Socialismo KARL marx

Publicado em 11 de setembro de 2014 | por William Henry Chamberlain

Alguns erros de Marx

Artigo originalmente publicado em 1956.

O mal que os homens fazem lhes sobrevive”. Essa máxima shakespeariana se aplica com força singular a Karl Marx. A vida desse apóstolo do socialismo, comunismo e da luta de classes foi gasta, em sua maior parte, numa obscura e, às vezes, esquálida pobreza. Marx nem mesmo foi capaz de ganhar a vida de forma humilde como escritor e jornalista; ele não tinha outra profissão. Ele teria provavelmente que ter recorrido à assistência social, naquele tempo menos generosa do que hoje, se não fosse pela ajuda financeira de seu discípulo e colaborar, Friedrich Engels, que era filho de um próspero capitalista.

O histórico de conquistas políticas de Marx no momento de sua morte parecia relativamente estéril. Já que, em um momento de bravura, ele renunciou a cidadania prussiana, sendo incapaz de ir à Alemanha ou mesmo de participar de forma ativa do movimento socialista alemão. Tampouco, desempenhou papel relevante na política inglesa.

Colocando de forma branda, Marx não era um cidadão maduro ou amável. Seu hábito de excomungar quaisquer pessoas que discordassem dele do movimento socialista manteve seu circulo de amigos muito limitado. Existem abundantes evidências históricas para fundamentar um perfil cáustico de Marx como descrito por Max Eastman, no seu livro Reflections on the Failure of Socialism: (tradução livre, Reflexões sobre o Fracasso do Socialismo).

Se alguma vez fez um ato generoso, não podemos encontrar em lugar algum. Ele era um garoto mimado, totalmente indisciplinado, vaidoso, relaxado e egotista. Estava sempre pronto a vociferar. Poderia ser desonesto, divergente, arrogante, antissemita e racista. Era por hábito um parasita, intrigante, um fanático tirânico que preferiria a destruição do seu partido a vê-lo ter sucesso sob outro líder.

Contudo, se havia poucos que se lamentavam, literal ou figurativamente, no velório de Marx (homem), a ideia do marxismo, a visão de mundo na qual o proletariado, oprimido pelo capitalismo, se tornaria o arquiteto de uma nova ordem mundial, marchando de sucesso a sucesso.

Antes da 1ª Guerra Mundial, Marx era reverenciado como o fundador dos partidos socialistas que tinham surgido na maioria dos países europeus. Devido ao fato de que um gênio russo da ação revolucionária, Vladimir Ilyitch Lenin, ingeriu sem moderação as ideias de Marx, o marxismo tornou-se o credo de um novo regime comunista na Rússia.

Esse regime, que nunca vacilou em sua convicção de que algum dia seu poder abarcaria o mundo inteiro, representa uma revolta contra todos os valores da civilização ocidental, contra a religião e a lei moral, contra as liberdades civis e pessoais, contra o direito de propriedade, o qual é um dos primeiros e mais indispensáveis das liberdades humanas. Depois da 2º Guerra Mundial, o comunismo, resultado dos ensinamentos marxistas, estendeu seu domínio sobre a China e outros países do Leste Europeu, de forma que, hoje (1956), foi imposto como uma fé dogmática em mais de 1/3 da população mundial.

E a influência de Marx não é de forma alguma restrita às nações sob o regime comunista. O apelo das ideias marxistas aos socialistas europeus, aos intelectuais inexperientes dos jovens países emancipados da Ásia tem sido considerável. Embora o número de pessoas que pode honestamente afirmar ter lido e compreendido o seco e confuso O Capital seja pequeno, a versão simplificada da teoria marxista apresentada no Manifesto Comunista e em outras fontes possui um forte apelo psicológico.

Marx coloca o proletariado contra a burguesia.

Marx professou saber todas as respostas, oferecer uma explicação completa da atividade humana com base no materialismo histórico. No esquema marxista, existe um herói, o proletário, e um vilão, a burguesia; e o herói é representado como o grande vencedor no final. Existe uma visão de vitória revolucionária que transformará as condições da existência humana e inaugurar um milênio, de cuja natureza, na verdade, Marx oferece poucas dicas. Confiar em intelectuais que aceitam premissas e suposições sem questionamento é como crer estar um passo à frente da história, professando um credo baseado numa ciência infalível.

Mas é justamente esse mito de infalibilidade que é o tendão de Aquiles de Marx como pensador, e do marxismo como sistema. Uma análise dos trabalhos de Marx e seu colaborador Engels revela 10 grandes erros, dos quais alguns são tão essenciais (fundamentais) que completamente descreditam, como uma prévia do futuro, toda a superestrutura da fé na miséria e na ruína capitalista, e da prosperidade e triunfo socialistas, a qual Marx laboriosamente criou sob a base da metafísica hegeliana e pesquisas de momento nos primeiros relatórios internos do governo sobre o capitalismo. Esses erros são os seguintes:

(1) O fim do capitalismo é certo, já que sob sua operação os ricos se tornarão mais ricos e menos numerosos; os pobres se tornarão mais pobres e mais numerosos. Citando um dos mais surpreendentes trechos retóricos no Capital:

 enquanto diminui progressivamente o número de magnatas capitalistas que usurpam e monopolizam este processo de transformação, cresce a massa explorada, mas cresce também a rebeldia da classe trabalhadora, cada vez mais numerosa e mais disciplinada, mais unida e mais organizada pelo mecanismo do próprio processo capitalista de produção. O monopólio do capital converte-se em grilhão do regime de produção que cresceu com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se tornam incompatíveis com seu envoltório capitalista. Este então cai aos pedaços. Soou a hora final da propriedade capitalista. Os expropriadores são expropriados (O Capital).

Essas são palavras ressonantes, contudo vazias de conteúdo, em vista do fato de que o desenvolvimento social e econômico dos países capitalistas seguiu um caminho precisamente oposto ao previsto por Marx. O que era, no tempo de Marx, uma pirâmide social agora se tornou algo como um cubo. O sistema capitalista concedeu à classe trabalhadora não um aumento da “opressão, escravagismo, degeneração e exploração”, mas sim um aumento de invenções e confortos que nem mesmo existiam para os ricos 100 anos atrás: automóveis, rádios, televisores, lavadoras de roupa, assim como dinheiro no banco, ações e títulos.

(2) O socialismo pode somente ocorrer quando o capitalismo tiver exaurido suas possibilidades de desenvolvimento. Ou, como Marx explana no seu livro Critique of Political Economy (tradução livre, Contribuição para a crítica da Economia Política):

Nenhuma forma de sociedade declina antes de ter desenvolvido todas as forças produtivas de acordo com seu próprio estágio de desenvolvimento.

No entanto, dos três países os quais, de acordo com Marx, estavam mais propícios à transição ao socialismo, como a maioria industrialmente desenvolvida, os Estados Unidos é ainda, sem dúvida, o mais livre economicamente.

A parte mais livre da Alemanha, depois do grande impacto da Guerra, alcançou uma recuperação notável ao repelir os controles nazistas e aliados, e recorrer aos incentivos individualistas “fora de moda”. A Grã-Bretanha aceitou um tipo de New Deal socialista, sem violência ou expropriação escancarada e, muito aquém da “ditadura do proletariado” marxista.

Por outro lado, os países onde revoluções violentas ocorreram em nome de Marx, a União Soviética e a China, eram, segundo a própria teoria marxista, completamente imaturas para o socialismo. O capitalismo estava em um estágio inicial de desenvolvimento na Rússia. Grande parte da China vivia em condições pré-capitalistas. A experiência mostrou que, em contradição direta ao dogma marxista, o capitalismo é mais difícil de derrubar já que estabelece raízes profundas e mostra o que pode alcançar. Um argumento plausível pode ser feito em prol da proposição que, embora a mudança político-econômica teria surgido na Rússia, não teria havido nenhuma revolução comunista se a 1ª Guerra Mundial tivesse sido evitada e a política de Stolypin de dissolver as antigas comunas de camponeses, dando-lhes maior sentido de propriedade individual tivessem se desenvolvido o bastante para produzir resultados.

(3) A “ditadura do proletariado” é uma forma de governo justa e plausível. Essa afirmação é baseada em duas premissas falsas: que o “proletário” ou a classe trabalhadora industrial, tem algum tipo de direito divino de governar e que o poder de governar pode ser diretamente exercido por esse grupo da população. Ambas estão erradas. Marx nunca explicou claramente porque o proletariado, para o qual ele previu maior pobreza e degradação, estaria qualificado a governar. E a experiência soviética e chinesa oferece as provas mais claras que as ditaduras do proletariado, na teoria, tornam-se, na prática, ditaduras cruéis sobre o proletariado. O poder absoluto nos estados comunistas é exercido não pelos trabalhadores das fábricas, mas por burocratas, dos quais muitos nunca fizeram nenhum trabalho manual; outros há muito nada fazem.

(4) Sob o socialismo, o estado “desapareceria”. Isso surge da crença de Marx que o Estado é um instrumento de supressão de uma classe por outra. Em uma sociedade sem classes do socialismo, portanto, não haveria necessidade de um Estado.

Os eventos destruíram a teoria. Em nenhum lugar o estado é mais poderoso, mais arbitrário, mais semelhante a uma polícia universal, bisbilhoteira e intervencionista do que a União Soviética. Ainda assim, é aqui que o novo regime aboliu a propriedade privada dos meios de produção, assim, de acordo com Marx, inaugurando uma sociedade sem classes. Podemos escolher duas conclusões alternativas. Ou a teoria marxista do Estado como um instrumento de governo de classe é uma fraude ou o tipo de governo de classe que prevalece na União Soviética deve ser excepcionalmente crua e sangrenta.

(5) O capitalismo (no século XIX) exauriu todas as suas possibilidades de produção. Essa afirmação é feita pelo alter ego de Marx, Engels e o seu Anti-Duhring, escrito antes do motor de combustão interna, raio X, aviação, química sintética e outras tantas adições importantes ao processo produtivo, criados pelos estímulos capitalistas.

(6) Todas as ideias, formas de expressão intelectual e artística são mera reflexão dos interesses materiais da classe que está no poder. Essa concepção é expressa repetidamente nos escritos de Marx, notavelmente no livro German Ideology (tradução livre, Ideologia Alemã), no qual escreve: “a classe que detém o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, aquela que detém o poder espiritual… as ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das condições materiais”. Uma das poucas observações associadas ao nome de Marx é que a Igreja da Inglaterra preferiria renegar seus 39 artigos de fé em vez de 1/39 de suas posses.

O registro histórico mostra que essa interpretação da conduta humana é claramente tendenciosa e imprecisa. Homens morrem com muito mais frequência por ideias do que interesses materiais. A vitória comunista na Rússia não foi ocorreu por causa de uma melhora das condições materiais das massas depois da Revolução Bolchevique. Nem perto disso. O que aconteceu foi que uma minoria comunista organizada e disciplinada conquistou as massas com seu arsenal de propaganda e terror, manteve o ódio e a inveja de classes em ponto de ebulição e puniu duramente os dissidentes, preservando o regime durante anos de guerra civil e fome. Às vezes, a interpretação materialista da história se torna tão absurda, como no caso do anúncio de um musical em Moscou, o qual dizia:

Vamos ouvir agora a abertura de Glinka, “Ruslan e Ludmilla”. Essa é uma peça alegre, já que foi escrita quando o comércio russo estava se expandindo e conquistando mercados do Leste Europeu.

Pareceria que, para carregar qualquer semelhança com a realidade, essa peça deveria ser acompanhada por uma prova que Glinka possuía ações nessas companhias emergentes – uma questão altamente improvável, se você considerar a situação econômica dos músicos russos.

(7) A produção depende do antagonismo de classe. Citando Marx, no livro The Poverty of Philosophy (tradução livre, A miséria da filosofia):

Desde o início da civilização, a produção começa a ser baseada no antagonismo de ordens, estados, classes e, finalmente, no antagonismo entre capital e trabalho. Nenhum antagonismo, nenhum progresso. Essa é a lei que a civilização tem seguido até os dias de hoje.

Como muitas das “leis” de Marx, essa é meramente uma alegação não fundamentada de um dogma pedante. Nenhuma prova é produzida. As maiores realizações da arquitetura humana, as catedrais da Idade Média, as grandes barragens e arranha-céus dos tempos modernos são fruto da cooperação, não do antagonismo.

(8) O nacionalismo é uma força desprezível. Marx e Engels viveram em uma época de crescente consciência nacional. O nacionalismo extremado foi a causa principal da 1ª Guerra Mundial. Ainda assim, em todos os seus escritos, a atitude com relação ao nacionalismo é de desprezo e desdém. Como Isaiah Berlin, um biógrafo simpatizante, escreveu: (Karl Marx, p.188):

Ele subestimou de forma consistente a força do nacionalismo crescente; seu ódio de todo o separatismo, assim como de todas as instituições fundadas com base no tradicional ou emocional, cegou-o para sua real influência.

(9) A Guerra é produto do capitalismo. Essa ideia encontrou alguma aceitação fora do contexto marxista. A tentação de procurar uma explicação simplória para a guerra é forte. Mas enquanto, teoricamente, tais motivos marxistas como as lutas comerciais, coloniais e por influencia podem levar à guerra, não existe evidência histórica séria que algum grande conflito tenha sido causado por tais considerações. Existiam diferenças no que tange ao aspecto econômico entre o norte industrializado e o sul agrícola antes da Guerra Civil dos Estados Unidos. Contudo, poderiam ter sido resolvidas facilmente. O que tornou o conflito fratricida “irreprimível”, nas palavras de Seward, foram duas grandes questões políticas e morais: secessão e escravidão.

A origem da 1ª Guerra Mundial foi puramente política. Houve um conflito entre o nacionalismo eslavo e o desejo austro-húngaro de manter unido um império multinacional. Um sistema de alianças estreitas e quase automáticas tornou o que poderia ter sido uma expedição punitiva austríaca contra a Sérvia uma guerra geral.

A 2ª Guerra Mundial foi obra não de magnatas do capitalismo, mas de um ditador plebeu, Adolf Hitler, o qual perseguia aspirações de conquista e glória militar que são anteriores ao sistema capitalista moderno.  E a principal ameaça de guerra hoje em dia advém do impulso expansionista do imperialismo comunista.

(10) O trabalho é enganado, pois o empregador, em vez de pagar o valor total do seu trabalho, mantem parte dele na forma de lucro, juros e renda. Ou, como o próprio Marx informa na sua teoria da “mais-valia”. (Capital, Modern Library edition, p. 585):

Toda a mais-valia, seja qual for a forma em que vá se cristalizar mais tarde – lucro, juro, renda etc. – é, substancialmente, materialização de trabalho não-pago. O segredo da autovalorização do capital reside no controle que exerce sobre determinada quantidade de trabalho alheio não pago.

É necessário refletir ou pesquisar um pouco para perceber que a “mais-valia”, como muitos dos motes marxistas, é um mito. Como, sob qualquer sistema econômico – capitalista, fascista, socialista, comunista – poderia uma indústria expandir e oferecer mais produtos e mais empregos para mais pessoas se o capital não fosse poupado para financiar investimentos futuros? Talvez, a melhor refutação ao mito demagogo de Marx que a mais-valia é um truque sujo dos capitalistas, praticado contra os trabalhadores, é que a extração do que poderia ser chamado de mais-valia é praticado em grande escala na União Soviética por meio das vendas ou impostos sobre os negócios que frequentemente excedem 100%

Um clássico fracasso

É surpreendente que, com tal histórico de fracasso na compreensão do mundo no qual estava vivendo ou da direção na qual o mundo estava seguindo, Marx seja considerado um profeta infalível. A verdade é que não exista nada remotamente científico no socialismo marxista. Ele começou com um conjunto de suposições dogmáticas, a priori, e então revirou o Museu Britânico em busca de fatos que pareceriam dar apoio a essas suposições. Como um imperador no conto de fadas, o Marxismo, por todas as suas vultuosas aparições, realmente está nu quando visto à luz da realidade, na época de Marx e hoje em dia. Seu sistema supostamente infalível de interpretação da história e da vida está repleto de erros, dos quais os 10 supracitados são apenas os mais óbvios e gritantes.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

William Henry Chamberlain

(1897 – 1969), jornalista e historiador americano, foi editor-assistente do jornal The Wall Street Journal e autor de diversos livros, como “The Russian Revolution: 1917-1921” (1935) e “Collectivism: A False Utopia” .



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