Ciência Política Ideias

Publicado em 25 de janeiro de 2014 | por Alberto Medina Méndez

A Cruzada Cultural

A linearidade conceitual, própria destes tempos, tem levado alguns a cometer o erro infantil de colocar, sempre, “o carro na frente dos bois”. Esse olhar ansioso, pouco prático e ingênuo afirma que se pode mudar o rumo dos acontecimentos sem que a sociedade previamente deva modificar sua postura ideológica frente a esses mesmos acontecimentos.

É preciso compreender que o que ocorre diariamente tem a ver com o modo escolhido pela comunidade toda para raciocinar sobre a realidade, de interpretar o passado, o presente e o futuro. Parece pouco sensato acreditar que um fato isolado, a aparição de um líder renovador, um golpe de sorte ou até mesmo um retrocesso dos adversários circunstâncias, darão início a uma mudança profunda, séria e sustentável no tempo.

Os processos de transformação requerem etapas, mas fundamentalmente de uma metamorfose que nasce do seio da sociedade, que com os erros, aprende e entende a necessidade de buscar novos caminhos, de seguir alternativas diferentes. Como se fosse a vida, supor que se pode fazer algo diferente por casualidade, é não compreender a essência da humanidade. Só se modifica uma ação quando se tem a capacidade de aprender com os próprios erros, de rever o que fez até ali e de entender totalmente que para avançar é preciso rever constantemente as ideias vigentes, para colocá-las a prova, e desse modo modificá-las ou propor substituí-las por outras melhores, que as superem.

Não é novidade que os seres humanos são  naturalmente resistentes a mudança. Sempre é custoso, leva tempo, por isso é importante que se trate de um processo e não de uma mera alteração casual e aleatória. É preciso escutar novas ideias, analisá-las, mas principalmente que as mesmas amadureçam o suficiente para serem internalizadas, e só então ser capaz de empreender a viagem para a sua implementação em sequência. Às vezes, inclusive, se requer muitas idas e voltas, de contínuos zigues-zagues, de permanentes dúvidas, para finalmente se dar um passo. Isso é uma característica central dos seres humanos, e não assumi-la devidamente só deforma a realidade e os afastam das soluções.

Por isso que é vital neste momento, dada a batalha cultural, envolver-se a fundo no mundo das ideias, que são definitivamente as que governam. De pouco serve mudar, de tempos em tempos, os políticos e partidos, se as ideias que eles defendem são idênticas ou semelhantes. Aqueles que pensam parecidos só estão dispostos a oferecer nuances, se distanciam só em questões de estilo, de forma, que são mais ou menos amigáveis ou hostis, dependendo do caso, mas no fundo defendem ideias bastante similares.

Para que se mudem os governantes, para que apareçam outros, novos de verdade, a sociedade deve primeiro renovar suas ideias, e não exigir que os políticos de turno sejam diferentes por arte de magia. Uma sociedade que defende as ideias atuais, e que espera resultados diferentes, não compreendeu ainda a relação que existe entre suas crenças e suas consequências inevitáveis. Muitos ainda acreditam que este é um problema de implementação, sem perceber que estas são ideias que se repetem e defendem rigorosamente seus parâmetros equivocados e sua forma de raciocínio, o que provoca boa parte do que ocorre atualmente.

Quando as pessoas se enraivecem com a classe política, por causa de temas como a eterna corrupção e a arbitrariedade com a qual o poder é exercido, ou por conta do autoritarismo, o clientelismo e assistencialismo cada vez mais presentes, ou a centralização das decisões, não estão cientes que foram elas mesmas, com sua apatia e desprezo pela política, com sua nula, mesquinha ou escassa participação, e sua delegação compulsiva de responsabilidades, que construíram este império da corrupção e poder desproporcional, muito mais dos que os protagonistas circunstanciais. Quando se decide entregar todo o poder a um iluminado e só exigir soluções de vez em quando, para logo passar para a fase de apenas mudar para outro iluminado parecido, as consequências são evidentes e visíveis.

A disputa é evidentemente no terreno das ideias. Se estas não forem mudadas, não se pode esperar grandes revoluções. Os corruptos, os medíocres e ingênuos continuarão governando, na medida em que a sociedade não assuma suas próprias responsabilidades e evite cair no fácil caminho de esperar a chegada de um “Messias” que salvará a todos.

Enquanto isso, deve-se prestar atenção na batalha política somente para se medir a capacidade da sociedade para modificar as condições de base, mas nunca se deve esquecer que a mudança em letras maiúsculas só chegará quando as pessoas estiverem dispostas a virar a página, assumir seus próprios erros, e entender que o rumo do passado foi escolhido, e que não se trata de melhores ou piores governantes, mas sim de boas e más ideias.

É preciso que muitos participem, a partir de qualquer espaço, não só na política tradicional e nos partidos e sim que ocupem posições onde quer que estejam, para ser parte da mudança, porém, para tanto se deve entender que é preciso dedicar muito tempo e esforço para a maior das batalhas, essa que propõe novas ideias, que substitua as atuais, com convicção, e assim dar o passo que é tão difícil.

Por isso nunca subestime essa tarefa, porque sem dá bons argumentos ao debate e contribui na construção de novos paradigmas, não se avançará o suficiente. Hoje, assim como sempre foi, é preciso partir para a cruzada cultural.

//Tradução e revisão por Adriel Santana | Artigo original: http://is.gd/slEKj2


Sobre o autor

Alberto Medina Méndez

Alberto Medina Méndez é colunista da Radio Dos e presidente da Fundación Club de la Libertad.



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