Economia A evolução da música

Publicado em 1 de abril de 2014 | por Michael Clark

O economista que disse “talvez”.

A resposta à maioria das questões econômicas começa com “eu não sei”.

O uso de microcrédito nos países em desenvolvimento é uma estratégia benéfica? O Bitcoin é uma boa ideia? A impressão 3D mudará substancialmente nossa forma de viver? Imagine se essas perguntas fossem feitas a um grupo de economistas. Que tipo de resposta você esperaria? Muitos jargões técnicos e econômicos seriam usados por esses especialistas. Muitas das respostas conteriam mérito substancial, mas eu acho que a melhor resposta é um simples “eu não sei”.

Não é uma resposta completa e deveria ser seguida de uma explicação bem fundamentada. Contudo, “eu não sei” deveria ser um prelúdio de mais respostas a questões econômicas, mesmo as fundamentais sobre o futuro de nossa moeda ou o desenvolvimento das nações mais pobres.

Pode não parecer uma boa resposta para um economista de formação. No entanto, a humildade é a lição mais importante que a formação em economia nos concede. De Adam Smith a F.A. Hayek e muitos outros, uma abordagem correta à economia envolve compreender nossa limitada capacidade de resposta a essas questões.

A essência dessa humildade é o respeito pela ordem espontânea; as instituições baseadas no mercado respondem as perguntas supracitadas de uma maneira que nenhum indivíduo poderia. Isso gera produtos, como Adam Ferguson expõe, da “ação humana, mas não do planejamento humano”. Essa profunda apreciação pelo fenômeno da ordem espontânea leva o indivíduo a humildade; nunca saberemos exatamente qual serão as soluções do mercado.

A evolução da música

Considere a história da música como entretenimento. A tendência das grandes bandas foi substituída em 1948 pelos LPs, afastando as pessoas das danceterias e levando-as para casa. Depois do vinil, surgiu a fita de 8 faixas no final dos anos 60, a fita cassete no final dos anos 70, e então o CD começou a se popularizar no final dos 80. A evolução das grandes bandas (shows), o vinil, as fitas, e o CD é uma simplificação, porque o rádio surgiu como um mercado separado e plataformas múltiplas tinham tamanhos e modelos distintos. Contudo, a tendência era clara: a cada década, uma plataforma melhor era desenvolvida.

Não era estranho para as pessoas, no início dos anos 90, pensar que sua coleção de CDs era somente temporária; a maioria das pessoas pensava que algo melhor surgiria. Poucos sabiam exatamente o que seria. O senso comum dizia que músicas seriam ouvidas em um disco similar ao CD, contudo muito menor. Se você assistir ao filme Homens de Preto (1997), os dois personagens discutem sobre as tecnologias do futuro. Um reclama que terá de comprar novamente o White Album dos Beatles para substituir seu CD por um mini-CD.

Mas quase todo mundo estava errado. O mini-CD nunca suplantou o CD. Mas um novo mercado efetivamente surgiu como um formato de escolha logo na virada do milênio. Quando respondendo a questão, “qual será o próximo dispositivo que armazenará músicas”, a resposta real seria, “Bem, nenhum!”. O que substituiu o CD foi um arquivo digital que poderia ser transferido através da Internet. Imagina alguém tentando convencer você em 1992 que o sucessor do CD seria algo que você não poderia “tocar”. Você não teria que procurar por nada embaixo do banco do passageiro do seu carro, nada a ser protegido por capas ou estojos, e nada que pudesse ser riscado, esmagado ou quebrado. Você teria um arquivo chamado MP3. Você não teria necessariamente algo físico substituindo o CD. Convencer alguém dessa invenção antes de sua existência pareceria claramente absurdo.

E daí?

Em uma sociedade de mercado, as respostas às perguntas como “X é uma boa ideia?” acabam, com frequência, excedendo o que a maioria das pessoas originalmente considerou possível. O sistema de mercado frequentemente vai além do que éramos capazes de ver. Como o mercado é tão eficiente em assegurar o progresso? Pela mesma razão que acho que a resposta “eu não sei” é uma grande resposta para um economista.

O real benefício da liberdade é que a instituição ou o sistema de mercado (nenhum indivíduo ou expert isoladamente) suporta o peso de descobrir o que é uma boa ideia. O sistema de lucros e prejuízos, onde os consumidores expõem suas opiniões, rapidamente guia as ações dos empreendedores. O que melhor atende às necessidades dos consumidores? Preferimos usar o titânio para um novo modelo de raquete de tênis ou seria mais bem usado em um novo modelo de torradeira? Com tantos consumidores com tantas preferências por tantos produtos, não é uma tarefa fácil descobrir qual é o melhor uso de um recurso. Isto é, a não ser que você tenha acesso ao sistema de lucros e perdas.

Muitos empreendedores desempenham seu papel em nos ajudar a descobrir parcialmente o que funciona e, talvez mais importante, o que não funciona. As ações empresariais trazem o conhecimento local desarticulado, desigual e detalhado ao foco. Quando filtrado pelos mecanismos de lucros e perdas do mercado, o acumulo de conhecimento de muitos excederá a clarividência de muitos, se não todos, os especialistas. Os mercados reúnem o melhor de muitos e nos ajudam a descobrir juntos em vez de isoladamente. Quando determinando o que funciona, e o que não funciona, é a configuração do mercado que permite à ordem espontânea fazer o “trabalho pesado” que os planejadores individuais e os especialistas simplesmente não podem.

E o Bitcoin é uma boa ideia? O uso de microfinanças por parte dos países pobres é um caminho para a prosperidade? Nós temos alguma noção dos aspectos benéficos dessas ideias, e nós podemos tentar avançar algumas propostas para ajudar nesse processo. Contudo, é grande parte de nossa responsabilidade nos lembrar da humildade quando tratamos das questões econômicas. F.A Hayek explica claramente a questão da discussão econômica quando afirma: “A tarefa peculiar da economia é demonstrar aos homens o quão pouco eles realmente sabem sobre aquilo que imaginam poder planejar”.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Michael Clark

É PhD em economia pela George Mason University. Atualmente dá aulas de economia na Hillsdale College. Realiza pesquisas com foco em Adam Smith e economia política.



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