Economia hong kong skyline

Publicado em 10 de fevereiro de 2014 | por Milton Friedman

E se os EUA fossem livres como Hong Kong?

[N.T.] Este artigo foi escrito em 30 de Janeiro de 1998, portanto alguns dos dados citados por Friedman estão desatualizados.

Hong Kong está novamente nas mãos da China, mas o gasto governamental direto em Hong Kong permanece menor que 15% da renda nacional – versus 40% ou 50% aqui nos Estados Unidos. O catedrático da Hoover e prêmio Nobel Milton Friedman considera que vale a pena discutir esses fatos.


Qual país você acredita que possui o maior PIB per capita? Os Estados Unidos, com uma população de 260 milhões ocupando uma terra rica em recursos naturais, do Pacífico ao Atlântico, e com uma história de mais de 200 anos de democracia e crescimento econômico, ou Hong Kong, com uma população de 6 milhões de pessoas abarrotadas em uma área minúscula, com uma densidade populacional 225 vezes maior que aquela dos Estados Unidos, desprovida de recursos naturais, com exceção de um grande porto e a capacidade de suas pessoas, e com um aumento de 10 vezes da população desde o final da II Guerra Mundial, liderado por refugiados da China?

Você acertou: os Estados Unidos. O que o surpreenderá é quão pequena é a diferença. Em 1950, os Estados Unidos tinham um PIB per capital aproximadamente seis vezes maior do que o de Hong Kong; em 1996, somente 7% a mais. Se o crescimento de ambos os países permanecer nas mesmas taxas, Hong Kong terá um PIB per capita maior do que o dos Estados Unidos em menos de 5 anos. [1]

Qual são as razões para o sucesso de Hong Kong? Certamente não são nem as qualidades especiais dos seus habitantes chineses, muito menos dos seus antigos governantes ingleses – ou a China em si também seria uma das áreas com maior renda do mundo, e o PIB per capita de Hong Kong não seria que maior que o da Inglaterra em mais de 1/3.

A resposta para esse quebra-cabeça é simples: o papel do governo. O gasto governamental direto é menor que 15% da renda nacional em Hong Kong versus 40% nos Estados Unidos. O gasto governamental indireto via regulações e leis sobre indivíduos e negócios privados é insignificante em Hong Kong, mas representa cerca de 10% da renda nacional nos Estados Unidos.

Nós somos mais produtivos do que Hong Kong. Contudo, nós escolhemos, ou fomos levados pelos caprichos da política, a dedicar aproximadamente metade de nossa capacidade a atividades para as quais Hong Kong dedica 15-20%. Estamos recuperando esses gastos extras em bens ou serviços? Eu acredito que não.

Considere as funções mais básicas do governo, a proteção à pessoa e à propriedade e a manutenção do Estado de Direito. A maioria dos observadores concordaria que Hong Kong tem desempenhado essas funções melhor do que nós. Por estar fazendo muito que não lhe cabe, nosso governo está fazendo coisas que deveria fazer de forma pior do que fazia no passado, quando os gastos governamentais eram menores.

O governo tem um papel essencial a exercer em uma sociedade livre e aberta. Sua contribuição média é positiva, mas acredito que a contribuição marginal oriunda da mudança de 15% para 50% da renda nacional tem sido negativa. Eu acredito firmemente que estaríamos em melhor situação se fossemos livres para usar parte de nossa produção de acordo com nossos próprios desejos e valores individuais, em vez de enviá-la às autoridades políticas. O resultado seria um PIB per capita 70% maior do que o de Hong Kong, não 7%.

A razão óbvia para fazer essas observações é a atual transferência da soberania de Hong Kong à China [N. R.: Ocorrida em 1 de Julho de 1997]. Uma razão menos óbvia, todavia mais importante, é o recente acordo orçamentário dos Estados Unidos.

Grande parte da ênfase está nos cortes de impostos propostos. Há tempos que apoio cortes de impostos a qualquer hora, de qualquer forma, e o máximo possível como a única forma de exercer pressão efetiva sob o Congresso no que tange ao corte de gastos. Como todo adolescente, o Congresso gastará toda a receita que receber mais o quanto pensa que coletivamente poderá sair impune. Reduzir gastos requer cortar a sua “mesada”.

O corte de impostos no acordo é trivial: US$ 96 bilhões ao longo de 5 anos, ou US$ 19 bilhões ao ano, ¼ de 1% da renda nacional. Se esse corte estivesse sendo financiado pela redução dos gastos, e fosse repetido ano após ano, levaria mais de 60 anos para conduzir a parcela da renda nacional controlada pelo governo até o mesmo nível que Hong Kong possui hoje. [2] [3]

Infelizmente, o corte nos impostos não está sendo financiado pela redução dos gastos. Pelo contrário, o acordo de “orçamento equilibrado” demanda maiores gastos nos próximos anos. O equilíbrio hipotético supostamente virá de um aumento na arrecadação, não por uma redução nos gastos. O corte de impostos está sendo financiado por um aumento não aprovado por lei sobre a alíquota de impostos produzidos por uma economia em crescimento, por um imposto de renda gradual combinado com a indexação incompleta dos tributos em relação à inflação. Os impostos estão subindo, não descendo.

Nem o corte explícito de impostos nem o equilíbrio orçamentário são objetivos em si. Ambos são meios para a consecução do objetivo final de aumentar a liberdade dos indivíduos para usar seus próprios recursos de acordo com seus próprios valores – como o presidente Reagan mencionou, tirar o governo das nossas costas. Um corte real nos gastos governamentais diretos e indiretos como uma fração da renda nacional é necessário para se alcançar esse objetivo básico.

NOTAS

[1] Segundo dados de 2012, a renda per capita dos EUA é de US$ 50,700 e de Hong Kong de US$ 52,300.

[2] Mais de uma década depois, os EUA seguem o caminho oposto, estando num impasse sobre a aprovação de um orçamento federal que aumentará os impostos em US$ 1 trilhão nos próximos 10 anos, o que elevará as despesas anuais para US$ 3,7 trilhões.

[3] Atualmente o limite de endividamento do governo federal dos EUA é de US$ 16,39 trilhões, este qual provavelmente aumentará mais ainda em outubro deste ano.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana e Robson Silva | Artigo Original

 


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Sobre o autor

Milton Friedman

Milton Friedman foi um dos mais destacados economistas do século XX e um dos mais influentes teóricos do liberalismo. Foi o principal apóstolo da Escola Monetarista e membro da Escola de Chicago, além de defensor do laissez faire e livre mercado. Por suas realizações nos campos da análise do consumo, da história monetária e da teoria e demonstração da complexidade da política de estabilização, recebeu o Nobel em Ciências Economicas de 1976.



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