Economia olhando para fora da janela

Publicado em 25 de março de 2014 | por Peter Boettke

Estudando seres humanos

Uma das críticas mais comuns à economia é que ela confia em suposições fantasiosas e em modelos abstratos. Se apenas os economistas estudassem o mundo real eles saberiam que as pessoas não são sempre racionais, a troca não é sempre mutualmente benéfica, e que os mercados não vão estar em equilíbrio em todas as oportunidades. Em vez disso, o mundo real é repleto de erros, desigualdades e ineficiências.

Wendy Carlin – que está liderando uma campanha para se reformar o currículo da graduação em Economia – narrou no Financial Times a seguinte história sobre a decepção de uma estudante com os modelos fantasiosos que teve de aprender durante sua graduação em Ciências Econômicas:

Nataly Grisales, escrevendo num jornal estudantil em Bogotá sobre sua decisão de estudar economia, disse: “Um professor mencionou que a economia me daria meios para descrever e prever o comportamento humano através de ferramentas matemáticas, o que me pareceu fantástico. Agora, depois de vários semestres, eu tenho conhecimento das ferramentas matemáticas; mas todas as pessoas que eu queria estudar desapareceram de cena”.

Carlin rapidamente comentou que:

Não há razão para Nataly estar desapontada. Hoje, economistas possuem os dados e as ferramentas matemáticas e conceituais para colocar os seres humanos no centro das ações. É por isso que o projeto curricular do Institute for New Economic Thinking, o qual administro, está criando materiais que qualquer um pode acessar para a criação de um novo currículo. A tecnologia digital e métodos interativos de ensino apresentarão os alunos a uma disciplina empírica. Eles aprenderão como usar evidências da história, experimentos e outras fontes de dados para testar explicações e diretrizes concorrentes. É um grande momento para ser um economista. É o momento de produzir uma era dourada para os estudantes de economia.

Realmente, é um grande momento para ser um economista.

E também é verdade que a economia, como disciplina, deveria ser uma excitante jornada intelectual. E, bem, também é verdade que muitos professores de economia não apresentam os conteúdos de forma intelectualmente excitante. Um foco exclusivo no ensino por meio do quadro-negro e testes de múltipla-escolha é uma forma ruim de repassar uma estrutura analítica tão excitante.

Sobre quadros-negros e chatice

Ironicamente, no entanto, alguns economistas de quadro-negro podem ser o melhor meio para se entender esses resultados desanimadores. A economia, como uma disciplina acadêmica, recompensa a habilidade científica em detrimento da clareza, e a importância da pesquisa em detrimento da capacidade de ensino. A estratégia de redução de custo é ensinar técnica em detrimento de substância. O material é direto e os testes são mais ou menos claros.  Então, nosso jovem professor de economia – tentando equilibrar os seus deveres, as maravilhas da economia (sem mencionar a necessidade de uma vida pessoal saudável e feliz) – deve fazer escolhas (tradeoffs). E, na margem relevante de nossa discussão, ensinar economia de forma profunda e apaixonada é o que é posto de lado.

Essa observação não é nova. Pode ser encontrada no livro A Riqueza das Nações de Adam Smith. Smith discute as diferenças na forma de ensino encontradas em Glasgow e Oxford, respectivamente. Professores em Glasgow eram pagos diretamente por meio das mensalidades dos estudantes, e, por isso, devotavam mais tempo ao ensino dos estudantes, enquanto que os professores de Oxford eram pagos por meio de uma doação, e muitos não davam a mínima atenção aos estudantes.

Note que, na explicação de Smith, a disfunção não é resultado da irracionalidade, poder ou ineficiência. Em vez disso, ela é consequência dos incentivos com os quais os indivíduos se deparam em ambientes diferentes. Indivíduos normais na profissão econômica estão tentando fazer o melhor que podem dada a situação na qual se encontram. E fazendo isso eles respondem a incentivos – usando a informação que podem adquirir para negociar trade-offs.

Em outras palavras, quando você vê uma disfunção, ela se deve a problemas institucionais. E problemas institucionais demandam soluções institucionais.

Abstrações, matemática e estatísticas

Outra forma de recolocar Nataly e seus colegas no caminho certo é refletir sobre o fato que todos os modelos são abstrações.

Para melhor compreensão, pense por um segundo – você possui um mapa no seu carro (ou no seu celular) que possui uma escala 1-1 com o terreno no qual está viajando? É claro que não. Mas tampouco você possui um mapa que somente têm setas que apontam norte, sul, leste e oeste. Seria muito abstrato. A questão dos modelos é que você tem de escolher o nível adequado de abstração para os fins de que necessita para tratar dos problemas que você está tentando resolver.

Portanto, reclamar do uso de modelos na economia não funcionará. Estudantes de economia não tem somente que aprender a lógica da argumentação econômica, mas também como elaborar as representações técnicas daqueles argumentos nos níveis de abstração importantes. Em resumo, os estudantes de economia têm de estudar matemática e estatística profundamente para se tornarem economistas profissionais. Isso é importante por, pelo menos, três razões:

Primeiro, os princípios básicos da economia são normalmente melhores comunicados por meio do uso de funções matemáticas simples e execução dos gráficos correspondentes. Pense aqui na análise da oferta e demanda como base para a teoria de preços. Segundo, a modelagem econômica e o teste estatístico são a linguagem pela qual os economistas profissionais falam. Tentar se tornar um economista profissional sem aprender essa linguagem seria o equivalente a tentar se tornar um historiador da França sem saber francês. Terceiro, para compreender as limitações de algo – digamos, um modelo – é necessário, primeiro, apreciar seus pontos fortes. Se você não fizer isso, você irá se tornar um crítico particularmente fraco. Como um economista matemático uma vez disse, suas críticas terão o mesmo impacto que bolhas de sabão.

Não me entenda mal. Eu simpatizo com Nataly e seus colegas que são ensinados como nos velhos tempos. Não há dúvida de que os livros-textos e a economia dos quadros-negros da década de 1950 até hoje sofrem de dois erros intelectuais gêmeos, a saber, o formalismo excessivo e a agregação. Existe, realmente, muita abstração de indivíduos agentes e as situações com as quais se deparam. As pessoas não são pontos de um gráfico. Elas têm de lidar com os caprichos e as oportunidades da vida além do que os modelos à lá Jardim do Éden apresentam.

A solução da janela

No entanto, a solução para nossa atual crise curricular não depende, como Wendy Carlin sugere, de esforços modernos para incorporar “dados e mais dados” e novas “técnicas matemáticas”. Certamente, embora seja verdade que estamos testemunhando uma revolução na coleta de dados e que o desenvolvimento de métodos de simulação possui um potencial incrível, o pensamento econômico diz respeito à modelar aqueles dados. As simulações servem para capturar a dinâmica das relações econômicas que nossas teorias – de Adam Smith a Vernon Smith – procuraram esclarecer (Adam com os experimentos naturais da história. Vernon com os experimentos laboratoriais).

Os economistas precisam dizer aos seus alunos para “olharem além da janela” – isto é, utilizar o que aprenderam no quadro-negro e nos livros-textos e aplicar a forma econômica de pensar ao mundo ao seu redor – e estudar história, filosofia, literatura, línguas, antropologia e etc.

Nataly e seus colegas podem responder: “Isso é impossível, como você quer que façamos isso?”. Para tal, não posso dizer nada melhor do que Ludwig von Mises quando respondeu de forma semelhante: “Ninguém lhe pediu para ser um economista”. Para se tornar um economista, você deve estar disposto a trabalhar duro.  Reclamar sobre as ferramentas de aprendizado é semelhante ao carpinteiro reclamar sobre aprender sobre chave de fenda e martelo. As próprias ferramentas são necessárias, mas não suficientes para se tornar um bom carpinteiro. Você deve utiliza-las corretamente. O mesmo se aplica ao aspirante à economista.

Veja também

Prós e contras do uso de matemática na economia

Matemática na economia: bom ou ruim?

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo Original


Sobre o autor

Peter Boettke

Peter Boettke é um economista americano da Escola Austríaca de Economia. Foi professor universitário em Oakland University, Manhattan College e New York University. Autor das obras "The Political Economy of Soviet Socialism", "Why Perestroika Failed", "Calculation and Coordination" e "The Economic Way of Thinking".



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