Educação escola

Publicado em 10 de dezembro de 2013 | por Peter Gray

A Escola é uma prisão e prejudica as crianças

Os pais enviam seus filhos para a escola com a melhor das intenções, acreditando que isso é o que elas necessitam para se tornarem adultos produtivos e felizes. Muitos têm dúvidas sobre o desempenho das escolas, mas a sabedoria convencional é que essas questões podem ser resolvidas com mais dinheiro, melhores professores e um currículo mais desafiador e/ou testes mais rígidos.

Mas e se o problema for a escola em si? O triste fato é que uma das nossas instituições mais apreciadas é, por sua própria natureza, um fracasso para com nossas crianças e nossa sociedade.

A escola é um lugar onde as crianças são obrigadas a estar, e onde sua liberdade é muito restrita – muito mais restrita do que muitos adultos tolerariam no seu ambiente de trabalho. Nas décadas recentes, nós temos obrigado nossas crianças a passar mais tempo ainda nesse tipo de ambiente, e existe forte evidência (resumida em meu recente livro) que isso está causando danos psicológicos a muitas delas. Além disso, quanto mais os cientistas conhecem sobre como as crianças aprendem naturalmente, mais percebemos que as crianças aprendem mais profunda e integralmente, e com mais entusiasmo, em condições que são praticamente opostos àquelas da escola tradicional.

A educação compulsória tem sido uma fixação de nossa cultura por muitas gerações. Atualmente, para a maioria das pessoas é difícil até mesmo imaginar como as crianças aprenderiam o que devem para alcançar o sucesso sem a existência da escola em nossa cultura. O presidente Obama e seu secretário da educação Arne Duncan estão tão apaixonados pela escola que até mesmo querem dias e anos escolares mais longos. A maioria das pessoas assume que o design básico das escolas, como é hoje, emergiu de evidência científica sobre como as crianças aprendem melhor. Nada poderia estar mais longe da verdade.

As escolas, como as conhecemos hoje, são um produto da história, não da pesquisa sobre como as crianças aprendem. O projeto ainda utilizado para as escolas atuais foi desenvolvido durante a Reforma Protestante, quando as escolas eram criadas para ensinar as crianças a ler a Bíblia, acreditar nas escrituras e obedecer às figuras de autoridade sem questionamentos. Os primeiros fundadores das escolas estavam cientes desse fato em seus escritos. A ideia de que as escolas poderiam ser lugares para o desenvolvimento do pensamento crítico, criatividade, autoiniciativa ou habilidade autodidata – os tipos de habilidades mais necessários para o sucesso na economia atual – era a coisa mais distante de suas mentes. Para eles, a obstinação era um pecado que deveria ser retirado das crianças [se necessário, pela força], não algo a ser encorajado.

Quando as escolas passaram à administração do estado e se tornaram compulsórias e direcionadas a fins seculares, a estrutura básica e os métodos de ensino permaneceram inalterados. Tentativas subsequentes de reforma falharam porque, embora tenham logrado algumas modificações na estrutura, não alteraram o projeto básico. Esse método de cima para baixo, ensino e teste, no qual o ensino é motivado por um sistema de recompensas e punições em vez da curiosidade ou desejo real e verdadeiro pelo saber, é ideal para a doutrinação e treinamento de obediência, mas não para muito mais. Não é surpresa que a maior parte dos grandes empresários e inovadores ou deixaram a escola cedo (como Thomas Edison) ou disseram que odiavam a escola e aprenderam apesar dela, não por causa dela (como Alberto Einstein).

Não é surpresa que, hoje, mesmo os “melhores estudantes” (talvez especialmente eles) frequentemente relatam que são “queimados” pelo processo escolar. Um graduando recente, explicando a um repórter de jornal porque ele estava adiando a faculdade, colocou dessa forma: “eu fui consumido com o dever de me sair bem e não dormi muito nos últimos dois anos. Eu tinha 5 ou 6 horas de tarefas de casa a cada noite. A última coisa que eu desejava era mais do mesmo”.

A maior parte dos estudantes – sejam estudantes 10, 7 ou repetentes – perdeu seu gosto pelo aprendizado no momento que chegam no Ensino Médio. Em um estudo recente, Czikszentmihalyl e Jeremy Hunter colocaram em mais de 800 estudantes da 6ª até a 12ª, de 33 escolas diferentes do país, um relógio de pulso especial que emitia um sinal em momentos aleatórios do dia. Sempre que o sinal aparecesse, eles deveriam preencher um questionário indicando onde estavam, o que estavam fazendo e quão felizes ou tristes estavam naquele momento. De longe, os menores níveis de felicidade ocorriam quando estavam na escola e os maiores níveis ocorriam quando estavam fora da escola, brincando ou conversando com amigos. Na escola, eles estavam frequentemente aborrecidos (chateados), ansiosos ou ambos. Outros estudos mostraram que, com o passar dos anos escolares, os estudantes desenvolvem uma atitude negativa crescente em relação às disciplinas ensinadas, especialmente matemática e ciências.

Como sociedade, costumamos agir com indiferença frente a tais achados. Não nos surpreende que o aprendizado seja desagradável. Nós o consideramos como um remédio amargo, difícil para engolir, mas bom para as crianças no longo prazo. Algumas pessoas até pensam que o próprio aborrecimento da escola é bom para as crianças, de forma que irão aprender a tolerar o aborrecimento, porque a vida depois da escola é desagradável (chata). Talvez essa visão triste da vida deriva da escola. Obviamente, a vida tem seus altos e baixos, na infância e na fase adulta. Mas existem muitas oportunidades para aprender a tolerar o aborrecimento sem acrescentar o chato sistema educacional à mistura. Pesquisas têm mostrado que pessoas de todas as idades aprendem mais quando estão automotivas, perseguindo respostas para suas próprias perguntas, e objetivos que são seus reais objetivos. Em tais condições, a aprendizagem é quase sempre prazerosa.

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Eu gastei grande parte de minha carreira de pesquisador estudando como as crianças aprendem. As crianças vêm ao mundo perfeitamente capacitadas a direcionar sua própria educação. Por natureza, elas são dotadas com instintos educativos poderosos, incluindo a curiosidade, brincadeira, sociabilidade, atenção para as atividades ao seu redor, desejo de crescer e desejo de fazer o que as crianças mais velhas e os adultos podem fazer.

A evidência para tudo isso como se aplica a crianças pequenas é claro para qualquer pessoa que acompanhou o crescimento de uma criança, desde o seu nascimento até a idade escolar. Por meio de seus próprios esforços, as crianças aprendem a caminhar, correr, pular e subir nas árvores. Elas aprendem do zero sua língua nativa, e com ela, aprendem: a expressar sua vontade, argumentar, fazer rir, molestar, fazer amizades, agradar e perguntar. Por meio dos questionamentos e exploração, eles adquirem uma quantidade enorme de conhecimento sobre o mundo físico e social ao seu redor, e nas suas brincadeiras, elas praticam as habilidades que promovem desenvolvimento físico, intelectual, social e emotivo. Elas fazem tudo isso antes de qualquer um, de qualquer forma sistemática, tenta ensiná-las qualquer coisa.

Essa incrível disposição e capacidade de aprender não se desligam quando as crianças chegam aos 5 ou 6 anos de idade. Nós as “desligamos” com nosso sistema coercivo de educação. A maior e mais duradoura lição de nosso sistema educacional é que aprendizado é trabalho, e deve ser evitado quando possível.

O foco de minha pesquisa tem sido o aprendizado em crianças que estão na “idade escolar”, mas que não são enviadas para a escola, ou não para a escola convencional. Eu tenho examinado como as crianças aprendem em culturas que não possuem escolas, especialmente culturas de caçadores-coletores das quais nossa espécie evoluiu. Eu também estudei o aprendizado em nossa cultura por crianças a quem são confiadas a administração de sua própria educação e as quais se oferece a oportunidade e meios para se autoeducar. Nesses ambientes, a curiosidade natural das crianças e o gosto pela aprendizagem persistem durante a infância e a adolescência, até a fase adulta.

Outro pesquisador que tem documentado o poder do aprendizado auto-direcionado é Sugata Mitra. Ele instalou computadores ao ar livre em áreas pobres da Índia, onde a maioria das crianças não ia para a escola e muitas eram analfabetas. Onde quer que colocasse um computador, dezenas de crianças se reuniriam, sem ajuda de adultos, para descobrir como usa-lo. Aqueles que não podiam ler começaram a aprender por meio da interação com o computador e com outras crianças ao seu redor. Os computadores deram às crianças acesso a um mundo repleto de conhecimento – em uma vila remota, crianças que anteriormente nada sabiam sobre microrganismos, aprenderam sobre bactérias e vírus por meios de suas interações com o computador, passando a usar tal conhecimento de modo apropriado em conversas posteriores.

Os experimentos de Mitra ilustram como três aspectos centrais da natureza humana – curiosidade, diversão e sociabilidade – podem combinar maravilhosamente para servir o propósito da educação. A curiosidade atraiu as crianças ao computador, motivando-as a explorá-lo; a diversão motivou-os a pôr em pratica muitas habilidades de informática; e a sociabilidade permitiu ao conhecimento de cada criança espalhar-se rapidamente a dezenas de outras crianças.

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Em nossa cultura atual, existem muitas meios por meio das quais as crianças podem pôr em prática suas capacidades naturais e instintos para aprender tudo que necessitam saber para uma fase adulta de sucesso. Mais de 2 milhões de pessoas nos Estados Unidos estabelecem agora sua educação em casa e na comunidade, em vez da escola, e uma proporção crescente de suas famílias descartaram o modelo curricular em prol de aprendizado auto direcionado. Esses pais não dão aulas ou testes, mas oferecem um ambiente familiar que facilita o aprendizado e ajudam a conectar seus filhos a atividades comunitárias pelas quais podem aprendem. Algumas dessas famílias adotaram essa abordagem muito tempo atrás e vêm hoje crianças adultas que estão se destacando na Universidade e na suas carreiras.

Minha colega Gina Riley e eu recentemente entrevistamos 232 famílias desse tipo. De acordo com o relatório dessas famílias, os benefícios principais dessa abordagem estão na manutenção da curiosidade, criatividade e gosto contínuos pelo aprendizado por parte das crianças, e na liberdade e harmonia que a família como um todo vive quando aliviada das pressões e horários da escola e do peso da manipulação das crianças para fazer um tema de casa que não lhes interessa. Como diz uma mãe: “Nossas vidas são essencialmente sem estresse… nós temos uma relação muito próxima, baseada no amor, confiança e respeito mútuo”. E ela continua, dizendo: “como uma educadora, eu vejo que minha filha possui uma habilidade de pensamento crítico que muitos dos meus estudantes adultos não possuem… minha filha vive e aprende no mundo real e ama isso. O que mais eu poderia querer?”.

Atualmente, Riley e eu estamos completando um estudo de aproximadamente 80 adultos que eles próprios foram educados em casa nessa forma auto-direcionada quando estavam em “idade escolar”. Os resultados finais ainda não estão prontos, mas é claro que aqueles que optaram por essa abordagem advêm de uma variedade de grupos socioeconômicos e tem, como um todo, tido sucesso na idade adulta.

Como a abordagem auto-direcionada para a educação em casa teve um aumento de popularidade, mais e mais centros e redes surgiram para oferecer recursos, conexões sociais e oportunidades educacionais adicionais para crianças e famílias que optaram por essa abordagem (muitas são listadas em um novo website, AlternativesToSchool.com) Com esses, além de bibliotecas e outros recursos comunitários que tem sempre estado disponíveis e, é claro, a Internet – as oportunidades educacionais são ilimitadas.

Mas nem toda a família possui a possibilidade ou desejo de prover a educação auto-direcionada em casa. Para muitos, uma opção melhor é a chamada escola democrática, na qual as crianças são responsáveis pela sua própria educação em um ambiente que otimiza as suas oportunidades educacionais e onde existem muitas outras crianças com quem se socializar e aprender. (Tais escolas não devem ser confundidas com as escolas Montessori ou outros tipos de escolas “progressistas” que permitem maior diversão e oferecem mais escolhas do que as escolas convencionais, mas, todavia, mantêm um sistema de autoridade professor / estudante, de cima para baixo, e um currículo relativamente uniforme que todos os estudantes devem seguir).

No decorrer dos anos, eu observei o aprendizado em um lugar desses, a escola Sudbury Valley, em Framingham, Mass. É chamada de escola, mas é totalmente diferente do que nós normalmente consideramos uma “escola”. Os estudantes, que variam de 4 a 18 anos de idade, estão livres todo o dia para fazer o que bem entenderem, desde que não quebrem nenhuma das regras da escola. As regras que foram criadas democraticamente na reunião escolar por estudantes e profissionais, não tem nada a ver com a aprendizagem; elas têm a ver com a manutenção da paz e ordem e se fazem cumprir por meio de um sistema judicial modelado de acordo àquele utilizado por nossa sociedade. Atualmente, a escola tem cerca de 150 estudantes e 10 funcionários, e opera com um orçamento por estudante que é menor do que a metade daquele das escolas públicas da redondeza. Ela aceita essencialmente todos os estudantes interessados cujos pais concordam em fazer a matrícula.

Hoje, aproximadamente duas dezenas de escolas existem nos Estados Unidos que são explicitamente modeladas de acordo com a Sudbury Valley, e outras existem possuindo grande parte de suas características básicas. Comparada a outras escolas privadas, essas escolas cobram mensalidades baixas, e algumas possuem uma escala de preços. Estudantes chegam de diversos grupos socioeconômicos e com ampla variedade de personalidades. Para pessoas que não testemunharam tal situação em primeira mão, é difícil imaginar como tal escola poderia funcionar. Ainda assim, a Sudbury Valley já tem 45 anos de existência e possui centenas de graduados, que estão se saindo muito bem no mundo real.

Muitos anos atrás, meu colega David Chanoff e eu conduzimos um estudo de atualização sobre a situação dos graduados naquela escola. Nós encontramos que aqueles que tinham prosseguido em busca do ensino superior (cerca de 75%) não relataram nenhuma dificuldade particular para entrar nas Universidades que desejaram e estão se dando muito bem. Alguns, incluindo alguns que nunca tinham participado de nenhum curso formal, tinham entrado em faculdades e universidades altamente prestigiadas. Como um grupo, não importando se tinham seguido ou não para o ensino superior, eles eram notavelmente exitosos na busca de emprego. Eles tinham se direcionado a uma ampla variedade de ocupações, incluindo administração, artes, ciências, medicina e outras profissões, além de serem ótimos negociadores. Muitos também comentaram sobre a importância dos valores democráticos que adquiriram, por meio da prática na escola. Recentemente, dois grandes estudos sobre os graduados, conduzida pela própria escola, produziu resultados semelhantes que foram  publicados em formato de livro.

Estudantes nesse ambiente aprendem a ler, calcular e usar computadores das mesmas formas divertidas que as crianças nas culturas caçadoras-coletoras aprendem a caçar e coletar. Elas também desenvolvem interesses e paixões mais especializados, os quais podem levar direta ou indiretamente a carreiras de sucesso. Por exemplo, um maquinista e inventor de sucesso gastou sua infância divertindo-se, montando e desmontando coisas para ver como funcionavam. Outro graduado, que se tornou professor de matemática, tinham brincado intensa e criativamente com a matemática. E outro ainda, uma estilista famosa, que tinha brincado de fazer roupas para bonecas, para si e para suas amigas.

Estou convencido de que Sudbury Valley funciona tão bem como ambiente educacional porque oferece as condições que otimizam as habilidades naturais das crianças para se auto educarem. Essas condições incluem a) oportunidade ilimitada de brincar e explorar (o que lhes permite descobrir e perseguir seus interesses); b) acesso a uma variedade de adultos cultos e carinhosos que são ajudantes, não juízes; c) livre mistura de idade entre crianças e adolescentes (a interação entre crianças de idades diferentes é muito mais útil para a aprendizagem); e d) a participação direta em uma comunidade estável, moral e democrática na qual eles adquirem um senso de responsabilidade pelos outros, não somente por si próprios. Pense nisso: NENHUMA dessas condições estão presentes nas escolas convencionais.

Eu não quero pintar a educação auto-direcionada como uma panaceia. A vida não é sempre clara, não importando as condições. Mas a minha pesquisa e a de outros pesquisadores sobre esses ambientes convenceu-me, acima de qualquer dúvida, que o instinto natural e a habilidade dos jovens para aprender são mais do que suficientes para motivar toda a sua educação. Quando eles querem a ou necessitam da ajuda de outros, eles pedem. Nós não queremos forçar as pessoas a aprender; tudo que necessitamos fazer é oferecer-lhes a liberdade e as oportunidades para o fazerem. É claro, nem todo mundo irá aprender as mesmas coisas, da mesma forma, ao mesmo tempo.  Mas isso é coisa boa. Nossa sociedade progride por causa da diversidade. Nossa cultura prospera por meio da diversidade. Nossa cultura necessita de pessoas com diferentes tipos de habilidades, interesses e personalidades. Acima de tudo, necessitamos de pessoas que estão vivendo a vida com paixão e que tomam responsabilidade por si próprias no decorrer da vida. Esses são denominadores comuns das pessoas que tiveram a responsabilidade pela sua própria educação.

Peter Gray é pesquisador e professor de psicologia no Boston College. Seu mais novo livro é  “Free to Learn: Why Unleashing the Instinct to Play Will Make Our Children Happier, More Self Reliant, and Better Prepared for Life” (Basic Books, 2013). 

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo original


Sobre o autor

Peter Gray

Peter Gray é pesquisador e professor de psicologia no Boston College. Seu mais novo livro é "Free to Learn: Why Unleashing the Instinct to Play Will Make Our Children Happier, More Self Reliant, and Better Prepared for Life" (Basic Books, 2013).



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