Politica Externa pump jack oil field

Publicado em 9 de janeiro de 2015 | por Dean Córnito

O Colapso do Petróleo e a Geopolítica

O preço do barril de petróleo Brent, utilizado como referência mundial, caiu de $115,19 em 19 de junho de 2014 até $64,24 no fechamento do mercado no dia de hoje*, o que significa uma queda de 44% em menos de seis meses. Se você quer entender o porquê de uma queda tão acentuada depois que o petróleo se manteve acima dos $100 desde fevereiro de 2011 (quase 4 anos), continue lendo. E se você quer encontrar o responsável por isto, vá buscá-lo no número 1600 da Avenida Pennsylvania, em Washington, D.C.

Petróleo en caída

A explicação técnica para uma queda tão drástica do preço do petróleo é que os EUA tem aumentado sua produção de maneira significativa nos últimos anos, diminuindo suas importações e criando um excedente no mercado mundial. De fato, os Estados Unidos saíram de uma média de 5.7 milhões de barris por dia (bpd) em 2011 para uma produção média de 8.5 milhões de bpd nos primeiros nove meses de 2014, um crescimento de 49%.

Os Estados Unidos tem grandes reservas de petróleo que tradicionalmente tem explorado de maneira muito conservadora, em boa medida por considerações de segurança nacional, as guardando para aliviar uma eventual crise que ameace deixá-los sem acesso ao petróleo produzido em outros países. Outro fator a considerar é que boa parte das reservas que  os EUA têm se encontram a uma profundidade considerável, tornando sua extração muito onerosa. Se estima que o custo de extração do petróleo “superficial” como o que se encontra em muitos países do Oriente Médio ronda os $6 por barril, enquanto que o custo de extração do petróleo encontrado a grande profundidade nos EUA gira na ordem do $42 por barril. O fato de que o petróleo tenha se mantido acima dos $100 por um período tão extenso certamente estimulou a exploração e extração dos hidrocarbonetos americanos.

Encerremos aqui nos detalhes técnicos. Se bem eles nos ajudam a entender o como, ou seja, a mecânica do mercado – uma maior produção e demanda estável leva a menores preços – há algo no “timing” desta dramática queda de preços que nos indica que há outros fatores muito mais importantes por trás dos eventos que observamos. Busquemos agora entender o porquê. A pergunta seria por que os EUA tem aumentado tão significativamente sua produção de petróleo, praticamente abandonando sua tradicional política de cautela?

Os EUA estão enfrentando uma série de dificuldades no mundo, e curiosamente os países mais afetados pela queda do petróleo são os que mais vem incomodando os americanos. A Rússia nos últimos tempos se tornou corajosa e, sob o comando de Vladimir Putin, tem assumido posturas nacionalistas que a colocavam em rota de choque com os interesses europeus e americanos. A invasão e posterior anexação da Crimeia, a rebelião dos separatistas pró-Rússia na Ucrânia, e algumas rugas com o fornecimento de gás natural para Europa são pedras no sapato dos interesses ocidentais, e tem contribuído para a imagem de presidente covarde que os cidadãos americanos tem de Barack Obama.

A República Islâmica do Irã está em diálogos desde quase um par de anos com os EUA e outras potências mundiais, para definir o futuro do seu programa nuclear. O objetivo explícito das potências ocidentais é evitar que o Irã chegue a desenvolver tecnologia nuclear para fins militares, e impedir que obtenha um arsenal nuclear. Várias vezes tem anunciado que estão perto de chegar a um acordo, para terminar prorrogando as conversações sem alcançar os objetivos. Boa parte do público americano acha que os iranianos estão ganhando tempo para avançar na produção de armas nucleares mediante negociações que se tornam intermináveis.

Por último temo o Estado Islâmico (ISIS), a organização terrorista que se tornou famosa pela decapitação de vários de seus reféns ocidentais, que já controla vastos territórios no Iraque e Síria, e tem feito um esforço especial para capturar zonas produtoras de petróleo no primeiro desses países. Em agosto se estimava que o ISIS tinha capacidade para produzir entre 30 mil a 70 mil barris de petróleo, os quais vende no mercado negro entre $25 e $35 por barril, sendo esta uma de suas principais fontes de financiamento.

Estes três atores estão entre os principais prejudicados com a queda do preço internacional do petróleo. Rússia e Irã, já bastante afetados pelas sanções econômicas impostas pelo Ocidente, se encontram a beira do abismo após o colapso do preço do chamado “ouro negro”. Se estima que o efeito do preço do petróleo será maior nestes países que os das próprias sanções. O Estado Islâmico, por sua vez, tem perdido fôlego nas últimas semanas, e muitos analistas e experts duvidam que isto seja produto dos bombardeios americanos, que não são reforçados por tropas terrestres que possam terminar de eliminar as células que lutam na Síria e Iraque. É factível que a queda do preço do petróleo tenha dificultado a oferta no mercado negro do bruto produzido nos territórios sob domínio do ISIS.

Um dado curioso, e bastante revelador, foi a decisão tomada faz apenas quinze dias pela Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) de NÃO reduzir a produção, que é o que tradicionalmente tem feito como medida para deter a queda do preço do petróleo. Em teoria, a Arábia Saudita – o maior produtor de petróleo do mundo, e o que tem comprovadamente as maiores reservas – deveria ser o maior afetado pelos preços baixos.

Contudo, tem o luxo de está cercado por 750 bilhões em reservas internacionais, o qual lhe permite resistir ao temporal sem maior prejuízo, diferentemente de outros países como Rússia, Irã, Nigéria ou Venezuela, cujos orçamentos estatais e dinâmica econômica dependem quase inteiramente do preço do petróleo. Lembremos que Irã é um sério rival da Arábia Saudita, e sacrificar um pouco suas reservas monetárias para debilitar o inimigo parece ser um preço cômodo a ser pago. Quanto a isto, os interesses geopolíticos de americanos e sauditas são plenamente coincidentes.

Há também um poderoso fator interno que contribui para explicar o fenômeno do preço do petróleo na conjuntura atual. Os EUA tem a economia mais “veículo dependente” do mundo. As mudanças nos preços dos combustíveis tem um impacto muito forte na dinâmica econômica desse país, maior e mais imediato que na maioria dos outros países. Depois de muitos anos de relativo esfriamento, a economia americana está crescendo hoje a um ritmo saudável e robusto, e com boa projeção para o futuro próximo. O curioso de tudo isto é que chegou justo a tempo para as eleições de meio período que tiveram lugar faz pouco mais de um mês.

Apesar de que nem as boas cifras econômicas nem o relativo debilitamento de alguns dos principais inimigos dos EUA se traduziram em apoio para o Partido Democrata, é fácil imaginar que a decisão de aumentar a produção petrolífera foi vista com uma situação de “ganhar-ganhar” pelo presidente Obama. A aposta foi clara por parte do governo federal por uma maior produção petrolífera, com a esperança de que a opinião pública se voltará a favor dos Democratas como resultado da diminuição dos preços de seus derivados, da reativação econômica, e do debilitamento dos principais focos de tensão para a política externa americana nos últimos anos. Isso ainda poderia ter efeitos positivos para os últimos dois anos de Obama no poder, para seu legado histórico, e para o Partido Democrata frente as eleições presidenciais de 2016.

*Este artigo foi publicado em 11 de dezembro de 2014. Até ontem (08/01), o preço do petróleo Brent atingiu a cotação de US$ 48,79 por barril na New York Mercantile Exchange (Nymex) e US$ 50,96 por barril na Intercontinental Exchange (ICE). Fonte: http://bit.ly/1AMAph3

// Tradução por Adriel Santana. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo original


Sobre o autor

Dean Córnito

Dean Córnito é o pseudônimo de um cidadão costa-riquenho a quem não interessa a fama nem a notoriedade. Define-se como liberal, progressista, livre pensador e democrata. Mantêm o blog "La Suiza Centroamericana" onde aborda questões econômicas, políticas e relações internacionais.



Voltar ao Topo ↑