Filosofia discussão

Publicado em 15 de julho de 2014 | por Sandy Ikeda

Discussão versus Debate

Recentemente eu assisti a alguns debates entre libertários e socialistas. A preparação para eles certamente era mais empolgante que os debates em si. Durante e especialmente depois de cada um eu me sentia incrivelmente incomodado, uma sensação similar a que eu sentia quando debatia competitivamente alguns anos atrás. Eu lembrei do ditado que diz: “Você não está aprendendo enquanto está falando”, meditei um pouco sobre o que estava sentindo e cheguei a conclusão que simplesmente não gosto de debates.

Eu não gosto de debates formais ou informais. Eu não gosto de participar de, e assistir a debates. Eu não gosto nada de debates religiosos, ideológicos, políticos e mesas-redonda esportivas.

Agora, existe um tipo de “debate” no qual cada lado articula uma posição com o intuito de persuadir o outro lado – ou quem estiver ouvindo – dos méritos da mesma.  Por exemplo, argumentar para obter uma promoção, uma nota melhor, uma punição mais branda. Contudo, alguns dirão (argumentarão?) que um verdadeiro debate envolve não somente afirmar minha posição, mas também apontar as fraquezas da posição alheia, o que, por sua vez, abre o caminho para réplicas, seguidas de tréplicas, etc. Nesse texto, tratarei desse último tipo de debate, que envolve ataque e defesa.

Tais debates são frequentemente inevitáveis, e, às vezes, necessários. Em um tribunal, eles são indispensáveis (mesmo se o processo adversarial, longe de levar a um compromisso efetivo, coloca dois lados um contra o outro em uma disputa para ver quem ganha). Mesmo assim, eu não gosto.

Contudo, não é meramente uma questão de não gostar. Eu acho quase todos os debates desagradáveis e inúteis. Seguem os meus argumentos

O objetivo do debate

Em termos gerais, o objetivo de um verdadeiro debate é vencer: alcançar a vitória para o seu lado enquanto o outro sofrerá derrota. O debate é um jogo de soma zero: para você vencer, seu oponente tem que perder (mesmo objetivo da guerra). Como resultado, o debate é profundamente anti-intelectual.

Isso não quer dizer que, para ser um bom debatedor, não é necessário um alto nível de inteligência, conhecimento e habilidade (o mesmo é demandado de um bom comandante). Um bom comandante detectará os pontos fracos do seu inimigo, explorando-os ao máximo. Ao mesmo tempo, tentará ocultar e dissimular suas próprias fraquezas.

Da mesma forma, um bom debatedor, posto que o objetivo do debate é a vitória por quaisquer meios exceto a violência, vai mirar no i) argumento mais fraco do seu oponente, ii) no comentário mais ultrajante ou iii) no lapso verbal, tornando-o centro de um ataque implacável na esperança de torna-lo submisso e ridículo aos olhos dos telespectadores. O seu oponente manipulará um argumento simples tornando-o absurdo. Ad hominem, o bode expiatório e as ofensas podem ser falácias lógicas, mas são parte do arsenal do debatedor, assim como a distração e a atribuição de declarações falsas ao seu oponente. O objetivo não é a busca da verdade; o objetivo é vencer. Ao mesmo tempo, o debatedor aceitará falhas no seu próprio argumento, fazendo com que sua posição fique ainda mais forte do que realmente é.

Quem não fizer essas coisas, não é um bom debatedor. É possível, todavia, que o oponente não esteja debatendo, mas fazendo outra coisa. Essa coisa se pode chamar de “discussão”.

O objetivo da discussão

O objetivo de uma discussão ideal, como definido aqui, é aprender (e ensinar, o que também é uma forma de aprendizado). Ao contrário do debate, não é um jogo de soma zero; é um win-win. A discussão é como uma troca de mercado, à medida que cada lado está ali com o propósito do ganho mútuo. Eu estou sempre disposto a discutir.

A discussão – não o debate – é o caminho para o crescimento intelectual. Isso porque quando estamos sozinhos ou falamos somente com quem concordamos, é difícil identificar onde estão certos ou errados. Na verdade, é muito fácil nos iludirmos, pensando que sempre estamos certos. Então, a discussão não significa falar dentro de uma câmara de eco. Em vez disso, é essencial tentar nos analisarmos da forma mais objetiva possível. Falar abertamente com quem discordamos é uma boa maneira de fazê-lo. Obviamente, essa não é uma tarefa fácil.

O debate é mais fácil porque você nunca critica o seu próprio argumento. Em uma boa discussão, você tem de fazê-lo, pelo menos de forma implícita. Além disso, em uma discussão ideal, você ataca os argumentos mais fortes do seu oponente; novamente, o contrário do que acontece em um debate. Você entra na discussão buscando entender e questionar, ao invés de criticar e insultar o seu oponente.

Como o nosso comportamento padrão tende a ser defensivo, uma boa discussão significa investir energia em uma atitude neutra, de que “nós dois podemos estar errados”. Você não ignora, exatamente, as fraquezas do seu oponente. Você as aponta como parte do processo de aprendizado, mas também tem que aceitar que os argumentos dele podem não ser tão fracos, nem os seus tão fortes, como você pensava.

Uma boa discussão revela as franquezas do seu argumento, tanto a você como ao seu oponente. Para corrigir um erro: você terá que se dar conta dele; você terá que admitir que está errado. No entanto, tornar-se vulnerável por tal confissão requer confiança de que o seu oponente não se aproveitará da situação para lhe detonar. Quando a discussão se torna um debate, esse tipo de confiança desaparece.

Uma questão de grau

Falei sobre o debate e a discussão nas suas formas puras. Eles podem se ofuscar, e no mundo real, o discurso sempre acaba como um ponto intermediário entre eles. Além disso, se um debate ocorre dentro do contexto de uma discussão mais ampla, no qual os debatedores posteriormente discutem abertamente as forças e as fraquezas de suas posições como expostas no debate, então esse debate pode servir a um proposito heurístico. Normalmente, faço isso nas minhas aulas.

Alguém uma vez disse, “você não está aprendendo quando está falando”. Eu não acho que isso seja verdade no caso de uma discussão. Contudo, é verdade no que tange a um debate. Estou feliz por discutir com você, mas isso não está aberto para debate.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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