Ética lifeboat

Publicado em 6 de janeiro de 2015 | por Stephen Hicks

A ética do bote salva-vidas, escassez e conflitos

Um cenário que é querido pelos eticistas, especialistas em políticas públicas e consultores em geral, pede que você se imagine em um bote salva-vidas.

Nesses cenários estão inseridas suposições poderosas com implicações de vida ou morte, portanto, é interessante estuda-lo para compreendermos melhor do que se trata. Aqui vamos nós:

Você estava sobrevoando o Oceano Pacífico, mas o mau tempo interrompeu os sistemas de comunicação da aeronave. Para evitar a tempestade, o piloto então saiu da rota de voo prevista. Depois de uma hora de pânico, ele perdeu o controle e o avião caiu no oceano. Você e alguns outros sobreviveram, ficando à deriva dentro de um bote salva-vidas.

Você faz um balanço da sua situação. Existem 10 pessoas dentro de um bote originalmente de 4 lugares, com comida e água suficientes para dois dias. Ninguém sabe onde você está, você não sabe onde está, e seus telefones foram perdidos ou destruídos na colisão.

O que você faz?

  1. Você pode avaliar a situação de forma impiedosa, apontando para a água e gritando Tubarão! Quando um dos seus companheiros olhar – você joga-o ao mar. Um a menos, cinco restam. É claro, os outros percebem o que está acontecendo e tentam fazer o mesmo uns com os outros. Quando a briga termina, os quatro mais fortes e rápidos venceram e os seis mais fracos e lentos tornaram-se comida de tubarão.
  2. Ou você pode dizer, Ninguém se mexa – vamos conversar. Alguém então sugere que, em nome da igualdade, todo mundo deveria compartilhar a comida e a água. O resultado provável? Uma grande onda vira o bote com 10 pessoas, mas que continha 4; todo mundo morre. Ou quando uma pessoa fica muita fome ou sede, ela perde o controle e joga alguém ao mar. A briga começa. Os quatro mais fortes vencem e os outros seis morrem.
  3. Ou alguém sugere que, em nome da justiça, você tira a sorte para decidir quem viverá e quem morrerá. Resultado? A primeira pessoa poderosa (mais forte) a não ter sorte se recusa a aceitar o resultado. Na luta que se segue, os mais fortes vencem e os mais fracos perdem.
  4. Ou você pode sugerir: vamos ver quem tem mais a contribuir e as melhores chances de sobreviver. Acontece que, no bota salva-vidas, estão um homem de 88 anos com as duas pernas quebradas na colisão, um incapaz emotivo e uma mulher com 43kg sem reserva de gorduras – junto com um jovem saudável de 20 anos, uma mulher das Forças Especiais do exército, um homem de meia-idade que está 10kg acima do peso, e muitos outros.   Então, como grupo, você identifica os 4 mais fortes e, infelizmente, sacrifica os seis mais fracos.

Outras opções são possíveis. Mas note que todos eles parecem estar convergindo para um resultado comum: o bote salva-vidas é uma situação de fortes versus fracos, onde os fortes sacrificarão os fracos.

O quão realista é esse cenário hipotético? A razão para usar botes salva-vidas é que nos ajude a refletir sobre as grandes questões de vida ou morte, dando-nos um modelo simplificado dos fatores que devem ser considerados.

Os fatores principais são econômicos: a oferta de espaço, comida e água é muito menor que a demanda. Isso quer dizer, os recursos escassos são a realidade dominante.

Se o bota salva-vidas é utilizada como um microcosmo pelo qual podemos extrair grandes conclusões, como muitos eticistas e outros especialistas desejam, então os benefícios são, em primeiro momento, que vivemos em um mundo de recursos escassos e, segundo, que nossas decisões de políticas públicas deveriam ser baseadas naquele fato.

Um programa de TV seguiu uma manada de renas na sua migração anual do sul para o norte do Alasca onde, no breve verão, irão pastar. Uma alcateia de lobos também seguiu as renas, abatendo os mais velhos, fracos e machucados. O narrador do programa informou, “E isso é bom para as renas”, explicando que a oferta de pastagens no norte do Alasca não era suficiente para alimentar toda a manada.

Antropólogos nos dizem que, quando um inverno rigoroso se aproximava e a comida era escassa, muitas tribos nativas da América do Norte tinham uma política de esperar que seus anciões partissem para as montanhas, florestas ou desertos para deixar a natureza seguir seu curso. O raciocínio era que os mais velhos eram os mais fracos e que os recursos alimentares vitais deveriam somente ir para os mais fortes.

Em um ensaio amplamente divulgado, o bioeticista Garrett Hardin extendeu a ética do bote salva-vidas à população humana em geral, argumentando que a escassez de recursos da Terra demanda que nós, nações ricas e poderosas, parem de transferir recursos para as nações pobres e fracas. Tal caridade, ele argumentou, mina as chances de sobrevivência dos fortes e significa unicamente que mais pobres sobreviverão e se reproduzirão, assim tornando o problema pior para as gerações futuras.

O contra-argumento a Hardin é a frase também amplamente conhecida de Mahatma Gandhi: “Temos que viver simplesmente para que outros possam simplesmente viver”. Aqueles de nós com mais estão privando aqueles com menos. Por isso os abastados devem desistir do nível de vida para que os miseráveis possam viver.

E não deveríamos esquecer aquela cenário muito realista do bota salva-vidas – o naufrágio do Titatic em 1912. Eram poucos botes salva-vidas e muitas pessoas, então uma situação de escassez extrema era real. Naquele caso, o princípio operante era “Mulheres e crianças primeiro”. De acordo com a ética vitoriana e eduardiana, homens mais fortes tinham a nobre obrigação de proteger e, se necessário, sacrificar-se em prol de mulheres e crianças mais fracas.

Então, qual política é a mais moral: deveríamos sacrificar os fracos em prol dos fortes – ou os fortes em prol dos fracos?

Por exemplo, quando revisamos a política tributária, deveríamos favorecer os ricos ou os pobres? Se o orçamento governamental do sistema de saúde está estourado, deveríamos primeiro negar cirurgias que salvam vidas aos mais velhos? Ou deveríamos nós, habitantes das nações prósperas, nos sentir culpados pelo nosso estilo de vida, enviando mais bilhões de dólares em ajuda externa às nações em dificuldades?

Note que todos esses argumentos assumem que vivemos em um mundo de soma-zero que coloca os fortes contra os fracos. Supõe-se então que devemos escolher: favorecer os fortes ou os fracos. E note, especialmente, que subjacente a todos esses argumentos é a suposição dos recursos escassos.

A afirmação de que recursos são escassos está por todos os lados – no debate político, no ambientalismo, em grande parte da ciência econômica e na teoria da decisão moral. Mas ela é verdadeira?

Na minha próxima coluna, argumentarei que é falsa. (Palavras disponíveis são agora escassas, já que meu editor cruelmente impôs limites ao seu número). Nós vivemos em um mundo repleto de recursos escassos, tanto reais como potenciais. E naqueles lugares onde as pessoas tristemente continuam a lutar contra a escassez gerações após gerações, o problema sempre é uma cultura disfuncional ou uma política disfuncional – ou uma combinação duplamente disfuncional das duas.

Pensamentos maus e acidentes ocasionais podem nos levar a conflitos de escassez, mas a escassez em si não é um fato fundamental ou inevitável da condição humana.

 // Traduzido por Matheus Pacini. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.


Sobre o autor

Stephen Hicks

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de "Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault" (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.



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