D. nos Estados Unidos, enquanto que, talvez, 40 novatos podem ser promovidos à NBA. Para os poucos que realmente se tornam profissionais, a duração esperada de sua carreira é curta, talvez alguns anos em média. Um professor, por outro lado, pode ser capaz de praticar sua profissão por mais de 40 anos. Nem a maioria dos atletas profissionais enriquece. A grande maioria trabalha na obscuridade ou ligas de menor importância ou outras posições relativamente mal pagas, tais como um jogador de golfe em um clube de golfe. Em outras palavras, o atleta multimilionário é a exceção, não a regra.

Se você puder superar os sentimentos de inveja com respeito aos atletas publicamente imaturos, mas bem pagos, você perceberá que a única forma da escalada salarial continuar é se a sociedade como um todo enriquecer. Como notado, os indivíduos geralmente não colocam o gasto com eventos esportivos como sua primeira prioridade.

Sendo assim, é óbvio que grandes quantias de dinheiro serão investidas em eventos esportivos profissionais porque as pessoas possuem maiorias quantias de dinheiro sobrando para pagar por eles. O padrão de salários dos esportistas é a prova.

Babe Ruth tornou público o seu salário de 80 mil dólares ao ano no final da década de 1920, um salário espantoso para a época. Contudo, mesmo descontando a inflação, o salário de Ruth hoje dificilmente o colocaria entre os mais bem pagos do beisebol. Mesmo tão recente quanto 1985, a média salarial de um jogador da NBA era somente 325 mil dólares. Se ajustado pela inflação, esse valor em dólares de 1997 seria de 414 mil dólares. Ainda assim, a média salarial da NBA em 1997 era de 2,1 milhões.

Ao menos que a sociedade americana tenha passado por uma mudança drástica em suas preferências nos últimos 15 anos, o aumento dos salários dos jogadores da NBA poderia só se materializar porque os americanos comuns também tiveram um aumento em sua renda. Da mesma forma, a proliferação de esportes menos importantes – futebol americano indoor, por exemplo – significa que os americanos têm ainda mais renda disponível do que antes e são capazes de pagar para ver tais esportes. De outra maneira, esses times teriam se afundado em dívidas e, provavelmente, falido.

Provavelmente, tal análise não convencerá aqueles críticos sociais que acreditam que o governo necessita guiar nossos pensamentos; nós sempre tomaremos decisões ruins com nosso dinheiro (é humano). Se você examinar os padrões de gastos da maioria das pessoas, todavia, você constatará que, talvez, os medos de que os indivíduos tenham prioridades erradas não têm fundamento.

Por fim, façamos uma analogia à expressão “canário numa mina de carvão” (do original, canary in the coal mine). Antes da invenção de equipamentos para detecção de gás metano (sem cheiro, mas mortal) nas minas subterrâneas, os mineiros mantinham um canário dentro de uma gaiola por perto. Enquanto o canário estivesse vivo, o gás não estava presente. Contudo, se o canário morresse, era um sinal de que os mineiros deveriam sair do local imediatamente.

Da mesma forma, notamos que os eventos esportivos profissionais funcionam como um medidor de nosso nível de bem estar. Atletas muito bem pagos e a proliferação de times profissionais são um sinal de que a nossa vida melhorou. Se aqueles salários caírem ou vários times falirem, todavia, cuidado: tempos difíceis nos esperam.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

William L. Anderson

William L. Anderson é escritor e professor associado de economia da Frostburg State University, em Maryland. Ele também é professor adjunto do Mackinac Center for Public Policy e do Ludwig von Mises Institute, no Alabama.



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