Inovação & PI congresso

Publicado em 23 de outubro de 2014 | por Zachary Caceres

O empreendedorismo social não é o suficiente: devemos pensar radicalmente

John Elkington da consultoria McKinsey pergunta: os empreendedores sociais podem gerar uma mudança de longo prazo para resolver os problemas do mundo? Ele responde de forma direta, “Não”.

Elkington escreve:

A verdade incômoda é que a natureza e a escala dos desafios econômicos, sociais, ambientais e de governança que enfrentamos não têm precedentes. A humanidade caminha para os 9 bilhões de pessoas em meados do século, com mais da metade de nossa população já concentrada em grandes áreas urbanas – e muitos bilhões destinadas a seguir o mesmo caminho. Acrescente a isso os riscos crescentes relacionados à mudança climática; pandemias; e segurança alimentar, energética e abastecimento de água.

Tragicamente, Elkington está correto. Muitas pessoas, incluindo muitos empreendedores sociais, ainda estão pouco dispostos a pensar radicalmente. Conseguiremos enfrentar esses novos desafios se tiver a mente aberta para inovações em todos os setores.

Salvando-nos dos monopólios:

Empreendedores sociais procurando resolver problemas do mundo – a pobreza global, por exemplo – devem estar dispostos a atacar a raiz desses problemas. Eles devem inovar nas regras e sistemas que conectam os indivíduos.

Grandes monopólios na educação, lei, comunidade e governança dominam o mundo atual. Essas são as áreas mais importantes para o bem-estar humano e, além disso, setores-chave para a mudança cultural. São esses monopólios que evitam a transição para culturas mais prósperas.

Para construir um mundo mais rico, com boa gestão de recursos naturais e desenvolvimento humano, devemos inovar na educação, leis, comunidade e governança.

Na maioria dos países, a educação é um sistema gigantesco e centralizado, que apresenta um modelo único, com currículo padronizado. Os professores são escolhidos por um sistema de licenciamento centralizado. A maioria das escolas apresenta a mesma divisão de matérias, organização de salas, métodos de ensino, lanchonetes, quadras esportivas e, até mesmo, arquitetura. Esse modelo detém tal poder de monopólio que mesmo outras iniciativas – como muitas escolas autônomas – copiam o modelo com somente pequenas variações.

Muitas comunidades são variações mínimas do mesmo modelo suburbano, subdividido. Lei e governança também são providas por instituições centrais com monopólios sob grande parte dos territórios. Sistemas legais é um tipo de solução universal. Esses monopólios disfrutam de um privilégio de arbitrar suas próprias disputas. Quando governos e outras grandes entidades são desafiados, são frequentemente vinculadas às regras que elas próprias criaram. Tragicamente, isso pode levar ao abuso e à desigualdade perante a lei. Isso também significa que aqueles com acesso às alavancas do poder podem manipular a lei em seu favor – e impô-la à sociedade como um todo.

Compare esses grandes monopólios nessas áreas com projetos emblemáticos do empreendedorismo do século XXI.

O YouTube desafia os monopólios da mídia ao tornar todas as pessoas em produtores potenciais e estrelas. Kickstarter inova em torno de grandes fundações e patrocinadores através da terceirização da criação da arte e da cultura. KhanAcademy e Skillshare democratizam a educação e constroem salas de aula em nossas comunidades com suas trocas de conhecimento. Wikipedia muda completamente a dinâmica das enciclopédias tradicionais, já que abre as portas para a colaboração e transparência na troca de conhecimento.

Todos esses projetos são sucessos retumbantes. Apareceram de repente e sem aviso. Desafiando monopólios em cada uma de suas áreas, abriram o caminho para mais inovações. Eles mostram às pessoas que algo melhor – além do oferecido pelos velhos monopólios – é possível.

Esse mesmo espírito deve ser levado às áreas que permanecem monopolizadas: lei, governança, comunidade e educação. Empreendedores sociais que desejam melhorar o mundo deveriam explorar mais essas áreas de nossas vidas.

Monopólios se beneficiam de dois pesos e duas medidas. Nós sabemos que a tecnologia é aberta à inovação disruptiva. Se não percebermos que nossos sistemas sociais estão abertos ao empreendedorismo, eles nunca avançarão.

Por exemplo, nos Estados Unidos, nosso sistema escolar monopolístico possui grande fatia do mercado educacional, como a Microsoft outrora tinha na tecnologia e a Exxon no petróleo. As duas empresas são frequentemente citadas como monopólios que impedem o progresso social, enquanto escolas centralizadas e compulsórias são raramente questionadas.

Isso não significa que não deveríamos ter acesso geral a escolas, programas que ajudam ou fornecem educação em uma sociedade. Mas é utilizar de dois pesos e duas medidas ao ignorar a centralização e o poder de monopólio em uma área, mas não em outra.

Deveríamos estar preocupados com todos os tipos de monopólios: dado que é sabido que tendem a restringir a inovação e oferecer serviços de baixa qualidade, a um custo alto. Serviços de monopólio em larga escala se opõem a instituições mais novas, humanas, as quais desafiam sua posição de poder.

Nosso mundo em evolução demanda inovação constante para manter nossas instituições atualizadas.

Um novo paradigma

Poucas pessoas estão felizes com os monopólios atuais: educação, lei, comunidade e governança são regularmente consideradas “em crise”. A reforma pode ser lenta e desmoralizante. Teorias sociais do século XXI como a Escolha Pública, a Ignorância Política, a Epistemologia Evolucionária, a Teoria da Complexidade e a Nova Economia Institucional detalham os problemas do paradigma monopolístico atual.

Essas teorias também nos ajudam a entender o fracasso de métodos tradicionais, incluindo a ‘política de sempre’, para resolver os problemas.

Esses problemas são endêmicos ao paradigma atual, o qual considera que nossos sistemas atuais estão além da inovação. Se nossas estruturas de lei e governança em si são parte do problema, podemos ter esperança de reforma-los se eles disfrutam de posições poderosas de monopólio?

Devemos estar dispostos a sermos radicais, porque a inovação nas regras e sistemas que nos conectam é a única solução para impulsionar a evolução social.

Empreendedores sociais radicais devem estender seu ceticismo aos monopólios para todo o paradigma de monopólios. Nenhum deveria ser deixado para trás. Em vez de monopólio, deveríamos considerar consentimento.

 // Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ da Silva. | Artigo original.


Sobre o autor



Voltar ao Topo ↑