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Publicado em 5 de novembro de 2014 | por Didi Kirsten Tatlow and Yong Zhao

Entrevista: Yong Zhao sobre educação e autoritarismo na China

Yong Zhao, professor de educação na Universidade de Oregon, chegou longe. Nascido no que ele chama de “um dos vilarejos mais ordinários na China”, ele é agora uma autoridade na educação Americana e chinesa e autor do livro “Who’s Afraid of the Big Bad Dragon: Why China Has the Best (and Worst) Education System in the World,” (Quem tem Medo do Grande Dragão Malvado: Porque a ChinaTem o Melhor (e Pior) Sistema Educacional do Mundo, tradução livre), que está sendo publicado esta semana.

Nele, Zhao examina como o sistema contemporâneo chinês focado em avaliações emergiu de uma cultura autoritária e imperial, e como ele se tornou um objeto de admiração entre os políticos no Ocidente depois que os estudantes de Shangai alcançaram o topo duas vezes seguidas no Programa para Avaliação Internacional de Estudantes, ou PISA na sigla em inglês. Isto alavanca um enigma que ele desfaz: educadores, pais e estudantes chineses acreditam que seu sistema está falido e estão tentando muda-lo há décadas. Na melhor das hipóteses produz uma forma restrita de inteligência. Na pior, replica uma cultura rígida na qual todo mundo compete por uns poucos cargos de elite que são administrados e controlados pelo Estado. Então por que o Ocidente está tentando “alcançar” a China?

A seguir temos alguns excertos de uma entrevista com Sr. Zhao:

P.: Você disse que a educação tradicional chinesa “prejudica” as crianças. Como?

R.: Ela basicamente ignora a singularidade das crianças, seus interesses e paixões, que resulta em uma homogeneização. Ela os força a gastar quase todo seu tempo se preparando para testes, deixando quase nenhum tempo para atividades físicas e sociais. Ela também as coloca sob um estresse tremendo através da competição intensa, que pode causar danos à sua confiança e reduzir sua autoestima.

P.: Recentemente tem havido muita atenção, até inveja, de nações ocidentais no referente à educação chinesa, após Shangai ter se saído em primeiro lugar no PISA. Mesmo assim os pais, educadores e crianças chinesas dizem que seu sistema está falido. O que está havendo?

R.: Precisamente a mensagem do meu livro. É o melhor nas pontuações dos testes, mas os resultados dos testes estão longe de representar resultados educativos significativos. De fato, o foco intenso nos resultados dos testes entrava uma educação real, que é mais sobre ajudar cada criança a crescer ao invés de forçá-las a alcançar uma boa pontuação em testes. Em outras palavras, o PISA e outros testes medem algo bem diferente da qualidade de educação que os pais, educadores e estudantes chineses desejam.

P.: Você escreveu “se os EUA e o resto do Ocidente estão preocupados em serem superados pela China, a melhor solução é evitar se tornarem uma nova China”. Os EUA estão se tornando uma nova China na educação? Como?

R.: Os EUA certamente se tornaram mais parecidos com a China nos anos recentes. O “No Child Left Behind Act” (Lei “Nenhuma Criança Deixada Para Trás”, tradução livre) tem aumentado a participação e o uso de testes padronizados. A iniciativa do Presidente Obama “Race to the Top” (Corrida ao Primeiro Lugar, tradução livre) e outras iniciativas continuam a empurrar os testes goela abaixo em escolas e salas de aula ao associar a pontuação nos mesmos com a avaliação de professores. O “Common Core State Standards Initiative” (Iniciativa de Critérios Estatais de Normas Comuns, tradução livre) tem sido implantado em muitos estados, criando padrões nacionais matemática e língua inglesa. Logo, a educação americana de hoje tem se tornado mais centralizada, padronizada e direcionada a testes, com uma experiência educacional cada vez mais estreita e restrita, o que caracteriza a educação Chinesa.

P.: Isto irá causa problemas aos EUA?

R.: Eu acredito que sim. Porque é improvável que uma experiência educacional restrita e limitada que é centralmente ditada, uniformemente programada e constantemente monitorada por testes padronizados acabe valorizando talentos individuais, respeitando interesses e paixões dos estudantes e cultivando criatividade e uma mentalidade empreendedora, ou propiciar o desenvolvimento de capacidades não-cognitivas. Mas é a diversidade de talentos, criatividade passional e empreendedora, e o bem-estar social e emocional dos indivíduos que são necessários para o futuro da economia.

P.: Como exatamente o sistema educacional chinês implanta hábitos culturais e políticos autoritários? Quando isso começou?

R.: De modo bem parecido com o que os EUA têm feito nos anos recentes: o governo prescreve um currículo, força as escolas e professores a ensinar o currículo, força (ou seduz) os estudantes a adquirir a maestria sobre o currículo, e monitora o progresso com testes padronizados. Começa assim que a criança põe os pés na escola.

P.: Qual o melhor caminho para a China?

R.: Eu penso que a China tem feito as coisas certas nos anos recentes. Eles estão trabalhando duro para minimizar o impacto dos testes, reduzir o fardo acadêmico sobre os estudantes, diversificar o currículo, permitir uma maior autonomia às escolas e governos locais, aliviar as desigualdades educacionais e reformar o acesso universitário para admitir uma emergência de novos talentos.

P.: Você escreveu: “Soluções efetivas aos dilemas da China requerem mudanças revolucionárias à própria fundação na qual a sociedade chinesa opera. Estas mudanças seriam tão perturbadoras que elas poderiam ameaçar os valores tradicionais e culturais e a ordem social atual”. Existe alguma esperança que eles consigam ter sucesso?

R.: Eu acho que a esperança está a cargo de uma reflexão racional e ponderada dos valores tradicionais e da ordem social atual. Necessita que as pessoas e líderes considerem caminhos alternativos, vozes alternativas e valores alternativos sem automaticamente assumir intenções malignas nas opiniões dissidentes. Mas isto é muito difícil devido à história da modernização chinesa, a qual é discutida no livro.

P.: Educadores chineses há tempo têm tentado mudar o sistema, “matar a bruxa dos testes”, banir deveres de casa e exames de admissão. Por que eles fracassam continuamente?

R.: Há muitas razões, mas a principal é o espírito autoritário que colocou as pessoas em um “jogo de prisioneiros”. Mei Banfa [“não há nada que possa ser feito”] é uma frase muito comum que eu ouço de meus amigos e colegas na China quando falam sobre porque eles permitem que seus filhos façam certas coisas contra seu melhor julgamento. Eu ouço o mesmo de educadores e formuladores de políticas. Eles sabem o que é bom para as crianças, mas eles sentem que são incapazes de mudar ou que, se tomarem o primeiro passo, serão punidos porque os outros não irão mudar.

P.: Você escreveu que “a educação Chinesa é o completo oposto do que necessitamos para uma nova era”. Do que necessitamos?

R.: A educação que precisamos é na verdade algo muito simples como “siga a criança”. Precisamos de uma educação que realce as aptidões individuais, siga as paixões da criança e propicie seu desenvolvimento emocional e social. Não precisamos de uma educação autoritária que tenha por objetivo consertar os defeitos das crianças de acordo com padrões prescritos externamente. Eu escrevi sobre isto em meu último livro, “World Class Learners: Educating Creative and Entrepeneurial Students” (Estudantes da Turma Mundial: Educando Estudantes Criativos e Empreendedores, tradução livre) (Corwin Press, 2012).

// Traduzido por Rafael Andreazza Daros. Revisado por Russ da Silva| Artigo original.


Sobre o autor

Didi Kirsten Tatlow

Didi é jornalista, escreve para jornais, programas de TV e rádio. Possui grande experiência em assuntos chineses e europeus.

Yong Zhao

Yong Zhao é professor de educação na Universidade do Oregon.



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