Filosofia cooperação

Publicado em 9 de maio de 2014 | por Michael Munger

A defesa da cooperação voluntária privada

Quando eu conto para os calouros da Universidade Duke minha versão da defesa da liberdade, eles geralmente zombam: “Se isso estiver certo, como é que eu nunca ouvi antes?”. Eu tento ser conciliatório. Ofereço aos jovens um tempo para mandar um SMS para os pais. Eles precisam processar seus colégios privados por deixar de ensiná-los até mesmo o básico de como as sociedades funcionam, e por que tantas sociedades deixam de funcionar.

Tudo bem, não tento ser tão conciliatório assim. E minha resposta tem opiniões mistas, no máximo.

Mas é a verdade. Como é que alguns dos jovens mais educados do mundo nunca ouviram falar da versão concisa da defesa da cooperação voluntária privada? Eu quero apresentar aqui a versão que eu acho mais útil. E por “útil” eu quero dizer profundamente inquietante a pessoas que a ouvem pela primeira vez.

O “Mercado” Não É o Principal

Para começar, o argumento em defesa da liberdade não é um argumento em defesa do “mercado”. A dicotomia mercado vs. estado foi planejada por sociólogos alemães no século XIX. Não caia nessa dicotomia; é um espantalho retórico, e de qualquer forma não é nosso melhor argumento.

A questão é como melhor alcançamos os inúmeros benefícios da cooperação voluntária privada, ou CVP. O mercado é uma parte disso, uma forma útil de alcançar prosperidade, mas vários outros arranjos sociais emergentes – mais propriamente vistos sob a rubrica “sociedade” – também são cruciais para a prosperidade.

O primeiro argumento que geralmente eu ouço, especialmente de pessoas ouvindo sobre a CVP pela primeira vez, é esse: “Se o mercado é tão bom, por que a maioria do mundo é pobre?”. O problema é que não é a pobreza que precisa ser explicada. A pobreza é o que acontece quando grupos de pessoas deixam de cooperar, ou até impedidas de encontrar formas de cooperar. A cooperação está nos nossos genes; a capacidade de ser social é uma grande parte do que nos torna humanos. Precisa-se de ações de atores poderosos como estados, ou acidentes cruéis como animosidades éticas ou históricas profundas, para evitar que as pessoas cooperem. Em todo lugar que você vê, se as pessoas são prósperas é porque elas estão cooperando, trabalhando juntas. Se as pessoas são desesperadamente pobres, é porque lhes foram negadas algumas formas de cooperação, as instituições para reduzir os custos de transação para o CVP descentralizado.

Então esqueça sobre tentar explicar a pobreza. Precisamos nos esforçar para entender a prosperidade.

Há duas razões para que a CVP seja a base da prosperidade e florescimento humano.

1. Troca e cooperação: se cada um de nós tem uma maçã e uma banana, e eu gosto de torta de maçã e você gosta de torta de banana, cada um de nós pode melhorar nossa situação cooperando. Eu lhe dou uma banana, você me dá uma maçã, e o mundo é um lugar melhor. E o mundo é melhor mesmo se não houver nenhuma mudança no tamanho total de nossas tortas. A quantidade total de maçãs e bananas é a mesma, mas cada um de nós está melhor.

Mas não há razão para se ter fetiche pela troca (é novamente a dicotomia “mercado vs. estado/social”; não dê o braço a torcer aqui). O insight central do vencedor do Prêmio Nobel James Buchanan foi que os arranjos cooperativos entre grupos de pessoas são apenas “política na forma de troca”. Formas não-mercantis de troca, em que cooperamos para alcançar fins que todos nós concordamos que sejam mutuamente benéficos, podem ser até mais importantes que as trocas de mercado. Unindo-se para a proteção coletiva e aproveitando ao máximo as instituições emergentes tais como a linguagem, a propriedade privada e moeda são todas formas poderosas de CVP.

Se cooperamos, podemos usar os recursos existentes de forma bem melhor redirecionando esses recursos em direção aos usos que as pessoas valorizam mais. Então mesmo que estejamos pensando da cooperação em um sentido estático, com uma torta de tamanho fixo, todos estamos melhores se cooperarmos. A cooperação é apenas uma forma de compartilhamento, desde que todo arranjo cooperativo seja voluntário. A única forma que eu e você concordamos com um novo arranjo é se cada um de nós estiver melhor.

2. Vantagem comparativa/divisão de trabalho: Ainda assim, não precisamos estar satisfeitos com o melhor uso de uma torta estática. Trabalhando juntos e nos tornando mais dependentes uns dos outros, também podemos tornar a torta maior. Não há razão para esperar que cada um de nós seja bem adaptado para produzir as coisas que gostamos. E mesmo se estivermos, podemos produzir mais ainda trabalhando juntos.

Lembre-se, eu gosto de maçãs e você de bananas. Mas eu vivo em uma terra tropical com um clima úmido, que torna a produção de maçãs difícil. Você vive em um lugar muito mais frio, onde fazer crescer suas bananas seria exageradamente caro. Podemos nos especializar em tudo o que formos relativamente melhores. Eu planto bananas, você planta maçãs, e trocamos. A especialização nos permite aumentar a variedade e a complexidade de resultados mutuamente benéficos.

Curiosamente, isso seria verdade mesmo se um dos dois fosse de fato melhor em produzir tanto maçãs e bananas; o conceito de David Ricado de “vantagem comparativa” mostra que ambos estão melhores caso se especializem, mesmo se a pessoa menos produtiva não possa eventualmente competir. A razão é que os custos de oportunidade da ação são diferentes; isso é tudo que é necessário para que haja benefícios potenciais para a cooperação.

Mas não há razão para se ter fetiche sobre a vantagem comparativa. Na verdade, os verdadeiros casos de vantagem comparativa determinística são raros. O verdadeiro poder da especialização vem da divisão de trabalho, ou das enormes economias de escala que se originam da sinergia. A sinergia pode resultar de melhorias na destreza, no design de ferramentas e nos investimentos de capital em um processo de produção composto por várias pequenas etapas em uma linha de produção, ou de inovações, usando a imaginação empresarial de ver além. A sinergia não é criada pelo tipo de acidentes determinísticos de clima, qualidade do solo, ou características físicas do solo de que os economistas são tão obcecados. A produção de madeira e portos dependem da localização; a engenhosidade humana pode criar sinergia em qualquer lugar em que a divisão de trabalho possa ser promovida. Todos os ganhos dinâmicos importantes da troca são criados pela ação humana, ou CPV.

O Porteiro e o Filósofo

Os empreendedores são mais propensos a serem visionários que geógrafos ou engenheiros. A Argentina tem uma vantagem comparativa, provavelmente uma vantagem absoluta, em produzir carne, por causa de seu clima, suas condições de solo e sua terra fértil nos pampas. Mas a Argentina é pobre. A Cingapura tem quase nada, e não produz muito. Mas a Cingapura construiu instituições físicas (portos, armazéns, moradia) e econômicas (império da lei, propriedade privada e um sistema financeiro sofisticado) para promover a cooperação. E a Cingapura é rica porque essas instituições ajudam a gerar sinergias poderosas.

Alguém poderia argumentar, é claro, que a Cingapura tem uma vantagem comparativa no comércio por causa de sua localização no extremo sul da Península Malaia, conectando o Estreito de Malaca com todo o sudeste asiático. Mas as outras nações não abençoadas com tal localização têm usado o mesmo modelo. Portugal no século XV, Espanha e Holanda no século XVI, e a Inglaterra no século XVIII construíram sociedades grandes e prósperas ao canalizar as energias dos cidadãos em direção à cooperação. Nenhum desses países se envolveu muito bem com outros, talvez, mas internamente eles construíram sinergias, de modo que para cada um deles sua prosperidade e importância no mundo foi multiplicada por muito mais que esperaríamos apenas analisando sua população, seu clima e sua qualidade de solo.

Os humanos criam sinergias ao fomentar a CVP. O exemplo de Adam Smith do filósofo e do porteiro é às vezes citado, mas não bem entendido. Os benefícios da especialização não precisam ser inatos: O porteiro podia muito bem ter sido um filósofo se ele tivesse tido acesso às ferramentas que promovem a CVP. A educação e a mobilidade social significam que onde alguém nasce tem pouco a ver com onde ele termina.

A plasticidade das capacidades humanas é no mínimo igualada pela maleabilidade das instituições sociais e econômicas. As sociedades humanas precisam ser limitadas apenas pelo que é possível nós  pensarmos juntos. O desenvolvimento da especialização e o consequente aumento na capacidade de produção é um processo socialmente construído, como o “filósofo” de Smith – o resultado de milhares de horas de estudo, prática e aprendizado. O porteiro de Smith não fracassou a tornar-se um filósofo por causa da vantagem comparativa. O porteiro apenas falhou (ou foi negada a chance, por preconceito social) em se especializar.

Para ser Útil, a Cooperação Precisa ser Destrutiva

A falha na divisão de trabalho também é sua virtude. A divisão de trabalho e a especialização criam um cenário onde apenas umas poucas pessoas na sociedade são remotamente autossuficientes. Além disso, o tamanho do “mercado” – mais precisamente, o horizonte de produção cooperativa organizada – limita os ganhos da divisão de trabalho e da especialização. Se eu contrato dúzias de pessoas e automatizo minha produção de torta de maçã, eu posso produzir mais que você, sua família, sua vila, ou talvez até mesmo mais que toda a sua nação pode consumir. Eu tenho que olhar por novos consumidores, expandindo tanto o locus da dependência e o alcance do bem-estar melhorado por maiores oportunidades para negociar.

O mesmo é verdade para os benefícios da especialização. Em uma vila de cinco pessoas, o médico especialista pode saber primeiros socorros e ter um kit composto de band-aids e ataduras para distensões. Uma cidade de cinco milhões terá cirurgiões que inventaram novas técnicas para realizar procedimentos complexos em retinas, cérebro e melhorias exóticas na aparência através da cirurgia plástica. Uma vila de 250 pessoas pode ter um cara que saiba tocar violino; uma cidade de 250.000 tem uma orquestra. A divisão de trabalho, e a especialização, é limitada pelo grau de CVP.

O poder dessa declaração, tirada diretamente de Adam Smith, é a base para a defesa da CVP. As pessoas são ativos, não passivos. Populações maiores, grupos maiores disponíveis para trabalharem juntos, e áreas mais extensas de cooperação pacífica permitem uma maior especialização. Quatro pessoas em uma linha de produção podem fazer 10 vezes mais que duas pessoas; 10 pessoas podem fazer mil vezes mais. Grupos maiores e uma maior cooperação podem criar oportunidades quase infinitas para a especialização: não apenas fazendo refrigeradores, mas fazendo música, arte e outras coisas que podem ser difíceis de definir ou predizer.

A CVP permite que um grande número de pessoas que não se conhecem comecem a confiar entre si, a dependerem de si. Emile Durkheim, o famoso cientista social alemã, reconheceu isso explicitamente, e corretamente salientou que a parte mercantil da divisão do trabalho é o aspecto menos importante do por que dependemos dele. Ele disse, em sua obra prima “Divisão de Trabalho na Sociedade” (Divison of Labour in Society, tradução livre):

os serviços econômicos que [a divisão de trabalho] pode desenvolver são insignificantes comparados com o efeito moral que ela produz, e sua verdadeira função é criar entre duas ou mais pessoas um sentimento de solidariedade.

Esse “sentimento de solidariedade” é a sociedade – a sociedade humana, voluntária, sem coerção. Não precisamos de nações, e não precisamos de bandeiras e exércitos para nos tornar prósperos. Tudo que precisamos é de cooperação voluntária privada, e o sentimento de solidariedade e a interdependência próspera que vem da criatividade humana liberada.

// Tradução de Robson Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Michael Munger

Michael Munger é um economista, cientista político, ex-candidato americano a governador da carolina do norte e ex-presidente do departamento de ciência política na Duke University , onde ele continua a ensinar a ciência política, a política pública e economia. Um escritor prolífico, ja publicou papers na "American Political Science Review", "American Political Science Review", "American Journal of Political Science", e no "Journal of Politics", além de ser autor do livro "Analyzing Policy: Choices, Conflicts, and Practices" que é agora um padrão de trabalho no campo da análise política.



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